3.8 Análise das decisões sobre a função social da propriedade urbana
3.8.1 Entendimentos do Tribunal de Justiça de Sergipe
Na primeira decisão selecionada e publicada em 2005, o tribunal condenou a administração que determinou que fosse demolida barraca construída irregularmente, sem comunicar aos proprietários para que pudessem retirar os seus bens móveis, uma vez que foi configurado excesso de poder da administração pública:
Apelação Cível. Ação de Indenização por Danos Materiais. Demolição de barraca comercial (BAR) construída irregularmente. Exercício do poder de polícia. Destruição de equipamentos e utensílios. Limites. Excesso de poder da Administração Pública. Reparação que se impõe, apenas quanto a tais bens que guarneciam. I - O poder de polícia tem como atributos a discricionariedade, a coercibilidade e a autoexecutoriedade, que é a possibilidade de a Administração executar diretamente seus atos imperativos, independentemente de qualquer provimento jurisdicional e de forma coercitiva, caso necessário. II - A edificação procedida de forma ilegal e clandestina não pode beneficiar o infrator, possibilitando ser ele indenizado, eis que a obra assim realizada não se constitui em benfeitoria, e sim mera acessão, descabendo, por conseguinte, indenização pela construção irregularmente erguida, seja qual for o valor dispendido pelo detentor. II - Excede, no entanto, os limites de sua atuação discricionária a Administração quando promove demolição abrupta de barraco irregularmente edificado sem prévia comunicação ao proprietário, destruindo bens móveis que os guarneciam, sem oportunizar ao possuidor o direito de retirá-los, causando-lhes, destarte, danos passíveis de ressarcimento. Recurso parcialmente provido. Decisão por maioria. (APELAÇÃO CÍVEL Nº 0366/2003, 19ª VARA CÍVEL, Tribunal de Justiça do Estado de Sergipe, DESA. CLARA LEITE DE REZENDE , RELATOR, Julgado em 23/08/2005)
Já em 2009, o mesmo tribunal entendeu que a venda de um loteamento sem registro, escritura, rede de iluminação e esgoto configura uma violação à função social da propriedade urbana:
AGRAVO DE INSTRUMENTO - AÇÃO CIVIL PÚBLICA - VENDA DE TERRENO LOTEADO SEM O DEVIDO REGISTRO, ESCRITURAÇÃO, REDE DE ILUMINAÇÃO PÚBLICA, REDE DE ESGOTO - CORRESPONSABILIDADE DOS REQUERIDOS, VENDEDORES DOS LOTES E O MUNICÍPIO DE SÃO CRISTÓVÃO - REGULARIZAÇÃO EM FACE DA BOA-FÉ DOS COMPRADORES - INOBSERVÂNCIA DOS PRECEITOS PREVISTOS NA LEI Nº 6.766/79 - DESATENDIMENTO AO COMANDO CONSTITUCIONAL NO QUE PERTINE À FUNÇÃO SOCIAL DA PROPRIEDADE - RECURSO IMPROVIDO. (AGRAVO DE INSTRUMENTO Nº 0236/2009, VARA CÍVEL DE SÃO CRISTÓVÃO, Tribunal de Justiça do Estado de Sergipe, DES. JOSÉ ALVES NETO, RELATOR, Julgado em 01/09/2009)
Em outra decisão, foi entendido que é correta a ordem que determinada que o Município tome as providências necessárias para restabelecer a segurança quando comprovado o risco de desmoronamento, com base da defesa da ordem urbanística, sendo o Ministério Público parte legítima para propor ação civil pública:
AGRAVO DE INSTRUMENTO. AÇÃO CIVIL PÚBLICA EM DEFESA DA ORDEM URBANÍSTICA – ÁREA RESIDENCIAL COM RISCO DE DESMORONAMENTO. LEGITIMIDADE ATIVA DO MINISTÉRIO PÚBLICO NA DEFESA DE INTERESSES INDISPONÍVEIS. LEGITIMIDADE PASSIVA DA EMURB- ATRIBUIÇÃO DO ENTE EM FISCALIZAR AS ATIVIDADES URBANÍSTICAS E DE USO DO SOLO URBANO E LICENCIAMENTO DE OBRAS, EMBARGANDO, INTERDITANDO OU DEMOLINDO, QUANDO FOR O CASO, EMPREENDIMENTOS IRREGULARES. COMPROVADO POR VISTORIA E LAUDO TÉCNICO O PERIGO IMINENTE DE DESLIZAMENTO
DE TERRAS, COLOCANDO EM RISCO DE DESABAMENTO RESIDÊNCIAS, CORRETA A DECISÃO JUDICIAL QUE DEFERE A TUTELA ANTECIPADA, COMPELINDO O MUNICÍPIO E A EMURB A ADOTAR AS PROVIDÊNCIAS NECESSÁRIAS À RESTAURAÇÃO DA SEGURANÇA. POSSIBILIDADE DE FIXAÇÃO DE MULTA DIÁRIA EM CASO DE DESCUMPRIMENTO, CONSOANTE JULGADO DO STJ, ASSIM COMO DE ANTECIPAÇÃO DE TUTELA CONTRA A FAZENDA PÚBLICA. RECURSO IMPROVIDO. (AGRAVO DE INSTRUMENTO Nº 1164/2008, 19ª VARA CÍVEL, Tribunal de Justiça do Estado de Sergipe, DES. CEZÁRIO SIQUEIRA NETO, RELATOR, Julgado em 26/01/2010)
Tempos depois, foi decidido que estando a obra irregularmente construída pode a administração determinar a sua demolição, com base do poder de polícia e seus atributos da discricionariedade, configurando um exercício regular de um direito:
APELAÇÃO CÍVEL – AÇÃO DE INDENIZAÇÃO POR DANOS MATERIAIS E MORAIS – DEMOLIÇÃO DE OBRA CONSTRUÍDA IRREGUALARMENTE – EXERCÍCIO DO PODER DE POLÍCIA – ESTRITO CUMPRIMENTO DO DEVER LEGAL – DEVER DE INDENIZAR NÃO CONFIGURADO – MANUTENÇÃO DO DECISUM – APELO IMPROVIDO – DECISÃO UNÂNIME.
- Estando a obra em desacordo com a legislação municipal, uma vez que ausente a autorização do Município para efetivá-la, correta a determinação de demolição da construção.
- O poder de polícia tem como atributos a discricionariedade, a coercibilidade e a autoexecutoriedade, que é a possibilidade da Administração executar diretamente seus atos imperativos, independentemente de qualquer provimento jurisdicional e de forma coercitiva, caso necessário. (APELAÇÃO CÍVEL Nº 7082/2009, 12ª VARA CÍVEL, Tribunal de Justiça do Estado de Sergipe, DESA. SUZANA MARIA CARVALHO OLIVEIRA , RELATOR, Julgado em 30/08/2010)
Em outro entendimento, mais recente, compreendeu a Corte que o Ministério Público tem legitimidade para propor uma ação civil pública quando no imóvel abandonado, se verifica o acúmulo de lixo, entulho, causando infiltrações no imóvel vizinho e a proliferação de vetores transmissores de doenças, além de servir de refúgio para desabrigados, criminosos e pontos de drogas:
Apelação Cível - Ação Civil Pública - Imóvel abandonado - Mau uso da propriedade - Extinção sem julgamento do mérito pelo Juízo singular por ausência de legitimidade da parte - Reforma da decisão - Legitimidade ativa do Ministério Público para interpor ação em defesa da saúde pública e do meio ambiente - Provimento do apelo - Aplicação da Teoria da Causa Madura - Art. 515, § 3º do CPC - Mérito - Imóvel abandonado, onde se verifica o acúmulo de lixo, entulho, causando infiltrações no imóvel vizinho e a proliferação de vetores transmissores de doenças, além de servir de refúgio para desabrigados, criminosos e pontos de drogas - Ausência de condições de salubridade, higiene e segurança adequadas - Risco à saúde e segurança não só da comunidade que ali reside, como por aqueles que passarem pelo local, além de causar prejuízo ao meio ambiente - Obras de limpeza e conservação do imóvel necessárias à readequação das exigências higiênico sanitárias e segurança. - Procedência do pedido autoral.(APELAÇÃO CÍVEL Nº 8949/2011, 7ª VARA CÍVEL, Tribunal de Justiça do Estado de Sergipe, DES. CEZÁRIO SIQUEIRA NETO , RELATOR, Julgado em 15/05/2012)
Por fim, decidiu o TJ/SE que a diversidade de alíquotas decorrentes do imóvel ser edificado, não edificado, residencial ou não residencial, não se confunde com a progressividade tributária, significando dizer que existem alíquotas progressivas e
diferenciadas (seletivas), devendo se admitir a inconstitucionalidade apenas das primeiras, aplicando-se, em consequência, a menor alíquota dentro de cada grupo de alíquotas diferenciadas:
TRIBUTÁRIO - AÇÃO ANULATÓRIA C/C REPETIÇÃO DE INDÉBITO - IPTU - EXERCÍCIO DE 2006 A 2009 - PRESCRIÇÃO DOS DÉBITOS ANTERIORES A ABRIL DE 2007 - PROGRESSIVIDADE - FUNÇÃO FISCAL - INCONSTITUCIONALIDADE - EC Nº 29/2000 - IRRETROTIVIDADE - PRECEDENTES DO TJSE - POSSIBILIDADE DE FIXAÇÃO DE ALÍQUOTAS DIFERENCIADAS DE ACORDO COM A UTILIZAÇÃO DO IMÓVEL - PRECEDENTES DO STF - APLICAÇÃO DA MENOR ALÍQUOTA DENTRO DE CADA GRUPO - 2,5% POR SER IMÓVEL NÃO CONSTRUÍDO - SUCUMBÊNCIA RECÍPROCA POR FORÇA DO ART. 21 DO CPC- RECURSO CONHECIDO E PROVIDO.
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V- A diversidade de alíquotas decorrentes de o imóvel ser edificado, não edificado, residencial ou não residencial, não se confunde com a progressividade tributária, significando dizer que existem alíquotas progressivas e diferenciadas (seletivas), devendo se admitir a inconstitucionalidade apenas das primeiras, aplicando-se, em consequência, a menor alíquota dentro de cada grupo de alíquotas diferenciadas, ou seja, 0,8% para imóvel residencial, 1,0% para imóvel não residencial e 2,5% para imóvel não construído;
VI- Logo, há de ser aplicada a alíquota mínima prevista na lei municipal vigente à época do fato gerador, conforme a destinação do imóvel. Considerada a alíquota mínima prevista na legislação municipal vigente à época do fato gerador, conforme a destinação do imóvel, será esta de 2,5%, tendo em vista que se trata de imóvel não construído;
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VIII- Apelo conhecido e provido. (APELAÇÃO CÍVEL Nº 5033/2013, 3ª VARA CÍVEL, Tribunal de Justiça do Estado de Sergipe, DES. RICARDO MÚCIO SANTANA DE ABREU LIMA, RELATOR, Julgado em 23/09/2013)
Assim, podemos perceber que ainda é pouco debatido o tema “função social da propriedade urbana” no Tribunal de Justiça de Sergipe, não enfrentando especificamente a matéria, mas apenas citando o princípio sem contextualizá-lo.