As incursões do século
2. Entre Douro e Ave, Julho de 1015 a Abril de 1016
Do cartulário do Mosteiro de São Salvador de Moreira surge aquele que é um dos documentos mais fascinantes no estudo das incursões nórdicas no ocidente peninsular. Publicado por Rui Pinto de Azevedo (1973, 91-3), trata-se de um registo escrito de uma transacção destinada a pagar o resgate de três raparigas que tinham sido capturadas por vikingues. Uma vez mais, o ataque nórdico é o pano de fundo e não o tema principal da fonte, mas, excepcionalmente, é indicada a data, duração e extensão geográfica da incursão.
O documento original não chegou aos nossos dias, existindo apenas numa cópia datada do século XVII. No entanto, Rui Pinto de Azevedo considera-a fidedigna em termos linguísticos, notando a utilização de um latim entremeado com romanço e elementos característicos do scriptorium de São Salvador de Moreira (1973, 77 e 85). E, a este argumento, o editor acrescenta ainda o do conteúdo, dado que algumas das pessoas referidas no texto, nomeadamente o pai das três raparigas, surgem noutros documentos, esses sim originais dos séculos X e XI (1973, 85-6). Isto leva a crer que, pelo menos quanto à transmissão da informação escrita, estamos perante uma fonte credível. E contém a data de Abril de 1018, tornando-o num registo quase contemporâneo dos acontecimentos.
171 Conta o documento que, em Julho de 1015, um grande número de “filhos e netos dos Normandos” entrou no Douro (In Era MLiij mense Iulio ingressi fuerunt filius et neptis Lotnimis multis in Doiro) e, durante nove meses, pilharam e fizeram prisioneiros até ao rio Ave (predans et captiuans de Doiro in Ave viiij menses). Apanhadas no meio do ataque, as três filhas de Amarelo Mestaliz foram capturadas (Ibi captiuarunt tres filias de me ipso Amarelo) e, quando os nórdicos começaram a vender todos os cativos, ele não tinham com que lhes pagar o resgate das raparigas (pasarunt Leodemanes illos catiuos a uindere totos, ipsas filias de Amarelo, nominibus Serili Ermesienda Faquilo, et non aueua que dare pro eas a Leodemanes). Sem recursos, Amarelo dirige-se então a uma senhora nobre de nome Lupa ou Loba com o objectivo de lhe vender uma propriedade (fuit in Argentini ante illa domna Lupa pro uindere a illa mea ereditate) e, dessa forma, reunir dinheiro suficiente para libertar as suas filhas. A proposta de negócio tinha na base um acordo anterior entre os dois, que não sabemos quando foi feito, mas onde se supõe uma promessa de auxílio da parte de Dona Loba a troco de bens de Amarelo. Mas o negócio não se concretizou e o pai das três raparigas dirige-se, então, a outra senhora, de nome Froila Tructesindiz, a quem Amarelo consegue vender a sua propriedade e, dessa forma, libertar as suas filhas (pro tale aueruaui com Froila Tructesindiz que li dedise ea per carta et dedi mici que misi pro filias meas, et sacaui eas de captiuitate). O documento regista essa transacção e o auxílio posteriormente prestado a Amarelo, quando voltou a passar dificuldades e, ao que parece, as suas filhas não souberam retribuir a dedicação paterna. Refere ainda aquilo que poderá ser o valor do resgate: quinze sólidos ou soldos de pratas (illos XV solidos argenzdeos que iam de nos pressi pro in illa catiuitate).
Apesar do detalhe excepcional do documento, pelo menos no universo das fontes ibéricas, há elementos que levantam questões e outros que permanecem incógnitos. O primeiro é a expressão filius et neptis Lotnimis multis, que pode ser entendida como uma referência a alguma forma de colonização nórdica no noroeste ibérico e um posterior regresso dos descendentes dos primeiros colonos à actividade pirata dos seus antepassados. Mas, em alternativa à leitura literal, também é possível entender a expressão como uma hiperbolização destinada a transmitir o grande número de invasores, como se gerações inteiras de nórdicos tivessem entrado no
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Douro. E mesmo que isso implique considerar o termo multis como repetitivo ou, nas palavras de Rui Pinto de Azevedo, pleonástico (1973, 91, n. 7).
Que a região de entre Douro e Ave tenha sido pilhada por vikingues durante nove meses obriga-nos a considerar duas coisas: a dimensão do grupo pirata, indo no sentido da interpretação dos “filhos e netos” como querendo dizer uma grande quantidade, e a necessária existência de pelo menos uma base de Inverno. A primeira depreende-se pela duração e abrangência geográfica do ataque, na medida em que a distância entre o Douro e o Ave é, na foz, de cerca de vinte e cinco quilómetros, aumentando à medida que nos deslocamos para montante. Não sabemos quão para o interior penetrou a incursão, mas não se terá ficado pela costa, dado que é dito que os nórdicos entraram no Douro (ingressi fuerunt). Um grupo pequeno poderia ter avançado vários quilómetros para o interior e regressado ao mar num ataque relâmpago, como talvez tenha sido o que chegou ao Castelo de Vermoim, de que falaremos mais à frente. Mas uma permanência violenta de nove meses, sujeitando a saque uma área de várias dezenas de quilómetros, exige mais do que um bando de poucos navios. Era necessário dominar por completo um ou mais pontos que serviriam de base(s) e resistir a quaisquer contra-ataques nativos. E isto por muito que as defesas da região pudessem estar ainda a recuperar das campanhas de Almançor, até porque estamos a falar de uma área central do Condado Portucalense: afinal, entre os rios Douro e Ave encontra-se o Porto, que presidia ao território. Seria, por isso, natural que os habitantes e autoridades nativas tentassem enfrentar os invasores nórdicos, que teriam que ter a capacidade de não só resistir, como de levarem a cabo acções de pilhagem durante nove meses.
Da duração do ataque deduz-se também a necessidade de ter existido pelo menos uma base de Inverno. A qualificação venatória é inteiramente merecida, uma vez que os nórdicos permaneceram activos entre o Douro e o Ave desde meados do Verão até, no máximo, Abril. Este é, por isso, o melhor indício documental de uma base vikingue no actual território português, seguido de perto pelo caso da região de Aveiro, de que falaremos adiante. E isto apesar de não se saber onde, quantas e que aspecto teriam. Podemos supor que pelo menos uma delas estaria localizada nas margens do Douro, porque era necessário proteger as embarcações e, se necessário, utilizá-las. Também era preciso ter abrigo contra o mau tempo, guardar mantimentos,
173 saque e prisioneiros, algo que tanto podia ser feito nos navios como em estruturas pré-existentes ou construídas para o efeito. E depois era necessário assegurar a defesa do local por via de uma paliçada ou muralha, fosse ela de terra, madeira, pedra ou um misto de materiais.
Talvez seja útil fazer uma comparação com o que se conhece de uma base vikingue em Repton, em Inglaterra (Figura 3), onde os nórdicos passaram o Inverno de 873/874 durante as campanhas do grande exército. Os vestígios foram encontrados no decorrer de trabalhos de pesquisa numa igreja medieval localizada junto ao rio Trent, onde o edifício religioso foi tomado por nórdicos e integrado numa linha defensiva semi-circular, talvez servindo de portão. A muralha era de terra e teria um fosso, protegendo uma área de cerca de meio hectare à beira-rio (Hall 1990, 15), o que fornecia um ponto de (des)embarque seguro e onde podia permanecer um pequeno grupo com as suas embarcações. É possível que, algures nas margens do Douro, tenha
Figura 3: Esquema da base vikingue de Repton, Inglaterra (Hall 2010, 14).
Note-se a muralha de terra, adjacente à antiga margem do rio, e a integração da igreja de São Wystan na linha defensiva.
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existido uma base semelhante à de Repton, com ou sem edifícios pré-existentes integrados na muralha. A partir dela, os vikingues podiam pilhar as margens do rio ou o interior do território, fazendo os prisioneiros de que o documento fala e de que as filhas de Amarelo Mestaliz são um exemplo. Caso se tratassem de acções de saque prolongadas, temos que colocar a hipótese de poderem ter existido bases adicionais onde os nórdicos pudessem pernoitar e guardar o saque e cativos. Para esse efeito, não é de excluir a possibilidade de terem utilizado propriedades rurais, castros ou mosteiros, do mesmo modo que, em Inglaterra, deram uso a fortificações romanas ou povoados anglo-saxões (Hall 1990, 14).
Serili, Ermesienda e Faquilo poderão ter sido resgatadas num desses locais ou no ponto de desembarque original, algo que o documento não nos permite determinar. Aliás, desconhecemos os contornos precisos do seu cativeiro e libertação. A narrativa tem vários momentos distintos: a captura, a venda de todos os prisioneiros (illos catiuos a uindere totos), a impossibilidade de Amarelo pagar o resgate, o pedido de auxílio a Dona Loba, depois a Froila e, por fim, a libertação das três raparigas. Entre o primeiro e o último momento, presume-se que terá passado um período de tempo significativo, o que levanta a questão de como é que Amarelo reencontrou as filhas. A resposta mais óbvia é que elas estiveram cativas sempre no mesmo sítio, isto é, numa base permanente para onde as pessoas se deslocavam para resgatar prisioneiros. Em alternativa, podem ter sido levadas para outro local, obrigando o pai a inquirir sobre o destino delas, tanto a Portucalenses como aos próprios nórdicos. E ambas as possibilidades escondem a natureza da relação entre os vikingues e os habitantes locais que, para além de naturalmente hostil por força das acções de saque, terá tido também uma vertente mais pecuniária. No pagamento de resgates, sem dúvida, mas não é impossível que também tenha assumido outras formas. Afinal, nove meses de permanência potenciam contactos, alimentam proximidades e podem até originar trocas de e entre os lados em conflito. Os Anais de São Bertino, no relato do ano de 869, contêm a notícia de um clérigo que apostatou e juntou-se aos vikingues (Nelson 1991, 163). Um exemplo curioso, talvez até extremo, mas que é sintomático de como, mesmo no meio de um ambiente de guerra, os lados opostos podiam desenvolver relações por vezes inesperadas.
175 Uma vez mais, somos confrontados com o silêncio das fontes a respeito do Porto e não obstante a sua localização junto à foz do Douro. Necessariamente, ao terem entrado no rio, os vikingues terão que ter passado pela povoação, tal como em 971. A zona ribeirinha seria a mais exposta à passagem de uma frota nórdica, mas não conhecemos uma única notícia de um ataque à cidade ou sequer um indício documental. Sabemos apenas que o Porto está na região que foi sujeita ao saque de nove meses, mas isso, por si só, não indica o que sucedeu: terá sido pilhada, apenas sitiada ou poupada a ataques nórdicos? Se a povoação foi alvo de uma ou mais investidas, voltamos a estar perante o caso de as fontes da época não o terem registado ou, se deixaram memória escrita dos acontecimentos, se terem perdido os documentos.
Desconhece-se, igualmente, o destino do grupo de vikingues chegado o mês de Abril. Podem ter navegado para sul antes de fazerem a viagem inversa ou podem ter ido directamente para norte.