2 PERCURSOS TEÓRICOS METODOLÓGICOS PARA A COMPREENSÃO CRÍTICA DA PRODUÇÃO CIENTÍFICA
2.2 Epistemologia e as análises epistemológicas
Ao reconhecermos os diferentes níveis de desenvolvimento econômico dos países e a sua própria capacidade de produzir e usar conhecimento, consideramos que os diferentes eixos da ciência encontram-se em ritmos de desenvolvimentos ou “maturidade epistemológica” diferenciados (SILVA, R., 1997). Portanto, as questões que podem ser indagadas referentes à ciência não poderão ser as mesmas, até porque os problemas que se apresentam nas áreas de conhecimento científico são singulares, específicas de cada contexto e condicionadas por seus determinantes sócio-históricos.
A área do conhecimento da Educação Física, em função do aumento significativo nos últimos anos dos programas de Pós-Graduação stricto-sensu na área e, consequentemente, da sua produção científica, expressa o avanço de suas possibilidades teórico-científicas, o que ampliou as fronteiras de seu conhecimento e alavancou discussões e embates necessários sobre ele. No entanto, ainda carece de uma reflexão sobre a qualidade dessa produção científica.
Estudos sobre a produção científica desenvolvida nos programas de pós- graduação stricto-sensu - principal locus para o seu desenvolvimento - se faz necessário, como já mencionamos na introdução deste estudo, na medida em que levantam características, tendências, modismos, seus problemas mais evidentes, além da possibilidade de apontar caminhos a serem trilhados por uma área. Assim, como explicitaremos no capítulo seguinte, alguns pesquisadores desta área não tem medido esforços ao longo dessas ultimas décadas na busca de impulsionar o debate em torno desta produção científica e das questões epistemológicas relativas a ela.
Para tanto, a epistemologia tem sido um importante caminho para esse tipo de investigação de pesquisa, pois tem assumido um relevante papel para a compreensão do conhecimento científico elaborado nesse âmbito. Dessa forma, este texto pretende esclarecer o que é epistemologia e o seu significado ao estudo de um determinado objeto, e mostrar de que forma ela pode contribuir para a compreensão do avanço da
ciência de um modo mais amplo e da produção científica em educação física, em específico, o que pode se complementar e fortalecer-se, de maneira singular, com as análises bibliométricas da produção científica.
No contexto filosófico moderno, a palavra epistemologia8 possui o significado literal de teoria da ciência. De fato, é uma reflexão sobre a ciência, que em função do seu próprio desenvolvimento e dos resultados da revolução técnico-científico, passa a ser objeto de análise científica, porém, com caráter filosófico. É uma junção entre ciência e Filosofia9. Relaciona-se ainda com o termo metaciência, para designar um “estudo que vem depois da ciência e que diz respeito a ela, tomando-a por sua vez como objecto e interrogando-se a um nível superior sobre seus princípios, os seus fundamentos, as suas estruturas, as suas condições de validade, etc” (BLANCHÈ, 1983, p. 12-13). De fato, o termo epistemologia é uma parte da Filosofia que se preocupa com o estudo crítico da ciência em seu detalhamento prático, isto é, da ciência como produto e como processo; por isso é, fundamentalmente, um estudo a posteriori(SANCHEZ GAMBOA, 2007).
Epistemologia está, portanto, estritamente vinculada ao estudo crítico dos princípios, da natureza do conhecimento, da sua justificação, de suas hipóteses, dos resultados das diversas ciências, como também de seus limites. No entanto, vale ressaltar que, o que se tem sido produzido pela ciência não se estende a todos os homens, tal questão, inclusive, foi o que deu origem ao controvertido debate em torno da ciência, como argumentou Silva (1997).
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Segundo Blanchè (1983) foi somente no segundo terço do século XIX que aparecem quase simultaneamente as duas obras fundamentais que podemos considerar como iniciadoras daquilo a que chamamos hoje de epistemologia, embora o termo ainda não existisse: uma relativa às ciências formais, lógica e matemáticas, a Wissenschaftslehre (1837) de Bernardo Bolzano, e a outra relativa às ciências da natureza, a Philosophy of the inductive sciences (1840) de William Whewell.
Já no dicionário Lalande (1999, p.313) a palavra Epistemologia “designa filosofia das ciências, mas com um sentido mais preciso. Não é propriamente o estudo dos métodos científicos, que é objeto da Metodologia e que faz parte da Lógica. Não é tampouco uma síntese ou uma antecipação conjectural das leis cientificas (à maneira do positivismo e do evolucionismo). É essencialmente o estudo crítico dos princípios, das hipóteses e dos resultados das diversas ciências, destinados a determinar a sua origem lógica (não psicológica), o seu valor e a sua importância objetiva”.
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Habermas (1982, p. 77) destaca que a filosofia preserva-se na ciência enquanto crítica. A teoria da sociedade que reivindica ser auto-reflexão da história da espécie não pode simplesmente negar a filosofia. A herança da filosofia transfere-se, muito mais, para a postura ideológico-crítica, que determina o método da análise científica enquanto tal. Mas, fora da crítica não resta direito algum à filosofia. Na medida em que a ciência do homem é crítica material do conhecimento, também a filosofia, que fora, enquanto pura teoria do conhecimento, por ela mesma despojada de todos os conteúdos, recupera novamente, por via indireta, seu acesso aos problemas materiais.
Com o desenvolvimento da ciência no mundo, é por volta de 1900 que começam a ser questionados alguns dos princípios da ciência “clássica”, desenvolvendo o movimento chamado de “crítica das ciências”.
Esta crítica dirigida contra o dogmatismo cientista e levada a cabo por autores de formação científica, diz essencialmente respeito à natureza das leis e das teorias da física. (...) Ao mesmo tempo, a “crise dos fundamentos” aberta pelas antinomias dos conjuntos obrigava também os matemáticos a regressarem aos princípios da sua ciência, (...). Através dessa junção entre a competência científica e a reflexão filosófica, junção imperiosamente exigida pelo próprio estádio da ciência e que a especialização científica devida ao desenvolvimento da mesma tinha tornado cada vez mais rara, a epistemologia constitui-se como disciplina original, e é este estado de facto que o seu baptismo viria consagrar (BLANCHÈ, 1983, p. 16)
Assim, vale destacar que em tempos mais atuais, um dos traços marcantes da epistemologia contemporânea é o fato de ela passar a ser usufruída não apenas pelos filósofos, mas, sobretudo, pelos próprios cientistas, em função da crise que abalou as diversas ciências e as revoluções pelas quais passaram. Isto fez com que os próprios cientistas que as praticavam e as produziam, voltassem suas atenções para seus princípios e as interrogassem sobre seus fundamentos. Começaram a notar que os processos científicos não são sempre progressivos, mas, podem ser também reflexivos, tal como a distinção entre os progressos lineares e os progressos circulares (BLANCHÈ, 1983).
É este progresso reflexivo ou circular que é ilustrado pelo desenvolvimento contemporâneo das epistemologias, que se podem qualificar de internas e de regionais: internas porque são elaboradas a partir de dentro pelos cientistas interessados, e regionais porque cada uma se constrói segundo as necessidades de uma determinada ciência (idem, p.23).
Entretanto, esse termo epistemologia com o significado de teoria da ciência, o qual foi criado recentemente sob a tradição positivista, designa a redução da Teoria do Conhecimento a uma parte dela, à Teoria do Conhecimento Científico (SILVA, R., 1997; SANCHEZ GAMBOA, 2010).
Sobre esta discussão em torno da epistemologia enquanto teoria da ciência, Teoria do Conhecimento e conhecimento científico, Sanchez Gamboa (2010, p. 158- 159) esclarece
(...) após Kant ter dividido o conhecimento em “Razão prática” e “Razão pura”, a Teoria do Conhecimento (Gnosiologia) foi desaparecendo, com ruptura das relações entre Filosofia e a ciência. Com isso desaparece a tensão crítica entre a Teoria do Conhecimento (o geral) e “conhecimento científico” (o específico). Com o propósito de recuperar essa tensão e de reatar os nexos entre Filosofia e ciência se desenvolve a epistemologia (...). Na perspectiva do neopositivismo e do empirismo lógico (Círculo de Viena), a epistemologia é tida como sinônimo da Teoria da Ciência, limitando-a a uma forma única de conhecimento válido (o conhecimento científico).
Contrapondo-se a tal redução, Habermas (1982) propôs refletir sobre a ciência, tomando como base os fundamentos epistemológicos do materialismo dialético. “Entendeu o conhecimento como um processo, como uma produção humana mediatizada pelo desenvolvimento histórico da sociedade, e as condições históricas dessa produção assumem um papel fundamental na compreensão da produção científica”. Desta forma, a epistemologia é entendida como Teoria Crítica do Conhecimento e a dialética materialista como um importante e fundamental método da epistemologia moderna (SILVA, 1997, p. 117).
É nesse sentido que percebemos a pertinência de situar a epistemologia em nosso estudo, numa perspectiva crítico dialética, a partir dos seus princípios e de algumas das categorias desenvolvidas pelo materialismo-histórico-dialético, pois a escolha desta Teoria do Conhecimento, em conexão com a epistemologia, além de levar em consideração as condições históricas concretas dessa produção, realizar uma pesquisa epistemológica, significa buscar um nível de conhecimento mais amplo, haja vista essa análise articular tanto elementos da Filosofia, da teoria do conhecimento, quanto da própria ciência.
Assim, no contexto dos paradigmas da pesquisa cientifica, a epistemologia tem sido estabelecida como um pólo (BRUYNE, s/d) ou como um nível de articulação lógica entre as técnicas, os métodos, as teorias, e refere-se ainda, às concepções de ciência, aos critérios de validade e de rigor da prova, nível esse que se identifica com os
teórico-metodológicas, utilizadas na pesquisa científica (SANCHEZ GAMBOA, 2008).Segundo esse autor, as abordagens epistemológicas mais expressivas na ciência contemporânea têm sido: a empírico-analítica (Nagel; Popper), a fenomenologia (Husserl, Merleau-Ponty; Ricour), a materialista histórica (Marx; Engels; Gramsci), as neomarxistas (Escola de Frankfurt e Escola de Budapeste) e as epistemologias pós- modernas (o Giro Linguístico, o Pós-Estruturalismo e a epistemologia da Complexidade).
Vale enfatizar que o campo da epistemologia tem conquistado espaço significativo na área da educação física, primeiro, em função dos estudos pioneiros relativos a esse tipo de análise na área ter alcançado bastante expressão nos últimos anos. Segundo, porque a entidade científica mais representativa da área - o Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte (CBCE) – possui um grupo de trabalho temático (GTT) em seu interior voltado ao estudo dos pressupostos teórico-filosóficos de suas atividades, bem como daqueles voltados ao fomentar da atividade epistemológica, e terceiro, porque as questões epistemológicas têm adentrado as disciplinas dos currículos de alguns cursos tanto em nível de graduação quanto de Pós-Graduação.
Nesse terceiro caso, supomos que seja, possivelmente, por duas questões: a primeira, relativa aos problemas que se têm identificado nas últimas décadas,concernentes às práticas superficiais de produzir conhecimento, restringindo-se aos domínios técnicos da pesquisa, bem como à pouca compreensão sobre os fundamentos epistemológicos e filosóficos nesse processo de produção; o que tende a refletir seriamente na formação de alunos/pesquisadores nas instituições brasileiras. A segunda, em função do desafio e da necessidade que se coloca de as preocupações epistemológicas abranger as diferentes disciplinas no processo de formação inicial, a partir de reflexões, p.ex. sobre que conhecimento vem sendo produzido neste âmbito; sobre o conhecimento que constitui as diferentes disciplinas, assim como suas origens, dentre outras.
Portanto, como elemento de análise conceitual de segunda ordem, a epistemologia, enquanto um estudo que questiona os fundamentos da ciência, os processos de produção do conhecimento, seus princípios, suas características, seus resultados, e outros, configura-se como uma alternativa fundamental junto à análise bibliométrica para a avaliação crítica dos resultados da pesquisa científica (questões de primeira ordem, própria de cada ciência específica), e ainda tem o papel de questionar constantemente tal atividade, reorientar os seus rumos e fortalecer sua reflexão crítica.
É nesse sentido que se utilizam as “investigações epistemológicas” ou análises epistemológicas para recuperar as tendências teórico-metodológicas da produção científica de uma área do conhecimento, pois tais análises tomam como objeto essa produção cientifica e buscam articular diversos níveis de abrangência que vão desde os seus elementos internos - as técnicas, as teorias, o nível metodológico, epistemológico, passando pelos pressupostos - gnosiológicos e ontológicos, relativos à visão de realidade e mundo implícitos na pesquisa - aos elementos histórico-sociais, nos quais se encontra situada (elementos externos).
Tudo isso nos leva a expandir nossos horizontes interpretativos, em busca de uma reflexão constante da qualidade da produção do conhecimento, de modo mais específico, e de um melhor aproveitamento da ciência de forma mais ampla, indicando seu real sentido, significado e possibilidade de transformação para determinada área do saber e para a humanidade.
3 RETOMADA DO PANORAMA CIENTÍFICO NA ÁREA DA EDUCAÇÃO