1.4 As escolas democráticas: como surgiram
1.4.6 Escola da Ponte: modelo de democracia e cidadania
Quando a mediocridade se sobrepõe à generosidade, a indignação é coisa pouca. Sinto um imenso desejo de vingança. Sempre que me confronto com a amargura na desistência, do insucesso de um ex-aluno, sinto-me o mais miserável dos professores. O insucesso de um jovem e de um professor jovem é algo que me custa a digerir. Tanto mais que me assalta algum sentimento de culpa. Contribuí para a tragédia. Não fiz tudo o que devia. Falhei.
Por este e por outros bons motivos venho defendendo ser inadiável criar condições para que aqueles que buscam fazer uma escola diferente, mais fraterna, mais digna, a possam concretizar. Alguma coisa terá de mudar nas escolas, para que ninguém por ignorância, preguiça, ou acomodação, ouse “não querer” e possa impedir os que querem.
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Conhecida por educadores do mundo todo, a Escola da Ponte, localizada em Vila das Aves em Portugal, chama atenção por sua atuação diferenciada. Inicialmente, era uma escola tradicional, encontrando diversas adversidades desde sua fundação. Em 1976, a instituição enfrentava diversos problemas, tais como: a indisciplina e diversas formas de agressão; o isolamento dos professores assim como o isolamento da instituição em relação à sua comunidade; a exclusão escolar e social de diversos alunos; e a inexistência de um projeto e de reflexão crítica das práticas educativas. Seus gestores procuraram superar tais dificuldades, realizando círculos de estudos que buscavam promover a autonomia e a solidariedade, operar transformações e intensificar a assessoria entre instituições e agentes educativos, assim como realizar uma real diversificação das aprendizagens, garantindo que todos tivessem as mesmas oportunidades educacionais e de realização pessoal. Foram alterando sua estrutura organizacional, desde o tempo, o espaço, o modo de ensinar, a vida social e a participação dos alunos no planejamento das atividades, por meio de um complexo e conflituoso percurso (CANÁRIO et al, 2004). Foi nesse contexto que nasceu o Projeto Fazer a Ponte, idealizado pelo educador José Augusto Pacheco, especialista em Música e em Leitura e Escrita, e mestre em Ciências da Educação pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. O projeto tinha como foco romper com tudo o que suscitava a apatia pedagógica, buscando gerar inquietude para que o desejo de transformação fosse semeado. A primeira impressão de Menezes (CANÁRIO et al, 2004, p. 43) sobre a instituição é descrita a seguir:
(...) o que mais me marcou nessa primeira visita não foi ver crianças de 6 a 10 anos gerirem uma assembleia de escola de forma processualmente impecável, nem vê-los estudar, concentrados no que estavam fazendo, ao som de Mozart – foi vê-los, no intervalo de almoço, dançar ao som de uma música qualquer “ligeira” para crianças que estava em voga nessa altura. Ou seja, foi o reconhecimento de que aqueles meninos e meninas que pareciam – e eram com certeza – todos especiais fossem, finalmente, meninos e meninas iguais a todos os outros, capazes de dançar ao som de música pimba. Acho que são assim os meninos e as meninas da Ponte.
Embora esta escola não faça parte da Rede Internacional de Escolas Democráticas (IDEN), desenvolve um trabalho segundo os princípios de educação democrática. A questão da cidadania e da democracia é profundamente explorada, sejam quais forem os
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momentos de convívio. Vale retomar os princípios que caracterizam este tipo de educação, na perspectiva de Singer (2008, 2009): a gestão participativa que inclui alunos, funcionários e professores, as relações não hierárquicas entre adultos e crianças e a organização pedagógica como centros de estudos, que os alunos definem suas próprias trajetórias de aprendizagem. Nesta instituição, também há também o trabalho com assembleias onde as regras para o convívio de todos são decididas coletivamente. A cada ano, os alunos são convidados a determinar os direitos e deveres que acreditam ser necessários para a convivência. Nas assembleias, são discutidos e analisados os problemas relativos ao convívio escolar, assim como suas resoluções e participam todos da comunidade escolar. É presidida por um dos alunos e há uma comissão composta por doze alunos, que têm entre sete e doze anos. Eleitos no início do ano, cabe-lhes organizar e direcionar as questões propostas. Os problemas mais graves são julgados no Tribunal, instituído para assegurar a paz entre as pessoas pela manutenção das regras básicas de convivência. Somente é acionado em casos de necessidade. Caso algum educando não tenha sua questão resolvida em assembleia, pode encaminhá-la ao Tribunal, composto por membros da comunidade escolar. O problema é debatido e o “infrator” é levado a pensar em seu comportamento durante alguns dias, devendo informar posteriormente a quais conclusões chegou. Há um mecanismo de apoio permanente denominado Comissão de Ajuda, composto por três ou quatro estudantes, nomeados para auxiliar a criança que infringiu alguma norma a relembrá-la e a cumpri-la. Há os quadros “Acho bom” e “Acho mau”, em que os estudantes podem colocar suas opiniões referentes às atitudes dos colegas, que servem para reflexões e debates.
A Ponte é, desde logo, uma comunidade profundamente democrática e autorregulada. Democrática, no sentido de que todos os seus membros concorrem genuinamente para a formação de uma vontade e de um saber coletivos – e de que não há, dentro dela, territórios estanques, fechados ou hierarquicamente justapostos. Autorregulada, no sentido de que as normas e as regras próprias que decorrem da necessidade sentida por todos de agir e interagir de uma certa maneira, de acordo com uma ideia coletivamente apropriada e partilhada do que deve ser o viver e o conviver numa escola que se pretenda constituir como um ambiente amigável e solidário de aprendizagem (SANTOS, 2001, p. 14).
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Além deste trabalho com assembleias, há os centros de estudos no que diz respeito ao trabalho com o conhecimento. Na Ponte não existem salas de aula nem separação por séries ou idades. Os alunos reúnem-se em grupos para estudar assuntos de interesse comum, agrupando-se por vontade própria e ajudando-se mutuamente. Os grupos formados recebem nomes que refletem a faixa etária e as ideologias de seus integrantes. Tal ruptura com a organização em classes ou séries constitui o traço mais marcante desta experiência escolar. Os espaços são polivalentes e tanto alunos quanto professores gozam de autonomia para realizarem seus trabalhos. Os desejos dos alunos são respeitados e o percurso educacional deve ser trilhado da maneira mais agradável possível. Os educadores trabalham com todos os educandos, não havendo um lugar fixo para estudar, brincar e aprender. Os grupos reúnem-se com o professor tutor, traçando os planos de estudos para a quinzena, definindo o tema a ser pesquisado e a metodologia que deverá ser empregada, assim como as possíveis fontes de informações que poderão ser utilizadas. Durante duas semanas eles estudam o tema proposto, recebendo orientações caso necessitem ou fazendo suas próprias pesquisas nos meios virtuais ou em livros. Após esse período, o grupo avalia se os objetivos foram atingidos, reunindo-se com o professor tutor, justificando as dificuldades encontradas e analisando a aprendizagem dos conceitos em questão. Caso seja constatado que os objetivos foram alcançados, o grupo se dissolve e os membros formarão outros grupos, reiniciando novamente o percurso de pesquisas. O aluno situa-se sempre na posição de agente do processo, ainda que orientado pelo tutor, tendo a oportunidade de refletir sobre a importância de seu engajamento nas conquistas vivenciadas pelo grupo. Os professores, longe de serem coercitivos, mediam o processo educativo, transitando entre os grupos e auxiliando caso haja necessidade.
A visão autoritária da relação professor/aluno é inexistente na Ponte. Ao contrário, desde cedo vivenciam uma sociedade cooperativa, onde os alunos aprendem uns com os outros e o professor é aquela pessoa que auxilia em caso de dificuldades. As crianças aprendem a ajudar-se mutuamente e a reconhecer a necessidade de se pedir ajuda. Não há espaço para a competição individualista. É incentivado o fortalecimento de relações amistosas, da construção de saberes coletivos e de natureza democrática. Aqueles educandos que sentem dificuldades em algum assunto podem pedir ajuda, por meio de diversas listas afixadas nos locais da escola: “Eu preciso de ajuda em...”. Há também
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cartazes complementares em que os alunos com mais facilidade em determinado tema podem auxiliar, colocando “seus pontos fortes” no cartaz: “Posso ajudar em...”. Esta rede de relações de ajuda fortalece o espírito participativo e solidário. Os dispositivos: “Eu já sei”, “Eu ainda não sei” e “Eu pensava que sabia” funcionam como mecanismos autoavaliadores dos conhecimentos. Aquela criança que considera que está pronta para ser avaliada pelo professor sobre determinado conteúdo coloca seu nome na lista “Eu já sei”, agendando uma data para que a avaliação seja realizada. Há um modo de comunicação interessante entre professores e alunos: a Caixinha dos Segredos. Nela, são depositados recados caso desejem conversar com algum educador um problema particular, permitindo aprofundar a cumplicidade entre eles.
Uma vez que não há divisão por turmas ou séries na Ponte, o trabalho se dá por meio de Núcleos de Projeto. As primeiras competências necessárias para um trabalho com autonomia são desenvolvidas no núcleo denominado Iniciação. O principal objetivo desta etapa é auxiliar a criança a administrar seu tempo e espaço utilizados na instituição escolar.
No segundo núcleo, Consolidação, equivalente ao primeiro ciclo do ensino básico, são aprofundadas as habilidades principiadas na etapa anterior: a capacidade de planejar os trabalhos, o exercício da autoavaliação, a pesquisa em grupo e a compreensão das metodologias da instituição.
Aqueles alunos que têm mais de treze anos de idade avançam para o Núcleo de Aprofundamento, onde têm ao seu alcance alguns projetos de pré-profissionalização, caso desejem.
Avaliações realizadas com alunos egressos demonstram que os resultados acadêmicos obtidos são favoráveis tanto no que diz respeito à evolução das aprendizagens quando às notas e aos resultados das provas nos anos subsequentes de escolarização. Conforme salientam Canário e colaboradores (2004, p. 46), os educandos possuem a capacidade de articular raciocínios e de explicitação dos métodos de resolução de problemas, assim como
a ênfase colocada na vivência democrática, numa escola organizada como uma comunidade de exercício da cidadania, promovendo a aprendizagem das regras do jogo democrático e sua prática cotidiana ou a integração efetiva de meninos e meninas diferentes, propiciando a solidariedade e a ajuda mútua de todos.
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A Escola da Ponte também tem visibilidade em eventos internacionais ligados à educação democrática, como ocorreu na Conferência Internacional em Educação Democrática (IDEC) no ano de 2007 (SINGER, 2010).
A partir do exposto, torna-se visível que a aprendizagem na Ponte é gerenciada pelos alunos, proporcionando-lhes uma relação significativa e singular com o saber, condições que podem promover relações de cooperação e democracia, contribuindo para a transformação do contexto escolar para um contexto democrático e de cidadania. Conforme Pacheco (2006, p. 64) coloca:
viemos de um velho edifício, sem mesas e portas nos banheiros. Tínhamos que fazer paredes para que fosse possível usá-los e hoje me perguntam se o modelo de educação da Ponte pode ser instalado aqui ou lá. A respeito disso eu digo: a Escola da Ponte não é um modelo a ser seguido. A Ponte é para se inspirar...
Isto pode ser verificado no Brasil. Inúmeras escolas se inspiram em práticas realizadas na Ponte. Uma delas é a Escola Municipal de Ensino Fundamental Amorim Lima, em São Paulo. Situada em um bairro de alta heterogeneidade cultural e social e próxima a polos científico-culturais, a instituição recebe uma clientela também heterogênea e múltipla.
Com a chegada da diretora Ana Elisa Siqueira, que estava preocupada com a alta evasão escolar, resolveu modificar a prática educativa para tentar manter as crianças na escola durante o maior tempo possível. Para tanto, trouxe a comunidade como parceira, derrubando os alambrados que cercavam o pátio e abrindo a escola nos fins de semana. Por conta disso, os alunos e a comunidade passaram a frequentar a instituição em atividades extracurriculares, tais como teatros, oficinas culturais e esportivas, etc.
A partir de 2004, iniciou-se a tentativa de melhorar o aprendizado. Para tanto, o Conselho de Escola principiou uma discussão que, após diagnosticar os problemas centrais (tais como indisciplina, abstenção tanto dos alunos quando dos professores, etc.) e examinar o Projeto Político Pedagógico da escola, verificou uma grande dissonância entre a prática e o texto. Procuraram, então, executar mudanças que implicassem em uma melhora efetiva da prática educativa.
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Ao assistirem um vídeo sobre a Escola da Ponte, verificaram que os valores que as duas instituições buscavam eram semelhantes. Iniciaram o “Projeto Fazer a Ponte”, tendo assessoria da psicóloga Rosely Sayão. Aos poucos, foram implantando, na Amorim Lima, dispositivos inspirados na escola portuguesa.
O Projeto visava um compromisso coletivo, em que a intencionalidade educativa, calcada nos valores da autonomia, solidariedade, democraticidade e responsabilidade, seria compartilhada e assumida por todos da instituição e também por aqueles da comunidade que desejassem colaborar com tal projeto.
Destaca-se que, na Amorim Lima, de maneira semelhante à Ponte, os educandos trilham seus próprios caminhos com o auxílio de um professor tutor. Para tanto, a escola “quebrou as paredes” e transformou o espaço que era destinado às salas de aula em um local único, disponibilizando aos alunos os materiais e ferramentas, tais como livros e computadores, que privilegiam o trabalho de pesquisa. As aulas expositivas são recursos utilizados pontualmente, sendo que os trabalhos de pesquisa são norteados por Roteiros Temáticos de Pesquisa, concebidos de acordo com a Teoria Dialógica da Linguagem do Círculo de Bakhtin (AMORIM, 2011), apoiados nos livros didáticos e paradidáticos. A instituição visa melhorar, por meio de estudos, cada vez mais sua prática educacional.
Atualmente, as assembleias não são realizadas com tanta frequência, porém muitas inovações permanecem.
Cabe mencionar que a Amorim Lima, assim como a Ponte, apesar de suas propostas assemelharem-se às da educação democrática, não fazem parte da Rede Internacional. Todavia, são experiências inovadoras em educação que devem ser mencionadas, para que haja uma maior compreensão da abrangência deste tipo de experiências em educação.