1.4 As escolas democráticas: como surgiram
1.4.2 República de Crianças: o orfanato do “bom doutor”
Vocês dizem:
“Cansa-nos ter de privar com crianças”. Têm razão. Vocês dizem ainda:
“Cansa-nos, porque precisamos descer ao seu nível de compreensão”. Descer, rebaixar-se, inclinar-se, ficar curvado.
Estão equivocados.
Não é isto o que nos cansa, e sim, o fato de termos de elevar-nos até alcançar o nível de sentimentos das crianças.
Elevar-nos, subir, ficar na ponta dos pés, estender a mão. Para não machucá-las.
Janusz Korczak
Uma outra experiência importante na história das escolas democráticas ocorreu com a fundação do Lar das Crianças, em 1912, na Polônia. Foi a segunda instituição pautada pela democracia que se tem notícias desde Yásnaia-Poliana.
Janusz Korczak (pseudônimo de Henryk Goldszmit) era judeu e nasceu na Polônia em 1878 (SINGER, 2010). Conhecido em seu país como uma figura literária, participava de círculos acadêmicos internacionais. Redigiu obras de alcance mundial, tanto no que se refere à literatura pedagógica quanto à literatura médico-pediátrica. Por influência do pai e do avô, formou-se em medicina no ano de 1905, pela Universidade de Varsóvia. Esta profissão fez com que trabalhasse sob condições extremas na guerra Russo-Japonesa e na Primeira Guerra Mundial. Nesta última, era chefe do pavilhão de um hospital para onde
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eram enviadas crianças com ferimentos de guerra, o que exerceu sobre ele uma impressão bastante forte. Realizou uma especialização em pediatria e, com o passar do tempo, sua atividade como médico foi diminuindo, passando a dedicar mais de seu tempo à educação.
Era bastante sensível à assuntos sociais, travando lutas pela dignidade dos seres humanos, pelo direito à vida plena, pela igualdade de direito para as mulheres, pelo reconhecimento do valor da família, dentre outros. Talvez tal sensibilidade tenha sido inspirada por sua família, que era muito envolvida em atividades comunitárias, por meio do Haskale, um movimento iluminista judaico. Tinha como meta melhorar as condições de vida dos pobres e dos órfãos:
embora a medicina possa prevenir e curar doenças, ela não pode tornar melhores as pessoas. Portanto, ele escolheu trabalhar como professor e educador, o que lhe daria maiores oportunidades de influenciar a formação de caracteres e, consequentemente, melhorar o ambiente social. (LEWOWICKI et al, 1998, p. 24).
Em 1901, viajou a Zurique com o intuito de aprofundar seus estudos sobre a obra de Pestalozzi e em busca de novos caminhos para a educação. Tanto na Suíça quanto em outras viagens pela Europa, Korczak conheceu as últimas descobertas da educação, por meio de vários autores, influenciados pelas novas descobertas da psicologia: Dewey, Montessori, Decroly, Makarenko, Freinet, Ferrière. Criticavam o ensino tradicional e, por intermédio do movimento Escolanovista, buscavam tornar o aprendizado adequado e interessante às diversas fases do desenvolvimento infantil. Korczak, assim como esses autores, criticava os métodos tradicionais de ensino. Todavia, distanciava-se deles, pois acreditava que não questionavam a essência e os fundamentos da educação ao dedicarem-se somente ao desenvolvimento de atividades didáticas específicas formuladas para atrair o interesse infantil. Por este motivo, teve maior simpatia com o pensamento de Pestalozzi, que apostava na atenção à personalidade da criança e na bondade natural, propondo uma educação não-repressiva, levando em conta a curiosidade e o interesse da criança. Acreditava que o ambiente escolar traçava caminhos artificiais, dissipando qualquer tipo de mal trato e esforços excessivos e respeitando o desenvolvimento humano, facultando à natureza seu próprio tempo, uma vez que o caminho da busca da felicidade e da verdade seria lento. Segundo Singer (2010, p. 77),
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não poderíamos considerar Pestalozzi um educador da escola democrática, uma vez que ele não propunha a participação das crianças nas decisões das instituições que dirigiu e tampouco a liberdade delas em optar por assistir às aulas ou não. [...] Entretanto, suas ideias devem ser situadas numa linha de continuidade que vai de Rousseau a Korczak [...].
Se as crianças eram vistas enquanto possuidoras desta bondade natural, seria válido, então, que fosse dada a elas o poder de decisão democrática sobre seus próprios questionamentos. Korczak acreditava na democracia, todavia não entendia que a criança era completamente boa, uma vez que esta possuía instintos humanos. Por meio da educação, seria possível abrandá-los, mas não eliminá-los.
Korczak, criticando o ensino tradicional, afirmava que o professor era um vigia, garantindo o silêncio, a limpeza, a ordem. Para ele, “a escola [é] um pobre comércio de medos e ameaças, butique de bugigangas morais, botequim onde é servida uma ciência desnaturada, que intimida, confunde e entorpece, em vez de despertar, animar e alugar” (apud LEWOWICKI et al, 1998, p. 66). Almejava proporcionar à criança liberdade para seu pleno desenvolvimento e enfatizava que esta é um ser racional, que entende sobre suas necessidades, fracassos e dificuldades, devendo ser tratada com justiça pelos adultos. Caso isso ocorresse, quando adulta trataria os outros também de modo justo, livre do sentimento de vingança. O professor não deveria destacar-se sobre seus alunos e sim levar a sério o que eles têm a dizer, proporcionando um ambiente de confiança, sem oprimi-la ou desrespeitá- la. Segundo Lewowicki et al (1998, p. 28),
ele criticava o ensino por meio de aulas expositivas, o divórcio entre os currículos escolares e a vida, bem como o excesso de relacionamentos formais entre professores e alunos. Ele reclamava a organização de escolas de que as crianças realmente gostassem, que oferecessem matérias interessantes e úteis e que promovessem relações educacionais harmoniosas. Destacou a necessidade de se criar um sistema de educação holístico, que promovesse a cooperação entre a escola, a família e várias instituições sociais.
Este modo respeitoso de estabelecer as relações entre as crianças e os adultos marcou a história das relações humanas. Tanto que a Organização das Nações Unidas (ONU) valeu-se de algumas de suas ideias, anos mais tarde, para redigir a Declaração dos Direitos da Criança.
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Foi nesta mesma cidade de Zurique que Korczak conheceu Stefa Wilczinska, estudante de pedagogia. Sob a influência dela, passou a frequentar a faculdade de pedagogia, onde conheceu as obras dos pensadores da Escola Nova, anteriormente mencionados. Visitaram diversos países com o intuito de conhecer orfanatos, decepcionando-se com essas instituições, pois, em seu ponto de vista, pareciam-se com prisões.
Por essa razão, buscando um estabelecimento onde as crianças pudessem ser felizes, Stefa e ele resolveram projetar um lar para crianças pobres. Fundaram o orfanato Lar das Crianças para crianças judias carentes em 1912. Aos poucos, Korczak transformou-o em uma República de Crianças, baseadas nos princípios de fraternidade, justiça, igualdade de direitos e obrigações.
As crianças que ali moravam permaneciam até os 14 anos de idade. A primeira casa na qual a instituição manteve-se era acolhedora e ampla. Durante a Segunda Guerra, a Guestapo transferiu o orfanato para uma casa pequena no gueto de Varsóvia, um local apertado e sujo.
Durante quatro anos, na Primeira Guerra, Korczak foi solicitado para trabalhar no serviço de pediatria de dois hospitais, além de inspecionar três orfanatos em Kiev. Stefa administrou sozinha a instituição por eles fundada. Ao retornar, tornou-se conhecido nacionalmente, sendo convidado a contar histórias infantis e participar de um programa de aconselhamento a pais do “Velho Doutor” em uma rádio e dirigir a edição de um periódico destinado a crianças, além de escrever diversos livros, exercendo todas essas atividades paralelamente ao Lar.
Os internos realizavam os principais trabalhos de forma rotativa e governavam a partir de três instituições básicas: a Constituição, o Parlamento e o Tribunal. Korczak tinha como princípio fundamental que o adulto não deveria sobressair-se em relação à criança e sim levar sempre a sério suas opiniões, estabelecendo relações de confiança. Para o médico e educador polonês, a introdução de princípios de autogoverno deveria tornar-se “uma característica significativa do trabalho pedagógico com crianças. Juntamente com os adultos, as crianças precisam participar das decisões quanto às regras que orientam a vida do orfanato e então cuidar para que as regras sejam obedecidas” (LEWOWICKI et al,
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1998, p. 30). Os órgãos de autogoverno da República de Crianças eram o Parlamento e o Tribunal, baseando-se em uma atmosfera de responsabilidade compartilhada.
O Parlamento tinha como função criar as regras do orfanato, que eram regularizadas pela Constituição. Era composto por vinte deputados eleitos, por um secretário e por um presidente, que era o próprio Korczak. Escolhiam entre si, para compor o Senado, um vice- presidente e cinco membros da Comissão Legislativa.
O objetivo do Tribunal era proteger os direitos dos internos, além de preservar a propriedade e a ordem. Tanto os alunos quanto os professores poderiam ser julgados, caso achassem necessário, pois todos eram iguais perante a lei. O cargo de juiz era provisório e este era escolhido por meio de sorteio. Havia investigações e interrogatórios para se chegar a um desfecho do caso e a um veredito, e também havia penalidades e o reconhecimento da culpa aos infratores. No entanto, normalmente era dada prioridade ao perdão, como estímulo para que houvesse a reparação. Caso não conseguissem encontrar uma solução, encaminhavam o caso em questão ao Conselho, que era composto por Stefa, Korczak e mais dois juízes, eleitos pelos próprios estudantes.
Se o comportamento de alguém causasse incômodo aos outros, poderiam realizar o “plebiscito”, onde as opiniões (obtidas por intermédio de votos secretos) sobre aquela pessoa eram expostas, podendo chegar a enquadrá-la em categorias tanto positivas quanto negativas: “colega”, “amigo simpático”, “residente apático”, “recém-chegado suspeito”, “hóspede indesejável”, “rei dos amigos”, entre outros (SINGER, 2010).
Korczak dava muita importância à comunicação. Um dos recursos utilizados eram listas afixadas pelo prédio, que apresentavam os interessados em participar de atividades especiais ou efetuar alguma transação comercial. Outro, era a lista “Agradeço e Peço Perdão”, onde os internos poderiam deixar seus recados àqueles a quem haviam causado algum dano, na busca de retratação, ou apenas agradecer. Havia também dois jornais: “O Semanário”, que era oficial, e “A Pequena Supervisão”, patrocinado por Korczak. O primeiro era lido em público aos sábados e apresentava os fatos importantes ocorridos durante a semana. O segundo era escrito pelas crianças do orfanato e também por outras crianças da Polônia, que mandavam cartas com suas contribuições, e que eram pagas pelo “Bom Doutor”.
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Os professores que lá trabalhavam observavam as crianças, fazendo anotações que eram discutidas com Korczak ao fim do dia. Eles deveriam ter uma boa relação com os alunos, porém mantendo certa distância, aguardando que estes viessem lhes pedir auxílio ou perguntar algo. Esse método de observação foi trazido de sua primeira área de formação, a medicina (LEWOWICKI et al, 1998). Para selecionar os educadores que trabalhariam no Lar, Korczak verificava sua “incompetência” com relação à matéria que lecionariam. Não almejava especialistas, pois acreditava que o empenho de uma pessoa despreparada e insegura sobre determinado tema iria ser maior, já que estudaria e pesquisaria. A busca pelo conhecimento tinha mais importância do que sua aparente sensação de domínio.
A instituição manteve-se por trinta anos, passando por momentos extremamente difíceis de fome, pobreza e perseguição durante os períodos de guerra. Korczak tinha bastante prestígio em seu país e recebeu propostas para deixar o gueto e refugiar-se em outro lugar, escapando da morte, mas teria que abandonar seus alunos. Por seu profundo respeito a eles e por seus princípios de dignidade e justiça, recusou tais propostas. Percorreu, em sua “última viagem”, as ruas de Varsóvia, acompanhado de seus duzentos alunos condenados pelo nazismo, levando em seu colo dois deles, que já não conseguiam mais andar.
Até hoje serve de inspiração aos educadores que buscam implementar algo novo em suas escolas. Foi criada em Varsóvia a Associação Janusz Korczak de Israel, que, por meio de encontros, conferências e publicações tem como meta difundir as ideias e experiências do médico polonês. Atua em torno de vinte países, organizando cursos, exposições e traduções e livros do educador Polonês. No Brasil, foi fundada em 1984 por Josette Balsa e opta por trabalhar com crianças e adolescentes em situação de risco, oferecendo assessoria a escolas públicas e desenvolvendo projetos junto a abrigos. De acordo com Singer (2010), a Associação Janusz Korczak ajudou na criação do Institute for Democratic Education (IDE), que é atualmente a mais importante organização do movimento internacional pela educação democrática, desenvolvendo projetos em parceria com escolas, universidades e governos municipais.
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