1.4 As escolas democráticas: como surgiram
1.4.4 Sudbury Valley School: individualidade e democracia como estilo de vida
A Educação é um ato de amor, por isso, um ato de coragem. Não pode fugir à discussão criadora, sob pena de ser farsa. Como aprender a discutir e a debater com uma educação que impõe?
Paulo Freire
No final dos anos 60, com os diversos movimentos de revolta contra questões sociais opressoras, havia um ambiente cultural mais propício à formação de escolas democráticas, muitas das quais foram inspiradas em Summerhill. Estas instituições receberam o apelido de “alternativas” porque buscavam transformar a educação tradicional, reelaborando os métodos de trabalho e minimizando as relações autoritárias. Elas configuraram-se em dois grupos: o primeiro, formado por experiências mais improvisadas, consequência do entusiasmo do momento, e o segundo, formado por “experiências que adotaram de forma crítica uma prática consciente” (SINGER, 2010, p. 132). A este último grupo pertencem escolas que até hoje estão em funcionamento.
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Um exemplo que cabe citar é a escola Sudbury Valley School, nos Estados Unidos, fundada em 1968 por um grupo de pais e outras pessoas interessadas em educação, que buscavam identificar qual a melhor forma de educar os jovens. De acordo com Mimsy Sadofsky (2011), cofundadora da instituição, eles decidiram começar “do nada” para ver o que fazia sentido, descartando as ideias propostas por outras escolas e chegando à conclusão de que as crianças são naturalmente curiosas e buscam melhorar seu entendimento do mundo, não necessitando ser obrigadas a isso.
Situada em Framingham, Massachusetts, Sudbury atende alunos da pré-escola ao Ensino Médio. Lá, não existe um currículo e os alunos não são agrupados segundo um critério específico, tendo a liberdade de organizar seu próprio tempo e de associar-se como quiserem. As crianças das diversas idades determinam como, onde e o que farão durante seu dia escolar, sendo esta liberdade o ponto principal da escola, tido como um direito que não deve ser violado. Elas aprendem a pensar por si mesmas por meio de atividades auto- iniciadas, buscando múltiplas fontes de pesquisas e desenvolvendo a habilidade de argumentar logicamente e de lidar com assuntos éticos complexos, podendo utilizar o tempo e o espaço que desejarem (SADOFSKY, 2011). O texto a seguir, retirado do site da instituição, ilustra a filosofia na qual seus idealizadores acreditam:
as premissas fundamentais da escola são simples: que todas as pessoas são curiosas por natureza, que a aprendizagem mais eficiente, duradoura e profunda ocorre quando começa e é perseguida pelo aluno; que todas as pessoas são criativas, se forem autorizadas a desenvolver seus talentos únicos; que a mistura de idades entre os alunos promove o crescimento em todos os membros do grupo; e que a liberdade é essencial para o desenvolvimento da responsabilidade pessoal. (SUDBURY, 2011, tradução nossa).
A confiança na capacidade que têm os educandos de delinearem seu próprio caminho e o respeito às suas escolhas são pontos fundamentais para o sucesso da escola, que hoje atua com sua capacidade máxima de 210 estudantes (SINGER, 2010). Eles não necessariamente escolhem as atividades mais fáceis, muitas vezes colocando desafios a si mesmos, estando de certa forma cientes de seus pontos fracos e fortes. Embora a escola não tenha um currículo predeterminado, seus idealizadores acreditam que a maioria de seus educandos desenvolve ferramentas valiosas que lhes serão úteis em sua vida adulta, tais
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como: concentração, reflexão sobre questões éticas e esforço para alcançar um objetivo, além do autoconhecimento. Identificam a instituição como um lugar onde sobressai o respeito mútuo entre adultos e crianças, onde a liberdade é valorizada e a aprendizagem é integrada à vida (SUDBURY, 2011).
Esta instituição realiza o trabalho com assembleias (School Meetings), composto por todos os estudantes e pela equipe escolar, sendo baseadas no tradicional modelo do New England Town Meeting3. Em tais reuniões, são discutidas as regras de comportamento, o uso das instalações, a rotina semanal, as despesas, a contratação de pessoal, sendo os encaminhamentos determinados por debates e votação. Os estudantes compartilham integralmente a responsabilidade pelo funcionamento da escola, assim como pela qualidade de vida de toda a comunidade escolar. Segundo Singer (2010), o que difere as assembleias realizadas em Sudbury das outras escolas democráticas anteriormente citadas é exatamente esta responsabilidade por questões administrativas que é depositada nos alunos.
Há um sistema judicial destinado a lidar com as infrações às regras da instituição. O Comitê Judicial, constituído por professores e alunos, recebe as reclamações, investiga e aplica sentenças.
Os pais também têm um papel na definição da política escolar. Do ponto de vista legal, a instituição é uma corporação sem fins lucrativos e todos os pais tornam-se membros votantes, ao menos uma vez por ano, para decidir questões de política operacional e fiscal.
A instituição oferece um diploma do ensino médio, etapa conhecida nos Estados Unidos como High School, aos educandos que, no julgamento da comunidade escolar, defenderem adequadamente a tese que se comprometeram em preparar. O Conselho, composto por pais, alunos, professores e membros externos eleitos, discute e vota a entrega do certificado (SINGER, 2010). Alguns estudos publicados pela The Sudbury Valley School Press, a imprensa oficial da instituição, revelaram que os ex-alunos veem-se como membros confiantes e competentes da sociedade, capazes de definir metas para suas vidas e encontrar meios de alcançá-las. Singer (2010) também menciona pesquisas sobre os educandos e Sudbury, que apontam que 75,4% deles, ao sair da escola, continuaram os
3 Os New England Town Meetings são fóruns abertos à comunidade, que incluem as autoridades locais e
regionais, com o propósito de ouvir os ponto de vista deles a respeito de questões públicas. Durante o processo de deliberação, os membros podem votar leis e orçamentos.
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estudos em diversas áreas de atuação. Aqueles que desistiram de estudar mencionam que as principais causas foram: problemas familiares, falta de recursos financeiros e desapontamento com a vida escolar. Quase 30% dos entrevistados indicaram alguns pontos que os deixaram insatisfeitos com a escola, tais como problemas com a apresentação do currículo, dificuldades de adaptação a um sistema de aprendizado diferente e dificuldades em disciplinas específicas. O restante coloca como benefícios da educação em Sudbury aspectos como responsabilidade, inexistência de medo da figura de autoridade, incentivo ao estudo, desenvolvimento pessoal e facilidade de comunicação. De maneira geral, 81,1% dos entrevistados afirmam estar muito satisfeitos com sua formação, 15,9% moderadamente satisfeitos e o restante não respondeu.
Atualmente, Sudbury serve de inspiração para diversas escolas tanto nos Estados Unidos como em outros países, que se organizam em uma rede que busca exatamente relatar suas experiências e voltar-se à pesquisa: a Sudbury Education Resourses Network.
1.4.5 Escola Democrática Hadera: democratização das escolas públicas