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ESPAÇO PÚBLICO: RETROSPECTIVA E PERSPECTIVAS

O espaço público é tão antigo quanto à cidade (BORJA y MUXÍ, 2003; GOMES, 2002 e YÁZIGI, 2000). As primeiras cidades tinham como marca a imponência dos locais de encontro, como foi o caso da ágora grega, como símbolo do poder, ou o local de tomadas de decisões públicas como o fórum romano. De acordo com Saldanha (1993), esses locais eram centrais e vitais, historicamente reconhecidos como o ponto de encontro dos cidadãos e símbolo da participação do povo nas questões políticas, além de suas funções comerciais.

Observamos em Dupas (2003) e Jovchelovitch (2000) que, para os gregos, uma vida vivenciada na privacidade, ou seja, sem a participação na esfera pública, significava a privação das faculdades humanas mais valiosas, significava ser privado da realidade que deriva de ser visto e ser escutado por outro, ser privado de uma relação que se define por estar ligado e, ao mesmo tempo, separado de outros, assim como só poderia ser bom político quem, na esfera privada, fosse ético, moral e digno. Estas eram as prerrogativas da cidade política.

Cremos que, a princípio, a discussão sugere uma tentativa de diferenciação entre esfera pública e esfera privada para, na seqüência, esboçarmos uma noção de espaço público, passando por algumas das principais idéias que foram sobre ele desenvolvidas, ao longo do tempo. Mesmo que esses conceitos extrapolem a temática aqui trabalhada, as particularidades que os mesmos angariaram no decorrer do tempo são, a nosso ver, de fundamental importância para a compreensão das relações que esses estabelecem com o espaço público enquanto “espaço concreto”, da praça ou da rua, por exemplo, na atual conjuntura do processo de estruturação da cidade.

Essa é também a preocupação apresentada por Sobarzo (2007) em sua proposição teórico-metodológica para a análise do espaço público. Ao evidenciar o recente e crescente interesse pelos estudos do espaço público, afirma que convivemos também com uma constante generalização na adoção dessa expressão, ou seja, nem todas as análises estão pautadas efetivamente no espaço público, visto que consideram tanto a esfera pública, quanto a vida pública, tratando-as como espaço público.

em torno da dialética relação entre o público e o privado, destacando certas distinções teórico-conceituais que possam subsidiar nossa compreensão dessa complexa relação, assim como, ajuda-nos na qualificação e atribuição de um estatuto a determinados lugares da cidade enquanto espaços públicos ao longo do tempo.

Em relação a tal diferenciação, ainda na cidade-estado grega, Jovchelovitch (2000) esclarece-nos que:

[...] a vida política e a vida domiciliar sempre existiram como entidades independentes - embora relacionadas - coincide com o contraste entre uma esfera pública e outra privada. O que caracterizava a esfera domiciliar, ou esfera privada era que nela as pessoas viviam juntas de acordo com suas necessidades e o impulso que as guiava era a vida ela mesma; nessa esfera se encontram os ciclos do nascimento e morte, e, nas suas sombras, tudo o que se relacionasse com as necessidades biológicas da vida era mantido em segredo e longe dos olhos dos demais. A esfera da

polis, ou do domínio público, por outro lado, era o reino da liberdade

e a relação entre a esfera da vida pública e da vida privada se assentava sobre o fato de que o controle das necessidades da vida dentro do lar era condição prévia para a liberdade da polis. Simplesmente libertar-se do domínio da necessidade, contudo, não pode ser confundido com a liberdade, porque a liberdade envolve seu próprio espaço - o espaço público da palavra e da ação (JOVCHELOVITCH, 2000, p. 48 - 49).

Observamos, também, segundo Habermas (1984) que, para os gregos, existia uma sobrevalorização da vida no âmbito público e esses valores se materializavam na polis, em oposição à vida do oikos, ou seja, dentro do lar. Nesse caso, a esfera pública consistia no local da liberdade e da continuidade, sendo que a esfera privada era o locus da necessidade e transitoriedade. Apresenta-se aqui uma relação de complementaridade entre as esferas pública e privava, na medida em que a superação das necessidades da vida do lar proporcionava as condições necessárias para a atuação na vida pública.

Esse pressuposto corrobora a perspectiva política de Arendt (1983), para a qual o lugar público consiste no espaço da identidade e do reconhecimento por meio de referenciais comuns, que proporcionam a identificação, o diálogo e, principalmente, a ação da coletividade. Na visão de Freitag (apud DUPAS, 2003), na teoria política clássica, desde os gregos, o espaço público era o espaço da liberdade dos cidadãos, onde estes exerciam sua capacidade de participação crítica na gestão

de assuntos comuns sob o princípio da deliberação; um espaço regulado que se opunha, portanto, ao espaço privado regido pela dominação do poder.

A conotação de público ou de vida pública, aqui empregada está estritamente ligada à participação exclusiva dos “cidadãos” da época. Ressalta Habermas (1984) que essa atuação direta na vida pública era algo exclusivamente dos “homens livres”, não incluindo nesse patamar as mulheres e os escravos, por exemplo. Observa Resende (2005) que:

A praça era o local onde se discutiam questões de interesse desses cidadãos (os eleutheroi), questões reduzidas a um espaço determinado pela relação de dominação que eles mantinham na sociedade em que estavam inseridos. O espaço público era então reduzido aos partícipes dessa “comunidade”, atores de uma comunicação ainda distante de ser social, de uma comunicação cujo objetivo se restringia ao conceito de “tornar comum”, comum limitado à esfera do koinos, mundo dos gregos no espaço da polis (RESENDE, 2005, p. 130).

Na seqüência a que nos propomos, no início dessa discussão, vinculada à idéia de “espaço público” nos aglomerados urbanos ao longo do tempo, queremos enfatizar que foi durante os idos da Idade Média que surgiram as primeiras tensões na complexa relação entre o público e o privado. Sobarzo (2004, p. 196), fundamentado na perspectiva habermasiana, enfatiza que não é possível distinguir esfera pública e esfera privada usando critérios institucionais nesse período, mas os atributos da soberania do senhor feudal passam a ser chamados de públicos, com isso a representatividade pública começa a ser relacionada aos atributos das pessoas e seus códigos de comportamentos, especialmente os da nobreza.

Embora, seja nesse mesmo período, nas cidades da Idade Média que, segundo Resende (2005), surgem as “comunidades”, enquanto conjuntos de espaços apropriados pelo povo separadamente dos locais privados. Nasce com o direito romano à institucionalização e à delimitação entre o público e privado. Para os romanos, o comum estava associado a “locais públicos” como a “rua” e a outros espaços de ordem pública que não eram de domínio de apropriação privada.

Para Arendt (1983), a figura do senhor feudal, que encarnava o poder nesse período, representou a transferência para a esfera privada das atividades humanas e, conseqüentemente, o surgimento da noção de “bem comum” como uma instância administrada por uma pessoa, enquanto todos os demais cuidam dos seus assuntos na privacidade. Assim, produz-se um esvaziamento da dimensão política da esfera

pública. Essa definição mostra claramente a dificuldade de diferenciar, de forma precisa, uma noção do que seja o espaço público, mas já é possível identificar uma primeira privatização da esfera pública (SOBARZO, 2004, p. 126).

No intuito de complementar e qualificar essas noções gerais sobre tais noções em torno da relação entre público e privado, fazemos uso das considerações de Arendt (1983), a qual identifica momentos chaves para a compreensão da relação dialética entre os referidos conceitos. A princípio, esta autora enfatiza que, na Antigüidade, existia uma “esfera pública”, embora, os “cidadãos” que participavam dessa esfera fossem aqueles que tinham propriedade privada, como já identificamos no início dessa discussão. Com o advento da Modernidade, esclarece que surge a “esfera social” que relegou para a intimidade a capacidade de ação dos homens, através da normatização das pessoas e seus comportamentos.

Um fator importante e que merece ser destacado em relação aos espaços públicos diz respeito às suas funções comerciais ao longo do tempo. Além do que caracteriza a cidade como política inicialmente, tendo no espaço público um ponto de referência para suas ações, evidenciamos a posteriori que é nesse mesmo espaço público que vão se concentrar as principais atividades comerciais da cidade, ou, segundo Lefebvre (1999), uma nova característica, da cidade mercantil. Esse processo se evidenciou por meio das praças de mercado mantidas por meio das feiras locais e regionais e até internacionais.

Segundo Monte-Mór (2006) esse processo tem uma significativa ligação com as relações de troca estabelecidas na “cidade mercantil”, contribuindo para a descentralização do poder político concentrado nos palácios para as praças de mercado, culminado com a entrada da burguesia na cidade e sua respectiva conquista. Enfim, temos aí, o anúncio da emergência da urbanização, o que vai se constituir a posteriori, na cidade moderna.

No entanto, quando nos referimos à esfera pública nos aglomerados urbanos modernos, não podemos deixar de tomarmos como base a idéias de Habermas (1984) e Sennet (1998), os quais caracterizam o surgimento e evolução nesse período dessa esfera social a qual denominam de “esfera pública burguesa”, enquanto uma esfera que se refere ao público de forma geral, no entanto, formada por um grupo de pessoas que se reúnem em público para discutir questões de interesses privados.

No entanto, é entre a noção de “esfera pública” e “esfera privada”, na relação entre esse par dialético que surge a idéia do “social”, emergindo também a idéia de “cidadão” (DUPAS, 2003) e suas demandas, bem como as preocupações com a vida pública, os interesses comuns e a formação de consensos. Nessa perspectiva, Sobarzo (2004) fundamentando-se na idéia de Habermas, enfatiza que, num primeiro momento, a “esfera pública burguesa” correspondia a uma esfera pública literária, representada na reunião de pessoas em cafés e salões para a crítica literária e política. Passando para outro momento, a esfera pública literária dá lugar à esfera pública política, que inclui o surgimento de instituições (por exemplo, clubes partidários), a circulação de órgãos de imprensa política diariamente e o princípio de publicidade dos atos do governo, sob os auspícios do Estado.

Na concepção de Jovchelovitch (2000),

[...] a esfera pública burguesa envolvia mecanismos institucionais que buscavam a racionalização da vida pública de forma a abrir o Estado ao escrutínio dos cidadãos. Ao mesmo tempo, ela envolvia um diálogo entre os cidadãos incorporado certas características ideais como: o debate no espaço público deve ser aberto e acessível a todos; as questões em pauta devem ser de interesse comum a todos os participantes; interesses meramente privados eram inadmissíveis; desigualdades de posição eram desconsideradas; e, as decisões eram tomadas por participantes em igualdade (JOVCHELOVITCH, 2000, p. 56 - 57).

É nesse sentido que, para Marzochi (2005),

[...] a esfera pública seria composta por cidadãos livres de interesses privados ou estatais; uma instância intermediária entre o Estado e o mercado, reservada ao debate público, à disputa de interesses e concepções conflitantes da realidade. Algo construído coletiva e permanentemente, essa esfera possui como instrumento principal a imprensa de opinião que, diferente dos meios de comunicação de massa, preserva a dimensão reflexiva (MARZOCHI, 2005, p. 64, grifos da autora).

No entanto, como relata Serpa (2004 e 2007, p. 17), “a partir da evolução do capitalismo e com o avanço do liberalismo, dissolve-se, de fato, essa relação original entre o público e o privado, através da decomposição generalizada das características essenciais da esfera pública burguesa”, o que de certa forma, também contribuiu igualmente para a erosão do espaço público concreto e suas funções de local de discussões e consensos em torno do bem da coletividade.

[...] o espaço que deveria ser do debate, da crítica, da concorrência entre opiniões e definição de interesses gerais, transforma-se pela influência de interesses privados que nele passam a ser privilegiados. (...) a publicidade ocupa o lugar da opinião pública, confere prestigio a pessoas e coisas e faz com que interesses particulares sejam aceitos como gerais. Grandes corporações, inclusive o Estado, apóiam-se na publicidade com o objetivo de aparentar o consentimento de massa (MARZOCHI, 2005, p. 65).

Esse declínio da esfera pública ou da “cultura pública” levou Sennet (1998), a anunciar da mesma forma o declínio do homem público, o que nos oferece elementos para refletir sobre a mudança dos conteúdos sociais e culturais dos espaços públicos e de suas formas de apropriação. Já, para Habermas (1984), a esfera pública burguesa perdeu suas características tradicionais pela debilitação de suas funções críticas e, principalmente, por se transformar num embate de forças sociais. Enquanto o primeiro autor propicia que pensemos sobre o esvaziamento do espaço público na cidade moderna, ou seja, a crise do ponto de vista da utilização do espaço público concreto, o segundo possibilita-nos concluir que esse espaço, enquanto lugar de diálogos e debates, perdeu importância, ou melhor, foi transformado num espaço controlado por processos midiáticos de interesses cada vez mais particularizados, descaracterizados dos interesses da coletividade, uma refuncionalização da esfera pública em detrimento da política institucional e da comunicação de massa. Ressaltamos aqui que, embora Habermas seja referência fundamental no tocante à noção de espaço público, sua abordagem tem uma conotação voltada para a formação da “esfera pública comunicativa” no espaço público e não enfocando a dimensão espacial, o “espaço público concreto”, mas subsidiando o processo de publicização da vida ocidental, a qual comparece como aspecto fundamental na compreensão do espaço público no contexto das cidades.

É, nessa perspectiva, que o próprio Habermas denuncia, em sua análise, que fenômenos como o consumismo, os meios de comunicação, a expansão das sociedades industriais avançadas, constituem-se em alguns dos elementos que conspiram para a debilitação da esfera pública contemporânea, para a erosão do espaço público e, por conseqüência, dos seus atributos básicos.

Nessa mesma linha de raciocínio, esclarece-nos Dupas (2003),

[...] que na modernidade, com o iluminismo, a economia vestiu o manto da ciência, pretendendo abranger todas as atividades do homem, tornando-o um ser previsível e absolutamente racional. Surgiram então as fantasias do mercado perfeito e da mão invisível.

suficiente para reencontrar o equilíbrio entre as esferas pública e privada (DUPAS, 2003, p. 28).

Essa idéia é reforçada por Jovchelovitch (2000, p. 60) ao analisar a esfera pública, atualmente, a partir da discussão em dois níveis principais:

x Como um conceito-guia no projeto político de estabelecer uma democracia radical;

x Como um fenômeno histórico, aberto à avaliação e crítica.

Nesse sentido, a “esfera pública” permanece enquanto uma idéia paradigmática para pensar a democracia e a possibilidade de um espaço para o exercício do diálogo da vida comum, um espaço compartilhado. Enfim, de forma direta ou indireta, queremos ressaltar que essas diferentes concepções entre o que sejam o público e o privado por meio das suas respectivas esferas, refletem-se diretamente nas formas dos usos e não-usos e da apropriação dos espaços públicos pela sociedade que produz e reproduz esses lugares da cidade, bem como neles se produz e reproduz. Daí, segundo Lavalle (2005, p. 39) a necessidade e a pertinência de pensar no espaço público a partir da articulação de diferentes dimensões como:

x O social - consubstanciado nas instituições civis da vida pública, na “arte da

associação”, ou sociedade civil, nas regras de civilidade que tornam possível o convívio social em um mundo de estranhos (grandes urbs).

x O político - cristalizado no arcabouço de instituições incumbidas, tanto de processar decisões vinculantes, quanto de implantá-las, mediante imposição de penas se necessário.

x O comunicativo - entendido não apenas como expressão e recepção de conteúdos, mas principalmente como construção de consensos na percepção social de mundo.

Levando em consideração a inter-relação entre tais dimensões, queremos enfatizar que, ao fazermos referência ao “espaço público urbano”, temos que frisar as determinações estabelecidas na relação entre a esfera pública e esfera privada, no entanto e principalmente, aquelas que são levadas para o espaço público concreto (a rua, a praça) para conhecimento da coletividade e do bem comum.

Como enfatiza Serpa (2007), a relação entre forma e conteúdo é indissociável e a discussão sobre o espaço público necessariamente passa pelas determinações que dão concretude à esfera pública urbana e a um estilo de vida

meio da sua assimilação ou não, pela coletividade, em suas práticas socioespaciais cotidianas, integrantes do modo de vida urbano.

Considerando tais pressupostos, a busca pela compreensão, ou uma noção geral do que seja a “esfera pública”, ou a “esfera privada” é fundamental para a formulação a posteriori da noção de “espaço público” enquanto espaço concreto, ou seja, uma análise, que a nosso ver, proporciona à Geografia demonstrar por meio da estruturação da cidade, como estas noções se interpenetram, ora se opõem e ora se complementam, de acordo com as práticas socioespaciais, por meio das quais os interesses privados, cada vez mais, apropriam-se do espaço público e o privatizam, notadamente a partir da cidade moderna.

Esse aspecto merece destaque em nossa discussão pelo fato de que a noção de espaço público, nas atuais circunstâncias, não pode abdicar do espaço público no plano do concreto e, nesse sentido, deve ser visto por meio da relação entre as formas e os seus conteúdos. Como enfatiza Gomes (2002):

[...] as práticas sociais são em certa medida, dependentes de uma dada distribuição ou arrumação das coisas no espaço. (...) o lugar físico orienta as práticas, guia os comportamentos, e estes por sua vez reafirmam o estatuto público desse espaço, e dessa dinâmica surge uma forma-conteúdo, núcleo de uma sociedade normatizada, o espaço público (GOMES, 2002, p. 164).

Ou, ainda, como nos esclarece Caldeira (2000, p. 302), o espaço construído não é um tipo de “cenário neutro para a expansão das relações sociais”. (...) “a qualidade do espaço construído inevitavelmente influencia a qualidade das interações sociais que lá acontecem”.

A própria noção de espaço público enfatizando as versões da “moderna” cidade ocidental está calcada nos elementos básicos da “experiência moderna de vida pública” que são

[...] a primazia e abertura de ruas; a circulação livre; os encontros impessoais e anônimos de pedestres; o uso público e espontâneo de ruas e praças, e a presença de pessoas de diferentes grupos sociais passeando e observando os outros que passam, olhando vitrines, fazendo compras, sentados nos cafés, participando de manifestações políticas, apropriando as para seus festivais e comemorações (CALDEIRA, 2000, p. 302).

As ruas abertas, os espaços de encontro e circulação, bem como o local da convivência e da interação, são alguns dos pressupostos da imagem da cidade

moderna. No entanto, em relação ao cumprimento dessas funções básicas idealizadas, não podemos deixar de enfatizar, segundo Dupas (2003, p. 66), um processo em curso, que modifica desde as grandes avenidas às pequenas ruas de nossas cidades, transformando-as em imensos espaços de outdoors, placas de anúncios ou logomarcas, tornando a paisagem pública urbana uma espécie de “lixo midiático privado”.

Em face desse quadro, caracterizado pela visão economicista e funcional do processo de urbanização a partir das “sociedades industriais e complexas” (DA MATTA, 1991), é fundamental analisar as formas de estruturação, produção e reprodução das mesmas, buscando novos modos de pensar os usos e os modos de apropriação de seus espaços de forma diferenciada, orientando a reestruturação da cidade, considerando-se não pura e simplesmente as determinações econômicas, políticas e técnicas, mas também seu sentido social, como nos chama atenção Damiani (2001, p. 162), o social não pode permanecer em termos de análise, submerso aos aspectos econômicos ou políticos meramente. “O econômico e o político pressionam a vida social, no sentido de ela se dobrar à vida privada, num mundo tecnológico e economicamente desenvolvido”, mas que passa a ser a negação de um processo de humanização da cidade e/ou da sociedade urbana (LEFEBVRE 2001).

Quando nos referimos a uma cidade mais humana, a uma cidade constituída de cidadãos, concordamos com a concepção de Gomes (2002), para quem, essa não é uma cidade qualquer,

[...] mas uma cidade que se define como uma associação de pessoas unidas por laços formais e hierárquicos; uma cidade que dispõe de lugares próprios a essa nova atividade e natureza do homem grego, espaços públicos; uma atividade que não vem simplesmente do fato de morar juntos, pois nem todos os moradores são originariamente cidadãos, o que nos dá uma medida da