1.6. Espiritualidade, saúde e bem-estar Sumário da informação empírica.
1.6.3. Espiritualidade, bem-estar subjectivo e qualidade de vida.
Mais do que os impactos da espiritualidade na psicopatologia, interessa especialmente para os objectivos deste estudo a considerar dos efeitos da espiritualidade/religiosidade (E/R) no bem-estar psicológico e subjectivo, nomeadamente na sua relação com variáveis como a felicidade, satisfação com a vida, ou com uma avaliação subjectiva da qualidade de vida.
Numa revisão já clássica sobre os factores que afectam a felicidade, Argyle (1999) concluiu que “hapiness is greater for those who are more religious, however this is assessed [itálico nosso], though the effect is often small” (p. 365), identificando simultaneamente o apoio social como o factor explicativo desta relação.
Globalmente têm sido apontadas na literatura relações positivas da espiritualidade (E/R) com um conjunto de variáveis de bem-estar, entre as quais afectos positivos, apoio social e auto-estima, desenvolvimento pessoal, competência e controlo, satisfação e felicidade
(para uma revisão destes estudos ver Koening et al., 2001; Paloutzian & Park, 2005 ou Pargament, Smith, Koening, & Perez, 1998).
A maioria desta literatura mistura novamente as diferentes conceptualizações de espiritualidade que vão como vimos desde medidas comportamentais como práticas religiosas e espirituais (frequência de serviços religiosos, oração ou meditação) até conceitos apenas relacionados, como a religiosidade ou a transcendência do eu.
Face aos objectivos do nosso trabalho, interessa-nos principalmente a informação empírica que relacione uma avaliação subjectiva da espiritualidade (e.g., experiências, pensamentos e crenças espirituais) com medidas de qualidade de vida (QV) que pressupõem uma visão subjectiva e holística da saúde e do bem-estar. A grande maioria dos estudos que incluem avaliações subjectivas de espiritualidade e QV são de dois tipos: a) sínteses qualitativas, mais ou menos abrangentes, da informação disponível (e.g., Mytko & Knight, 1999; Pargament et al, 1998; Paloutzian & Park, 2005); ou estudos de natureza correlacional, realizados principalmente no âmbito da validação dos diferentes instrumentos que têm avaliado a espiritualidade enquanto componente da QV (e.g., Peterman, Fitchett, Brady, Hernandez, & Cella, 2002; WHOQOL SRPB Group, 2006).
Ao contrário das múltiplas meta-análises já disponíveis sobre a relação E/R e resultados objectivos de saúde, que seja do nosso conhecimento, apenas uma meta-análise foi até ao momento publicada com o objectivo de resumir quantitativamente os estudos sobre a relação entre avaliações subjectivas da espiritualidade e da qualidade de vida (Sawatzky, Ratner & Chiu, 2005).
Preocupados precisamente com esta questão conceptual e o seu impacto nos resultados, os autores optaram por restringir os estudos seleccionados aos que operacionalizavam a espiritualidade (E) tendo subjacente uma definição existencial mas também relacional e necessariamente transcendente do construto (ver definição de espiritualidade de Larson et al., 1998 na Tabela 1, p. 9). Medidas exclusivamente existenciais e que não implicassem a natureza relacional/transcendente foram excluídas. No mesmo sentido foram apenas retidos estudos que faziam uma avaliação subjectiva da QV global, satisfação com vida ou bem-estar subjectivo (com indicadores unidimensionais) ou que permitiam um somatório das diferentes dimensões ou aspectos desta QV. A espiritualidade foi portanto assumida enquanto um preditor independente da QV e ainda distinto de outras
componentes relacionadas mas também preditoras, como o bem-estar físico, psicológico ou social.
Dos 3040 estudos inicialmente identificados na revisão multidisciplinar realizada (o que revela a abrangência da investigação desta temática), ficaram retidos 62 efeitos principais de apenas 52 estudos, dada esta restrição imposta pelos critérios rigorosos das definições empregues e outros parâmetros metodológicos (Sawatzky et al., 2005). A grande maioria foram precisamente estudos de validação de instrumentos de mensuração da espiritualidade, publicados até 2002. Por este motivo, o SWBQ (Gomez & Fisher, 2003) não foi incluído na análise, apesar de a sua definição conceptual claramente o permitir.
Os resultados encontrados suportam a existência, em média, de uma relação moderada entre a espiritualidade e a qualidade de vida (E-QV). Esta magnitude moderada da relação (menor que 12% de sobreposição entre construtos), reforçou o pressuposto inicial dos autores segundo o qual a espiritualidade deveria ser entendida enquanto construto independente ou autónomo da QV - embora com esta relacionado – e não como mais uma das dimensões de QV, como é proposto em algumas recentes operacionalizações deste construto (e.g., WHOQOL-100; WHOQOL Group, 1998).
Por outro lado, a grande variabilidade da magnitude dos efeitos principais primários dos diferentes estudos incluídos nesta meta-análise, reforça a expectativa de que a relação entre E-QV possa ser moderada por um conjunto de outros factores, quer metodológicos quer conceptuais. De facto, neste estudo de Sawatzky et al. (2005) verificou-se que a natureza da definição e operacionalização da espiritualidade (“maioritariamente existencial”, “essencialmente transcendental”, “existencial e transcendental” ou “ambígua”) ou da QV (“QV-multidimensional”, “multidimensional centrada na doença” e conjugação instrumentos – “Qv unidimensional, bem-estar e satisfação com a vida”) teve impacto na magnitude dos efeitos encontrados para a relação E-QV (27% da variância nos resultados foi devida a este factor moderador). Como seria expectável, as relações E-QV mais fortes estabeleceram-se com definições maioritariamente existenciais e as mais fracas com as essencialmente relacionais/transcendentais. Também não se verificaram associações significativas com os indicadores multidimensionais da QV mas só com as outras duas categorias de mensuração. Parece portanto que a força desta relação E-QV dependerá da maneira como se definem e operacionalizam os dois construtos. Os estudos que incidem sobre a análise destas relações deverão portanto ter em consideração também este potencial factor moderador, devendo ser
interpretados à luz do modo como as duas variáveis forem medidas em cada estudo particular (Sawatzky et al., 2005).
Vários autores têm igualmente chamado a atenção para a importância de controlar também factores demográficos, sociais e comportamentais quando se analisam as relações entre espiritualidade e saúde (Miller & Thoresen, 2003; Oman & Thoresen 2002; Sloan, Bagiela, & Powell, 1999; Thoresen, 1999). Na meta-análise de Swatzky et al., os autores não analisam as interacções de variáveis como o sexo, idade, ou filiação religiosa, devido ao reduzido número de estudos retidos e ausência dessa informação nos estudos originais. Não obstante, a magnitude das relações encontradas manteve-se bastante consistente nas várias análises realizadas, mesmo tendo em conta diferenças manifestas nestas variáveis sócio- demográficas nas amostras originais. Este facto parece reforçar portanto, a estabilidade da relação E-QV face a este tipo de factores.