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Espiritualidade do cuidar e a ciência da Enfermagem

No documento TESE FINAL Patricia Pacheco (páginas 30-32)

1. ESPIRITUALIDADE, ENFERMAGEM E DESENVOLVIMENTO

1.2. Espiritualidade do cuidar e a ciência da Enfermagem

Na sua obra mais recente, Enfermagem Pós-moderna e Futura, Watson projeta a enfermagem e os cuidados de saúde para lá de meados do século XXI, perspetivando-a como um modelo de práticas para além da medicina ocidental, alertando para a necessidade de um novo paradigma mais largo e extenso e que reconhece a relação simbólica e sagrada entre a humanidade-tecnologia-natureza e universo. Assim, claramente, “propõe uma busca dos aspetos

espirituais do nosso ser e atitudes de saúde e cura.” (Watson, 1999, p. xiv) A mesma autora

acredita também que é essencial uma base sólida em humanidades para o processo de cuidar holístico dos pacientes. Apoiando-se em Carl Rogers, defende que o sucesso terapêutico estava mais dependente da relação estabelecida entre terapeuta-paciente do que da adesão aos métodos tradicionais. Acredita que o cuidador apenas devia orientar por meio da compreensão, empatia – juntos, a pessoa e o terapeuta, devem compreender o significado da experiência do primeiro. (Torney e Alligood, 2007)

Um modelo de cuidar inclui, de acordo com Watson (2007), arte e ciência, humanidades, espiritualidade, e novas dimensões da medicina e da enfermagem que contemplam corpo-mente- espírito. É de referir os dez fatores de cuidados que são a base da teoria de Watson (2007): 1. Abraçar valores altruístas e uma prática amorosa para consigo e com os outros; 2. Transmitir fé e esperança e honra aos outros; 3. Ser sensível a si e aos outros, alimentando crenças e práticas individuais; 4. Desenvolver ajuda – confiando – relações de cuidar; 5. Promover e aceitar sentimentos positivos e negativos quando automaticamente se ouve a história de outrem; 6. Usar métodos de resolução de problemas científicos e criativos para a tomada de decisão do cuidar; 7. Partilhar ensinamentos e aprendizagens que atendem às necessidades individuais e compreensão

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de estilos; 8. Criar um ambiente de cura para o corpo físico e espiritual que respeite a dignidade humana; 9. Assistir às necessidades humanas físicas, emocionais e espirituais; 10. Abrir-se ao mistério e permitir que milagres aconteçam.3

Os três primeiros fatores servem como fundamento filosófico para a ciência do cuidado, o oitavo fator alerta para a necessidade de se reconhecer a influência do ambiente interno (bem- estar mental e espiritual, e as crenças socioculturais) e externo (o conforto, a privacidade, a segurança e o ambiente limpo e esteticamente agradável) na manutenção da saúde da pessoa.

Assim se percebe a importância do diálogo e do conhecimento sobre o ambiente interno e externo particularmente com a comunidade, extrapolando para a intervenção de enfermagem, não se impondo com métodos tradicionais no sentido paternalista, mas promovendo a capacitação da mesma a partir das suas potencialidades e autodeterminação, onde o respeito e conhecimento da cultura são fundamentais.

Todos os países, regiões e pequenos locais têm elementos que concedem aos seus habitantes uma ligação com a sua história. Neste sentido, a cultura, enquanto conjunto de valores, costumes, instituições, obras, perspetivas, comportamentos, mitos, ideologias e imagens construídas por determinada sociedade, assume-se como um elemento essencial na existência de cada um, uma vez que influencia o modo como determinada população vive, encara e age face a situações e fenómenos (Teisserenc, 2002). A cultura constitui não só uma herança social, mas também um quadro de referência na regulação das suas relações, através da qual as comunidades percecionam e racionalizam o mundo, assegurando a integração dos indivíduos na sociedade. É a cultura que transmite valores, preceitos e representações coletivas que coordenam as relações humanas. (Teisserenc, 1997)

As pesquisas qualitativas de Hay (1987) revelam que as pessoas frequentemente experimentam uma preocupação quando sofrem stresse, relacionado com emoções, doença física ou outras formas de crise. Contudo, estas experiências permanecem muitas vezes na esfera secreta da pessoa doente por causa do medo de que os outros as possam julgar, ridicularizar, desvalorizar. Há, então, uma grande probabilidade de os pacientes trivializarem ou inibirem a consciência espiritual, se os enfermeiros parecerem não se preocupar nem valorizar essas experiências ou permanecerem insensíveis às suas necessidades. (Narayanasamy, 1999)

Algumas pesquisas apontam a espiritualidade como fundamental na constituição holística da pessoa, podendo servir como uma estratégia de coping. Baldacchino e Draper concluem que estratégias de coping espiritual envolvendo “relationship with self, others, Ultimate other/God or

nature were found to help individuals to cope with their ailments. This may be because of finding

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meaning, purpose and hope, which may nurture individuals in their suffering”. (Baldacchino e

Draper, 2001, p. 833)

Outros estudos de investigação identificam várias estratégias de coping que pessoas crentes, aqueles que professam uma fé em algo, normalmente através dos cânones de determinada religião, ou não podem usar, como meditação/contemplação pela qual o indivíduo conecta com o seu interior e o seu conhecimento se fortalece; relação com outros, família e amigos; esperança que as coisas serão melhores; ajudar outros, dando e recebendo amor; apreciando a natureza e os seus fenómenos. (Baldacchino e Draper, 2001)

Estas estratégias promovem nos indivíduos a capacidade de autodeterminação e capacitação para encontrar sentido na vida, a paz de espírito e significado na doença. Logo, a doença pode ser encarada como um encontro espiritual, uma experiência de auto-crescimento através dos desafios da vida.

Na promoção da saúde, Ross (1996) afirma que “if nurses are to fulfill their function (...),

then spiritual care is a nursing responsibility and not an optional extra” (cit. por Baldacchino e

Draper, 2001, p. 839). Então, os enfermeiros, para além, de articulação com a equipa multidisciplinar para melhor responder à dimensão espiritual do cuidar, devem, paulatinamente, estudar e aprofundar a questão da espiritualidade no seu cuidar e ir incorporando estratégias no sentido de promover essa dimensão em cada pessoa ao seu cuidado.

No documento TESE FINAL Patricia Pacheco (páginas 30-32)