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Estado de Sa nta Cruz: utopia ou realidade ?

OS MOVIMENTOS SEPARATISTAS BAIANOS

3.2 Estado de Sa nta Cruz: utopia ou realidade ?

Mesmo com os freqüentes ape los regiona is, no s primeiros anos da década de 1930 não formulou-se propo stas separatistas concreta s. O que se pode conside ra r, por te r che gado mais perto disso entre as décadas de 1930 a 1960, foi o projeto de Eusín io Lavigne, criado em 1941 e publicado em seu livro “Re gionalismo e problemas co rre latos”, onde propõe u m reajustamento territo ria l do sul-ba iano: I n t e g r a d o n a s n e c e s s i d a d e s d o s u l d a Ba h i a e , p r i n c ip a lm e n t e , n a r e g iã o t r ib u t á r i a d o p o r t o d e I l h é u s , a d v o g u e i, c o m o p r e f e i t o d e s s a c i d a d e , e m a p e l o a o g o v e r n o d a U n i ã o , u m n o v o r e a j u s t a m e n t o t e r r it o r ia l n a d i v is ã o a d m i n is t r a t i v a d o Br a s il , n a q u a l s e c o n t e m p la r i a o s u l- b a i a n o , c o m o d e p a r t a m e n t o d e vá r i a s d i vis õ e s r e g i o n a is , d a d a a im p o r t â n c i a d e s u a s r e n d a s , d o s e u s o l o u b é r r im o , d a s u a p o p u l a ç ã o c r e s c e n t e , d a s u a e x p a n s ã o c o m e r c ia l e a g r í c o l a e d a s u a c a p a c i d a d e a u t o n ô m ic a . ( . . . ) O p r o g r e s s o d e I l h é u s , c o m p a r a d o a o d e o u t r a s c i d a d e s c a c a u e ir a s , d e ve - s e m e s m o , e m g r a n d e p a r t e , a o s e u c o m é r c io c o m o S u l d o p a í s , e , p o r t a n t o , à in f lu ê n c ia d e t a is r e la ç õ e s . A g r a n d e za p o l í t ic a e a d m i n is t r a t i v a d o s g r a n d e s Es t a d o s , s e e n f r a q u e c e a ç ã o p o l í t ic a d a U n i ã o , e n f r a q u e c e t a m b é m a s in ic ia t i va s d o s m u n ic í p i o s , d e s a n im a d o s d i a n t e d a d e s v it a li za ç ã o d o s m u n ic í p i o s s o b a s t e n a ze s d a c o m p r e s s ã o e s t a d u a l . U m d o s m a is s é r io s p r o b l e m a s , p o r t a n t o , d o s u l d a B a h i a é a s u a f a l t a d e a u t o n o m ia a d m i n is t r a t i va , e m d e p a r t a m e n t o s e r e g i õ e s .163

O movimento sepa ratista na região cacaueira só obte ve sua concretização em 1978, quando o deputado federal Henrique Cardoso W eyl e Silva apre sentou o projeto de Lei Complementar

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LAVIGNE, Eusínio. Regionalismo e problemas correlatos (Redivisão territorial do Brasil. O que seria o ginásio de Ilhéus. Pensamento socialista). Salvador: Tipografia Ita, 1955. p. 6 -7.

n.º 194, que determinava a criação d o Estado de Santa Cru z pe la separação de algu ns municíp ios do sul e sudoeste baiano e pela anexação de outros municípios do norte de Minas Gerais. Em 1985, o proje to foi reap resentado pelo então deputa do federal Fernando Gomes de Olive ira, atra vés do P rojeto de Le i Complementar n.º 253, contudo fazendo algumas alterações como ve rsa remos adiante.

Nas décadas de 1970 e 1980, o Brasil esta va sofrendo algumas reestruturações políticas e sociais, lutando pela abertura política, pe la rede mocratiza ção e pelo voto d ireto e un iversal. A lém disso, ha via uma comissão no Con gresso Naciona l que estuda va a possib ilidade de uma redivisão te rrito ria l do Brasil, com a justificativa de que “era p reciso divid ir para melho r ad ministrar”. A referida comissão influenciou na idéia de criação do Estado de Santa Cru z, visto que o autor do Projeto de Lei Comple mentar que determina va a criação do novo E stado era Re lato r-Gera l da Comissão de Redivisão Territo ria l do Brasil.164

Tanto o projeto ap resentado em agosto de 1978 por Henrique W eyl Cardoso e S ilva, quanto o p roje to apresentado po r Fernando Gomes de Olive ira em 1985, basearam-se na Lei Complementar n° 20, de 01 de junho de 1974, norma pragmática que re gulamentava o art.º 3.° da Con stitu ição Federa l de 1967, dispo ndo sobre a criação de estados e territórios, a qua l atribu ia po deres aos Congressistas de pleitea rem a redivisão territo rial do país. Na ve rdade, o projeto de criação do Estado de Santa Cru z foi elaborado e redigido pelo deputado Henrique Ca rdoso e Silva, autor da proposta. Em 1985, o deputado Fernando Gomes simplesmente reap resentou o projeto com algumas modificações quanto à quantid ade de município s. Assim, no que tange ao conteúdo sobre a justificativa, aborda gem de aspectos econômicos e organiza ção geral do no vo estado – poderes e xecutivo, legislativo e judiciá rio – o s dois pro jetos são idênticos.

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NEVES, Maricélia C. M. A Idéia da criação do Estado de Santa Cruz: análise do projeto de Lei nº 194. Monografia de Graduação - Curso de História. DFCH/UESC, 2002.

No cerne da justificativa do p rojeto d e cria ção do Estad o de Santa cru z perceb e-se que o fundamento para a cria çã o do novo estado reca i sob re a questão da grande e xtensão te rrito ria l do Estado da Bahia e a conse qüente carência admin istrativa que algumas á reas do território baiano sofriam, aliada à falta de aplica ção de in ve stimentos por pa rte do go ve rno estad ual nessas áreas, como pode mos perceber na citação abaixo:

N o c a s o e s p e c í f ic o d o Es t a d o d e Sa n t a C r u z, s e n t im o s q u e a p a r t e t e r r i t o r ia l q u e f ic a e n q u a d r a d a n o s e u b o j o j á p o d e r ia t e r t i d o u m a d in â m ic a m a is a t u a n t e , g e r a n d o o d e s e n vo l v im e n t o t ã o a lm e j a d o p e la s u a g e n t e , q u e a t u a i n d i v i d u a lm e n t e , s e m p r e à e s p e r a d a s o li d a r ie d a d e g o v e r n a m e n t a l q u e p r e c is a c h e g a r . O s t r a b a l h o s d e b a s e , n a s á r e a s d e e d u c a ç ã o , t r a n s p o r t e , s a ú d e , i n d u s t r i a l i za ç ã o , a l i m e n t o s , a l im e n t o s , a g r ic u l t u r a , p e c u á r ia , p a d e c e m d o s e s t í m u l o s g o ve r n a m e n t a is , c e r t a m e n t e p e l a im e n s i d ã o d a á r e a g lo b a l d a B a h i a , q u e c o lo c a o s e u Ex e c u t i v o e m d e f ic i ê n c i a d e a t u a ç ã o t r a n s f e r i n d o p r e f e r ê n c i a s m a is d a s v e ze s p r e j u d ic ia is à e q u i d a d e d e t r a t a m e n t o , s e m e q u i lí b r io d e a p lic a ç ã o d a s p r ó p r i a s r e n d a s g e r a d a s n a s d i ve r s a s á r e a s .165

Na aborda gem sobre os aspe ctos econômicos que

sustentariam os d ois estado s – o d a Bahia e o de S anta Cru z – após o desmembramento, o projeto justifica que a B ahia ficaria com extraord inária posição criada pela indústria petro qu ímica e tudo quanto de “royalties” pudesse fornecer o seu petróleo, somado às indústrias já e xistentes. A ssim, o Centro Ind ustrial de Aratu, na época em ascensão, co locaria a Bahia n a posição almejada de estad o industrial, desce ntralizando a área agressiva e compacta que se e stabeleceu no Su l do Brasil. A sua a gricultu ra e pecuária lhe da riam respaldo a os recu rso s alimentícios, sobressaindo o feijão de Irecê e município s vizinhos, com um plantel bo vino de a lta linha gem.

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Projeto de Lei Complementar n.º 194, que dispõe sobre a criação do Estado de Santa Cruz. DCN 24/08/1978 p. 7084, col. 02.

Quanto ao novo estado, o produto básico da economia seria o cacau, la vou ra que go za va, na quele momento, de uma ascensão dinâmica no inte resse de ganha r a primeira posiçã o mundial. Segundo o p rojeto, a infra-e strutu ra cepla quiana seria pólo d e orientação ao se u desenvo lvimento. Outras fontes econômicas seriam a pe cuária, com matrizes e re produtores nas microrre giõe s de Itapetin ga e Vitória da Conqu ista , e o café, que seria outro produto que, uma ve z já implantad o em Vitória da Conqu ista e

Barra do Ro cha, abriria ho rizon tes p romissores ao

desenvo lvimento dessa nova la voura na região, a qua l teria no porto de Ilhéus o seu escoadouro natural. Para o auto r do proje to, “a divisão iria pro porciona r a e qüida de de aplicação d e recurso s ge rados nas próp rias á reas, se rvind o a ambos os Estados, que, desta maneira, soluciona riam seus problemas, sem as queixas normais de desvio s dos in ve stimentos”.166

A principa l d iferença entre os do is p rojetos é que a p ro posta de 1978, de Henrique Cardoso e Silva , consistia em dividir o Estado da Bahia, agre gando 153 municíp ios baia nos e 12 municípios m ineiro s, cedendo 07 municíp ios baiano s ao Estado de Minas Gera is:

D e n t r o d e s s a a s p ir a ç ã o b a i a n a c o lo c a m o s t a m b é m o u t r a m in e ir a , d a n d o a M i n a s G e r a is a c o n d iç ã o d e Es t a d o At l â n t ic o , i n c l u i n d o 0 7 m u n ic í p io s d o e x t r e m o s u l d a B a h i a n a á r e a d o Es t a d o d e M i n a s G e r a is e , e m c o n t r a p a r t i d a , c o lo c a n d o 1 2 m u n ic í p i o s d a M ic r o r r e g iã o d e A lm e n a r a d e n t r o d o n o v o Es t a d o a s e r c r i a d o , o Es t a d o d e Sa n t a C r u z. Po r t a n d o , d u a s a s p ir a ç õ e s a n t ig a s n u m a s o lu ç ã o m o d e r n a : c r ia ç ã o d o Es t a d o d e S a n t a c r u z e a p o s iç ã o m a r í t im a p a r a o Es t a d o d e M i n a s G e r a is .167

Contudo fica então uma pergunta: por que doa r a Minas Gerais 07 municíp ios do extremo sul baiano, dando a oportunidade

166

Projeto de Lei Complementar n.º 194, que dispõe sobre a criação do Estado de Santa Cruz. DCN 24/08/1978 p. 7085, col. 02.

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Pronunciamento do Deputado Henrique Cardoso em sessão da Câmara dos Deputados, DCN 29/08/1978 p. 7321, col. 02.

desta chega r ao Atlântico , em troca d e alguns município s do norte mineiro, re gião mais pobre do estado? Na 45ª legislatura, períod o que vai de 1975 a 1978, a bancada da Bahia e ra comp osta de 26 deputados e a ba ncada de Minas Gerais, de 37, re gulado pela Resolu ção n.º 8.7 50, de 28/07/1970, do TSE. O qu e se pode conclu ir é que h ouve uma ne gociação por parte d o deputado Henrique Cardo so com a bancada mineira que, em troca do apoio ao Proje to, receberia os municíp ios qu e possib ilita ria a chegada d o Estado de Minas Gerais ao mar.

De acordo com o projeto de 1978, dos 336 município s que compunham o Esta do da Bahia, 153 p assariam a pe rtencer ao no vo Estado, que teria uma extensão de 226.053 km², pert e ncentes as segu intes m icrorre giões assim d ivid as pelo auto r: “Cacaueira ”; “Chapada Diamantina Me rid ional”; “Chapadão do Rio Corrente”; “Encosta do P lan alto da Con quista ”; “Microrre gião de Je quié ”; “Méd io São Francisco ”; “Pasto ril d e Itapetin ga”; “P lanalto da Conqu ista ”; “Serra Geral da Bahia ”; “Tabuleiros de Valença”; (Ver Mapa 01 – p.1 11)

No mesmo sentido, as microrre giões “Interio rana do Extremo Sul da Bahia” e “Litorânea do Extrem o Sul da Bahia”, te riam de se incorpo ra r ao Estado de Minas Gera is, constando dos segu inte s municípios: “Ib ira puã”; “La jedão”; “Medeiros Neto”; “Alcobaça ”; “Ca ra ve las” e “No va Viçosa ”. Os 12 municípios de smembrados de Minas Gera is e integrados ao Estad o de Santa Cru z seriam o s segu intes: A lmenara; Bandeira; Felixb urgo; Jacinto; Je quitinhonha ; Joaína; Jo rdânia; Rio do P rado; Ru bim; Salto da Divisa; Santa Maria do Salto; Sa nto Antônio do Jacinto. (Ve r mapa 02 – p.112).

Assim, o Estado da Bahia, remanescente da nova d ivisão, ficaria composto d as se guinte s micro rre giões: “Chapadões do Alto Rio Grande ”, com 12 municíp ios; “Baixo Médio São Francisco”, com 09 municíp io s; “Chapada Diam antina”, com 13 municípios; “Senhor do Bonfim”, com 08 municíp io s; “P iemonte da Diamantina”, com 16 município s; “Correde iras d e São Fran cisco ”, com 06 municípios; “Se rtã o de Canudos”, co m 08 municíp ios; “Serrinha ”,

com 12 municíp ios; “Feira de Santana”, com 19 município s; “Se rtão de Paulo Afonso”, com 06 municíp ios; “A greste de A lago inhas”, com 17 municíp io s; “L itora l No rte Baiano”, com 06 municípios; “Salvado r”, com 0 9 município s e o “Recôn ca vo Ba ian o”, com 26 municípios. (Ve r Mapa 03 – p.113).