3.1 EDUCAÇÃO INFANTIL: delineamento histórico
3.2.1 Estatuto da Criança e do Adolescente: os direitos da criança
Os anos 90 foram palco de novos marcos estabelecidos para a educação da criança. Trata-se aqui da criação do Estatuto da Criança e do Adolescente - ECA o qual concretizou as conquistas dos direitos das crianças já anunciados pela Constituição Federal. Direitos esses, assegurados pela Lei nº 8.069 e que dispõe proteção integral à criança e ao adolescente. Desta forma, reforça o direito de que todas as crianças, sem excluir nenhuma delas, tenham uma educação de qualidade, acesso à cultura, ao esporte e ao lazer para exercerem dignamente seu papel na sociedade. A partir desses amparos legais, percebe-se que a educação das crianças gradativamente vai tendo maior espaço, valor e reconhecimento de sua real necessidade. Na esfera da Educação Infantil, os debates para uma nova LDB na Câmara dos Deputados e Senado impulsionou universidades e instituições de pesquisa, sindicatos de educadores e organizações não governamentais a defenderem um novo modelo de Educação Infantil.
A Lei 8.069/90 que dispõe sobre o Estatuto da Criança e Adolescente é um instrumento com medidas de proteção a todas as crianças. Este documento de caráter legal traçou princípios balizadores que são norteadores de outros dispositivos legais com o objetivo de dinamizar e executar efetivamente bem como dar garantia de amparo às crianças e adolescentes. Alguns princípios são oriundos da Declaração Universal dos direitos das Crianças. Destacamos aqui dois deles que entendemos serem fundamentais: o princípio do atendimento integral: no qual a criança tem direito de ser assistida em suas necessidades básicas bem como as que se consideram de suma importância para seu desenvolvimento e formação no âmbito pessoal e profissional. O princípio da prevenção geral: trata da obrigação do Estado assegurar à criança e ao adolescente ensino fundamental, obrigatório e gratuito. É compromisso de todos zelar pela
integridade e direitos da criança. De acordo com o capítulo IV do Estatuto da criança e do adolescente, ambos têm Direito à Educação, à Cultura, ao Esporte e ao Lazer. O artigo 53 da Lei 8.069 – ECA, traz sobre os direitos da criança (BRASIL, 1990).
Art. 53. A criança e o adolescente têm direito à educação, visando ao pleno desenvolvimento de sua pessoa, preparo para o exercício da cidadania e qualificação para o trabalho, assegurando-se-lhes:
I - igualdade de condições para o acesso e permanência na escola; II - direito de ser respeitado por seus educadores;
III - direito de contestar critérios avaliativos, podendo recorrer às instâncias escolares superiores;
IV - direito de organização e participação em entidades estudantis; V - acesso à escola pública e gratuita próxima de sua residência.
Parágrafo único. É direito dos pais ou responsáveis ter ciência do processo pedagógico, bem como participar da definição das propostas educacionais.
Art. 54. É dever do Estado assegurar à criança e ao adolescente:
I - ensino fundamental, obrigatório e gratuito, inclusive para os que a ele não tiveram acesso na idade própria;
II - progressiva extensão da obrigatoriedade e gratuidade ao ensino médio;
III - atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência, preferencialmente na rede regular de ensino;
IV - atendimento em creche e pré-escola às crianças de zero a seis anos de idade; V - acesso aos níveis mais elevados do ensino, da pesquisa e da criação artística, segundo a capacidade de cada um;
VI - oferta de ensino noturno regular, adequado às condições do adolescente trabalhador;
VII - atendimento no ensino fundamental, através de programas suplementares de material didático-escolar, transporte, alimentação e assistência à saúde.
O Estatuto da Criança e Adolescente também prima pela prevenção à criança e no artigo 70 afirma que “é dever de todos prevenir a ocorrência de ameaça ou violação dos direitos da criança e do adolescente”. Determina ainda, que os órgãos públicos têm a incumbência de zelar e atuar articuladamente elaborando políticas públicas bem como na efetivação de ações que coíbam o castigo físico ou de tratamento cruel ou degradante e difundir formas não violentas de educação de crianças e de adolescentes. Dentre as principais ações previstas, está o que se encontra no inciso V da Lei (BRASIL, 1990), garantindo:
A inclusão, nas políticas públicas, de ações que visem a garantir os direitos da criança e do adolescente, desde a atenção pré-natal, e de atividades junto aos pais e responsáveis com o objetivo de promover a informação, a reflexão, o debate e a orientação sobre alternativas ao uso de castigo físico ou de tratamento cruel ou degradante no processo educativo.
Considerando os aspectos legais pode-se dizer que o Brasil é um país avançado nesse sentido ao garantir os direitos às crianças. A Constituição Federal (1988), o Estatuto da Criança e do adolescente (1990), a Lei Orgânica da Assistência Social (1993) e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (1996) integram princípios de igualdade às crianças de zero a seis anos. Na prática, no entanto, nem sempre o direito à Educação Infantil é condizente com o discurso social, político e legal. Pois sem haver uma mudança e criação de novas ações na prática, não há como efetivar o que diz na lei.
3.2.2 A Educação Infantil do ponto de vista da LDB
No Brasil até o final dos anos setenta, pouco foi pensado e realizado no que se refere aos aspectos legais que pudessem garantir a oferta da Educação Infantil. Os anos oitenta trazem uma configuração na qual diversos setores da sociedade, a exemplo das organizações não- governamentais, dos pesquisadores na área da infância, da comunidade acadêmica, da população civil que reuniram esforços objetivando a sensibilização da sociedade em geral acerca do direito da criança a uma educação de qualidade desde o nascimento. Na perspectiva histórica, a criança teve seu direito à educação, documentado em legislação, garantido e reconhecido efetivamente somente em 1988 com a Carta Constitucional. A partir das obrigações do estado com as crianças, houve uma sensibilização pela maioria dos parlamentares para assegurar o direito da criança à educação na Constituição Brasileira. A força desse movimento legal na Assembleia Constituinte criou a possibilidade de incluir creches e pré- escolas no sistema educativo, conforme subscreve o artigo 208, inciso IV da Constituição Federal: “[...] o dever do Estado para com a educação será efetivado mediante a garantia de oferta de creches e pré-escolas às crianças de zero a seis anos de idade” (BRASIL, 1988).
Nessa perspectiva histórica e legal, as creches, até então vinculadas à assistência social, passaram a ser de responsabilidade da educação. Tais instituições foram regidas pelo princípio de que não apenas se tivesse o cuidado com as crianças, mas principalmente que fosse desenvolvido um trabalho educativo pedagógico. No início da década de 90 o Ministério da Educação publicou a Política Nacional de Educação Infantil a qual estabeleceu diretrizes pedagógicas e de recursos humanos a fim de ampliar a oferta de vagas bem como promover melhorias na qualidade de atendimento na Educação Infantil. A partir da Lei 9394/96 foi
instituída a Educação Infantil como etapa inicial da Educação Básica no ensino brasileiro. E desta forma o art. 29 explicita claramente ao afirmar que:
Art. 29 – A Educação Infantil, primeira etapa da Educação básica, tem como finalidade o desenvolvimento integral da criança até seis anos de idade, em seus aspectos físico, psicológico, intelectual e social, complementando a ação da família e da comunidade (BRASIL, 1996).
Desta forma a Educação Infantil passa a fazer parte da Educação Básica. O que se denota é que há uma preocupação na questão da valorização da primeira infância como etapa necessária para a educação. Com essa nova dimensão, a educação passa por uma reorganização ampliando o cenário da Educação Básica, delegando algumas responsabilidades às escolas e grupos pedagógicos e ainda, amplia o dever público para garantir a escolarização às crianças pequenas. A Lei também traz em seu bojo a divisão das faixas etárias para a Educação Infantil, estabelecendo que o atendimento a crianças de zero a três anos será incumbência das creches e o atendimento de crianças de quatro a seis anos instituídas como pré-escolas. Conforme apresenta o Art. 30 – A Educação Infantil será oferecida em: I – creches, ou entidades equivalentes, para crianças de até três anos de idade; II – pré-escolas, para as crianças de quatro a seis anos de idade. (BRASIL, 1996). Esta divisão, defendida por Didonet (2001), deu suporte para que se realizasse a indissociabilidade do binômio: cuidar e educar, deixando de lado a visão assistencialista e o preparo para a educação formal.
A Lei 9394/96 também definiu que a Educação Infantil teria por finalidade, promover o desenvolvimento integral da criança até os seis anos de idade, complementando assim a ação familiar e da comunidade (BRASIL, 1996). Considerando a finalidade da lei, pode-se pensar no avanço que se teve no que se refere aos direitos da criança pequena à educação bem como as condições adequadas para seu desenvolvimento físico, motor, emocional, social, intelectual e a ampliação de suas experiências e bem-estar.
Nesse sentido, frente à perspectiva da nova modalidade no âmbito educacional, foram estabelecidos três objetivos abrangentes e importantes, que são: O social, o educativo e o político. Detalhando cada um pode se ter a compreensão do que se quer alcançar. O objetivo social está ligado à participação feminina na vida social, econômica, política e cultural; o objetivo educativo visa a promoção de elaboração de novos conhecimentos e de novas habilidades por parte da criança; e o objetivo político relacionado à formação da cidadania da criança para que a partir deste meio ela tenha seu direito de falar e ouvir assegurado, assim como de ser colaboradora e respeitar e ser respeitada por todos. (DIDONET, 2001).
Considerando que a lei 9394/96 trouxe avanços para o reconhecimento da criança à educação em sua tenra infância, há que se pensar nos inúmeros desafios postos ao efetivo atendimento desse direito. Ao se buscar a qualidade na Educação Infantil, se tem a frente questões complexas como o projeto pedagógico; a formação, qualificação e valorização docente; os recursos financeiros destinados, planejados e empregados para esse nível de ensino. A respeito dos profissionais que atuam com crianças pequenas, haja vista as exigências legais é imprescindível, uma formação inicial consolidada e seguir em permanente aperfeiçoamento em serviço e através de formação continuada.