Capítulo 6. Estudos Empíricos
6.1. Estilos Educativos Parentais e Valores
No âmbito da psicologia, muitos autores tentam compreender as relações existentes
entre os estilos educativos parentais e os valores (Agudelo, 1997; Maccoby, 1980;
Molpeceres, 1991; Martínez & García, 2007). A evidência empírica apoia consistentemente
que a influência dos pais é profunda e duradoura e que o contexto familiar é o ambiente mais
importante na socialização das crianças e adolescentes. É nesse contexto familiar específico,
onde a criança aprende, pela primeira vez, o que é bom, essencial e desejável, que começa a
construir seu sistema de valores (Bernstein, 1971, 1975; Kohn, 1983; Maccoby, 1980). A
família, portanto, deve ser vista como uma esfera de formação social onde os valores são
constantemente construídos, fragmentados e reconstruídos (Ribeiro & Ribeiro, 1994), a partir
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partir da socialização que o indivíduo elabora sua identidade e sua subjetividade (Romanelli,
1997), adquirindo, no interior da família, os valores, as normas, as crenças, as ideias, os
modelos e os padrões de comportamento necessários para a sua atuação na sociedade
(Drummond & Drummond Filho, 1998; Tallón, Ferro, Gómez, & Parra, 1999).
Moraes, Camino, Costa, Camino, & Cruz (2007) realizaram um estudo no Brasil no
qual procuravam analisar as relações existentes entre a percepção dos estilos educativos
parentais (autoritário, autoritativo, indulgente, negligente) e os valores (materialista,
pósmaterialista, hedonista e religioso), dos adolescentes. A amostra foi constituída por 2004
adolescentes, com idades entre 10 e os 18 anos, de ambos os sexos, estudantes de escolas
públicas e privadas, da cidade de João Pessoa. Em relação aos valores pósmaterialistas,
encontrou-se uma relação positiva entre a aceitação (estilos educativos autoritativo e
indulgente) dos pais e esses valores, corroborando os resultados encontrados por Musitu e
García (2001), que revelaram que adolescentes provenientes de lares onde há uma alta
aceitação obtêm maiores pontuações do que aqueles de lares onde predomina uma baixa
aceitação, em relação aos valores do universalismo e benevolência. Flouri (2004), num
estudo realizado, também observou uma relação negativa entre o envolvimento materno (um
construto semelhante ao de responsividade) e o desenvolvimento de valores materialistas em
adolescentes.
Ainda no que se refere aos valores pósmaterialistas, foram observadas relações
negativas entre a coerção e a displicência e esses valores. Também foi verificada uma relação
positiva entre a aceitação e os valores do sistema religioso e uma relação negativa entre a
displicência e esse sistema. Em relação à aceitação, Musitu e García (2001) obtiveram
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socialização e os tipos motivacionais de tradição e conformidade. Esses tipos motivacionais
compõem os valores de conservação (Schwartz, 1992).
Knafo (2003) desenvolveu um estudo com famílias israelitas em que os pais eram
divididos em dois grupos, de acordo com seu estilo educativo parental (autoritário e não
autoritário), com o objetivo de verificar quais valores priorizavam para os seus filhos, as
prioridades valorativas das crianças, e ainda as suas implicações no comportamento de
“bullying” Os resultados indicaram que os pais autoritários desejavam que seus filhos
atribuíssem maior importância para valores de poder, tradição e conformidade, e menor
importância aos de benevolência, universalismo e autodireção, quando comparados aos pais
não autoritários. O efeito de pais autoritários nos valores dos filhos demonstrou-se pequeno,
reflexo dos conflitos estabelecidos entre filhos e pais autoritários que levaram as crianças a
interpretar erroneamente ou rejeitar os valores dos seus pais. No que diz respeito ao
“bullying”, a associação com amigos que o cometiam foi maior entre filhos de pais
autoritários quando comparados aos demais participantes.
Kasser, Ryan, Zax e Sameroff (1995) observaram que os adolescentes cujas mães
eram controladoras e frias eram especialmente mais propensos a dar importância a valores
externos, como sucesso financeiro, enquanto os adolescentes com mães democráticas e
calorosas valorizavam mais a autoaceitação, a afiliação e o sentimento de pertencer à
comunidade.
Kasser, Koestner e Lekes (2002) realizaram um estudo longitudinal para avaliar as
relações entre experiências de criação no ambiente familiar e valores. O estilo educativo
parental (medidas de calorosidade e restritividade) e o nível socioeconómico familiar foi
avaliado quando os participantes tinham 5 anos de idade através de relatos dos pais. Depois,
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sete grandes domínios motivacionais: autodireção, maturidade, interesses prossociais,
conformidade restritiva, segurança, desempenho e satisfação com sua própria vida.
Posteriormente, cada domínio foi correlacionado diretamente com as duas medidas de
práticas parentais: a calorosidade e a restritividade. A pesquisa mostrou que a calorosidade e
a restritividade, medidas aos 5 anos de idade, tinham algumas correlações com os valores
expressos aos 31 anos. Mais especificamente, a calorosidade correlacionou-se negativamente
com o valor segurança, enquanto que a restritividade correlacionou-se positivamente com o
valor conformidade restritiva e negativamente com autodireção. Estas correlações
mantiveram-se mesmo quando a variável nível socioeconómico (aos 5 e aos 31 anos) foi
estatisticamente controlada. Segundo os autores do estudo, quando os contextos de
desenvolvimento provêm amor, encorajamento e aceitação das perspectivas únicas de cada
pessoa e de seus desejos, as necessidades psicológicas dos indivíduos por autonomia e
relações interpessoais são bem satisfeitas, o que faz com que aumente a probabilidade delas
se orientarem em direção a ambientes onde elas possam se expressar realizar os seus
interesses, trabalhando para a construção de relacionamentos interpessoais.
Williams, Cox, Hedberg e Deci (2000) sugeriram que adolescentes que percebiam os
pais como sendo afetivos e dando incentivo para sua autonomia, não eram voltados a
objetivos relacionados às opiniões dos outros como sucesso financeiro, imagem e
popularidade. Pelo contrário, eram mais propensos a preocuparem-se consigo mesmo e com
valores que refletissem suas necessidades intrínsecas, tais como autoaceitação, afiliação e
sentimento comunitário.
Martínez e García (2007) fizeram um estudo sobre a socialização parental, baseado
nas quatro tipologias (autoritário, autoritativo, indulgente e negligente) e os valores dos
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pretenderam entender através de questionários as relações entre a forma de educar dos pais e
as prioridades de valores dos filhos. Mais especificamente quais as prioridades que os
adolescentes davam aos valores de autotranscedência (universalismo e benevolência) e os
valores de conservação (segurança, conformidade e tradição). Encontraram que os filhos de
pais educados dentro de um estilo autoritativo e indulgente priorizavam os valores de
autotranscedência e conservação. Enquanto os filhos educados por pais autoritários e
negligentes sem diferenças entre eles, davam pouca prioridade a estes valores. Os autores
mostram que estes resultados sugerem que a aceitação da individualidade dos filhos por parte
dos pais, conectada com o envolvimento dos pais em suas vidas, e a demonstração de afeto
por parte dos pais, está relacionada com uma maior internalização de valores.
Rohan e Zanna (1996) realizaram um estudo utilizando a escala de Altemeyer e
Hunsberger (1992) para mensurar o autoritarismo. Esta escala é composta por 30 itens que
são agrupados em 3 componentes: convencionalismo, submissão e agressão. A percepção de
responsividade parental foi mensurada mediante um instrumento adaptado pelos autores, no
qual foram descritos quatro estilos parentais: autoritário, confiável, permissivo indulgente e
permissivo-negligente. Os estudantes deveriam pontuar em uma escala de cinco pontos, o
quanto seus pais se pareciam com cada uma das descrições. O estudo mostrou que quanto
mais autoritários os pais, menor a similaridade de valores dos filhos com os valores destes.
Filhos que perceberam os pais como mais responsivos tiveram valores mais semelhantes aos
dos pais. A variável percepção de responsividade mediou a relação entre o autoritarismo
parental e a similaridade de valores. Na análise de regressão, quando o autoritarismo parental
e a percepção de responsividade entraram como preditoras da similaridade de valores entre
pais e filhos, o autoritarismo parental diminuiu a força de predição. A relação entre o
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percepção de responsividade que estes têm dos seus pais: quanto menos autoritários, mais os
pais são percebidos como responsivos; quanto mais responsivos, maior a similaridade de
valores entre pais e filhos.
Rudy e Grusec (2001) sugerem que o envolvimento e a ligação emocional que se
estabelece entre pais e filhos é fundamental para que possa ocorrer a internalização dos
valores parentais. Os progenitores que têm uma relação calorosa, afetiva, recíproca e que são
racionais, persuasivos, em vez de utilizadores da força física e firmes, em vez de
controladores, são os que têm um maior sucesso na internalização dos valores parentais e
sociais nos filhos (Grusec & Goodnow, 1994; Grusec, Goodnow, & Kuczynski, 2000).
Alguns estudos sugerem que a influência materna no desenvolvimento dos valores é
mais forte do que a influência paterna para ambos os filhos, rapazes e moças (Bengtson,
Biblarz, & Roberts, 2002; Castro, Pablo, Gómez, Arrindell, & Toro, 1997; Parke, 2002). Esta
situação poder-se-á dever ao facto de mães e pais diferirem no grau de envolvimento que têm
com os filhos, quer na infância, quer na adolescência (Parke, 2002).
Na infância, os progenitores masculinos participam menos nos cuidados primários dos
filhos (Castro et al., 1997; Parke, 2002), e, na adolescência, continuam a ser as mães que
despendem mais tempo com os filhos, estando estes emocionalmente mais próximos das
mães do que dos pais (Steinberg & Silk, 2002).