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Capítulo 5. Estudos Transculturais

5.2. Modelos Transculturais

5.2.3. Teoria de Ronald Inglehart

Em 1977, com a publicação de “The Silent Revolution”, Inglehart deu início a um

programa de pesquisas que atualmente pode ser considerado como um dos mais profícuos

autores nas ciências sociais, devido tanto à quantidade de trabalhos que defendem e

confirmam suas hipóteses, quanto aos vários críticos que conquistou. Com estas ideias e

partindo da teoria da hierarquia das necessidades de Maslow (1954), Inglehart (1977)

postulou a existência de dois pólos de uma dimensão: o materialismo e o pós-materialismo

(Gouveia, Fonsêca, Milfont, & Fischer, 2011).

A dimensão materialista refere-se à satisfação de necessidades básicas, fisiológicas;

prevalece em sociedades menos desenvolvidas, em que não são satisfeitas as necessidades de

segurança física e econômica. Por outro lado, o pós-materialismo refere-se às necessidades

mais elevadas, originárias da satisfação materialista, como necessidades intelectuais, de

autoestima e de autorrealização; concerne a sociedades mais industrializadas (Gouveia et al.,

2011).

Inglehart (1977) decorre a sua teoria partindo de dois pressupostos principais: a

hipótese de escassez e a hipótese de socialização. A hipótese de escassez afirma que as

prioridades dos indivíduos refletem o seu meio ambiente socioeconómico, sendo que as

pessoas atribuem maior importância subjetiva àquilo que é escasso, ou seja, valorizam aquilo

de que mais necessitam. Já a hipótese de socialização implica que a relação entre o meio

ambiente socioeconómico e as prioridades valorativas não possui um ajuste imediato, visto

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sendo os seus valores reflexos das condições prevalentes neste período; assim, o processo de

socialização pelo qual as pessoas passam é determinante para indicar as suas prioridades

(Gouveia, 1998).

A sua teoria partiu de uma análise de dados coletados durante 17 anos, em diversos

países, contando com mais de 100.000 respondentes. Inglehart (1991) observou que as

mudanças que ocorriam nas sociedades tendiam a ser graduais, refletindo as alterações

produzidas nas experiências formativas que moldavam as diferentes gerações (Inglehart &

Baker, 2000). Este autor sugere que as orientações valorativas são organizadas

hierarquicamente num “continuum” unidimensional, variando de materialistas a

pósmaterialistas. Uma vez satisfeitas as necessidades fisiológicas (básicas), os indivíduos

desenvolvem necessidades de ordem superior, pósmaterialistas (Held, Muller, Deutsch,

Grzechnik, & Welzel, 2009). Inglehart e Welzel (2010) sugerem que a transição de uma

orientação material para uma pós-material é apenas uma manifestação específica de uma

mudança de valor mais abrangente para uma maior emancipação humana.

Até hoje esta teoria é bastante utilizada e exerce forte importância no cenário dos

valores humanos. Entre as suas principais contribuições, destaca-se a ideia de que os valores

podem mudar, mas que eles continuam a refletir o património cultural de uma sociedade.

Assim, Inglehart é importante no campo das mudanças e desenvolvimento de valores a nível

cultural, postulando que o progresso da sociedade ocasiona em alterações previsíveis nos

valores (Inglehart & Welzel, 2010).

Este modelo recebe algumas críticas, apesar de sua repercussão, principalmente por

sugerir que as pessoas se classificam em materialistas ou pós-materialistas, como se não

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Instrumento referente à Teoria de Hofstede

Este instrumento está dentro de uma perspectiva de avaliação de valores com base em

Teorias Culturais, foi proposto por Hofstede e é um dos mais usados no mundo em se

tratando de gestão internacional, marketing e valores, possibilitando o avanço para todas estas

áreas. Ademais, Hofstede realizou um dos maiores estudos no âmbito transcultural, contando

com a participação de 100.000 funcionários de uma grande empresa multinacional, a IBM.

Este estudo foi feito em 66 países e o seu instrumento de autorrelato – composto por doze

metas de trabalho que devem ser avaliadas de acordo com sua importância para o indivíduo –

foi traduzido para mais de 20 línguas. Por meio de uma análise factorial da medida,

derivaram-se empiricamente quatro dimensões de valores culturais: distância hierárquica ou

do poder (grau em que os membros das instituições e organizações aceitam a distribuição

desigual de poder); individualismo (prevalência do interesse individual sobre o grupal)

“versus” coletivismo (sobreposição do interesse do grupo sobre o individual); feminilidade

(associado à necessidade de relações interpessoais e de cuidados com o outro) “versus”

masculinidade (caracterizado pela assertividade, competitividade e obtenção de metas); e

evitação de incerteza (grau em que os membros dos diferentes grupos culturais se sentem

ameaçados por situações desconhecidas ou ambíguas).

Num estudo posterior, o grupo “Chinese Culture Connection” (1987), liderado por

Michael Bond, procurou verificar se o estudo de Hofstede havia sido enviesado pela cultura

ocidental. Para tanto, eles desenvolveram um questionário baseado nos valores fundamentais

da cultura chinesa e aplicaram a pessoas de 23 países. Além de confirmarem 3 dos 4 factores

originais de Hofstede (individualismo “versus” coletivismo, feminilidade “versus”

masculinidade e distância do poder), os autores observaram um novo fator, denominado

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factor, aplicando-o uma nova denominação: orientação de vida a curto “versus” a longo

prazo. Diante destes estudos, foi possível considerar uma classificação cultural em termos de

valores, com base em cinco dimensões (Smith & Bond, 1999).

Resumo do Capítulo

O presente capítulo teve como objetivo apresentar o contexto em que a pesquisa se

desenvolveu, adotando uma definição de cultura que acerca os aspectos relevantes à

discussão a ser explorada no presente estudo. Na secção seguinte foram analisados os

principais modelos no desenvolvimento de estudos transculturais: a Teoria das Dimensões

Culturais, de Hofstede (1979), a Teoria do Desenvolvimento, segundo Inglehart (1977), e a

Teoria das Dimensões Culturais, de Triandis (1994a), dando especial atenção ao resultado das

pesquisas transculturais relacionadas com as culturas: portuguesa, brasileira e espanhola.

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