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Com características próprias, num regime protecionista, no Brasil, o setor de tecnologia da informação, na sua fase inicial, foi motivado a surgir por meio de uma política de incentivos à produção local de hardware. Tal fato ocorreu com a aprovação da Lei de Informática, de no 7232, em 29 de outubro de 1984, como uma estratégia de proteção, por meio de legislação específica de reserva de mercado. Esta proteção beneficiava o setor nascente de hardwares desenvolvidos e produzidos por empresas nacionais, para estimular seu crescimento e a ocupação de espaço no setor de hardware, o que deixou a indústria de software sem um direcionamento claro.

A política brasileira de reserva de mercado para a indústria do hardware gerou protestos de outros países, como os EUA, que a consideraram uma afronta a seus interesses e como uma prática econômica desleal, e, acabaram adotando represálias por meio de sanções econômicas, como as de elevação de taxas de importação de produtos brasileiros.

A proteção da indústria brasileira de hardware levou os EUA a protestarem também contra a falta de uma lei brasileira que evitasse a cópia ilegal de softwares de sistemas operacionais de empresas americanas e que protegesse o direito autoral sobre esses softwares. Assunto que teve como pivô central o sistema operacional MS-DOS da Microsoft. Esta situação fez com que o Brasil criasse uma lei, denominada de Lei de Software, em 18 de novembro de 1987, que passou a proteger os direitos autorais sobre softwares brasileiros e estrangeiros.

Com o término da reserva, no início da década de 90, mais especificamente em 1992, passou a existir um modelo mais aberto, e uma redução significativa de alíquotas de importação de hardware. A partir de então, o mercado de softwares integrados de gestão empresarial passou a surgir de forma consistente e passou a crescer aceleradamente em função das maiores facilidades oferecidas às empresas para a importação de equipamentos diretamente ou a aquisição de equipamentos e componentes importados por fabricantes nacionais.

Os avanços alcançados, num esforço histórico para o desenvolvimento da indústria de software brasileira, faz lembrar que algumas das maiores empresas surgiram a partir de idéias originadas no ambiente acadêmico, como foi o caso da

Microsiga, formada por dois engenheiros oriundos da Universidade de São Paulo. Outras surgiram de atividades vinculadas a “centros de processamento de dados” de empresas comerciais ou industriais, como foi o caso da spin-off Logocenter, que surgiu a partir dessas atividades em uma empresa catarinense de fundição. Ou ainda, da prestação de serviços a terceiros, por meio de “centros de processamento de dados”, como foi o caso de outra catarinense, a Datasul (ROSELINO, 2006).

Atualmente, de forma geral, a indústria brasileira de software apresenta números expressivos que a situam entre as dez maiores do mundo e seu desenvolvimento apresenta aspectos particulares vinculados às virtudes do processo de desenvolvimento tecnológico e industrial da trajetória brasileira, baseada na diversidade e heterogeneidade da estrutura produtiva, com a abertura de espaços competitivos às empresas nacionais e estrangeiras, onde as empresas privadas nacionais se desenvolveram a partir do atendimento de demandas específicas da estrutura produtiva doméstica, consolidando sua presença em mercados que não eram, pelo menos inicialmente, atendidos por empresas estrangeiras, o que as levou a ter fraco desempenho exportador (ROSELINO, 2006).

A partir do término da reserva de mercado, no início da década de 90, o mercado brasileiro passou a ter diversos fornecedores nacionais que hoje representam juntos uma participação que é maior que a metade do mesmo.

Conforme citado em Datasul (2006, p.126):

O resultado foi que, seja pela capacidade criativa, seja pela facilidade de assimilação de novas tecnologias pelas empresas brasileiras, o software brasileiro tornou-se referência internacional em algumas áreas, como a de automação bancária e de utilização da Internet. Atualmente o Brasil possui independência tecnológica em diversas áreas de desenvolvimento de

softwares, como a do setor bancário, do setor de energia, extração de

petróleo, e principalmente de softwares de gestão empresarial integrada. A partir de 1993, por meio de programa coordenado pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e pelo Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), o setor acabou sendo incentivado pelo governo com ações suportadas por um programa específico, denominado Softex 2000 – Programa Nacional de Software para Exportação. O programa visava apoiar a comercialização de software de empresas brasileiras no exterior e mais tarde inclusive no mercado nacional.

criado também o Prosoft - Programa do Software - do BNDES – Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social. O mesmo banco, além de auxiliar as próprias empresas por meio do “Prosoft Empresa”, com a oferta de financiamentos de renda variável, passou a financiar também a comercialização de softwares e serviços por meio do “Prosoft Comercialização”, denominado de “Finame do Software”, e ações de exportação, por meio do “Prosoft Exportação”, que busca apoiar estratégias de comercialização no exterior e a internacionalização de empresas brasileiras.

A partir de iniciativas estratégicas como estas, empreendidas durante a década de 90 e o início dos anos dois mil e, mais recentemente, a partir de novembro de 2003, com a determinação da produção de software como atividade eleita para ser prioritária na proposta de política industrial, consubstanciada na Política Industrial Tecnológica e de Comércio Exterior do Governo Federal, começaram a ocorrer cenários como os citados em Datasul (2006, p.126):

A partir de 2000, os softwares de gestão empresarial integrada haviam alcançado um número relevante das empresas de grande porte no Brasil, que continuam adquirindo até hoje novos módulos e funcionalidades relacionadas aos softwares já adquiridos. Essa mesma tendência é observada atualmente também no mercado de empresas de médio porte. E nos últimos dois anos, as empresas de pequeno porte apresentam forte interesse na aquisição de softwares de gerenciamento.

Em termos de mercado de software, em nível mundial, o mesmo vem evoluindo desde o final da década de 50 e início da década de 60, quando grandes empresas iniciaram o uso de sistemas (hardware e software) de processamento de dados centralizados para efetuar seus controles operacionais.

O Brasil iniciou a conquista de tradição no mercado de software integrado de gestão empresarial a partir do início da década de 80, reforçada por programas oficiais de incentivo na década de 90. Hoje esta tradição já se transformou numa liderança, que já rompeu fronteiras e coloca empresas brasileiras como líderes, inclusive na América Latina.

Donadone (2002), ao discorrer sobre o cenário de negócios das empresas brasileiras de forma geral, no início da década de 80, lembra as necessidades que as empresas passaram a ter a partir deste período e afirma que (p.3):

O início da década de 1980 foi marcado pelo incremento no ritmo de introdução de mudanças tecnológicas e organizacionais nas empresas brasileiras. Tais mudanças foram motivadas pela necessidade de fazer com

que as empresas reagissem à recessão econômica interna e buscassem mercados exteriores. Conceitos como qualidade e flexibilidade surgiram no elenco de inovações adotadas, visando a reestruturar a produção industrial e assim, melhorar os índices de competitividade.

A partir da mesma década, o mercado mundial desses softwares passou a ser composto por empresas que hoje são multinacionais, dentre as quais podem ser citadas a SAP e Oracle, além de empresas locais de diversos portes, que passaram a conquistar participação significativa, principalmente no Brasil.

Estimativas citadas em Datasul (2006), conforme a consultoria IDC –

International Data Corporation - previam que o mercado mundial de tecnologia da

informação, considerando hardware, software e serviços correlatos, deveria chegar a um trilhão de dólares em 2005. Ainda, conforme a mesma consultoria, os softwares comercializados, do tipo dos desenvolvidos pela empresa pesquisada, em 2005, no mercado mundial, totalizaria US$ 28,5 bilhões de dólares, com uma previsão de crescimento médio de 8,4% ao ano, atingindo em 2009 a cifra de US$ 39,4 bilhões. O mercado mundial deve continuar crescendo em função da necessidade das empresas reduzirem seus custos e a velocidade das respostas exigidas pelos seus mercados, decorrentes da globalização. Tal fato deve aumentar a demanda por

softwares integrados de gestão, o que permitirá às empresas de pequeno e médio

porte terem acesso a tecnologias só disponíveis para empresas de grande porte. Segundo Datasul (2006), na América Latina, nos países de língua espanhola, o mercado de softwares integrados de gestão é dominado por grandes players mundiais como Microsoft, SAP e Oracle. Diferentemente, conforme estudo da IDC, em Latin America Semianual Back-Office Application Tracker 2005, embora o maior

player seja internacional, a maior parte do mercado é dominado por empresas locais.

Em análise realizada em 2005 pela mesma IDC, o mercado da América Latina de TI, composto por hardware, software e serviços, foi de US$ 26,9 bilhões em 2004. O mercado de softwares integrados de gestão foi de US$ 1,0 bilhão em 2005, do qual o Brasil representa 44%. Ainda, para a IDC, o gasto das empresas médias e grandes com este tipo de software representou 15,8%, com um crescimento médio anual previsto de 11,1% ao ano, entre 2006 e 2009. De acordo com o Gartner Group, quando comparada com o mercado mundial, a América Latina ainda apresenta atraso na adoção de tecnologias da informação.

América Latina, representando 1,1% do mercado mundial em 2004. Em 2005 o mercado desse software movimentou US$ 365,0 milhões, apresentando crescimento médio anual de 20% entre 2003 e 2005, superior a 7,8 vezes a variação média do PIB brasileiro no mesmo período, que foi de 2,56%, conforme o IBGE. “Apenas como comparação, para a IDC, o mercado de TI dos Estados Unidos da América teve previsão de crescimento de 6% em 2005”, conforme relatado em DATASUL (2006, p.127), onde se afirma também que:

As Empresas de grande porte e as empresas de médio porte são responsáveis por 79,8% do total do consumo do mercado brasileiro de

Back-Office. Quando segmentado por tipo de atividade econômica, as

indústrias são as que mais investem em softwares de Back-Office no Brasil, respondendo por 57,7% dos gastos, seguidas pelos serviços, 13,5%, e comércio, com 11,1%. Conforme a IDC, a previsão de crescimento anual do mercado brasileiro de softwares de gestão empresarial integrada deverá apresentar a média de 13,8% ao ano, entre 2006 e 2009.

Afirma-se ainda no mesmo documento que, existem algumas vantagens das empresas brasileiras que desenvolvem softwares integrados de gestão empresarial em relação às empresas estrangeiras, como: “o conhecimento da legislação brasileira, do mercado e economias locais, que por suas complexidades, constituem uma barreira natural à entrada de softwares desenvolvidos por empresas estrangeiras”; a extensa rede de distribuição de seus produtos, já constituída; e o processo de implantação de softwares estrangeiros, que é realizado por empresas de consultoria, o que afasta o cliente de médio e pequeno porte.

Além destas vantagens das empresas brasileiras sobre as empresas estrangeiras, destaca-se ainda o fato da proximidade do atendimento entre o cliente brasileiro e o fornecedor local, e a qualidade dos softwares e serviços fornecidos. É isto que tem permito boas oportunidades de expansão.

Uma boa visão sobre as tendências tecnológicas, a correta escolha da plataforma tecnológica a ser adotada e a constate atualização tecnológica dos

softwares, é questão de competitividade e sobrevivência. A respeito disso, ao

concluírem sobre as oportunidades das empresas de software brasileiras, Gutierrez e Alexandre (2005, p.134) afirmam que:

Um outro aspecto importante é a atualização tecnológica das empresas nacionais. As constantes inovações ocorridas no setor de TI tornam imprescindível para as empresas que atuam nesse mercado o investimento contínuo em pesquisa e desenvolvimento (P&D). A opção tecnológica feita

através da adoção de um ambiente de desenvolvimento é importante para sua competitividade. A escolha de uma plataforma que, futuramente, não incorpore as inovações desse mercado torna o produto defasado tecnologicamente, sendo necessário um grande esforço de migração para outra plataforma. O tempo e os custos envolvidos nesse processo podem acarretar a saída da empresa do mercado.

É importante considerar que, ao seguirem uma tendência internacional, as empresas brasileiras de software também vêm adotando uma estratégia que procura atender mercados verticais, o que é representado pelo atendimento de necessidades específicas de certos setores, diferenciando seus produtos com a oferta de uma solução integrada, de acordo com o setor econômico a ser atendido (GUTIERREZ e ALEXANDRE, 2005).

Vale ressaltar ainda que, nos últimos anos, vem ocorrendo um maciço investimento em tecnologia, sobretudo após o ano de 2000, quando passaram a ser feitos grandes investimentos em Internet, como, por exemplo, em conectividade e uso de banda larga, no mundo inteiro, o barateamento do hardware e software, que também se espalham pelo mundo, permitindo que informações possam ser acessadas instantaneamente em qualquer parte. Isso permite que o trabalho intelectual seja realizado em qualquer ponto do globo, conforme observado por Friedman (2005).

Com certeza, estes fatos já afetam e afetarão ainda mais, direta e profundamente, os negócios das empresas de software integrado de gestão empresarial, que deverão sofrer profundas rupturas nos seus atuais modelos de negócio, baseados na venda de licenças de uso e cobrança de taxas de manutenção e de suporte. Deverão, por exemplo, passar a fornecer suas soluções de software, cada vez mais, na forma de serviços, e sob demanda, o que já vem se configurando uma tendência mundial entre as empresas do setor.

Complementarmente, vale ressaltar que, em seguimento ao movimento mundial dos últimos anos, quando a indústria de software passou a realizar um forte movimento de consolidação, o mesmo setor no Brasil não deixou, e certamente, não deixará de apresentar o mesmo fenômeno. Esta consolidação deve acontecer por movimentos de fusões e aquisições, e suportará estratégias de crescimento para uma maior competitividade global, de sobrevivência e de perpetuação.