CAPÍTULO IV: “2007” E A DERRADEIRA INVASÃO DO “TEMPLO SAGRADO DA INTELLIGHENZIA”
3. A inserção do ensino superior no contexto do “2007”
3.1 Expansão massificada principalmente no setor privado
As motivações que levam à expansão massificada do ensino superior têm sido assunto recorrente em todos os capítulos desta tese. A localização mais proeminente desta expansão no setor privado também. No entanto, desperta interesse o fato de ela ter sido excessivamente diferenciada entre o setor público e o privado, a partir da década de 1980. Em virtude dos cortes orçamentários decorrentes das altas taxas de inflação, houve uma estagnação na oferta de vagas nas instituições públicas. Cunha (1991) aponta a existência de projetos, reunidos em um programa chamado “Nova Universidade”, criado em dezembro de 1985, que anunciavam a disponibilidade de recursos para “revitalizar” a universidade pública, recém-expandida na década anterior. Em virtude da dimensão mais quantitativa da expansão daquela década, o principal marco de referência do programa de 1985 seria a dimensão qualitativa do ensino de graduação.
Entre os projetos implantados com esses recursos, destacam-se o Biblos (Projeto de Melhoria de Bibliotecas) e o Micros (Projeto para Implantação de Microcomputadores Nacionais para Uso dos Estudantes). Ainda assim, a maioria dos projetos apresentados não recebeu a verba solicitada. O programa foi alvo de críticas por ser discriminatório e clientelista, já que as instituições mais bem aparelhadas para apresentar projetos e as que conheciam melhor os meandros do MEC foram as mais contempladas, não necessariamente as mais necessitadas. Para piorar, a proporção de projetos aprovados das instituições privadas foi bem maior do que a das públicas (CUNHA, 1991).
Não obstante os rombos orçamentários nos cofres públicos, que causaram a proibição governamental de abrir novos cursos superiores naqueles anos 1980, tal determinação vinha sendo burlada com a criação de (pseudo) universidades em cidades desprovidas de recursos para tal fim. A contenção do crescimento do sistema federal de ensino superior foi simultânea ao crescimento das universidades estaduais e privadas, estas últimas com incentivos do próprio governo federal. A expansão das estaduais decorreu da contenção no plano federal e também da retomada das práticas clientelísticas a nível estadual (CUNHA, 1981).
Acentuando ainda mais as dificuldades atravessadas pelas universidades federais, elas foram vítimas de uma campanha desmoralizante, promovida por técnicos da Secretaria do Planejamento (Seplan), que criticavam ser o seu estudante o mais caro do mundo, não levando em conta as despesas com pesquisa nem com os hospitais universitários, frequentemente mais voltados para o atendimento à população do que para o ensino médico (CUNHA, 1981).
Em relação às instituições privadas de ensino superior, como elas dependiam quase exclusivamente das mensalidades dos cursos de graduação para sobreviver, ficavam evidentes os problemas financeiros das mesmas ao enfrentarem altos índices de inadimplência decorrentes da estagflação dos anos 1980. Para evitar a falência destas instituições e, por conseguinte, o “enterro” do sonho dourado do acesso ao ensino superior das classes médias, o governo socorria financeiramente as instituições privadas, destinando-lhes, com recursos “a fundo perdido”, boa parte da dotação orçamentária que poderia ser investida nas instituições públicas.
A discrepância entre instituições públicas e privadas na dotação de investimentos federais se acentuou nos anos 1990, quando as universidades federais conviveram com dificuldades de ordens diversas, motivadas essencialmente por problemas econômicos: redução do quadro docente por aposentadorias precoces, ante o temor da perda de direitos oriunda das reformas da previdência; não reposição de quadros docentes e técnicos administrativos nos casos de aposentadoria, morte ou abandono de emprego; falta de recursos para manutenção básica, como luz, água e telefone; congelamento salarial ou reajustes por
meio de gratificações que poderiam ser extintas; redução das bolsas, inclusive na pós- graduação, entre outras.
Segundo Amaral (2003), os recursos para a efetiva manutenção das universidades federais foram reduzidos, de 1990 a 2001, em 42,6%, ao passo que as instituições privadas contaram com grande apoio do governo em suas ações expansionistas. Tal apoio se concretizava de diversas maneiras. Uma delas relacionava-se à liberação de linhas de crédito, a juros subsidiados, para atender tanto a universidades públicas como particulares, entretanto estas conseguiam viabilizar mais facilmente o acesso a esses recursos por oferecerem, com maior agilidade, garantias bancárias ao financiamento. Além disso, houve apoio da legislação para as instituições privadas fixarem suas próprias mensalidades, transferindo as negociações da esfera educacional para a do consumo. Por fim, foi implantado o Fundo para o Financiamento do Estudante do Ensino Superior (Fies), que substituiu o Crédito Educativo (Creduc) dos anos 1970, no financiamento das mensalidades em instituições privadas através de empréstimos bancários, cada vez mais facilitados, ao ponto de, nos tempos atuais, o governo estar suspendendo a exigência de fiador para a concessão dos empréstimos, reduzindo a taxa de juros e ampliando o prazo de pagamento (Jornal O Globo, 10/9/2010).
Amaral (2003) reitera que, naqueles anos 1980/1990, os organismos internacionais reguladores da economia, como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional, orientavam os países em desenvolvimento, entre eles o Brasil, a não investir recursos públicos no ensino superior e, quando o fizessem, que privilegiassem as instituições privadas, pois estas aumentavam as matrículas a um custo muito menor que as públicas.
A facilitação, por parte do governo, da expansão nas instituições privadas pode ser traduzida pelos dados dos censos da educação superior, de 1995 a 2008, disponibilizados no
site do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) 83. Naquele período,
enquanto o número de vagas nas graduações presenciais das instituições públicas (incluindo as federais) duplica (de 178.145 para 344.038), nas privadas sextuplica (de 432.210 para 2.641.099). No universo quantitativo das instituições públicas, as federais e as estaduais predominam, sendo as municipais em número bem menor. Observa-se, ainda, que o número de vagas oferecidas para graduações nas instituições de ensino superior aumentou em uma proporção maior que o aumento no número de candidatos. O acréscimo foi bem mais considerável nas instituições privadas, apesar de ter ocorrido nas públicas também (estas não poderiam ficar “indiferentes” à ampliação da demanda junto aos concluintes do ensino médio). A relevante diferença entre esses dois tipos de instituição reside no aproveitamento das vagas oferecidas. No período delimitado, as instituições públicas preenchiam, com matrículas dos aprovados nos processos seletivos, quase a totalidade das vagas oferecidas, enquanto, nas instituições privadas, havia uma significativa sobra de vagas, chegando, em alguns anos, a quase metade delas.
Quanto aos cursos superiores agrários, os censos do Inep (1995 a 2008) revelam que o aumento de vagas em maior proporção que o de candidatos também ocorreu nas graduações dessa área. Enquanto, em 1995, a relação candidato/vaga era de quase 6 para 1, em 2008, tal relação cai à metade (3 para 1). As relações candidatos/vagas mantêm-se menores nas instituições privadas, que oferecem mais vagas que as públicas.
A análise dos censos mostra uma grande diversificação entre as graduações na área de Agronomia e Veterinária. Os cursos listados não se resumem apenas aos dois, que são os de maior procura, mas a um vasto leque, que inclui: Agroindústria, Engenharia Agrícola,
Tecnologia Agronômica, Zootecnia, Engenharia da Pesca, Engenharia Florestal, Técnicas de Irrigação, Horticultura e Viticultura. Em áreas distintas destas, encontram-se os cursos vinculados às Ciências Ambientais (Ecologia, Tecnologia Ambiental e Saneamento Ambiental), ao Processamento de Alimentos (Engenharia de Alimentos e Tecnologia de Alimentos) e à Engenharia Civil e Construção (Agrimensura). A acentuada diversificação na oferta de cursos agrários foi um dos fatores a diluir, na UFRRJ, a hegemonia acadêmica dos tradicionais cursos de Agronomia e Veterinária, especialmente a partir dos anos 2000, conforme verificaremos mais adiante.
As federalizações, prática corriqueira no contexto do “1967”, se mantêm no contexto seguinte, intensificando-se a partir do governo Lula da Silva, quando são federalizadas dez instituições, a maior parte delas em cidades de médio ou pequeno porte (VASCONCELOS, 2007). Nota-se, nessa intensificação das federalizações, um prenúncio da política educacional daquele presidente de promover um aumento mais expressivo, até então inédito desde os anos 1980, na oferta de vagas nas instituições federais, consagrado pelo Reuni. Nesse sentido, pode-se retomar uma indagação feita na introdução desta tese: qual terá sido, mais exatamente, o marco propulsor da mudança nos planos governamentais, que não previam maiores ampliações na oferta de cursos em instituições federais nos anos 1990 e que passou a considerar tais ampliações como prioridade nos meados da década subsequente?
Os cenários até aqui traçados já possibilitam o encontro de respostas para esta pergunta inicial. Ao utilizar o ensino superior com objetivos ético-políticos de socializar valores indispensáveis à coesão social, por permitir às classes mais populares o acesso, até então inédito, a uma maior formação intelectual, ainda que meramente tecnicista, o governo Lula da Silva insere o país, definitivamente, nos meandros do já citado capitalismo informacional, favorecendo a obtenção de um consentimento ativo destes novos “intelectuais” em formação para os ideais de interesse da burguesia brasileira em seu conjunto.
Conforme as estatísticas dos censos da educação superior bem revelam, o privilegiamento da expansão no setor privado não vinha apresentando o resultado esperado de massificação das oportunidades junto às classes subalternas, pois havia expressivas sobras de vagas neste setor. Como o mesmo não estava ocorrendo nas instituições públicas, redirecionou-se parte dos recursos para promover nelas uma maior expansão, neste caso a do Reuni.
Além disso, de acordo com Leher (2003), estudos realizados no período pré-Reuni apontavam que, não obstante o crescimento das matrículas nos cursos pagos, o número de concluintes vinha se mantendo abaixo do esperado, devido a múltiplas dificuldades dos estratos subalternos em se manterem em instituições privadas, mesmo com isenções ou descontos nas mensalidades. Faltavam recursos, nestes estratos, para moradia, alimento, vestuário mínimo e transporte. Ou seja, o ensino privado ainda que com o acesso facilitado, ao contrário do que os dirigentes do MEC anteriormente supunham, permanecia mais elitizado que o público.
Como “elitizar” o ensino superior não era o verbo mais apropriado para o governo conjugar em tempos de capitalismo informacional, surge, então, a motivação para o Reuni que, em sua essência, transferiria parte da responsabilidade do novo pacto social de “cidadania educacional democrática” para as instituições federais, sobretudo aquelas que possuíssem condições mais favoráveis de moradia, alimentação, cursos noturnos e campi em regiões de baixa oferta de instituições de ensino superior (a UFRRJ, por exemplo).
Dados referentes à última edição do Censo da Educação Superior (ano base de 2009), divulgados pelo MEC e publicados pelo jornal O Globo, de 14/1/2011, revelam um aumento de 20% nas matrículas nas instituições federais de ensino superior, tanto em cursos
presenciais, como nos a distância, já refletindo, portanto, os efeitos no Reuni implantado nas Ifes a partir de 2008. Ou seja, o aspecto diferenciado da expansão nas instituições públicas federais e privadas do ensino superior está sendo amenizado com o Reuni. Até 2006, o investimento do MEC na compra de vagas em instituições particulares vinha sendo a principal política da expansão. Com o citado projeto de reestruturação, essa política expansionista vem sendo partilhada com as universidades federais.
Ainda assim, as federais ainda ficam muito aquém das particulares na oferta de vagas. É o que pode ser comprovado em reportagem publicada pelo jornal O Globo, de 14/2/2007, que divulgou os planos do MEC de repasse adicional de R$ 3,75 bilhões às universidades federais, nos cinco anos seguintes, para construção de prédios, compra de equipamentos e contratação de profissionais, com o objetivo de, em 2012, atingir a oferta de 1,26 milhão de vagas. Como parâmetro de comparação, convém relembrar que a rede privada, só em 2008, ofereceu o dobro desta estimativa de vagas (2.641.099).
Diante dos números apresentados, fica aqui a temerosa indagação do que poderá acontecer ao ensino superior brasileiro, sobretudo o federal, no “pós-Reuni”. Siqueira (2004, p. 68), ao analisar documentos do primeiro governo Lula da Silva que já sinalizavam a necessidade de expansão das vagas nas graduações públicas, prevê:
Em termos de educação superior pública, fica claro que a expansão das vagas prevista no setor público [...] pode gerar sérias dificuldades de manutenção desse sistema, quando não acarretar sua própria extinção e substituição pelos grupos empresariais internacionais, com muito ensino a distância, pacotes de avaliação, pacotes de formação de professores e nada de pesquisa.
Na tentativa de elaborar previsões para o “pós-Reuni”, convém citar o discurso de posse da presidente Dilma Rousseff, proferido em 1/1/2011. Na passagem em que se referia à educação, a nova dirigente executiva do Brasil não citou o Reuni ou o ensino superior. Ao contrário, mencionou a importância de investimentos na educação básica e técnica, o que torna mais preocupante ainda o teor das análises presentes na citação transcrita de Siqueira.
3.2 Diferenciação, diversificação e interiorização das instituições de ensino