CAPÍTULO III: “1967” E O MARCO NA MUDANÇA DA TRADIÇÃO AGRÁRIA DA UFRRJ
1. O contexto do “1967” no plano mais geral: antecedentes e desdobramentos
Florestan Fernandes (1975b)48delimitou três fases relevantes para o desenvolvimento do capitalismo na sociedade brasileira, que, cronologicamente, compreenderiam os seguintes períodos: da abertura dos portos (1808) aos meados do século XIX, dos meados do século XIX à década de 1950 do século XX e, por fim, da década de 1950 em diante, com ênfase na “Revolução de 1964” 49. No último período destacado pelo autor, podem ser encontrados indícios que melhor facilitem a compreensão de antecedentes que motivaram as modificações vividas pela UFRRJ nas décadas de 1960 e 1970, nas quais se inseriu a data que substantivamos como “1967”. Buscaremos, inicialmente, referências gerais envolvendo aspectos econômicos, sociais e políticos do contexto delimitado, para, em seguida, voltarmo- nos para nosso estudo sobre a expansão do ensino superior e a UFRRJ.
No âmbito do cenário nacional brasileiro, vislumbrava-se, naquele início dos anos 1950, relevante irrupção do capitalismo monopolista caracterizada por um desenvolvimento alicerçado no “impulso externo” (FERNANDES, 1975b, p. 258), que se fixa, de maneira vacilante, nesta época, mas, posteriormente, de 1964 em diante, consolida-se como oportunidade crucial de alavancamento da economia brasileira. Gravitando em torno do capital injetado por nações estrangeiras, em especial pelos EUA, encontravam-se as classes possuidoras, os estratos empresariais mais influentes e um Estado bastante intervencionista, como veremos mais adiante.
De início, focalizaremos nossa atenção na avaliação do impacto do “impulso externo” na consolidação do processo de modernização do Brasil, que não se encontra livre de controvérsias. Caio Prado Júnior (SANTOS, 2007a), ao contrário de boa parte dos militantes de seu partido (PCB) à época, percebia lastros positivos na penetração do capital financeiro internacional na economia brasileira, pois integraria o país à nova ordem econômica avançada do mundo desenvolvido. O entrave maior da penetração externa não residiria no fator imperialista em si, mas sim nos efeitos contraditórios da integração entre uma ordem altamente desenvolvida, que é a do mundo moderno, e outra ainda primitiva e débil, típica de uma nação como o Brasil, mera produtora de gêneros alimentares e matérias-primas destinadas ao comércio internacional. Ao privilegiar a localização dos efeitos nocivos do “impulso externo” no tema da colônia de produção, e não no da polarização nação/imperialismo, Caio Prado Jr. acabou por se distanciar das propostas modernizadoras formuladas pelas esquerdas naquela época.
48Nesse item, privilegiamos as análises de Florestan Fernandes, em A Revolução Burguesa no Brasil, e de Caio Prado Júnior, em A Revolução Brasileira, por considerarmo-nas obras fundamentais sobre a consolidação do capitalismo no Brasil, sendo tidas como referência nos estudos de vários outros autores que já se dedicaram ao tema.
49Optamos por manter o uso das aspas comumente utilizadas por Florestan Fernandes para ironizar o caráter pouco revolucionário do golpe de 1964.
É o que se verifica, por exemplo, na Declaração sobre a política do Partido Comunista Brasileiro 50, mais conhecida por Declaração de Março de 1958, que ataca abertamente o
imperialismo, considerando-o um dos maiores antagonistas do processo de modernização brasileira. Já no que se refere à descrição do cenário desenvolvimentista do país naqueles anos 1950, o preâmbulo inicial do documento destaca que o processo de desenvolvimento econômico do Brasil vivido desde a Revolução de 1930 herdava características de estruturas econômicas mais pretéritas, entre elas a agricultura baseada no latifúndio e nas relações pré- capitalistas de trabalho. No entanto, tal desenvolvimentismo apresentava elementos progressistas, como a construção de um parque industrial, que já conseguia abastecer praticamente todo o mercado interno no que se referia a artigos de consumo comum. A questão residia no aspecto contraditório deste tipo de progresso: acelerado, mas desigual; e também no criticado aumento da sujeição brasileira à crescente hegemonia dos EUA.
O desenvolvimento capitalista, entretanto, não conseguiu eliminar os fatores negativos, que determinam as características do Brasil como país subdesenvolvido. Ao tempo em que se incrementam as forças produtivas e progridem as novas relações de produção capitalistas, conservam-se em vastas áreas as relações atrasadas e permanece a dependência diante do imperialismo, particularmente o norte-americano (Declaração de Março de 1958. In: SANTOS, 2007b, p. 173).
O fragmento transcrito da Declaração de Março de 1958 também enfatiza o aspecto conservador, já assinalado no capítulo I, da revolução modernizadora ocorrida no período que Florestan Fernandes (1975b) chamou de terceira etapa do desenvolvimento capitalista brasileiro.
Nas diversas abordagens desse conservadorismo, encontramos em Souza (2003) a associação sinonímica entre o termo “encapuzada”, usado por Florestan Fernandes (1975b) para qualificar a revolução modernizadora brasileira, e o termo “passiva” utilizado por Vianna (2004) com o mesmo fim. “Encapuzada”, nesse sentido, traduziria um processo onde as práticas institucionais, como o Estado, por exemplo, se impõem como realidade material produzindo um “déficit” de articulação entre as novas forças sociais em ação e as presentes na ordem anterior. Estas sobrevivem nas instâncias de mediação, negociação e legitimação dos “novos” papéis sociais, sendo exatamente a ideia do “novo” a encobrir (encapuzar) em si mesmo a permanência (conservação) do “antigo”.
Nas análises desenvolvidas sobre os variados momentos de revolução passiva ocorridos no Brasil, Vianna (2004) assinala os anos 1950, onde situamos, mais especificamente, o “pré-1967”, como um período cujo desenvolvimentismo foi marcado por uma “fuga para frente”: o ator modernizador em luta contra o tempo, os “cinquenta anos em cinco”, queimando etapas essenciais para a construção de um processo que integrasse social e politicamente tanto as elites territorialistas como as do liberalismo econômico. Assim como em 1930, o Brasil arcaico preponderava sobre o Brasil moderno a partir de alianças dos interesses privilegiados das elites territorialistas em torno do Estado.
Caio Prado Júnior (SANTOS, 2001) igualmente vê com reservas o acelerado desenvolvimentismo que norteou a economia brasileira no pós- 2ª guerra. Baseado em uma acumulação de capital advinda de negócios propiciados pelo poder público, e não do padrão clássico (tipo europeu ou americano) dinamizador da vida nacional, o historiador faz uso da expressão “neo-ufanismo desenvolvimentista” para caracterizar o período pós-1945, que
50Tal texto encontra-se, na íntegra, em Santos (2007b). Apesar de não apresentar grande profundidade teórica, optamos por citar Declaração de Março neste momento por ser um dos primeiros documentos das esquerdas a reconhecer e valorizar o desenvolvimento do capitalismo no Brasil, naqueles anos 1950.
culminou com o “milagre” econômico dos militares no pós-1964. Na sua avaliação, esses momentos revelaram uma prosperidade aparente, que beneficiou setores reduzidos do país, sem tornar sólida ou durável a estrutura básica da economia e sem trazer melhorias significativas nas condições gerais de vida da grande massa da população brasileira.
O cenário conservador de estruturas desiguais pretéritas nos leva, então, a dirigir nossas vistas para o tema da revolução passiva brasileira deste período. Vianna (2004) localiza tal via de modernização para além do cenário exclusivo das elites, fato exemplificado pela já citada Declaração de Março de 1958, que traduziu a incorporação das esquerdas a uma proposta de ruptura adepta do caminho pacífico e não revolucionário, a partir da formação de uma frente única que integrasse diversas forças heterogêneas: comunistas, proletariado, camponeses, pequena burguesia urbana (composta pela intelectualidade e pelo movimento estudantil), burguesia nacional e até mesmo setores latifundiários que disputavam preços com os EUA.
A Declaração de Março viria a confirmar, então, a necessidade de uma movimentação “por baixo”51, alterando a essência da revolução passiva, pois introduziu um elemento mais “ativo” em um processo de transformismo que estaria em curso, ainda que sob o domínio dos fatos, característica esta típica dos ciclos de revolução passiva (Risorgimento e americanismo) citados no capítulo I.
A atividade desse ator aparece, porém, como prisioneira dos fatos, cabendo a eles o papel de “elemento progressista por excelência da economia brasileira”. A esquerda descobria o tema do transformismo como uma nova alternativa para a mudança social, mas esta descoberta se fazia em um terreno estranho ao seu – o do Estado, da burguesia nacional e das elites políticas de tradição territorialista (VIANNA, 2004, p. 50).
Tal estranhamento torna-se elemento desencadeador de uma ruptura no interior das próprias esquerdas devido à política de gradualismo reformista proposta pela Declaração de Março. Parte significativa deste grupo relaciona diretamente aquela política com a vitória do golpe militar. Segundo seus argumentos, as coalizões pluriclassistas deveriam dar lugar a uma política definida por setores subalternos, em particular do movimento operário, com vistas a romper com o campo intelectual da revolução passiva e com o capitalismo territorialista brasileiro (VIANNA, 2004).
Na verdade, os novos e acelerados rumos da modernização brasileira, consolidados pelo incremento da industrialização, entre outros fatores, vinham alimentando um padrão de desenvolvimento capitalista favorável à multiplicação e ao fortalecimento do conflito de classes, localizados sobretudo nos movimentos operários. De acordo com Florestan Fernandes (1975b, p. 279), “a via pela qual se atinge o clímax da transição industrial está longe de ser a melhor possível”, posto que o desenvolvimento capitalista vivido pelo país naquela ocasião pouco se adaptava às necessidades, interesses e aspirações dos grupos assalariados e operários enquanto classe.
O panorama traçado propiciava a efervescência de conflitos dos mais variados tipos, ocorridos tanto nos meios urbanos como nos rurais. A pauta de reivindicações destes últimos combatia a resistência à reforma agrária e a relutância quanto à universalização das relações de mercado no campo, pleiteando transformações estruturais para o mundo agrário brasileiro. Já nos meios urbanos, os avanços ocorridos no campo da educação se irradiavam nos padrões
51Essa expressão foi empregada, por Vianna (2004), no sentido de situar as esquerdas como ator que deveria ativar o transformismo em uma circunstância sobre a qual não possuía controle.
de participação intelectual e política das classes operárias, renovando o movimento sindical e configurando-as como “força social” da história (FERNANDES, 1975b).
Fora isso, as classes médias, outrora mais castas e elitizadas, passam a englobar também elementos genuinamente mais pobres, de origem operária, e socializados previamente para viver como operários. A pressão das ampliadas classes médias na conquista de benefícios sociais, políticos e econômicos anteriormente reservados apenas às elites vai exercer grande influência no padrão quantitativo da expansão do ensino superior no Brasil ocorrido nos anos 1970, como veremos mais adiante.
A necessidade de delimitarmos o contexto político, econômico e social do Brasil no período compreendido entre o pós- 2ª guerra e o golpe de 1964 se justifica pelos relevantes desdobramentos que os “fatos” deste período tiveram nos rumos não só do ensino superior brasileiro, como na trajetória da própria UFRRJ. Os aspectos aqui assinalados constituíram terreno propício para a concretização do que Florestan Fernandes (1975b) ironicamente denominou “revolução institucional” de 1964.
O sociólogo paulista classifica a Revolução Burguesa na periferia como um fenômeno muito mais político do que econômico, pois as burguesias periféricas, por terem vivenciado um processo de modernização retardatário, foram afetadas pelas influências do mundo capitalista avançado, para onde drenaram o excedente econômico, ficando sem base material para exercerem seu papel clássico de burguesia (“Tudo que é sólido se transforma no ar” 52).
Essa situação fez com que a burguesia brasileira lutasse não apenas para consolidar vantagens ou manter privilégios, mas principalmente pela sobrevivência do próprio capitalismo e de si mesma como classe.
Isso introduz um elemento político em seus comportamentos de classe que não é típico do capitalismo, especialmente nas fases de maturação econômica, sociocultural e política da dominação burguesa na Europa e nos Estados Unidos (FERNANDES, 1975b, p. 296).
Tinha-se, dessa forma, uma classe burguesa que, em condições tão difíceis e adversas, chegava ao vértice de suas possibilidades modernizadoras, consolidando, no entanto, uma transformação da ordem já vazia de qualquer significado de fato revolucionário. Para se manter e se fortalecer neste vértice, os estratos burgueses acabam por privilegiar ações políticas reacionárias, revelando a essência autocrática de sua dominação mediante formas abertas e sistemáticas de ditadura de classe.
Isso nos coloca, certamente, diante de um poder burguês [...] que se impõe sem rebuços de cima para baixo, recorrendo a quaisquer meios para prevalecer [...], convertendo, por fim, o Estado nacional e democrático em instrumento puro e simples de uma ditadura de classe preventiva (FERNANDES, 1975b, p. 297).
A conjuntura nacional que levou ao golpe de 1964 pode, então, ser explicada como um modo de estabilização da dominação burguesa, naquele momento com seu potencial de transformação capitalista fragilizado por fatores diversos, quer seja pela dominação imperialista externa, quer seja pelo desenvolvimento desigual, que aumentava a pressão das classes operárias e destituídas por uma distribuição mais paritária de benefícios econômicos e sociais.
A fragilidade da burguesia na condução do desenvolvimento capitalista sem a realização de uma revolução nos moldes clássicos resulta em um tipo de impotência burguesa que faz convergir para o Estado nacional o núcleo do seu poder de decisão e de atuação:
52 A respeito do tema, rever, capítulo I: alto poder de transformação da burguesia na revolução capitalista clássica (Manifesto Comunista, de Marx e Engels).
Essa impotência [...] colocou o Estado no centro da evolução recente do capitalismo no Brasil e explica a constante atração daquele setor pela associação com os militares e, por fim, pela militarização do Estado e das estruturas político- administrativas (FERNANDES, 1975b, p. 307).
A caracterização desse tipo de Estado no qual a burguesia vai se apoiar desperta o nosso interesse, em virtude de estarmos estruturando a nossa investigação com a hipótese de um Estado bastante intervencionista no que se refere aos rumos da expansão do ensino superior brasileiro.
Não é tarefa fácil caracterizar um Estado capitalista dependente e periférico. Florestan Fernandes (1975b) utiliza o termo “sincrético” para se referir ao Estado nacional nos anos 1960/1970, pelo fato de, ao mesmo tempo, seguir modelos democráticos/pluralistas e repressores/fascistas, dependendo dos estratos com os quais se relacionam:
Ele é, literalmente, um Estado autocrático e oligárquico. Preserva estruturas e funções democráticas, mas para os que monopolizam, simultaneamente, o poder econômico, o poder social e o poder político, e usam o Estado exatamente para criar e manter uma dualidade intrínseca da ordem legal e política, graças a qual o que é oligarquia e opressão para a maioria submetida, é automaticamente democracia e liberdade para a minoria dominante (FERNANDES, 1975b, p. 350).
Encontramos em Caio Prado Júnior certa convergência analítica diante do que foi explicitado, com base em Florestan Fernandes, a respeito da revolução burguesa brasileira naquele “pré-1967”. Não é à toa que ambos escreveram livros com as palavras “revolução brasileira” em seus títulos. O historiador comunista diferenciou dois tipos de burguesia: aquela ligada ao que chamou de “capitalismo burocrático”, que se apoia no poder público para formar e acumular capital; e a que batizou como “burguesia ortodoxa”, formada no curso do industrialismo e enquadrada nos cânones ordinários e tradicionais da classe (PRADO JR. In: SANTOS, 2007a).
Grosso modo, a origem única de qualquer subdivisão que a burguesia brasileira venha a apresentar se encontra, segundo Caio Prado Júnior, na natureza acanhada do capitalismo nacional, que sempre se afirmou sem realizar rupturas com o passado:
Essa burguesia não só arrastara as suas raízes agrárias e assentara a territorialização de seus negócios na contemporaneidade, como sobremaneira atualizara a tradição burocrática da monarquia portuguesa no processo de formação e acumulação privada de capital através do favorecimento pelo poder público de interesses particulares (PRADO JÚNIOR. In: SANTOS, 2001, p. 206).
A sobrepujança da burguesia burocrática diante da burguesia ortodoxa levou a uma inversão no protagonismo do alavancamento da modernização brasileira. Os protagonistas realmente decisivos para a consolidação deste processo ficaram em segundo plano, realçando o papel da outra burguesia, sem projeto de capitalismo e incrustada no Estado. Caio Prado Jr. considerava esta inversão por parte das esquerdas um erro prático que levou ao golpe de 1964, tendo elas se equivocado diante da atuação da burguesia burocrática, ao reconhecer nesta um papel progressista que não tinha (SANTOS, 2001).
De qualquer forma, a própria burguesia ortodoxa, mesmo se assumisse um maior protagonismo naquele contexto, dificilmente apresentaria condições suficientes de fomentar uma revolução democrático-burguesa o mais próxima possível dos padrões clássicos, efeito da natureza frágil e deformada do capitalismo brasileiro, extremamente dependente do poder público e daqueles que o manejam:
É que o Estado representa na economia brasileira, em largas proporções, o principal fator no processo central do sistema, que vem a ser a acumulação e
concentração de capital [...] direta ou indiretamente o Estado constitui entre nós o controlador de parcela considerável, e mesmo decisiva, das disponibilidades financeiras do país (PRADO JÚNIOR. In: SANTOS, 2007a, pp. 236-237).
Os desdobramentos deste cenário pós-1964 se revelaram na consolidação de um Estado autoritário, fortalecido economicamente com o crescimento das empresas estatais e com a multiplicação desmedida dos negócios por ele promovidos. Sob a tutela da corporação militar, criava-se o regime que alimentaria o “milagre econômico” da virada dos anos 1960 para os 1970, típica ilusão desenvolvimentista que a “modernização conservadora” havia criado, baseada numa intensa urbanização, que era muito mais uma contrapartida da estagnação e decadência do mundo rural, e no crescimento da dívida externa.
O destacado papel de liderança desempenhado pelas Forças Armadas nesse cenário foi assim avaliado por Caio Prado Júnior:
Os militares, principais e decisivos fautores do golpe, foram progressivamente absorvendo todo o poder e autoridade com o afastamento gradativo dos setores civis que com eles tinham cooperado na derrubada do governo afinal deposto [...]. Aquele afastamento contudo não importou desde logo em perda alguma, para a burguesia, das vantagens que lhe proporcionava o golpe (PRADO JÚNIOR. In: SANTOS, 2007a, p. 229).
Entre tais vantagens, se destacam a redução, ao mínimo, das reivindicações trabalhistas, o emudecimento das forças populares e das esquerdas e, no plano econômico, a política inteiramente voltada para os interesses mais imediatos da burguesia e do seu aliado setor imperialista. O que as Forças Armadas representavam, nesse contexto, não seria um pensamento político próprio e específico da convicção militar para a conjuntura brasileira, mas sim uma orientação política resultante do meio social do qual eram participantes, nele se destacando a tecnocracia executora da tarefa de desenvolver o país, ainda que com base capitalista precária e como apêndice de um Estado centralizador e burocrático.
As considerações até então realizadas a respeito dos antecedentes do “1967” convergem para este ponto crucial de nossa pesquisa: a existência, naquele momento, de um Estado centralizador e burocrático. Isso nos leva a retomar os conceitos gramscianos de sociedade política, citados no capítulo I, em que o Estado se fortalece em detrimento da sociedade civil, dominando mais pela coerção e menos pelo consenso. A esfera de dominação se concretiza por meio dos aparelhos repressivos de Estado, normalmente controlados pelas burocracias executiva e policial-militar. Onde a sociedade civil é fraca e as formas de organização popular são débeis, os mecanismos de instalação do Estado-coerção tornam-se mais frequentes.
No caso específico do regime de 1964, mesmo com a intensa utilização da coerção e do terrorismo de Estado, Coutinho (1992) não o analisa como uma ditadura fascista clássica, pois, para obter um consenso mínimo, tolerou a presença de um parlamento e de um partido de oposição, além de se empenhar na conquista de concordâncias em amplas faixas da população. Para tal, o regime militar-tecnocrático obtém êxito pelo seu protagonismo na obra de modernização instaurada no Brasil, que o converteu em país industrial moderno, com alta taxa de urbanização e com uma estrutura agrária predominantemente capitalista, ainda que aprofundando a dependência ao imperialismo e mantendo as disparidades na distribuição da propriedade e da renda.
Arma-se, assim, um critério de interpretação que, inspirado no conceito gramsciano de revolução passiva, nos auxilia a compreender o contexto do “1967”, quando os grupos hegemônicos, apoiados no Estado, tinham a função de domínio, mas não de direção, compondo o que Coutinho (1992), retomando Gramsci, chama de “ditadura sem hegemonia”.
Nesse sentido, o Estado protagonista deste tipo de revolução passiva prescinde, para garantir o seu funcionamento, de um mínimo de conformidade de opiniões, obtida por meio da assimilação, pelo bloco de poder, das frações rivais das próprias classes dominantes ou das classes subalternas. Tal assimilação provoca um tipo de transformismo “molecular”, comum nos anos iniciais do regime republicano, quando o Estado cooptava intelectuais para fazer parte de sua burocracia53, ou “populista”, interessado em agregar ao poder, em posição mais
cordata e aquiescente, as camadas médias urbanas em geral, através da concessão de direitos