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4 FORMAÇÃO EM AUDIODESCRIÇÃO: O OLHAR E A PALAVRA ALHEIA

4.2 Explorando imagens: o exercício de ver com palavras

A exploração de imagens estáticas e dinâmicas por meio da audiodescrição se constitui foco do segundo momento das oficinas pedagógicas de sistematização, correspondendo às três oficinas que sucederam as iniciais. Nessa exploração, com viés mais prático, os participantes pautaram-se nos elementos orientadores da audiodescrição (MOTTA, 2016), seus princípios (ALVES, 2012; MOTTA, 2016) contemplados anteriormente, além de considerar os tipos de audiodescrição (SANTANA, 2010) e suas etapas (ALVES, 2012), aspectos teóricos abordados nesse momento formativo, os quais serão expostos mais adiante.

Inicialmente, consideramos ser importante esclarecer que, de acordo com Santaella (2012a), há imagens fixas e em movimento ao tratar de imagens como representações visuais55, um dos territórios imagéticos que abordamos neste

estudo. As primeiras se referem às imagens que se apresentam de forma “congelada”, tais como desenhos, pinturas, fotografias, gráficos e mapas; as segundas significam “[...] a variação da posição espacial de uma imagem ou de uma sequência de imagens no decorrer do tempo” (SANTAELLA, 2012a, p. 18), a exemplo das imagens cinematográficas e televisivas. Porém, inspirando-nos em Motta (2016), optamos por utilizar os termos correspondentes: imagens estáticas e dinâmicas.

Seguindo a interlocução com Santaella (2012a) no que se refere ao uso de imagens no contexto escolar, a autora advoga que o fato de os seres humanos estarem, cotidianamente, ladeados de imagens, é um motivo mais que legítimo para que a imagem adquira a devida importância no processo de ensino e aprendizagem. Tais reflexões também se fazem presentes no pensamento de Motta (2016) ao destacar que, na escola, as imagens, tanto estáticas quanto dinâmicas, estão presentes em diversas atividades pedagógicas. Por isso, considera que “a escola

55 De acordo com Santaella (2012a, p. 17), “as imagens são chamadas ‘representações’ porque são

como locus de construção de saberes e de formação de cidadãos precisa preparar docentes que sejam capazes de fazer a leitura desse mundo caoticamente imagético e de ensinar seus alunos a fazê-lo” (MOTTA, 2016, p. 14).

No que concerne à formação dos professores acerca da audiodescrição, cabe sublinhar que não se trata de esses profissionais se tornarem audiodescritores, no seu sentido profissional, como esclarece Silva (2012), mas sim de eles fazerem uso dos princípios ou orientações da audiodescrição (ALVES, 2012; SILVA, 2012) de modo a orientar a prática docente na perspectiva de contemplar alunos com e sem deficiência visual. Para Silva (2012, p. 295), se, de fato, há uma preocupação com um ensino de qualidade e, por conseguinte, inclusivo, “mais que um direito, a AD é um dever institucional de toda unidade escolar e de todo profissional”.

Nesse processo formativo, tendo como objetivo promover a vivência de situações práticas de feitura de descrições de imagens estáticas, inicialmente, revisitamos os princípios e elementos orientadores da audiodescrição, já abordados nas oficinas anteriores. Em seguida, apresentamos uma fotografia (Figura 6), isto é, uma imagem estática, com sua respectiva descrição56 para que os participantes

percebessem os elementos orientadores presentes na descrição da imagem.

Figura 6 – Fotografia de um homem em campo de crisântemos

Fonte57

56 Descrição da imagem: fotografia colorida (TIPO DE IMAGEM), em plano geral (DE ONDE), de um

homem jovem (O QUE, QUEM), vestindo macacão azul claro e luvas pretas, carregando bolsa na cintura com alguns equipamentos (QUALIFICAÇÃO DO PERSONAGEM: COMO). Ele pulveriza plantação de crisântemos amarelos dispostos em fileiras simétricas (FAZ O QUÊ?), em dia claro (QUANDO) – (Fim da descrição).

57 Tal imagem, com sua respectiva descrição, foi objeto de cursos introdutórios de audiodescrição

ofertados pela Profa. Dra. Lívia Motta, a qual, também, foi acionada metodologicamente pelo Prof. Dr. Jefferson Fernandes Alves em aulas e oficinas de Audiodescrição.

Para além da identificação dos elementos orientadores da audiodescrição, discutimos acerca da necessidade de adequar a descrição da imagem ao público a quem se destina. Tal discussão emergiu da reflexão dos participantes ao destacarem que, no contexto escolar, termos como os relacionados ao enquadramento ou, ainda, “fileiras simétricas” usadas na descrição podem não se mostrar adequados por ainda não serem compreendidos pelos alunos, como pontuou a professora Mariana (2018, informação verbal): “[...] eu acho que tem que ser mais específica em algumas coisas. Por exemplo: fileira simétrica. Ele tem noção do que seria simétrica?”.

Remetendo-nos às reflexões de Jobim e Souza e Albuquerque (2012), assumidas na metodologia de pesquisa, as quais têm como referência os postulados da teoria bakhtiniana, observamos que no discurso da professora se revela a posição do outro – participante – não como um objeto da pesquisa, mas como sujeito ativo, que é expressivo, falante (BAKHTIN, 2017), ou seja, que se posiciona axiologicamente, confrontando-nos como pesquisadora e, por conseguinte, exigindo de nós, também, um posicionamento, uma resposta.

Nessa interlocução, pontuamos que, no processo de feitura da audiodescrição, as escolhas das palavras devem considerar as singularidades do público a quem se destina. Assim, os termos técnicos de enquadramento, por exemplo, poderiam ser substituídos por outros, como a própria definição do enquadramento. Nossa posição encontra respaldo em Araújo (2017, p. 37), que, ao considerar a audiodescrição uma tradução intersemiótica, assinala que “o ato tradutório acontece sempre a partir de uma análise do texto pelo tradutor, o qual levaria em conta o contexto, a história, o público alvo, dentre outros fatores que influenciam uma tradução”. Ademais, em um enfoque dialógico, cumpre assinalar que

[...] o destinatário em Bakhtin é uma instância interior ao enunciado, a tal ponto que ele é considerado um co-autor do enunciado; isso traz uma conseqüência decisiva para o trabalho identitário do discurso pois sua própria estrutura se organiza em razão de sua destinação [...] (AMORIM, 2002, p. 9).

Noutras palavras, a autora, pautando-se nas ideias bakhtinianas, evoca “[...] o papel ativo do outro no processo de comunicação discursiva” (BAKHTIN, 2016, p. 27), uma vez que todo enunciado, desde o início, é direcionado a um destinatário,

real ou possível, de quem o falante espera uma “compreensão ativamente responsiva”, uma resposta. Portanto, a descrição da imagem, sendo um enunciado, direciona-se sempre a alguém que já está, presumidamente, presente no texto, a saber, a pessoa com deficiência visual, tal como assinala Alves (2016, p. 46):

[...] a audiodescrição como um enunciado, ao se dirigir para outro enunciado (a obra audiodescrita), tem o direcionamento orientado para as pessoas com deficiência visual, as quais, como destinatárias, participam, internamente, da feitura da audiodescrição, uma vez que esta existe em função de posições responsivas (a ser) assumidas pelos não videntes.

Feitas essas reflexões, no contexto formativo, apresentamos outra fotografia aos participantes, os quais, reunidos em grupos, foram orientados a descrevê-la com base nos elementos orientadores da audiodescrição. Durante o processo de feitura coletiva da descrição (Figura 7), os participantes observaram a imagem, analisando-a. Nesse processo, dialogicamente – na alternância das vozes –, eles confrontavam seus pontos de vista, concordando ou discordando, ou ainda, complementando ao considerar não apenas tais elementos orientadores, mas também o destinatário real ou possível de seu texto, nesse caso, os alunos com deficiência visual.

Figura 7 – A feitura da descrição de uma imagem estática

Descrição das imagens: duas fotografias coloridas na horizontal, ambientadas em uma sala com paredes brancas e contendo participantes reunidos em trios. Na fotografia à esquerda, três participantes estão sentadas em cadeiras azuis encostadas à parede. Elas são brancas e usam óculos. Vestem calça jeans azul e blusas de cores diferentes. Seguram folhas de papel e estão realizando a atividade de descrição de uma fotografia. Na fotografia à direita, três participantes, dois homens e uma mulher, estão sentados em cadeiras brancas encostadas à parede. Usam calça jeans e camisetas de cores diferentes. Eles também têm em suas mãos folhas de papel e estão analisando uma fotografia (Fim da descrição).

O momento seguinte envolveu a partilha e a escuta das descrições construídas, que evidenciaram as escolhas de cada grupo, marcadas por suas subjetividades e percepções acerca do outro, o destinatário. Desse modo, visivelmente, alguns grupos construíram descrições mais centradas nos elementos orientadores da audiodescrição, porém, outros, embora tenham buscado considerar tais elementos, optaram por uma descrição mais explicativa, como podemos observar, respectivamente, nas descrições que acompanham a fotografia a seguir (Figura 8):

Figura 8 – Fotografia de um homem escalando uma montanha

Fonte: Motta (2016, p. 71).

O grupo composto por Júlia, Débora e Karol descreveu a imagem – que teve a locução executada por essa última participante – da seguinte maneira:

Fotografia em plano geral. Na imagem há montanhas ao fundo com vegetação verde que se misturam ao azul do céu. No primeiro plano, do lado direito, um homem escala uma pedra em tom amarelado, num dia claro (KAROL, 2018, informação verbal).

Já o grupo constituído pelos participantes Arthur, Caio e Renan descreveu a mesma imagem – que teve a locução executada por Caio – da seguinte forma:

Fotografia colorida mostrando em primeiro plano uma montanha amarelada e muito íngreme (muito inclinada). Um alpinista (pessoa que escala montanhas), aparenta não utilizar material de proteção. Ele veste roupas confortáveis e parece ser forte. Em segundo plano,

existe uma cadeia de montanhas, elas parecem ser cobertas por vegetação. Por estarem mais distantes, essas montanhas apresentam uma cor acinzentada, uma espécie de névoa parece cobri-las. Uma luz destaca a montanha em primeiro plano, o que dá a ideia de um dia ensolarado (CAIO, 2018, informação verbal).

Em relação à última descrição, consideramos que as explicações podem indicar um genuíno cuidado dos participantes em adequar a descrição às necessidades dos alunos, cuidado este que pode ser identificado na tentativa de tornar termos mais complexos compreensivos para eles. Nesse processo, entendendo que todo enunciado é direcionado a um destinatário, real ou possível, conforme preconizam as ideias bakhtinianas e, que, por conseguinte, revela como “[...] o falante (ou o que escreve) percebe e representa para si os seus destinatários [...]” (BAKHTIN, 2016, p. 63), as explicações também podem sinalizar, ainda que de forma subliminar, uma concepção sobre esse destinatário, ou seja, sobre o aluno com deficiência visual, pautada na ideia da falta, implicando uma necessária adição de informações à descrição da imagem para que, de fato, uma “compreensão ativamente responsiva” pudesse ser efetivada, dada a incapacidade presumida do destinatário.

Nesse sentido, ainda refletindo sobre a referida descrição, especificamente quando explica que o alpinista é “pessoa que escala montanhas”, ressaltamos que, sendo a audiodescrição um recurso que propicia também a ampliação do vocabulário do aluno, o termo “alpinista” seria suficiente. Porém, a professora Mariana (2018, informação verbal), em discordância, pontuou: “mas isso depende muito do contexto, né? Porque, por exemplo, se for um contexto de sala de aula, dependendo da série do aluno, então você tem que ser mais [...] detalhista”. Desse modo, a professora, presumidamente, indica uma possível necessidade de uma descrição mais “detalhada” para o destinatário, o que endossa a discussão anterior.

De acordo com Grillo (2012), o falante se expressa nas escolhas que faz, as quais são materializadas no enunciado. Nessa perspectiva, é importante destacarmos que não estamos defendendo uma descrição objetiva, ou seja, isenta da subjetividade do falante; ao contrário, a defesa é em favor da construção de descrições que levem em conta as potencialidades dos alunos e, por conseguinte, possibilite a eles construir uma “compreensão ativamente responsiva” acerca das imagens que lhes chegam a partir do olhar e da palavra do outro. Assim, pontuamos para os participantes que, no contexto escolar, a audiodescrição – entendida como

tecnologia assistiva que assume um caráter mediador no processo de aprendizagem (PASSERINO, 2015) – deve ser contemplada a partir da interlocução com toda a turma, ou seja, envolvendo alunos com e sem deficiência visual, com a mediação do professor, como propõe Alves (2012) e Motta (2016), perspectiva que assumimos nesta pesquisa.

Para os participantes, esse enfoque – no qual o professor ensina os alunos que enxergam a realizar a leitura da imagem para aqueles que não veem, interrogando-os com base nos princípios e elementos orientadores da audiodescrição – mostrou-se mais adequado ao uso desse recurso no contexto escolar, uma vez que o processo de ensino envolve a participação do aluno. A esse respeito, a professora Karol (2018, informação verbal) ressaltou que, no âmbito da “[...] sala de aula, isso é mais possível ainda de acontecer. Porque a gente não trabalha com a descrição puramente, a gente trabalha sempre num caminho de duas mãos. Você vai conversando com o menino, o menino vai falando”. Considerando que a nossa proposta compreende uma abordagem multissensorial quanto ao acesso às imagens, em que a audiodescrição é associada a outros meios perceptivos, recuperamos, a seguir, um fragmento dessa reflexão, a partir das discussões em torno da dimensão colaborativa da audiodescrição.

[...] é um recurso que pode contribuir para a compreensão dos conteúdos, para o acesso às informações, não só para o aluno com deficiência visual. Ela é um dos recursos, não é o único. Você não vai chegar na sala só fazendo uso da audiodescrição, só com audiodescrição. Você vai usá-la associada a outras estratégias (SILVA, professora pesquisadora, 2018, informação verbal).

Ainda durante a discussão acerca das descrições, os participantes expressaram dúvidas que foram surgindo no processo de feitura, as quais estavam relacionadas sobretudo ao enquadramento a ser utilizado e à sequência dos elementos na descrição da imagem. Conforme Motta (2016, p. 39), tais elementos “[...] precisam ser organizados de forma a facilitar a construção da imagem mental”, não havendo, portanto, uma sequência rígida, embora, para a autora, na descrição de fotografias de pessoas, a descrição deva se orientar começando pelas características físicas (gênero e faixa etária, cor de pele, estatura, peso, olhos, cabelos, boca, sobrancelhas e nariz), enfatizando os destaques para, depois, descrever as vestimentas (MOTTA, 2016).

Na sequência, apresentamos para os participantes da oficina uma descrição para a Figura 8 (a imagem que os participantes descreveram), porém, elaborada por uma audiodescritora, de modo que eles observassem as escolhas dessa profissional tanto em relação aos elementos priorizados e a organização textual quanto no que diz respeito aos termos utilizados em sua descrição58.

Considerando os elementos orientadores da audiodescrição, os participantes destacaram que a audiodescritora buscou contemplá-los enfocando inclusive o tipo de imagem e de enquadramento. Ressaltaram também que a descrição se mostrou subjetiva, utilizando termos como “agilidade”, que responde ao “COMO – Locução adverbial” (MOTTA, 2016, p. 71). Nesse aspecto, discutindo acerca do princípio da neutralidade, que pressupõe a produção de descrições objetivas, portanto, livres de interpretações, questionamos os participantes: “é possível uma audiodescrição neutra?”. Em resposta a essa provocação, em consonância com Araújo (2017), eles pontuaram que, do seu ponto de vista, não era possível. Para essa autora,

[...] se essa objetividade existisse, significaria dizer que não importando sua visão de mundo, sua subjetividade, sua idade, sua origem, todos os audiodescritores priorizariam a mesma informação visual e todas as audiodescrições seriam iguais. Segundo essa concepção de tradução, ao fazermos uma AD, as soluções estariam fora do audiodescritor e não seriam fruto de sua análise da situação (ARAÚJO, 2017, p. 36).

Araújo (2017) assinala que a audiodescrição é marcada pela subjetividade, ou seja, pela autoria de quem escreve a descrição. Concordando com esse pensamento, a professora Karol (2018, informação verbal) enfatizou: “até no que você vê na imagem é diferente e tem ali uma relação com as referências que você tem, com o ser histórico que você é, com a sua construção”. Nessa perspectiva, Praxedes Filho e Magalhães (2015) sugerem que o parâmetro de neutralidade não seja integrado ao conjunto de parâmetros brasileiros de audiodescrição em construção, uma vez que, em seu estudo, constataram a inexistência de neutralidade em roteiros de audiodescrição de pinturas em português brasileiro,

58 Descrição da imagem: Fotografia colorida em plano geral de um alpinista, vestindo bermuda azul,

camiseta laranja e luvas brancas, cordas e equipamentos na cintura, escalando com agilidade uma montanha rochosa e escarpada, de cor amarelada, na lateral direita, com outras montanhas escuras ao fundo, em dia claro (MOTTA, 2016, p. 71).

ainda que essa escrita tenha sido guiada pela prescrição de neutralidade, confirmando, assim, a impossibilidade de existirem textos sem marcas autorais.

Continuando o processo formativo, propomos aos participantes a exploração de imagens dinâmicas. Primeiramente, com o objetivo de estimulá-los a analisar um produto audiovisual com audiodescrição, tendo como base seus princípios e elementos orientadores, exibimos o anúncio publicitário intitulado “A grande história da água”59 (Figura 9). Esse anúncio, produzido para o lançamento

da linha infantil da Natura Naturé, segundo Santana (2010), foi o primeiro a ser veiculado pela televisão brasileira em formato acessível, contando com audiodescrição e closed caption60 de forma simultânea, em que a audiodescrição

foi realizada pela Iguale – Comunicação de Acessibilidade em 2008, tendo como audiodescritor-roteirista61 Mauricio Santana e Leonardo Rossi como audiodescritor-

narrador.

Figura 9 – Anúncio publicitário “A grande história da água”

Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=FdgQ_Xww6Mw. Acesso em: 10 jul. 2019.

59 Natura Naturé com Audiodescrição Iguale. Disponível em:

https://www.youtube.com/watch?v=FdgQ_Xww6Mw. Acesso em: 10 jul. 2019. Audiodescrição: desenho de bolhas de sabão: Natura Naturé apresenta... Crianças sentadas em roda na beira de um lago. Desenho animado de gotas de chuva caindo. Desenho de gotinhas de água evaporando e formando nuvens no céu. Desenho da água passando por vários encanamentos subterrâneos e chegando nas casas. Cenas de crianças felizes tomando banho. Embalagens coloridas. Marca Natura (Fim da descrição).

60 Segundo Araújo (2017, p. 75), no sistema americano de closed caption, “[...] as legendas são

convertidas em códigos eletrônicos e inseridas na linha 21 do intervalo vertical em branco do sinal da TV, ou seja, na barra horizontal localizada entre as imagens da televisão. O telespectador acessa a legenda por meio de um decodificador localizado no controle remoto do televisor. Essa legenda é produzida por um profissional chamado estenotipista (stenocaptioner), utilizando o estenótipo (stenotype), tipo de teclado ligado a um estenógrafo computadorizado”.

61 Conforme Alves (2012, p. 92), não é sempre que as etapas da audiodescrição “[...] são assumidas

pela mesma pessoa. Dessa forma, é possível termos um roteirista que não faz a locução ou um audiodescritor (locutor) que não faz o roteiro. No entanto, é desejável que o profissional da audiodescrição possa dominar essas duas etapas”.

Descrição das imagens: duas imagens coloridas na horizontal de cenas do anúncio publicitário "A grande história da água". Na imagem à esquerda, sobre fundo azul, dentro de uma bolha de sabão, escrito com letras maiúsculas em laranja, amarelo e azul, "A grande história da água". Na imagem à direita, sobre fundo verde, um organograma estilizado com quatro casas brancas de tamanhos diferentes interligadas pelo encanamento da rede de distribuição de água (Fim da descrição).

O anúncio foi exibido em três diferentes momentos. No primeiro, com os olhos vendados, os participantes assistiram ao vídeo sem audiodescrição; no segundo momento, também com os olhos vendados, assistiram com audiodescrição para que estabelecessem comparações entre os dois formatos, percebendo as informações que se acrescentaram ao áudio original por meio desse recurso de tecnologia assistiva. Entretanto, em virtude de problemas técnicos com o equipamento de som, os participantes evidenciaram dificuldade em expressar sua compreensão acerca do anúncio publicitário, inclusive quando disponibilizado com a audiodescrição.

Cumpre assinalar que, como o som ficou um pouco baixo, após assistirem ao vídeo nesses dois momentos, os participantes relataram que escutaram apenas alguns fragmentos. Desse modo, o professor Miguel (2018, informação verbal) disse ter escutado que falava sobre “a formação das bolhas [...]”. A professora Karol (2018, informação verbal) complementou, dizendo: “bolhas de sabão, não sei o que lá. Azuis, parece”. Em seguida, essa mesma professora acrescentou: “[...] aí falaram que iam dizer a história da água”.

Diante dessas dificuldades, optamos por alterar nosso planejamento inicial de maneira que o terceiro momento – em que, anteriormente, os participantes assistiriam ao vídeo com áudio e imagens, sem audiodescrição – foi exibido com áudio, imagens e audiodescrição. Nesse terceiro momento, contudo, ao assistirem ao vídeo, os participantes perceberam que, além de o som estar baixo, havia sobreposição da audiodescrição ao áudio original, o que também acabou dificultando a compreensão do anúncio publicitário, como destacou o professor Arthur (2018, informação verbal), argumentando que “[...] fica um som em cima do outro” e que, por isso, “divide a atenção entre o que está sendo dito no vídeo”, sendo complementado pela professora Heloísa (2018, informação verbal), que destacou: “e pelo narrador [audiodescritor]”.

Na roda de conversa, continuamos discutindo sobre a audiodescrição desse anúncio publicitário, sobretudo em relação ao princípio que orienta para a inserção

das descrições nos intervalos entre as falas da obra, destacando que sua não observância pode comprometer a compreensão da informação transmitida. Reiterando esse posicionamento, Santana (2010, p. 120) assinala que a narração “[...] deve acontecer nos espaços oferecidos entre os diálogos dos personagens, respeitando sempre o roteiro original, as intenções de pausas, efeitos, ruídos e trilha sonora”.

Salientamos que há situações em que a sobreposição é inevitável. Ao que