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2 O PROCEDIMENTO DE MANIFESTAÇÃO DE INTERESSE

3.1 Expression of Interest – EOI

A Expression of Interest – EOI é o instituto estrangeiro que influenciou o

nome do Procedimento de Manifestação de Interesse. Por meio dele a administração pública busca soluções da iniciativa privada para modelar um projeto de parcerias público-privadas. É usualmente adotado em países como Reino Unido, Canadá, Estados Unidos, Índia166, Austrália167, Hong Kong, entre outros. 168

O procedimento é utilizado com o objetivo de mensurar o nível de interesse do mercado no projeto e com a intenção de receber ideias e propostas do

165 MARRARA, Thiago. A experiência do direito administrativo alemão. In: JURKSAITIS, Guilherme Jardim; SUNDFELD, Carlos Ari (Org.) Contratos públicos e direito administrativo. Malheiros: São Paulo, 2015. p. 417.

166 Na Índia o primeiro projeto de PPP de metrô implantado foi o Mumbai Metro. Sua construção envolveu um total de 146 km de trilhos, dos quais 32 km são subterrâneos. O projeto foi aprovado pelo Governo de Maharashtra, em agosto de 2004 e realizada uma Expression of Interest (EOI) que recebeu quase 150 propostas. (KAUR, Jasleen. Public private partnership: Mumbai Metro, India. 2013. p. 1. Disponível em: <http://circ.in/pdf/ER_Case_Study_09.pdf>. Acesso em 03 mar. 2015). 167 A primeira PPP do governo de Queensland, na Austrália, foi o South Bank Education and Training

Precinct (SETP) em Brisbane. O objetivo era desenvolver um campus multissetorial que possibilitasse

o desenvolvimento de uma maior ligação entre as escolas, universidades, grupos comunitários e indústria. Entre fevereiro e abril de 2003, o setor privado foi convidado para uma Expression of

Interest e três consórcios foram selecionados para apresentar propostas de adjudicação. (CHAN,

Albert P. C.; CHEUNG, Esther. Public private partnerships in international construction: Learning from case studies. Routledge; 1 edition. New York 2013. p. 147).

168 SCHIEFLER, Gustavo Henrique Carvalho. Procedimento de manifestação de interesse (PMI). Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2014. p. 300.

setor privado. Marina Cintra e Ariosvaldo Pires apontam como características principais da Expression of Interest - EOI:

• A iniciativa (da solicitação de EOI), via de regra é da Administração Pública contratante;

• A Administração Pública, normalmente, já consolidou seu entendimento acerca da necessidade do projeto, tendo colhido apoio político interno para seu desenvolvimento, aprovações regulamentares e base técnica suficiente para orientar as respostas;

• A Administração Pública está, por meio desse procedimento, realizando a divulgação de sua intenção e formalizando-a, junto ao mercado.169

O Reino Unido, Canadá170 e Austrália utilizam o mesmo processo de contratação de Parcerias Público-Privadas em vários estágios. Consiste em um estágio de Expression of Interest, com requerimento de propostas (request for

proposal – RFP), seleção de um candidato preferido e negociações contratuais pré-

adjudicação171. Na Austrália, a Expression of Interest- EOI é etapa do procedimento de licitação de Parcerias Público-Privadas, em que a autoridade competente elabora um esboço de projeto indicando as exigências de design, os requisitos de operação e manutenção, incluindo o âmbito dos serviços nucleares e não nucleares, os princípios comerciais específicos do projeto, os riscos do projeto e sua alocação preliminar e o comparador do setor público.

O convite para a Expression of Interest é normalmente anunciado publicamente, dando oportunidade para todos os interessados e se baseia em grande parte do trabalho já feito durante o desenvolvimento do projeto. Embora não se destine a estabelecer o serviço detalhado, deve conter informações suficientes

169 CINTRA, Marina; PIRES, Ariovaldo. Algumas considerações sobre o procedimento de

manifestação de interesse. 2007. Disponível em: <http://www.albino.com.br/artigos/2007/10/04/

algumas-consideracoes-sobre-o-procedimento-de-manifestacao-de-interesse/>. Acesso em: 03 fev. 2015.

170 A nova unidade do Hospital Regional Abbotsford e Cancer Center, em British Columbia, no Canadá, inaugurado em 2008, foi construída por meio de Parceria Público-Privada, abrangendo

design, construção, financiamento, gestão de manutenção e instalações do novo hospital. A

adjudicação do projeto começou com um pedido de manifestação de interesse, em janeiro de 2003 e atingiu a proposta final em novembro de 2004. Quatro concorrentes manifestaram interesse e apresentaram propostas. Dois candidatos foram escolhidos para as reuniões confidenciais com o governo, com um acordo de que o candidato perdedor seria parcialmente reembolsado pelo custo de desenvolvimento de sua proposta. Um deles desistiu, mas as negociações continuaram com ênfase na comparação entre o preço da oferta privada com uma estimativa da realização do projeto pelo setor público. O projeto foi adjudicado ao consórcio Health Access Abbotsford. (STOTHART, Chloë.

How Canada took the if out of PFI. 2012. Disponível em: <http://www.building.co.uk/how-canada-took-

the-if-out-of-pfi/5040552.article>. Acesso em: 04 mar. 2015).

171 KPMG Corporate Finance (Aust) Pty Ltd. PPP Procurement: Review of Barriers to Competition and Efficiency in the Procurement of PPP Projects. 2010. Disponível em: <http://www. infrastructureaustralia.gov.au/publications/files/KPMG_May2010.pd>f. Acesso em 25 fev. 2015.

para permitir que os potenciais interessados formem sua opinião acerca do projeto, bem como delimitar informações específicas que devam ser apresentadas pelos participantes.

No chamamento, o governo declara que tem o direito de alterar o processo ou não prosseguir com o projeto e que os custos associados com a preparação de uma proposta à EOI não serão reembolsados pelo governo sob quaisquer circunstâncias. No convite também devem constar as condições de proteção à propriedade intelectual dos proponentes.

A avaliação das propostas é realizada levando-se em consideração a compreensão dos objetivos do projeto e os requisitos do governo para o projeto, a compreensão dos problemas do projeto e dos seus desafios fundamentais e as soluções propostas e a experiência e capacidade em gerenciamento de projetos.

Com base no processo de avaliação, o governo escolhe uma lista de concorrentes que são convidados a participar no processo de licitação, conhecida como a fase de requerimento de propostas (request for proposal – RFP).172

Ao contrário do procedimento de manifestação de interesse, a Expression

of Interest é considerada nos países onde é utilizada uma fase do procedimento

licitatório, que culmina com a definição final do projeto e a escolha dos candidatos que poderão apresentar propostas para adjudicação. O instrumento assemelha-se à pré-qualificação prevista no art. 114 da Lei 8.666/93173 para as contratações de objetos que demandam análise mais acurada da capacidade técnica dos interessados, exigindo qualificação técnica especial e superior à necessária às atividades normais da administração. Nesses casos, a fase de habilitação se dissocia do restante do procedimento, instaurando-se um processo seletivo preliminar com requisitos rigorosos. Apenas os candidatos que preencherem os requisitos estabelecidos poderão oferecer propostas na licitação174.

172 AUSTRALIAN GOVERMENT. National PPP guidelines Volume 2: Practitioners’ Guide. Março de 2011. Pag. 11-16. Disponível em: <http://www.infrastructureaustralia.gov.au/public_private/ files/Vol_2_Practioners_Guide_Mar_ 2011. pdf>. Acesso em: 03 mar. 2015.

173 Art. 114. O sistema instituído nesta Lei não impede a pré-qualificação de licitantes nas concorrências, a ser procedida sempre que o objeto da licitação recomende análise mais detida da qualificação técnica dos interessados. § 1o A adoção do procedimento de pré-qualificação será feita mediante proposta da autoridade competente, aprovada pela imediatamente superior. § 2o Na pré- qualificação serão observadas as exigências desta Lei relativas à concorrência, à convocação dos interessados, ao procedimento e à analise da documentação.

174 JUSTEN FILHO, Marçal. Comentários à lei de licitações e contratos administrativos: Lei 8.666/1993. 16. ed. rev., atual. e ampl. São Paulo, SP: Revista dos Tribunais, 2014. p. 1220-1221.