4.2 Dimensões socioambientais das políticas públicas e a propriedade
4.2.3 Propriedade rural e produção agropecuária
4.2.3.2 Extrafiscalidade e objetivos econômicos, sociais e ambientais
O cumprimento das funções econômica, social e ambiental pelo proprietário no que concerne ao imóvel rural deve ocorrer de forma estruturada, com existência simultânea de inter-relações que se desenvolvam de modo equilibrado. Na Constituição Federal de 1988, não obstante não estejam explícitas as expressões "função econômica" e "função ambiental", observa-se que as mesmas estão presentes de forma implícita na mencionada carta jurídico-política, o que pode ser deduzido por meio da interpretação sistemática e teleológica de seu texto, observando-se especialmente os artigos 186, 187 e 225.
Portanto, considerando o alto significado da produção agrícola, na materialização dos objetivos econômicos, sociais e ambientais, observa-se, dentre os vários pressupostos de sua política elencados no artigo segundo da Lei nº 8.171/91: a determinação, no inciso I, para o cumprimento da função social e econômica da propriedade, o que está relacionado ao interesse público; o destaque, no inciso III, da agricultura como atividade econômica, e, portanto, seu exercício deve proporcionar, aos que a ela se dediquem, rentabilidade compatível com a de outros setores da economia; o adequado abastecimento alimentar, indicado no inciso IV, como condição básica para garantir a tranquilidade social, a ordem pública e o processo de desenvolvimento econômico-social.
Por conseguinte, é necessário examinar a configuração constitucional e legal do Imposto Territorial Rural - ITR, determinada respectivamente no parágrafo 4º do artigo 153 da carta jurídico-política e na Lei nº 9.393/96, devido a sua relevância por ser um instrumento que está em conexão com o interesse público, nos âmbitos econômico, social e ambiental.
Primeiramente, cabe observar que existe hipótese constitucional de imunidade (art. 153, § 4º, inciso II), sendo determinado que o ITR não incidirá sobre pequenas glebas rurais, definidas em lei, quando as explore o proprietário que não possua outro imóvel. Por sua vez, o parágrafo único do artigo 2º da Lei nº 9.393/96, define pequenas glebas rurais como os imóveis com área igual ou inferior a:
I - 100 ha, se localizado em município compreendido na Amazônia Ocidental ou no Pantanal mato-grossense e sul-mato-grossense;
II - 50 ha, se localizado em município compreendido no Polígono das Secas ou na Amazônia Oriental;
III - 30 ha, se localizado em qualquer outro município.
Além disso, no artigo 3º da Lei nº 9.393/96, há previsão de duas hipóteses de isenção do Imposto Territorial Rural - ITR. A primeira situação, determinada no inciso I do referido artigo é concernente ao imóvel rural compreendido em programa oficial de reforma agrária, caracterizado pelas autoridades competentes como assentamento, e que de forma cumulativa, atenda aos seguintes requisitos, para que seja configurada a isenção:
a) seja explorado por associação ou cooperativa de produção;
b) a fração ideal por família assentada não ultrapasse os limites estabelecidos no artigo anterior;
c) o assentado não possua outro imóvel.
A segunda hipótese de isenção prevista no inciso II do mencionado artigo no artigo 3º da Lei nº 9.393/96, configura-se quando o conjunto de imóveis rurais de um mesmo proprietário, cuja área total observe os limites fixados no parágrafo único do artigo 2º da mencionada lei, desde que, de forma cumulativa, o proprietário: "explore só ou com sua família, admitida ajuda eventual de terceiros"; e "não possua imóvel urbano".
Por sua vez, manifestando a extrafiscalidade no sentido de dissuasório, é constitucionalmente determinado que o Imposto Territorial Rural - ITR será progressivo e terá suas alíquotas fixadas de forma a desestimular a manutenção de propriedades improdutivas (art. 153, § 4º, inciso I). Nesse sentido, no artigo 11 da Lei nº 9.393/96, é estabelecido que o valor do referido imposto será apurado aplicando-se sobre o Valor da Terra Nua Tributável - VTNt a alíquota correspondente, prevista no anexo da referida lei, considerando a área total do imóvel e o Grau de Utilização - GU.
O VTNt, valor da terra nua tributável, consoante o artigo 10, § 1º, inciso III, é obtido pela multiplicação do VTN pelo quociente entre a área tributável e a área total. O VTN, segundo o inciso I, § 1º, do artigo 10, da citada lei, consiste no valor do imóvel, excluídos os valores relativos:"a) construções, instalações e benfeitorias; b) culturas permanentes e temporárias;c) pastagens cultivadas e melhoradas; d) florestas plantadas", e, conforme o inciso II, a área tributável é calculada pela área total do imóvel deduzidas as seguintes áreas:
a) de preservação permanente e de reserva legal, previstas na Lei nº 4.771, de 15 de setembro de 1965, com a redação dada pela Lei nº 7.803, de 18 de julho de 1989;
b) de interesse ecológico para a proteção dos ecossistemas, assim declaradas mediante ato do órgão competente, federal ou estadual, e que ampliem as restrições de uso previstas na alínea anterior;
granjeira, aqüícola ou florestal, declaradas de interesse ecológico mediante ato do órgão competente, federal ou estadual;
d) sob regime de servidão florestal ou ambiental; (Redação dada pela Lei nº 11.428, de 2006)
e) cobertas por florestas nativas, primárias ou secundárias em estágio médio ou avançado de regeneração; (Incluído pela Lei nº 11.428, de 2006)
f) alagadas para fins de constituição de reservatório de usinas hidrelétricas autorizada pelo poder público.
Por sua vez, o Grau de Utilização - GU, segundo determinação do inciso VI, § 1º, do artigo 10, da Lei nº 9.393/96 é a relação percentual entre a área efetivamente utilizada, definida consoante inciso V, e a área aproveitável que, confome inciso IV, é a área que for passível de exploração agrícola, pecuária, granjeira, aqüícola ou florestal, excluídas as áreas:
a) ocupadas por benfeitorias úteis e necessárias;
b) de que tratam as alíneas do inciso II deste parágrafo; (Redação dada pela Lei nº 11.428, de 2006)
A tabela a seguir, que consta no anexo Lei nº 9.393/96, indica qual alíquota será aplicada sobre o Valor da Terra Nua Tributável - VTNt para apuração do Imposto Territorial Rural - ITR:
Área total do imóvel
(em hectares) GRAU DE UTILIZAÇÃO - GU ( EM %) Maior que 80 Maior que 65 até 80 Maior que 50 até 65 Maior que 30 até 50 Até 30 Até 50 0,03 0,20 0,40 0,70 1,00
Maior que 50 até 200 0,07 0,40 0,80 1,40 2,00
Maior que 200 até 500 0,10 0,60 1,30 2,30 3,30 Maior que 500 até 1.000 0,15 0,85 1,90 3,30 4,70 Maior que 1.000 até 5.000 0,30 1,60 3,40 6,00 8,60
Portanto, a extrafiscalidade dissuasória de propriedades rurais improdutivas, fica claramente demonstrada na tabela acima, tendo em vista a progressividade das alíquotas do Imposto Territorial Rural - ITR, que variam simultaneamente em função do grau de utilização (GU) e da área total do imóvel.