Mapa 6 Fluxos migratórios dos pais dos alunos
3. Inquérito aos estudantes universitários
3.3. Análise e comentários das respostas
3.3.1. f Contexto social – profissões exercidas na família e
A sociedade senegalesa é também marcada pela existência, informal, de castas; informal, na medida em que estas não são oficialmente reconhecidas nem é permitida, nos termos da Constituição, qualquer distinção em função das mesmas. Contudo, existem, mais numas etnias do que noutras, sem a importância que lhes é atribuída na Índia, mas a África Ocidental (essencialmente o Mali) é a sub-região, no continente, onde se coloca este problema com maior acuidade. As principais castas no Senegal são as dos “griots” (trovadores, que asseguram a transmissão da História e das tradições por via oral), dos ferreiros, joalheiros, cordoeiros e tecelões, e as dos escultores de madeira que se confundem com a etnia laobé.
O reconhecimento das castas permite compreender melhor algumas características políticas, sociais e económicas do Senegal, mas não é simples, porque o fenómeno varia entre etnias (por exemplo, os pescadores são uma casta entre os toucouleurs, mas não nos wolofs).
Em certos casos, o problema das castas sobrepõe-se à questão étnica:
“Numa família fora de casta Wolof ou Toucouleur, qualquer projecto de
casamento com uma pessoa de casta esbarra com reticências podendo ir até à ruptura total com os parentes. É um domínio em que a tradição continua a preceder o Islão, no Senegal”203.
Para o mesmo autor, esta situação tem a vantagem de encorajar matrimónios inter-étnicos, na medida em que uma família intransigente sobre o casamento de um dos seus com uma pessoa de casta diferente, no seio da etnia, pode tornar-se tolerante relativamente à união com uma pessoa de outra etnia, na qual não existem castas (os diolas, por exemplo), ou elas têm o mesmo nível.
Por outro lado, a influência da casta é muito importante na política:
“Os grandes grupos étnicos muçulmanos Wolof e Haal Pulaar aceitaram
Senghor durante duas décadas como Presidente da República, descartando qualquer consideração étnica ou confessional. Mas pode dizer-se, (…) que não estão prontos a ver a magistratura suprema ser exercida por um Wolof ou um Toucouleur muçulmano
se ele pertencer a uma casta, quaisquer que possam ser as suas qualidades humanas e as suas competências.”204
Neste inquérito não era possível colocar a questão das castas, desde logo porque nem todas as etnias as têm, mas também porque se trata de uma questão muito delicada.
Assim, este elemento não foi considerado, embora possa ser parcialmente antevisto através da análise das profissões dos pais (ressalve-se, no entanto que, nos meios urbanos e perante o desemprego, há pessoas sem casta que exercem funções habitualmente reservados aos de casta, e vice-versa):
Quadro 18 - Profissões exercidas pelos familiares dos estudantes
Profissão Pais Mães Avôs Avós Total % Agricultor 119 30 273 81 503 24,9 Não refere 23 48 206 216 493 24,4 Doméstico 0 156 3 183 342 17,0 Empregada doméstica 0 13 0 224 237 11,8 Comerciante 17 18 13 20 68 3,4 Falecido 6 1 23 23 53 2,6 Sem profissão 4 8 13 22 47 2,3 Trabalhador manual / artes 21 6 17 2 46 2,3
Reformado 31 3 6 2 42 2,1
Técnico especializado 22 7 12 1 42 2,1
Ilegível 1 0 3 36 40 2,0
Professor 16 8 2 0 26 1,3
Forças da Autoridade 11 0 7 0 18 0,9 Marítimos, incluindo pescadores 7 0 10 0 17 0,8
Operário 3 2 10 0 15 0,7
Técnico Superior 9 1 5 0 15 0,7 Funcionário Público 7 0 2 0 9 0,5 Chefe religioso 0 0 2 0 2 0,1
Empresário 2 0 0 0 2 0,1
O quadro 18 permite antever um difícil quadro socio-económico para a vida dos alunos. A categoria profissional predominante, no geral e no sexo masculino, é a dos agricultores (24,9%) que não têm, em geral, remunerações elevadas. O peso dos agricultores mantém-se constante (24,8%) nos pais. No sexo feminino as mães e avós dedicam-se geralmente ao trabalho doméstico. Há também profissões dominadas pelo
sexo masculino tais como as forças da autoridade, funcionários públicos, pescadores, empresários, técnicos superiores e chefe religioso.
O facto de os alunos não conseguirem referir a profissão em 24,4% dos parentes, sobretudo avós, é sintomática: alguns serão inactivos, outros falecidos, outros, de facto, desconhecidos; as domésticas são também um caso especial porque é plausível que alguns alunos tenham confundido esta ocupação (activa mas não remunerada), com “empregada doméstica”. Assim, numa perspectiva pessimista, os não remunerados poderão atingir 45,7%.
Apenas 3% dos familiares exerce funções de “casta” e não mais de 3,6% (6,2% dos pais) é empresário, comerciante ou chefe religioso, ocupações que poderão garantir uma remuneração superior à média. A estas, poder-se-ia acrescentar as forças da autoridade e os técnicos superiores o que, ainda assim, não excederia 4,5% dos familiares (9,7% dos pais).
Ou seja, a esmagadora maioria dos familiares dos alunos provêm de um meio economicamente desfavorecido, o que não permite as condições necessárias para um estudo sereno. A evolução positiva de avós para pais é uma realidade (assinale-se a forte redução da proporção de empregadas domésticas para 2,2% dos pais), mas é muito provável que menos de 10% destes tenham condições acima da média.
Relativamente aos próprios alunos, 282 (94%) referem não ter actividade profissional. É um valor surpreendentemente baixo, se tivermos em conta as profissões dos parentes ascendentes e as idades relativamente avançadas dos alunos. Contudo, este indicador também revela duas realidades sentidas no Senegal: o desemprego massivo entre os jovens e uma atitude muito reivindicativa face às alegadas obrigações do Estado de financiar os seus estudos, alimentação e alojamento205.
Os restantes 18 (6%) alunos citam as seguintes ocupações profissionais:
- 14 alunos de Duel I declaram exercer uma profissão (4 agricultores, 3 futebolistas, 2 informáticos, 1 alfaiate, 1 andebolista, 1 artista e 1 pintor);
- 4 alunos de Duel II declaram exercer uma profissão: (2 informáticos, 1 carpinteiro e 1 canalizador);
- Nenhum estudante de “Licence” exerce uma profissão;
205 Esta atitude reivindicativa faz-se sentir numa conflitualidade permanente, com greves e confrontos
- Apenas um aluno de “Maîtrise” trabalha, como agente no Serviço de Comércio de Pikine.