6.1 CONTRADIÇÃO E RUPTURA NO ATO DE RESISTIR
E onde há resistência, geralmente há, também, ruptura. De acordo com Leandro Ferreira (2015, p. 164), “poderíamos dizer que onde há ruptura houve resistência, ainda que nem toda resistência provoque necessariamente ruptura”.
Ao trazermos a noção de ruptura para se alinhar à resistência, também é possível considerarmos que, ao romper com o discurso dominante, trazendo novas possibilidades interpretativas para o fio do discurso, o que temos é a ocorrência de um processo polissêmico. “Na falha, ela (a ideologia), se abre em ruptura, onde o sujeito pode irromper com seus outros sentidos e com eles ecoar na história. Condição para que os sujeitos e os sentidos possam ser outros, ‘fazendo sentido do interior do não-sentido’. É a isto que chamo resistência” (ORLANDI, 2016, p. 231).
Ao concebermos uma nova forma de ler/interpretar o fato ocorrido no Brasil em 2016 como golpe, e não mais como impeachment, o que estamos fazendo é deslocar o sentido previamente concebido e aceito (e divulgado pela grande mídia brasileira). Esse deslizar dos sentidos e saberes traz elementos da história para atuar no intradiscurso e o histórico, por sua vez, é afetado pelo trabalho da ideologia, que move os sentidos, rompendo os saberes pré- construídos e/ou aceitos como dominantes.
Lagazzi-Rodrigues (1998) atrela a resistência à contradição dentro da formação social capitalista, na qual temos o discurso dominante do mercado atuando como um pré-construído que aparece cristalizado. A resistência seria, nesse cenário, a possibilidade de deslocar, de deslizar os dizeres hegemônicos. A autora pensa a resistência inserida nas esferas de poder, e por este viés, podemos associar a resistência promovida pela FD que enuncia golpe frente a um conjugado de poder advindo da FD que enuncia impeachment, e que conta, ao seu lado, com o poder dos aparelhos ideológicos, especialmente dos AIEs jurídico e da mídia.
A resistência se faz, portanto, na busca por um espaço no qual a voz que enuncia golpe possa ser ouvida, em um primeiro momento para, em um segundo instante, apresentar o porquê de seu posicionamento para a sociedade. Essa voz é impedida de se manifestar na grande mídia brasileira, porém seus sentidos reverberam nos veículos internacionais de amplo alcance social. Conforme Lagazzi-Rodrigues (1998, p. 78) a resistência se mostra na luta “por mudança e contra a mudança (...) é na contradição entre a sujeição ao poder e a luta contra o poder que a resistência deve ser analisada”.
Considerar a contradição no processo de resistência é trabalhar não apenas com uma simples contraposição a um dizer dominante, mas, sim, possibilitar a instauração discursiva de sentidos outros, de dizeres distintos dos apresentados como únicos ou mais adequados. Contradição também há se pensarmos na própria atuação do AIE da mídia que, envolto pelo manto da imparcialidade/objetividade/neutralidade, esquece/silencia algo que consta no rol dos preceitos fundamentais da atividade de comunicar. A apresentação de vários ângulos a respeito de uma questão à sociedade consta como algo que faz parte das formações imaginárias do fazer jornalístico, o que, na prática, não vislumbramos no caso do impeachment/golpe de 2016.
Os veículos tradicionais brasileiros, pertencentes à grande mídia, deram preferência, em suas linhas editoriais, pela palavra “impeachment” para delimitar o que estava ocorrendo no país. Nos veículos, em sua maioria virtuais, considerados como mídia alternativa, o que percebemos, mesmo no âmbito brasileiro, foi a prevalência do uso da palavra “golpe” para definir o que estava acontecendo nacionalmente.
Já a grande mídia internacional de diversos países, em contraste com a grande mídia brasileira, em suas linhas editoriais, parecia estar abordando o acontecimento político brasileiro com um olhar bastante distinto. Seja de maneira perplexa, ou de forma mais contundente, o que se viu foi o uso preponderante da palavra golpe para compreender/significar o que estava sucedendo no Brasil em 2016.
Vemos, pois, com esses movimentos adotados pela mídia, que a resistência, representada pela FD que enuncia golpe, fez-se presente, em âmbito nacional, principalmente pelas mídias alternativas (e virtuais) e esta, por sua vez, contou com a resistência advinda de vozes estrangeiras, de importantes veículos da grande mídia internacional.
A voz que ecoou entoando golpe se fez ouvir de fora para dentro do Brasil, mas, mesmo assim, não conseguiu se fazer dominante ao ponto de provocar mudanças efetivas no fato em questão:
SD 43: “Não quero viver em um país que permite a um juiz se sentir autorizado a desrespeitar os direitos elementares de seus cidadãos por ter sido incitado por um circo midiático composto de revistas e jornais que apoiaram, até o fim, ditaduras, e por canais de televisão que pagaram salários fictícios para ex-amantes de presidentes da República a fim de protegê-los de escândalos. O que poderia ter sido a exposição de como a democracia brasileira só funcionou até agora sob corrupção, precisando ser radicalmente mudada, terá sido apenas uma farsa grotesca.” (Folha de São Paulo, coluna de Vladimir Safatle, de 18 de março de 2016).
A formação imaginária do fazer jornalístico está pautada pela tríade imparcialidade/objetividade/neutralidade (14) alguns dos preceitos fundamentais da atividade
jornalística, apesar de serem considerados, por muitos estudiosos, como ‘mitos’, por não serem possíveis de ser implementados no agir profissional diário, na qual os veículos consideram-se como lugares nos quais os fatos são meramente apresentados à sociedade. Esta conduta silencia que, muito além de informar seus públicos, o que os veículos fazem é trabalhar na instituição dos sentidos, promovendo gestos de interpretação mascarados por condutas profissionais inatacáveis.
Ao tratar especificamente do discurso jornalístico, Mariani (1993, p. 35) destaca que “sob a alegação de estar informando, o jornal permanece opinativo e interpretativo, constituindo sentidos, produzindo história”. Essa postura se estende não apenas aos jornais, mas a todos os veículos de comunicação, propagando a ideia ilusória/imaginária de que sua mera apresentação dos fatos e aparente não posicionamento delimitaria o que muitos consideram como sendo a verdade.