• Nenhum resultado encontrado

IMPEACHMENT/GOLPE DE 2016: UM ACONTECIMENTO DISCURSIVO?

Esquema 23 – Real e furo no cenário discursivo da resistência

6.5 IMPEACHMENT/GOLPE DE 2016: UM ACONTECIMENTO DISCURSIVO?

Segundo Indursky (2008) para que o acontecimento discursivo se instale é necessário uma movimentação de sentidos intensa, abrupta, ao ponto de o sujeito se desidentificar da FD a qual se filiava para inaugurar uma outra, determinando, com isso, um novo domínio do saber. O sujeito, portanto, seguindo o pensamento da autora, ao não mais se identificar/filiar a determinadas práticas, saberes, rituais que caracterizam certa FD, rompe os laços com esta, estabelecendo uma nova forma-sujeito:

Esse é o acontecimento discursivo: ruptura com uma formação discursiva historicamente instituída, desidentificação da forma-sujeito que organiza os saberes do referido domínio de saber e o surgimento de uma nova FD e de uma nova forma-sujeito, o que provoca necessariamente movimentação e reordenamento dos sentidos no espaço de memória sobre os saberes (...) nesta deriva, no trabalho do sentido sobre os sentidos (...). (INDURSKY, 2008, p. 23).

Dela-Silva (2016, p. 261) trata acerca do acontecimento de âmbito jornalístico como “uma prática da/na mídia que instaura discursividades, produzindo efeitos de sentido para e por sujeitos, em determinadas condições de produção”. O acontecimento histórico, por seu turno, pode ser entendido, conforme destaca Le Goff ([1996), como um fato pontual, que, por sua relevância enquanto ocorrência no mundo, passa a ser rememorado na história, fazendo parte do dizer sobre o passado de um povo, narrado pela ciência histórica. Sob a ótica discursiva, entende-se que o acontecimento de ordem histórica pode ser analisado de formas variadas produzindo, inevitavelmente, múltiplos efeitos de sentido.

O acontecimento discursivo, por sua vez, possui características mais contundentes, se comparado ao de cunho histórico e jornalístico. Se considerarmos, tal qual Pêcheux (2015 [1983]), o acontecimento discursivo como o encontro entre uma atualidade e uma memória, podemos nos questionar se o impeachment/golpe de 2016 efetivamente poderia ser interpretado como tal.

Ao utilizarmos a ótica discursiva para analisar se um acontecimento pode ser entendido desta forma, devemos considerá-lo como portador de um certo grau de opacidade, a qual possibilita sua inscrição no “jogo oblíquo de suas denominações” (PÊCHEUX, 2015 [1983], p. 20). É, pois, na circulação-confronto de formulações (Ibidem, p. 20) que se dá o embate entre as FDs antagônicas representadas por quem enuncia impeachment e por quem enuncia golpe, assim como a possibilidade de conceituarmos o fato ocorrido no Brasil em 2016 como um acontecimento discursivo.

Nossa compreensão é de que o fato transcorrido no país e analisado neste trabalho, pode ser concebido, em uma primeira visada, como um acontecimento histórico e jornalístico, segundo os entendimentos de Le Goff (1996) e Dela-Silva (2016). Possui caráter histórico, pois seguramente deixará suas marcas e será (re)lembrado por suas singularidades ao longo do tempo; configura-se, igualmente, como uma temática relevante que despertou o interesse dos veículos de comunicação, ocupando posição de destaque nos noticiários, o que o constitui como um acontecimento jornalístico. A dúvida surge quando observamos este fato pelo viés discursivo.

Para termos algo que possamos conceituar como um acontecimento em AD é preciso uma conjugação de fatores que extrapolam a esfera do típico, alçando-se à escala do esporádico, do diferente, enfim, daquilo que ultrapassa a habitualidade, o previamente instituído. O acontecimento modifica o que está estabelecido no imaginário, na memória, ressignificando-o. Ele provoca uma quebra de paradigmas, possibilitando novos discursos sobre dado assunto, com novos efeitos de sentido.

Segundo o que foi apresentado neste trabalho e baseando-se nas palavras de Pêcheux (2015 [1983]), concebemos o impeachment/golpe de 2016 como um acontecimento, pois nele é possível evidenciar o encontro entre uma atualidade e uma memória. Para além disso, consideramos que, diferentemente do primeiro caso de impeachment, ocorrido em 1992, o que motivou a saída de Dilma apresentou diferenças importantes.

O presidente à época, Fernando Collor de Melo renunciou para não precisar ser julgado, garantindo, desta forma, a preservação de seus direitos políticos. Dilma, ao contrário, passou por todos os ritos legais que um processo de impeachment preconiza e, mesmo tendo seus direitos políticos preservados por uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), foi oficialmente afastada de seu cargo.

As circunstâncias, pois, que motivaram os dois processos foram bastante distintas. Enquanto Collor apresenta, para além de evidências processuais, incontestáveis provas de crime de responsabilidade; com Dilma, o cenário foi outro. Muito se questiona, mesmo após sua saída, quais teriam sido as reais causas de seu afastamento, pois quando se tenta associar as pedaladas fiscais como sendo responsáveis pelo crime de responsabilidade cometido pela petista, muitas indagações, inclusive da parte dos juristas, vêm à tona.

As condições de produção elencadas neste trabalho nos mostram uma situação bastante distinta entre os dois afastamentos via impeachment de nossa história. A intensa interpelação dos AIEs da mídia e jurídico, o ressentimento, a formação social democrático- capitalista e o próprio cenário político desenharam um impeachment com motivações únicas.

Outro importante fator a ser considerado é a própria democracia. Em 1992, com a saída/renúncia de Collor, a democracia não foi abalada tanto quanto em 2016, com o afastamento de Dilma, via processo de impeachment. As relações estabelecidas entre capitalismo e democracia, cotidianamente presentes no laço social, contribuíram para que a democracia sofresse um abalo bem maior com o impeachment/golpe de Dilma. Essa constatação reitera nosso pensamento de que efetivamente o Brasil vivenciou, no ano de 2016, nas esferas política e social, um acontecimento discursivo.