3.4 ORIGENS DO CULTO DO PARÁCLITO
3.4.4 Festas do Espírito Santo de Eiras
Por meio de um informante privilegiado da pesquisa empírica, descobriu-se, em 2017, uma festa remanescente do Espírito Santo, na localidade integrada à União das Freguesias de Eiras e São Paulo de Frades (17.921 hab.), no Distrito de Coimbra, chamada de local de Eiras. Segundo o relato do presidente da Confraria da Rainha Santa Isabel de Coimbra:
Em muitos outros sítios, como aqui em Coimbra, ainda hoje, se mantém uma procissão em honra do Espírito Santo. Há Festa do Espírito Santo lá em Eiras, que se mantém com fortes tradições, apesar da zona ter sido profundamente alterada a geografia do local, mas as festas resistem a todas estas alterações e mantém-se. (Entrevista concedida por REBELO, António Manuel Ribeiro, 2015).
Figura 51 - Localização de Eiras em relação ao distrito de Coimbra e à Península Ibérica.
Fonte - Direção-Geral do Território, Portugal. Elaborado por Tielle Soares Dias.
As manifestações elementares destas festas, no entanto, experimentam adaptações no rearranjo de sua configuração que ocorrem com o passar dos tempos. Segundo o etnólogo e sociólogo português, Moisés Espírito Santo, a origem de formação das aldeias, seus nomes, suas localizações, suas paisagens geralmente envolvem mitos que integram o universo de significação de suas crenças e práticas (SANTO, 1984, p. 21).
No local de Eiras, a gênese da fé e dos ritos ao Divino Espírito Santo faz referência há um tempo remoto. Em Freguesia de Eiras: a sua história (do século décimo ao séc. XXI), o autor João Carlos Santos Pinho relata que o povo possui entendimento da origem das festas igual ao registro que o Padre Fabião Soares de Paredes apresentou, por volta de 1734. Segundo o pároco, uma peste teria acometido toda a Comarca de Coimbra. Todavia, o clamor dos moradores e do pároco local ao Divino Espírito Santo fez com que a peste não atingisse a localidade. Por essa razão, construíram-se quatro cruzes para demarcar o “perímetro de proteção sagrada” de Eiras (PAREDES apud PINHO, 2008, p. 422).
Assim, desde essa ocasião, a festa do Espírito Santo é comemorada na localidade, na qualidade de ser a principal celebração religiosa no sítio de Eiras. Segundo o presidente da comissão das Festas do Divino de Eiras, do ano de 2017, a
tradição destes ritos permitia que apenas homens casados60 participassem do grupo organizador da Festa de Eiras. Todavia, com a escassez de pessoas com tal perfil, dispostas à candidatura, houve uma inovação no período, uma vez que a delegação compôs-se por mulheres, entre os anos de 2005 e 2006.
As Festas do Espírito Santo de Eiras ocorrem sete semanas após a Páscoa, no final do período de Pentecostes. No primeiro domingo acontecem as celebrações religiosas, as quais começam com a missa solene. No período da tarde, as mulheres reúnem-se na Igreja Matriz de Santiago para rezar o terço e, logo depois, a comunidade agrupa-se no largo de Eiras para a saída da procissão principal. O Mordomo excelso – o juiz da festa – conduz o estandarte do Divino, de aproximadamente cinco metros, com a ajuda de seus dois pajens. O cortejo do Espírito Santo constitui-se, ainda, pelos demais Mordomos, o pároco, os moradores da localidade e a banda filarmônica, os quais percorrem as principais ruas do local de Eiras. Na segunda-feira subsequente, ocorre a procissão menor. De acordo com o presidente da comissão das Festas de Eiras, de 2016/2017, esta procissão perfaz-se somente pela participação comunitária:
[...] na pequena procissão não há elementos da igreja, nós [os Mordomos] levamos a bandeira, uma mais pequenina e a população vai atrás. Em seguida vai uma banda filarmônica mais pequena, percorremos a freguesia à procura de Mordamos para o próximo ano, alguém que queira assumir a responsabilidade de ser o festeiro. Quando chegamos aqui ao largo, a nova comissão entra na capela do Espírito Santo e o senhor Padre, dentro da igreja, aceita ou não a comissão, normalmente aceita porque não há muita gente disposta a assumir, não é muito racional não aceitar. (Entrevista concedida por MARQUES, Ricardo, 2017).
O trecho acima expressa a participação predominantemente popular na pequena procissão, momento em que se dá a escolha da comissão organizadora das festas do ano seguinte.
60 Essa tradição viria de sua origem lendária, quando o Espírito Santo livrou a população do contágio,
fizeram votos ou promessa de que todos os anos, no período de Pentecostes, elegeriam um homem entre aqueles que pudessem ofertar mais dinheiro, trigo e vinho à comunidade (PINHO, 2008. p. 422).
Figura 52 - Procissão do Espírito Santo, Eiras, 2017.
Fonte: Foto do Presidente da Comissão da Festa do Espírito Santo de 2017.
Figura 53 - Oferendas a Festa do Espírito Santo de Eiras, 2017.
Fonte: Foto do Presidente da Comissão da Festa do Espírito Santo de 2017.
Convém ressaltar que, segundo a manifestação do presidente, enfrentam-se dificuldades em relação às candidaturas de pessoas dispostas a compor o novo grupo de festeiros. Em Eiras, a comitiva das festas é formada por um Juiz (presidente), um
tesoureiro, um secretário, dois pajens e quantas pessoas estiverem dispostos a participar da organização dos festejos. Todos os membros do grupo são considerados Mordomos da festa, sendo que, no ano de 2017, a comissão constituiu-se por quinze homens.
Assim, como pode ser constatado que a manutenção das festas populares religiosas de Eiras enfrenta tensões pela dificuldade de mobilização comunitária, o que fez com que inovações fossem criadas em relação à escolha do Mordomo nos anos anteriores. A permanência das festas religiosas, nas sociedades contemporâneas globalizantes, é um dos um dos maiores desafios do catolicismo popular, uma vez que este se mantém pela participação ativa de atores sociais que estiverem dispostos a se apropriarem da tradição e a criarem inovações necessárias para que as festas religiosas tenham sentido na vida comunitária.