A LEGISLAÇÃO PARA O ENSINO SUPERIOR NO BRASIL: DO REGIME MILITAR AO GOVERNO DILMA
3.2 A educação como mercadoria
3.2.1 O FIES e o PROUNI: políticas públicas para o favorecimento do setor privado
Com relação ao FIES, de 2008 a 2012, o programa obteve um acréscimo em suas receitas executadas financeiramente, em valores não inflacionados, de aproximadamente 206,2%, quando passou de R$ 1,064 bilhão, no primeiro ano, para R$ 3,258 bilhões, no último, como mostra a Tabela 30.
TABELA 30: Novos contratos, número total, além da execução financeira (em R$) do Fundo de Financiamento Estudantil (2008/2010/2012)
2008 2010 2012
Novos Total Recursos executados Novos Total Recursos executados Novos Total Recursos executados
32.384 473.340 1.064.059.301,00 75.932 531.987 1.562.205.148,00 368.841 914.195 3.258.530.248,23
Fonte: MEC (2008a/2010d/2012b).
Dados disponíveis em: <http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=14949&Itemid=1064>.
Quanto aos recursos financeiros, corresponderam àqueles que foram gastos, mas não aos que foram disponibilizados para o FIES nos respectivos anos, onde se pode acrescentar a rubrica “restos a pagar”. Pelos números, pode-se perceber o importante incentivo da União para o financiamento do ensino superior no setor privado, cujas mudanças no Fundo vêm sendo promovidas por uma série de medidas legislativas nos últimos anos.
O número de novos contratos no FIES, de 2008 a 2012, chegou a um crescimento de aproximadamente 1.039,0%, ao sair de pouco mais de 30 mil, no primeiro ano, para mais de 360 mil, no último. A quantidade total de contratos teve um aumento de 93,1%, no período referenciado, quando ultrapassou a casa dos 900 mil, em 2012. Em 2011, 73,4% de todas as IES do setor privado (1.528) participaram do Fundo.
Conforme Máximo (2014), os contratos totais do FIES foram de aproximadamente 1,143 milhão para o ano de 2013, cujo orçamento (recursos disponibilizados) ultrapassou os R$ 5,2 bilhões (MEC, 2012b). Se em 2009, 2,4% dos ingressantes nas IES do setor privado se matricularam tendo esse benefício, em 2013, esse percentual subiu para 30,0%. Ainda, convêm lembrar as duas aberturas de crédito extraordinário nos 4 primeiros meses de 2014, que abrangeram mais de R$ 7,4 bilhões para o Fundo.
Para as bolsas de estudos do PROUNI100, de 2005 a 2013, o Gráfico 44 apresenta os números ofertados em cada ano. Dessa forma, percebe-se que o ano de 2012 foi o que teve os maiores índices e, quando comparado a 2005, o aumento foi de aproximadamente 153,4%.
100 Além de o Programa permitir a participação não só das universidades, mas de outras organizações acadêmicas no âmbito do
ensino superior, também não é para todos, já que estabelece critérios e restrições para que os indivíduos possam ser contemplados com os seus benefícios.
GRÁFICO 44: Número de bolsas do Programa Universidade para Todos ofertadas por ano, de 2005 a 2013
Fonte: <http://prouniportal.mec.gov.br/index.php>.
De 2012 para 2013, ocorreu uma redução de aproximadamente 11,3% na oferta de bolsas do PROUNI. Mesmo assim, os números ofertados não querem dizer que foram preenchidos. Em 2009, 35,0% das bolsas não foram ocupadas, e aquelas que o foram representaram 4,3% de todas as matrículas nas IES do setor privado (CARVALHO, 2011b).
Para o total de bolsas em utilização do PROUNI, de 2010 a 2013, o Gráfico 45 mostra um crescimento de aproximadamente 19,2%, quando saiu de 433,7 mil, no primeiro ano, para 516,8 mil, no segundo. Desse último total, onde participaram 1.321 IES do setor privado, algo em torno de 66,0% foi destinada àquelas com fins lucrativos, 27,0% para as beneficentes de assistência social, e 17,0% para as sem fins lucrativos.
GRÁFICO 45: Número total (em mil) de bolsas utilizadas no Programa Universidade para Todos, de 2010 a 2013
No acumulado de 2005 até o segundo semestre de 2013, segundo o MEC, das 1.273.665 (um milhão, duzentos e setenta e três mil, seiscentos e sessenta e cinco bolsas distribuídas pelo PROUNI), aproximadamente 50,0% foram direcionadas para a região Sudeste, 19,0% para a região Sul, 15,0% para a região Nordeste, 10,0% para a região Centro-Oeste, e 6,0% para a região Norte101.
Desse total, aproximadamente 68,6% (873.648) corresponderam a bolsas integrais, enquanto 31,4% (400.017) a bolsas parciais. Ainda, considerando o mesmo montante, 86,0% (1.095.480) foram para o ensino presencial, e 14,0% para o ensino a distância (178.185).
Com relação à cor da pele, aproximadamente 46,5% (593.027) foram destinadas para os brancos, 37,3% (473.976) para os pardos, 12,5% (159.053) para os pretos, 1,8% (22.716) para os amarelos, 0,1% (1.706) para os indígenas, e 1,8% (23.187) para os que não informaram algum tipo de raça/cor.
Com a reunião de todos os contemplados com o FIES e com as bolsas do PROUNI, para o ano de 2013, esse montante representou aproximadamente 31,0% de todas as matrículas nas IES do setor privado (MÁXIMO, 2014).
O Gráfico 46 destaca o valor (R$ mil), em números não inflacionados, para a renúncia fiscal associada ao PROUNI, nos anos de 2006, 2008, 2010, 2012 e 2013. Assim, o aumento foi de aproximadamente 182,6%, com um montante pouco acima de R$ 265,0 milhões, no primeiro ano, que alcançou mais de R$ 750,0 milhões, no último.
GRÁFICO 46: Desoneração fiscal associada ao Programa Universidade para Todos (2006/2008/2010/2012/2013) – em R$ mil
Fonte: Secretaria da Receita Federal (SRF, 2014).
A isenção fiscal referente ao IRPJ, que em 2013 foi de aproximadamente 42,1% (R$ 316.058 mil), em relação ao total, concedida ao PROUNI, deixou de incidir sobre a vinculação constitucional (art. 212 da CF/1988) de 18,0% da receita de impostos a serem gastos pela União com a despesa educacional102.
No ano de 2013, enquanto o governo federal alocou algo em torno de R$ 12.990.558 mil com as rubricas: 1) educação superior (graduação, pós-graduação, ensino, pesquisa e extensão); e 2) educação profissional e tecnológica; a soma dos recursos disponibilizados (executados mais os restos a pagar) para o FIES e a desoneração fiscal com o PROUNI correspondeu a 45,8% desse valor, ou seja, atingiram R$ 5.951.000 mil (MEC 2012b).
Dessa forma, apenas essas duas políticas públicas abrangeram quase a metade dos gastos da União com o ensino superior103 no setor público. Mediante essas características, surge a defesa de alguns grupos para a privatização do espaço público que, pelos recursos financeiros que são gastos com a sua manutenção e o seu desenvolvimento, poderia permitir um acesso muito maior do que proporciona caso fossem aplicados no ensino superior do setor privado.
Como vimos com relação aos reduzidos índices de acesso ao ensino superior para os indivíduos pertencentes às famílias com baixa renda financeira, Corbucci (2004) chamou a atenção para o fato de o PROUNI se constituir numa alternativa, mesmo que bastante incipiente, de redistribuição indireta de recursos, pois caso fossem recolhidos pelo governo federal, não quer dizer que seriam gastos com esses grupos populacionais favorecidos pelo Programa.
Quando comparado com os gastos nas matrículas do ensino superior no setor público, o governo federal consegue promover o maior acesso no setor privado; tem diminuído o déficit histórico para a demanda associada a esse nível de ensino, com a inclusão de parcelas populacionais com menor poder aquisitivo, sob o discurso da ampliação da democratização e da justiça social; além de atender, em parte, às reivindicações dos grupos de interesse privado, na busca de reduzir, para muitos casos, os elevados índices de inadimplência e de vagas não ocupadas nas IES desse setor.
Mais uma vez aparece o tema da qualidade educacional, particularmente para o ensino superior. De acordo com Castro e Mariz (2013), 1.034 (aproximadamente 8,5%) dos 12.159 cursos de graduação que participaram da edição do PROUNI em 2012 haviam obtido resultados insuficientes nas avaliações mais recentes promovidas pelo MEC e, portanto, não poderiam estar participando do Programa.
102 Outro imposto de competência da União consiste no Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural (ITR), mas para imóveis
situados nas zonas rurais. Como provavelmente não há IES do setor privado nessas áreas, mas apenas nos centros urbanos, os documentos consultados na SRF não apresentam tal discriminação.
103 Conforme os dados que constam no portal da transparência do governo federal, por meio do site:
<http://www.portaldatransparencia.gov.br/>. Também merece a ressalva de que o ensino profissional e o ensino tecnológico abarcam o ensino médio, e não apenas o ensino superior; mesmo assim optei pela utilização dos dados e, com isso, a proporção é maior do que os quase 50,0% mencionados.
Assim, sustenta-se o argumento de que uma quantia não desprezível dos recursos públicos estaria financiando, em parte, o setor privado e de baixa qualidade, ainda que muitos indivíduos provavelmente não fossem chegar a esse nível de ensino sem o Programa. Na próxima subseção, explora-se um pouco mais o debate em torno da qualidade associada ao ensino superior.