“Durio Lusitania inscript”
FIGURA 6.20 “Douro – Vindimadeira”,
postal ilustrado com imagem de Álvaro Cardoso de Azevedo (Casa Alvão), coleção
Instituto dos Vinhos do Douro e Porto, I. P., Objecto Anónimo.
do Douro, fez várias exposições e publicações (Dussaud, 2012). O Museu do Douro e a Liga de Amigos do Douro Património Mundial convidaram o “pescador de imagens” a projetar uma exposição: “O Douro de Georges Dussaud” para o “10.º Aniversário do Alto Douro Vinhateiro”, com fotografias tiradas pelo fotógrafo francês desde 1985, às quais foi acrescentado um vídeo com entrevistas a 5 pessoas identificadas nas imagens da década de 80, os atores do cenário duriense revisitado no século XXI.
O sociólogo António Barreto também criou para o Museu do Douro uma mostra fotográfica intitulada: “Douro, Lugar de um Encontro Feliz”, composta por 55 imagens a cores e a preto e branco captadas de 1978 a 2014, nas quais patenteia o seu “olhar poético” sobre o Douro (as vinhas, o vinho, o rio Douro e os seus afluentes, os socalcos, as encostas). O título da exposição emerge, na opinião do fotógrafo, do feliz encontro que aconteceu há séculos entre grupos sociais diferentes e de variadas proveniênicas geográficas: trabalhadores, lavradores, comerciantes portugueses, bem como estrangeiros que construíram em conjunto uma paisagem única e um “grande vinho”.
Detenhamo-nos, de seguida, no olhar do cineasta que melhor compreendeu e captou o Douro: Manoel de Oliveira. Tal como elucida António Preto, não é possível entender a cinematografia de Oliveira “sem recuar através do Douro até às íngremes encostas onde germinaram muitas das suas realizações mais originais. (...) Olhar a face do rio é, como refere Manoel de Oliveira, ver-se e rever-se num espelho multifacetado ‘que ontem era uma coisa e hoje já é outra, outra será certamente amanhã’ (...).” (Preto, 2013, p. 18).
O Douro teve uma presença fulcral na obra do Mestre. Surge logo no primeiro filme: Douro, Faina Fluvial (1931), no qual o autor reflete sobre a linguagem cinematográfica e presta uma atenção especial ao “plano social”, a “uma preocupação ética” que o cineasta descreve como “humanista” (Preto, 2013, p. 18).
A impossibilidade de realizar o filme “Os gigantes do Douro” sobre o ciclo da vinha e a vida dos fazedores do Douro - uma encomenda do Instituto dos Vinhos do Porto, em 1934, um projeto censurado pelo regime autoritário vigente - levou Manoel de Oliveira ao inconformismo, disseminando a sua personagem-protagonista, o Douro, em quase toda a sua longa obra. Confidenciou nas entrevistas a Antoine de Baecque e Jacques Parsi:
Conhecia bem a região por a ter visitado uma primeira vez, em 1932, com um projeto que não realizei, mas para o qual tinha um contrato como vos devo ter dito: Os Gigantes do Douro. O filme devia apresentar o trabalho gigantesco dos trabalhadores vitícolas, não sob um ângulo político mas social. O assunto era bastante forte. Foi, creio eu, o que matou toda a possibilidade de fazer o filme. Na época, não sabia nada da região. O Douro desse tempo já não existe. Mesmo se o filme não tivesse sido grande coisa, teria ficado como um documento precioso (Baecque & Parsi, 1999, p. 147).
Ainda sobre o mesmo projeto, Manoel de Oliveira, recorda, em 2006, o que pretendia legar com esse filme-testemunho do passado duriense:
Perdeu-se um testemunho da época que poderia ter sido visto hoje: a geografia dos socalcos, o duro trabalho da surriba, a condição dos rurais carregando cestos de uvas com 70 quilos, por caminhos tortuosos, animados pelo som de uma gaita de beiços e ferrinhos; e, já noitinha, os trabalhadores rurais, depois de terem comido churrasco, a dançarem sem fadiga, à luz da fogueira, ou a brincarem, de abóboras na cabeça com uma vela acesa dentro, nariz, boca e olhos abertos na carcaça, e a pisarem, de perna nua, as uvas no lagar, à luz de uma candeia e ao toque do harmónio, para animar. Ficaríamos ainda a saber hoje como era a luta daquele povo de gigantes, no esforço de um trabalho duro, como era o tempo desses Gigantes do Douro, mal alimentados e que sempre engordavam quando as uvas amadureciam e a fartura não os impedia de comê-las. Alegres na sua adversidade, fortes no seu trabalho, é certo que as condições sociais daqueles trabalhadores rurais vieram sempre a melhorar. Só que, estranhamente, foi-se-lhes a alegria dos velhos tempos e são agora menos conformados (...) (Oliveira, 2006, p. 41).
Todavia Oliveira não desistiu de gravar na sua cinematografia a grandeza dos trabalhadores do Douro. Referiu-se a esse gigantismo no Porto da Minha
Infância, nos protagonistas do Aniki-Bóbó (1942) e nos cinco filmes que realizou sobre cinco obras de Agustina Bessa-Luís. São eles: Francisca (1981), Vale Abraão (1993), O Princípio da Incerteza (2002), Espelho Mágico (2005) e O Estranho
Caso de Angélica (2010). Escritora e cineasta construíram “olhares poéticos” sobre o Douro, as suas quintas, os seus rituais vinhateiros, criando “imagens
efémeras”, que se tornaram, logo após as suas criações, em “imagens universais” do Douro.
Em Vale Abraão, na Bovary agustiniana, o cineasta transportou para a região duriense os “gigantes do Douro” através de planos de conjunto das vindimas, dos socalcos, da luz e da neblina. Esses personagens assomaram ainda em planos fixos e longos sobre os trabalhos da poda e da vindima.
N’ O Estranho Caso de Angélica voltou a emergir a descrição da dureza do trabalho vitícola. Neste filme, os cavadores do Douro transformaram-se em heróis da máquina fotográfica do protagonista Isaac e da objetiva do próprio Manoel de Oliveira.
Recentemente, o Museu do Douro, mais concretamente em 2014, pediu ao realizador André Valentim de Almeida para idealizar os Gigantes do Douro, a partir de imagens de arquivo. O cineasta construiu o seu “olhar poético” sobre o Douro, associando-o aos “olhares poéticos” de Manoel de Oliveira, de João Botelho, de António Barreto, de Joana Pontes, de Graça Castanheira, de Adriano Nazareth, de Bourdain de Macedo, de Sérgio Fernandes, de Leslie Mitchel, e também aos “olhares poéticos” de cineastas amadores preocupados em gravarem a aspereza do trabalho vitícola duriense pelo “fascínio estético” ou por “imperativos propagandísticos e industriais”.
Como verbaliza Anabela Oliveira, o Douro de Manoel de Oliveira é um “olhar polifónico”, com inúmeras vozes, é a “metáfora de um país, de uma obra, de um percurso acidentado de uma luta de gigantes” (Oliveira, 2013, p. 36)
Os “Gigantes do Douro” de Manoel de Oliveira são também os “gigantes” de Alves Redol e os “poetas” de João de Araújo Correia, as gentes laboriosas que ficaram eternizados em palavras, em imagens e sons, nos seus vários filmes e nas diversas obras.