“Durio Lusitania inscript”
FIGURA 5.3 Quinta da Roêda, postal
Insiste em enunciar que são negociantes ingleses, com os seus próprios hábitos, que vinham do Porto para cima na época da vindima para comprarem, pessoalmente, os seus vinhos. Vinham com barcos rabelos que adaptavam para aí poder dormir e comer durante a subida do Douro que podia demorar uma semana (Ortigão, 2013).
No livro sobre a Quinta de Roriz, Pereira (2011) conta que Fernando Van Zeller gostava de passar as férias na quinta, acompanhado pela família nas décadas dos anos 20 e 30. Ia para lá em vários momentos do ano, sobretudo na Páscoa e na vindima, e naquelas alturas gostava de juntar amigos, parentes e hóspedes para grandes almoços e jantares. No Diário da Quinta Pereira encontrou múltiplas referências a visitantes – exportadores, clientes, amigos e parentes –, sobretudo durante as vindimas. O meio de transporte mais utilizado para ir à Quinta de Roriz era o comboio, embora Fernando Van Zeller já tivesse um automóvel. Este serviu para pequenas excursões turísticas à região com a sua esposa e com os seus hóspedes. Deslocavam-se, assim, para o Pinhão, São Salvador do Mundo, Covelinhas, Tarouca, Lamego, Vila Real e Moimenta da Beira onde visitavam locais emblemáticos, casas ou monumentos históricos. Mas também retribuíam as visitas dos seus vizinhos e, assim, os Van Zeller foram também recebidos em quintas ‘vizinhas’ como a do Noval, Corredoura, Monsul, Sidrô, Caedo, Teixeira, Ventozelo, Malvedos, Vargelas, Roêda e Loureiro. Como outros amigos também tinham barcos, também estes se aventuraram no rio Douro. Outro passatempo que era praticado com fervor pelo seu filho Ronaldo, quando este era estudante na década dos anos 20, era a caça. Convidava amigos para caçar dentro da quinta, mas também em Ventozelo, Roncão, Roêda, Castedo e Barca de Alva (Pereira, 2011, pp. 297-298, 306-307). O mesmo tipo de rituais mantiveram-se na Quinta de Roriz com a geração seguinte de Van Zeller nos anos quarenta a sessenta (Pereira, 2011, pp. 324, 336-340).
Também em artigos de Carlota Cabral e Natália Fauvrelle podemos encontrar alguns exemplos da adaptação das quintas no Douro para práticas recreativas. A primeira autora estudou o passado de uma das mais antigas quintas do Douro, a Quinta do Paço de Monsul, e conta que no lado poente da casa principal, em terreno de certa elevação, se encontrava a mata. Repara logo que este elemento hoje em dia é pouco comum nas quintas do Douro porque, em geral, as matas desapareceram a partir do século XVIII para dar lugar a uma quase monocultura vinícola. Ao longo dos séculos XIX e XX, no entanto, a mata era ótima para passeios
e recreio à sombra. Era recortada por caminhos. Havia, à sua entrada, “um campo de ténis e um largo arranjado com uma mesa e bancos de xisto, para pic-nic”. Outro espaço de lazer era o ‘caramanchão’ – “isto é, um recanto com mesa e bancos coberto por ripas revestidas de trepadeira”, onde se tomava o high tea nas tardes de canícula, muito ao gosto inglês (Cabral, 2014, pp. 57-58). A segunda autora confirma que foi na Quinta das Nogueiras em Godim, Peso da Régua, que D.ª Antónia costumava passar mais tempo e foi aí que recebeu até ao fim da vida os amigos e a família. Quando morreu, em 26 de março de 1896, tinha como hóspedes a Condessa de Zileri, sua neta, e restante família (Fauvrelle, 2012, p. 57). Vila Maior (Vila Maior, 1876, p. 96 e 99) alerta sobre um pormenor na Quinta do Vesúvio, outra propriedade da D.ª Antónia, que se situava no Douro Superior e que, já naquela altura, possuía 140 hectares de vinhas. Descreve a presença de um moinho de azeite que funcionava com a água do rio Teja, conduzido por um canal de um quilómetro, cavado na rocha, para pôr uma grande roda hidráulica em marcha. “Póde visitar-se todo este canal seguindo um passeio que o acompanha de uma á outra extremidade com a largura bastante para permittir aos visitantes uma agradavel e curiosa excursão” (Vila Maior, 1876, p. 99). Já naquela altura se pensou em tornar a visita à quinta mais apelativa, apostando nas infraestruturas certas.
Estes exemplos ilustram como o princípio da vilegiatura, lentamente, se enraizou no Douro graças aos proprietários abastados que apostavam em tornar as suas quintas, em espaços não somente agrícolas, mas também de diversão e descanso. Com a adaptação de infraestruturas existentes ou com a construção de raiz de campos de ténis, áreas de piquenique, jardins românticos, etc., o dono de uma quinta aumentava não só o seu próprio bem-estar, mas também o bem-estar dos seus convidados. Estas práticas de garantir momentos de pura descontração aos hóspedes sobrevivem, hoje, em várias unidades de Turismo de Habitação e de Turismo no Espaço Rural.
Helena Pina e António Barros Cardoso descreveram o início da implementação do Turismo de Habitação no Douro (2017) referindo-se à Quinta dos Varais em Cambres (Lamego). A proprietária da casa que iniciou o processo, em 1984, foi a D.a Lúcia Girão, com 60 anos de idade. Decidiu associar a sua quinta de grande valor patrimonial ao turismo e assim diversificar as suas fontes de rendimento. “Aceitou o desafio da Secretária de Estado do Turismo que se deslocou à Região Demarcada do Douro (RDD) para implementar o ‘Turismo de Habitação’ na região, dado o seu potencial. Após reunião entre os responsáveis políticos e os proprietários
durienses, apenas D.a Lúcia Girão aceitou o desafio, vencendo reservas e obstáculos instalados quer na família, quer no exterior”. (...) “Estava instalado o Turismo de Habitação no Douro” (p. 35). E, em 1993, decidiu-se revitalizar a antiga casa do caseiro desocupada. Instalou-se lá uma unidade de Agroturismo, uma das modalidades de Turismo no Espaço Rural, conforme a legislação em vigor. “Assim se instalaram duas modalidades de turismo na Quinta e Casa dos Varais: Turismo de Habitação (casa do séc. XVIII) e Agroturismo (antiga casa dos caseiros) (p. 35).”
ENOTURISMO: UMA FORMA DE HONRAR