5. A FASE PRÉ-REDACIONAL EXPLANATÓRIA: AS APROXIMAÇÕES ENTRE VIRGILLITO E O TEXTO DICKINSONIANO
5.1 A EMILY DICKINSON CONHECIDA, LIDA E TRADUZIDA POR RINA SARA VIRGILLITO
5.1.6 A luta final com o Anjo
O último testemunho do encontro entre Virgillito e o texto dickinsoniano são os dois livros de Guidacci encontrados por Sonia Giorgi, na mesa do escritório da poeta italiana, no dia de sua morte, 12 de agosto de 1996: um livro de poesias e um de cartas de Emily Dickinson, ambos traduzidos e organizados por Margherita Guidacci. Os dois exemplares foram publicados em 1995 pela Editora Bompiani e exibem, respectivamente, as datas marcadas por Virgillito: 8.12.1995, no de poesias e 15.1.1996, no das cartas. Havia, então, transcorrido um período de quatro meses desde que Virgillito tinha começado a tradução sistemática dos poemas de Dickinson, quando a poeta, provavelmente, adquire, lê e anota o livro das traduções de Guidacci.
O livro de poesias aparece anotado, desde as 34 folhas da introdução de Guidacci, incluindo as notas bibliográficas e a cronologia da vida de Emily Dickinson, sempre em caneta verde. Os poemas que Virgillito escolhera estão marcados, também, com pontinhos de caneta verde, com seis cartões postais ou com três pequenos papéis coloridos. Da introdução e da cronologia, Virgillito destaca, assim como tinha feito com o livro organizado por Bagicalupo e com os outros, as partes em que se comenta a relação da poeta com o reverendo Wadsworth e com Lord Otis. Na folha IX, marca, ainda uma vez, com o seu famoso símbolo, as partes em que a organizadora destaca o ano de 1862 como intenso em termos de composição poética, além de registrar o seu primeiro encontro com o reverendo Wadsworth, em 1855. Evidentemente, para Virgillito, esses dois dados eram decididamente relevantes para ir além da mera biografia e entender como e se eles teriam influenciado a poética da americana. E ainda nas folhas seguintes, em que se comenta essa produção poética de Dickinson, no ano de 1862, e o seu encontro com o crítico Higginson, ela anota, ao lado da folha em caneta verde, una guida (um guia), referindo-se, certamente, ao crítico americano. Será esta a primeira de uma série de anotações, em que destaca os temas recorrentes dos poemas de Emily Dickinson, a saber:
1. Na folha XI, una guida (um guia); 2. Na folha XIII il dolore (a dor);
3. Na folha XVII puritani e trascendentalisti (puritanos e trascendentalistas); 4. Na folha XVIII i temi della natura (os temas da natureza);
5. Na folha XXII Eros;
6. Na folha XXV θάνaτος la morte (a morte); 7. Na folha XXIX l’immortalità (a imortalidade); 8. Na folha XXXIV Sé (Si);
9. Na folha XXXVII l’imagery (o imaginário);
Essas palavras-chave anotadas levam a supor que, na mente da autora, elas deveriam estar indicando uma seqüência de temas que pretendia incluir na sua introdução crítica para uma possível publicação das traduções de Dickinson. A suposição foi, de certa forma, confirmada pela consulta ao FV, em que, na caixa n. 201 Prime stesure, appunti lavori
preparatori e disegni a inchiostro per la traduzione dei Sonetti di Shakespeare (Primeiras
redações, anotações esboços e desenhos a tinta para a tradução dos Sonetos de Shakespeare), se encontram 122 folhas contendo as primeiras versões das traduções dos sonetos de Shakespeare, bem como desenhos, anotações e uma agenda telefônica de capa dura, preta, com linhas diagonais vermelhas; esta mede 148 milímetros de largura e 210 de comprimento. Na folha de rosto, há uma anotação sublinhada, à guisa de título, de Virgillito,
alterazioni e accrescimenti (alterações e acréscimos). Virgillito numerou as folhas na frente, a
partir da primeira até a última, que traz o número 47. A agenda está anotada em caneta preta do tipo tratto-pen, a partir do verso da folha de rosto e, eventualmente, em caneta vermelha, sobretudo para destacar algumas partes. A agenda traz anotações sob a forma de verbetes, em ordem alfabética, nas quais a autora registra as recorrências daquelas palavras ou temas no
corpus dos sonetos shakespereanos, bem como citações diversas sobre o assunto. Parece ter
sido esta a forma de organizar o material necessário, com vistas à elaboração de uma introdução ou edição crítica e, também, para elaborar tematicamente os sonetos. Alguns exemplos de verbetes são: Truth, Uno, Pessimismo, etc. O mesmo tipo de registro se encontra também nos manuscritos das traduções de Rilke, na caixa n. 209, Appunti, prime stesure,
traduzioni, materiale su R. M. Rilke (Anotações, primeiras redações, material sobre R. M.
Rilke).
Além disso, Virgillito sublinha e marca, com o seu símbolo, várias partes da introdução crítica de Guidacci, que dizem respeito aos temas principais da poética
dickinsoniana. Acerca da dor, um dos temas destacados na marginália por Virgillito, ela assinala, com o seu símbolo, o seguinte trecho da p. XIV:
Se na resposta à dor reside uma das grandes motivações poéticas de Dickinson, a outra é dada pela plenitude de seu senso vital. Poderíamos dizer que, diferente da primeira, de que é complementar, esta é fundamentalmente uma motivação de felicidade – ou melhor, de palpitante adesão, de êxtase [...]. Encontro êxtase no ato de viver – somente o fato de viver já é felicidade suficiente (Tradução nossa) (GUIDACCI, 1995).108
Observando, ainda, o uso do símbolo de Virgillito, percebe-se a importância das tradições puritana e trascendentalista na poesia de Dickinson (p. XVI), sempre tangenciando temas que dizem respeito à alma humana (p. XX) e à condição intemporal da vida a que a alma deve conforma-se (p. XXX). Em suma, Virgillito traça um verdadeiro percurso espiritual da poética dickinsoniana, seguindo o que o seu símbolo sinaliza.
Há também um outro tipo de demarcação, que aparece e tem a ver com a prosódia da autora americana, o que se pode constatar na folha XXXV, apontando para a existência simultânea de vários ritmos na métrica da americana. Além disso, um outro dado interessante da marginália desse texto é o fato de que Virgillito anota, a partir da folha XXII, em caneta preta, uma série de poemas que deveria levar em conta. Trata-se de uma espécie de lembrete, tanto que ela usa o imperativo direcionado para si mesma, vedere (ver), talvez inspirada pela leitura da introdução em que Guidacci apresenta, às vezes, trechos traduzidos de alguns poemas e, em outros momentos, somente o título do poema. Virgillito anota, ao lado de ambos, o número dos seguintes poemas: 491, 570, 1013, 1039, 1053, 568, 966, 725, 1010, 430, 498, 570, 511, 611, 710, 625, 508, 679, 695. Mas nem todas essas poesias foram traduzidas por ela. Neste caso, também, poder-se-ia supor que o elenco servisse para uma eventual introdução crítica.
Enfim, na cronologia da vida de Emily Dickinson, Virgillito sublinha trechos que dizem respeito à vida da poeta americana e de sua família, mas, sobretudo e, ainda uma vez, destaca algumas dadas específicas: a de 1855, ano em que Dickinson conhece o reverendo Wadsworth; o ano de 1860, em que ele vai visitar Dickinson; o ano de 1861, em que avisa que irá se mudar para São Francisco; o ano de 1862, em que Wadsworth viaja para São Francisco, desencadeando uma forte crise em Dickinson e, conseqüentemente, a proliferação de sua
108 Se nella risposta al dolore risiede una delle grandi motivazioni poetiche della Dickinson, l’altra è data dalla pienezza del suo senso vitale. Potremmo dire che, a differenza della prima, di cui è complementare, questa è fondamentalmente una motivazione di gioia – o meglio di palpitante adesione, di estasi [...] “Trovo estasi nell’atto di vivere – il semplice senso di vivere è gioia sufficiente.
produção poética; o ano de 1880, em que acontece a última visita do reverendo a Dickinson; o ano de 1882, em que ele falece. Evidentemente, esses dados para Virgillito iam além de meras anotações de biografismo, considerando que Dickinson cultuava uma paixão pelo reverendo que havia de influenciar a sua sensibilidade criativa. Pela primeira vez, então, um dos cinco exemplares das coletâneas possuídas por Virgillito apresenta anotações homogêneas, quer dizer, somente de um tipo: em caneta verde, indicando uma leitura única e uniforme no texto, em uma única etapa, em que parece já consolidado o seu processo tradutório dos poemas de Dickinson.
O segundo texto, a coletânea das cartas de Dickinson, apresenta anotações da poeta italiana, somente na introdução, com caneta preta e a lápis, além de três cartões postais usados como marcadores. Somente três cartas de Dickinson estão destacadas por Virgillito: as de n. 233, 260 e 750. Ainda uma vez, e muito significativamente, nota-se que tanto as anotações, quanto as três cartas marcadas dizem respeito ao mesmo assunto: o encontro com o reverendo Wadsworth. Que isso expresse uma ligação entre a vida e a poética da autora americana, parece óbvio, mas a persistência com que Virgillito aprofundara esse aspecto é um tanto surpreendente. Evidentemente, queria entender melhor essa relação entre os dois, ou talvez, havia algo, nesse encontro, que somente ela tinha vislumbrado. Constam anotações acerca disso nas folhas n. XXII, n. XXIII e, sobretudo, na n. XXIV, em que destaca o fato de que poucas cartas enviadas para Wadsworth por Dickinson ficaram disponíveis e que nessas cartas, freqüentemente, a autora americana enviava poesias para o reverendo. Virgillito marca, ainda, com um X, em caneta preta, os temas dessas cartas, dentre eles: a escolha, a distância, a espera para encontrar finalmente o amor no além, enfim, todos os temas relevantes na poética dickinsoniana. Ainda nas folhas n. XXV e n. XXVI, Virgillito sublinha e destaca, a lápis e com caneta preta, o fato de que a notícia da transferência de Wadsworth para a Califórnia foi um acontecimento traumático para Dickinson que, desde então, passou a vestir somente roupa branca, a não sair mais do quarto, a intensificar a sua produção poética. Isso tudo a levou, pela primeira vez, a procurar a aprovação de um crítico literário, no caso, de Thomas Higginson.
O encontro com o reverendo assume, então, o valor de um verdadeiro atrator de imagens poéticas, tendo desencadeado toda a energia criativa guardada na alma de Dickinson. Destaca Virgillito, ainda, os trechos em que se comenta, ao contrário, o efeito negativo que tiveram especificamente as mortes do reverendo, em 1882, e do sobrinho dela, em 1883; essas foram duas perdas que marcaram definitivamente a vida da poeta e que a levaram a uma
No que diz respeito às cartas, Virgillito marca, com cartões postais, a de n. 233, na folha 147, direcionada a um destinatário desconhecido. A carta de 1861 parece, na verdade, que fora escrita para o reverendo Wadsworth que no, cabeçalho, Dickinson chama de Mestre, e a quem diz palavras de saudade e amor:
O desejo de revê-lo – Senhor – é maior do que qualquer outro meu desejo nesta terra – e este mesmo desejo – um pouco modificado – será o único que terei para o Céu. [...] Senhor – seria um conforto para sempre – poder olhar somente uma vez para o seu rosto, enquanto o Senhor olhasse para o meu [...] (Tradução nossa) (DICKINSON, 1996, p. 148-9). 109
As outras duas cartas marcadas com cartões postais são a de n. 260, na página 157, endereçada para A.T.W. Higginson e a n. 750, na página, 256-7, em que Virgillito marca o seguinte trecho: “[...] foi um abril cheio de significado para mim. Estive no seu coração. O meu amigo de Filadélfia passou para além desta terra [...]” (Tradução nossa) (DICKINSON, 1996, p. 257).110
109 Il desiderio di rivederla – Signore – è più grande di ogni altro mio desiderio su questa terra – e questo stesso desiderio – appena modificato – sarà il solo che avrò per il Cielo. [...] Signore – sarebbe un conforto per sempre – poter guardare una sola volta il suo volto, mentre lei guardasse il mio [...].
110
[...] è stato um aprile pieno di significato per me. Sono stata nel tuo cuore. Il mio amico di Filadelfia è passato da questa terra [...].
5.2 QUARENTA ANOS DE PRÉ-REDAÇÃO, DE TÍMIDAS NORMAS PRELIMINARES