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financeira - Negócio nulo - Meros aborrecimentos

No documento | Revista Eletrônica (páginas 115-120)

- Cabe ao Magistrado julgar a lide nos limites do pedido formulado pelo autor e da contestação ofertada pelo réu.

- em que pese deva ser reconhecia a nulidade do negócio jurídico que constitui uma “pirâmide financeira”, um esquema que depende basicamente do recrutamento progressivo de outras pessoas para auferir lucros, o descumprimento das “falsas promessas” oferecidas ao autor não tem o condão de causar-lhe danos morais.

- Mero aborrecimento não pode ser alçado ao patamar do dano moral, mas somente aquela agressão que exacerba a naturalidade dos fatos da vida, causando fundadas aflições ou angústias.

APELAÇÃO CÍVEL Nº 1.0148.12.000847-6/001 - Comarca de Lagoa Santa - Apelante: Frederico de Souza Amaral - Apelados: Carlos Henrique Vieira, Filadelphia Empréstimos Consignados Ltda. e outro. - Relator: DES. ALEXANDRE SANTIAGO

Acórdão

Vistos etc., acorda, em Turma, a 11ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do estado de Minas Gerais, na conformidade da ata dos julgamentos, em DeClArAr A DeCisão ULTRA PETITA e neGAr ProViMenTo Ao reCUrso.

Belo horizonte, 13 de dezembro de 2017. - Alexandre Santiago - relator.

Notas taquigráficas

Des. AleXAnDre sAnTiAGo - Trata-se de apelação interposta em face da sentença de f. 143/147, profe-rida pelo MM. Juiz da 2ª Vara Cível, Criminal e da infância e Juventude da Comarca de lagoa santa, nos autos da Ação rescisória c/c indenização por Danos Morais ajuizada por Frederico de souza Amaral em desfavor de Carlos henrique Vieira e Filadélphia empréstimos Consignados ltda, que julgou parcialmente procedente o pedido inicial para decretar a nulidade de todos os contratos firmados entre o autor e as reque-ridas e condenar os réus, solidariamente, a restituír os valores recebidos.

em face desta decisão, o requerente apresenta suas razões recursais às f. 193/203, ao argumento de que é uma das mais de duas mil vítimas contabilizadas até a presente data do golpe financeiro da pirâmide econô-mica, investigado pela Polícia Federal por meio da operação Gizé.

Aduz que o golpe era aplicado na medida em que a apelada oferecia empréstimos consignados em folha de paga-mento com juros reduzidos e, em seguida, induzia os contratantes a solicitar um valor maior, com a alegação de que o dinheiro seria aplicado na própria empresa, como investimento, rendendo juros que poderiam ser utili-zados para pagamento do próprio empréstimo, além de proporcionar um valor excedente às vítimas.

Jurisprudência Cível

sustenta que tal fato teria causado danos morais ao apelante, que teria ficado sem a importância de r$245.000,00 (duzentos e quarenta e cinco mil reais) em sua conta, o que não configuraria um mero aborrecimento.

Afirma que o MM. Juiz a quo extrapolou os pedidos iniciais ao indeferir o pedido de restituição da impor-tância paga na rescisão de sua empregada doméstica, sendo que referidos documentos somente foram acos-tados aos autos para demonstrar a dificuldade financeira enfrentada pelo recorrente.

Ao final, narra que não teria se configurado a sucumbência recíproca, eis que todos os pedidos do apelante deveriam ser acolhidos.

sendo mantida a distribuição dos ônus de sucumbência, requer a redução dos honorários advocatícios fixados em favor dos procuradores da apelada.

Preparo realizado, conforme comprovante acostado à f. 205.

Devidamente intimada, a apelada deixou de apresentar contrarrazões, conforme certificado à f. 220.

é o breve relatório.

Passo a decidir.

Conheço do recurso, pois presentes os pressupostos de admissibilidade.

De início, cumpre esclarecer que cabe ao Magistrado julgar a lide nos limites do pedido inicial formulado pela parte autora, sendo-lhe defeso proferir sentença aquém (citra petita), além (ultra petita), ou diversa (extra petita) do que fora pedido nos autos, a teor dos artigos 141 e 492, ambos do nCPC, que preveem:

Art. 141. o juiz decidirá o mérito nos limites propostos pelas partes, sendo-lhe vedado conhecer de questões não suscitadas a cujo respeito a lei exige iniciativa da parte.

[...]

Art. 492. é vedado ao juiz proferir decisão de natureza diversa da pedida, bem como condenar a parte em quantidade superior ou em objeto diverso do que lhe foi demandado.

Parágrafo único. A decisão deve ser certa, ainda que resolva relação jurídica condicional.

sobre o tema, leciona elpídio Donizetti:

o limite da sentença é o pedido, com a sua fundamentação. é o que a doutrina denomina de princípio da adstrição, princípio da congruência ou da conformidade. o afastamento desse limite caracteriza a sentença citra petita, ultra petita e extra petita, o que constitui vício e, portanto, acarreta a nulidade do ato decisório (Curso didático de direito processual civil. 14. ed., são Paulo: Atlas, 2010, p. 572).

Como a norma processual estabelece que os pedidos devem ser certos e determinados, considero que devem ser analisados, tão somente, aqueles discriminados, de forma específica na exordial, quais sejam a rescisão do contrato e a condenação da apelada ao pagamento dos danos morais e materiais por ela causados.

Contudo, ao proferir a sentença, o ilustre Magistrado analisou não só tais questões, mas também um suposto pedido de restituição dos valores gastos com a rescisão da empregada doméstica.

extrai-se da decisão combatida:

Jurisprudência Cível nego, todavia, o pedido de condenação dos réus no pagamento do valor a rescisão trabalhista da

empre-gada doméstica demitida pelo autor (f. 126/127), eis que não comprovada a relação entre a demissão da funcionária e os fatos narrados na lide (f. 146).

Desta forma, visando eliminar o excesso da sentença, declaro-a ultra petita e decoto a parte da decisão atinente à restituição dos valores gastos na rescisão.

esclarecida tal questão, passo ao exame do mérito da lide.

restou inconteste nos autos que o fundo de investimentos criado pela ré Filadélphia, que atuava como correspondente bancário do Banco Mercantil e intermedium, configurava uma fraude financeira, o que, como bem fundamentou o juiz sentenciante, pode ser corroborado pela Deliberação de nº 579 da Comissão de Valores Mobiliários, datada de julho de 2009:

a. Filadélphia empréstimos Consignados ltda, por não preencher os requisitos previstos na regulamen-tação da CVM, não pode ofertar publicamente, constituir, nem administrar Fundo de investimento; b. a Filadélphia empréstimos Consignados ltda. não está autorizada por esta autarquia a exercer a atividade de administração profissional de carteira de valores mobiliários;

[...]

ii - determinar à Filadélphia empréstimos Consignados ltda e aos srs. Carlos henrique Vieira, rosa Cristina nagib Vieira e Marilice Pimentel da silva a imediata suspensão da veiculação de oferta de in-vestimento em Fundo de inin-vestimento acima identificado ou quaisquer outros, bem como cessar ime-diatamente o exercício da atividade de administração profissional de carteira de valores mobiliários, alertando que a não observância da presente determinação os sujeitará à imposição de multa cominató-ria diácominató-ria, no valor de r$5.000,00 (cinco mil reais), sem prejuízo da responsabilidade pelas infrações já cometidas antes da publicação desta Deliberação, com a imposição da penalidade cabível, nos termos do art. 11 da lei nº 6.385, de 1976, após o regular processo administrativo sancionador;

A prática de pirâmide é enquadrada como um crime contra a economia popular tipificado no inciso iX, art. 2º, da lei 1.521/51: “obter ou tentar obter ganhos ilícitos em detrimento do povo ou de número inde-terminado de pessoas mediante especulações ou processos fraudulentos (“bola de neve”, “cadeias”, “pichar-dismo” e quaisquer outros equivalentes)”.

resta incontroverso que foi praticada uma conduta ilícita pela apelada, matéria que não foi combatida na apelação, restringindo-se o cerne do recurso à análise dos danos morais supostamente causados ao apelante.

no que diz respeito ao dano, nehemias Domingos de Melo doutrina:

Dano é a agressão ou a violação de qualquer direito, material ou imaterial que, provocado com dolo ou culpa pelo agente (responsabilidade subjetiva) ou em razão da atividade desenvolvida (responsabilidade objetiva), cause a outrem, independentemente de sua vontade, uma diminuição de valor de um bem juri-dicamente protegido, seja de valor pecuniário, seja de valor moral ou até mesmo de valor afetivo (Melo, nehemias Domingos de Melo. Dano Moral - problemática: do cabimento à fixação do quantum. 2. ed.

rev., atual. e aument. são Paulo: Atlas, 2011, p. 55).

é cediço que a prova da existência de uma lesão é imprescindível para que se possa falar em indenizar, recompor ou recompensar, visto que não existe responsabilidade civil sem dano.

Jurisprudência Cível

nesse diapasão, conclui o douto magistrado sérgio Cavalieri Filho que “não haveria que se falar em inde-nização, ressarcimento, se não houvesse dano”. Acrescentando ainda: “pode haver responsabilidade sem culpa, mas não pode haver responsabilidade sem dano”. (Filho, sergio Cavalieri. Apud Melo, nehemias Domingos de Melo. Dano moral - problemática: do cabimento à fixação do quantum. 2. ed. rev., atual. e aument. são Paulo: Atlas, 2011, p. 55).

Urge destacar que na indenização a título de danos imateriais paga-se pela perda da auto-estima, pela dor não física, mas interior, pela tristeza impingida.

lecionando sobre o assunto, Caio Mário escreve:

o fundamento da reparabilidade pelo dano moral está em que, a par do patrimônio em sentido técnico, o indivíduo é titular de direitos integrantes de sua personalidade, não podendo conformar-se a ordem jurídica com que sejam impunemente atingidos. Colocando a questão em termos de maior amplitude, savatier oferece uma definição de dano moral como “qualquer sofrimento humano que não é causado por uma perda pecuniária”, e abrange todo atentado à reputação da vítima, à sua autoridade legítima, ao seu pudor, à sua segurança e tranquilidade, ao seu amor-próprio estético, à integridade de sua inteligên-cia, às suas afeições etc. (Responsabilidade Civil. 7. ed., rio de Janeiro: Forense, 1996, p. 54).

nesse diapasão, a despeito do dissabor experimentado pelo apelante, entendo que o infortúnio vivenciado em razão das falsas promessas da apelada se caracteriza como mero aborrecimento, ao qual, infelizmente, todos estão suscetíveis.

segundo o entendimento do Col. sTJ:

Mero receio ou dissabor não pode ser alçado ao patamar do dano moral, mas somente aquela agressão que exacerba a naturalidade dos fatos da vida, causando fundadas aflições ou angústias (sTJ, 4ª Turma, resp 489.187-ro-Agrg, rel. Min. sávio de Figueiredo, j. em 13/5/2003, negaram provimento, v.u., DJU de 23/06/2003, p. 385) (neGrão, Theotonio, GoUVÊA, José roberto F. Código Civil e legislação civil em vigor. 23. ed. atual. até 10 de janeiro de 2004. são Paulo: saraiva, 2004. p. 78).

Ademais, saliento que, nos termos da jurisprudência desta Corte, em que pese deva ser reconhecida a nuli-dade do negócio jurídico firmado entre as partes, o inadimplemento contratual da apelada não é capaz de causar abalo à personalidade do individuo, afastando-se o dever de reparação.

Apelação cível. Ação de indenização. Pirâmide financeira. objeto ilícito. Crime contra a economia popu-lar. negócio jurídico nulo. impossibilidade de produção de efeitos. Danos morais inocorrentes. A prática da chamada “pirâmide financeira” contraria o ordenamento jurídico. Assim, dada a ilicitude do objeto contratual, o negócio jurídico é nulo e, por conseguinte, não produz efeitos. o mero transtorno, abor-recimento ou o simples inadimplemento contratual, não se revelam suficientes à configuração do dano moral. não pode ser presumida a existência de dano psicológico em todo e qualquer prejuízo material à vítima de ato ilícito. embora haja indicação de conduta ilícita da ré, para que haja condenação por danos morais, deve ser demonstrada situação excepcional ou dano aos direitos de personalidade da vítima (TJMG. Apelação Cível nº 1.0145.13.034065-9/001, rel. Des. edison Feital leite, 15ª Câmara Cível, j. em 16/2/2017, p. em 24/2/2017).

indenização. Danos morais e materiais. Pirâmide financeira. negócio jurídico. nulidade. Dano moral.

Ônus da prova. Ausência de comprovação. - é nulo o negócio jurídico que constitui “pirâmide financei-ra”, por ser ilícito seu objeto, impondo-se restabelecer as partes ao seu status quo ante, sendo nulos todos os efeitos decorrentes do contrato. Para a configuração dos danos morais, é necessário que se verifique a presença simultânea de três elementos essenciais, quais sejam: a ocorrência induvidosa do dano; a culpa, o dolo ou má-fé do ofensor; e o nexo causal entre a conduta ofensiva e o prejuízo da vítima. Ausente a

Jurisprudência Cível prova da repercussão na esfera íntima do autor, deve ser julgado improcedente o pedido de indenização

por danos morais (TJMG - Apelação Cível nº 1.0145.13.004635-5/001, rel.ª Des.ª evangelina Castilho Duarte, 14ª Câmara Cível, j. em 2/10/2014, p. em 10/10/2014).

Apelação cível. Ação de cobrança cumulada com reparação de danos. empresa de containers que atuava em esquema de pirâmide financeira. - se os contratos celebrados entre as partes foram oferecidos por empresa numa pirâmide financeira, lesando dolosamente milhares de pessoas, sua nulidade não pode ser por ela alegada como forma de se eximir de cumprir o que prometera, sob pena de se autorizar que se beneficie com a própria torpeza. - o mero inadimplemento contratual não configura dano moral, pois, a despeito do aborrecimento experimentado pelo contratante, não há violação de direitos da personalida-de. - Parcialmente providos ambos os recursos. (TJMG - Apelação Cível nº 1.0079.09.935239-9/001, rel.

Des. nilo lacerda, 12ª Câmara Cível, j. em 12/9/2012, p. em 25/9/2012).

Portanto, a meu ver, no caso dos autos, não restou apurada nenhuma lesão moral, suscetível de ser indenizada.

em relação à distribuição dos ônus sucumbenciais, saliento que esta deve ocorrer de acordo com o êxito de cada uma das partes na demanda, nos termos do art. 86 do nCPC.

Art. 86. se cada litigante for, em parte, vencedor e vencido, serão proporcionalmente distribuídas entre eles as despesas.

Parágrafo único. se um litigante sucumbir em parte mínima do pedido, o outro responderá, por inteiro, pelas despesas e pelos honorários.

Considerando que o autor teve êxito em grande parte de seus pedidos, sendo sucumbente, tão somente, quanto ao pleito de danos morais, a meu ver correta a decisão que atribuiu à apelada o ônus de arcar com 75% e ao apelante com 25% das custas e dos honorários advocatícios.

e, em relação aos honorários advocatícios, a fixação se deu em consonância com os parâmetros legais, conforme previsto no art. 85, § 2º, do nCPC, ou seja, em um percentual sobre o valor da condenação, não havendo que se falar em qualquer alteração.

Por todo o exposto, declaro a decisão ultra petita, decotando parte da sentença atinente à restituição dos valores gastos na rescisão da empregada doméstica, e nego provimento ao recurso.

Custas recursais pelo apelante.

Majoro os honorários advocatícios devidos aos procuradores da apelada em 16% sobre o valor da condenação.

Votaram de acordo com o relator os DeseMBArGADores AlBerTo DiniZ JUnior e MÔniCA liBÂnio roChA BreTAs.

Súmula - DeClArArAM A DeCisão ULTRA PETITA e neGArAM ProViMenTo Ao reCUrso.

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Jurisprudência Cível

Agravo de instrumento - Execução fiscal - Executada em recuperação

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