- Consoante disposto no art. 476 do Código Civil, nos contratos bilaterais, nenhum dos contratantes, antes de cumprida a sua obrigação, pode exigir o implemento da do outro.
- não havendo comprovação de que a parte autora cumpriu integralmente o contrato de empreitada firmado entre as partes, deve ser mantida a sentença que julgou improcedentes os pedidos da inicial.
APELAÇÃO CÍVEL Nº 1.0515.15.001105-1/001 - Comarca de Piumhi - Apelante: R&F Locação de Equi-pamentos para Construção Civil Ltda. - ME - Apelado: José Wellington Costa - Relator: DES. MARCOS LINCOLN
Acórdão
Vistos etc., acorda, em Turma, a 11ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do estado de Minas Gerais, na conformidade da ata dos julgamentos, em neGAr ProViMenTo Ao reCUrso.
Belo horizonte, 6 de dezembro de 2017. - Marcos Lincoln - relator.
Notas taquigráficas
Des. MArCos linColn - Trata-se de recurso de apelação interposto por r&F locação de equipamentos para Construção Civil ltda. - Me à sentença de f. 50/51-v, proferida nos autos da “ação ordinária” movida contra José Wellington Costa, por meio da qual o MM. Juiz assim decidiu:
Diante do exposto, julgo improcedente o pedido inicial, extinguindo-se o presente feito, com resolução do mérito, nos termos do artigo 487, i, do Código de Processo Civil.
Por força da sucumbência, condeno a autora ao pagamento das custas e despesas processuais e ao pa-gamento de honorários advocatícios que fixo no importe de r$1.000,00 (um mil reais), que deverá ser atualizado desde a presente sentença até o seu efetivo pagamento, utilizando-se a Tabela Prática da Corregedoria do Tribunal de Justiça de Minas Gerais.
nas razões recursais (f. 53/58), em síntese, sustentou que “o apelado apresentou anexo fotográfico que não deixa dúvida de que houve aplicação de pedra britada no empreendimento, obrigação que integra os serviços contratados através do instrumento de f. 15/17” e que “não resta dúvida de que houve a prestação de serviços pela empresa apelante, efetuados dentro das mais rígidas normas de engenharia”.
Ao final, pugnou pelo provimento do recurso, a fim de que os pedidos sejam julgados procedentes.
Apesar de intimado, o réu não ofertou contrarrazões (f. 61-v).
é o relatório.
Jurisprudência Cível
Decide-se.
Colhe-se dos autos que a r&F locação de equipamentos para Construção Civil ltda. - Me ajuizou ação ordinária em desfavor de José Wellington Costa, narrando que “foi contratada pelo réu para a realização dos seguintes serviços: 1- terraplanagem e aplicação de pedra britada (em aproximadamente 5.680 m²) no imóvel denominado ‘Vivendas da Canastra [...]; 2- implantação de rede de distribuição de água potável, disponibilizando um ponto de captação por chácara projetada”.
Argumentou que “em pagamento pelos serviços prestados, o réu prometeu entregar os lotes nos 6, 7, e 8 [...], os quais têm valor aproximado de r$20.000,00 (vinte mil reais) cada”, mas que “embora os serviços tenham sido prestados na forma contratada, o réu se recusou a receber formalmente a obra e, até a presente data, não procedeu à devida transferência dos imóveis prometidos em pagamento”.
Por tais razões, pediu “seja julgada procedente a presente ação, fixando-se prazo para cumprimento da gação, sob pena de aplicação de multa diária”, bem como “não cumprindo o réu espontaneamente a obri-gação, que seja expedido mandado de imissão de posse e consequente determinação de inscrição imobiliária no cartório competente, declarando por consequência a adjudicação dos imóveis”.
Citado, o réu contestou às f. 24/30 enfatizando que “realmente firmou contrato com a empresa para que esta realizasse os serviços de terraplanagem e britagem”, mas “os serviços ora contratados não foram realizados pela empresa, nem tampouco está instalada a rede de água, com a colocação dos canos para captação da rede”.
Acrescentou “que assim que for cumprido o referido acordo, todas as providências serão adotadas para que a empresa receba o que foi acordado em contrato”.
Ao se manifestar sobre a contestação, a empresa autora afirmou que “as obras de instalação de rede de água não puderam ser executadas devido à falta de respectivo projeto e aprovação pelo órgão competente”, de modo que “o réu não pode alegar em seu benefício a omissão à qual deu causa”.
Apesar de intimadas, as partes não especificaram provas (f. 47v), razão pela qual o d. Magistrado a quo imediatamente proferiu a sentença hostilizada.
esses são os fatos.
Pois bem.
o “contrato de empreitada para execução de pavimentação asfáltica” firmado pelas partes, sobre o objeto e o preço, dispôs:
Cláusula 1ª - Do objeto.
1.1- o objeto deste contrato é:
1.1.1. - A realização de terraplanagem e aplicação de pedra britada (em aproximadamente 5.680m²) em imóvel de propriedade do contratante denominado “Vivendas da Canastra”, no Bairro sobradinho, em são roque de Minas-MG.
1.1.2. - A implantação de rede de distribuição de água potável, disponibilizando um ponto de captação por chácara projetada, não sendo objeto do presente contrato a perfuração do respectivo poço artesiano e seus consectários.
Jurisprudência Cível Cláusula 2ª - Do preço.
2.1 - Pela empreitada ora avençada o contratante dará à contratada os lotes de nos 6, 7 e 8 da quadra 2 do empreendimento em referência, conforme mapa que se faz parte integrante do presente contrato.”
(sic, f. 15).
Constata-se, portanto, que se trata de contrato sinalagmático, no qual uma obrigação somente pode ser exigida após a realização da contraprestação que lhe corresponde.
isso porque vigora a cláusula geral, denominada exceção de contrato não cumprido - exceptio non adimpleti contratus -, prevista no art. 476 do Código Civil, que assim dispõe: “nos contratos bilaterais, nenhum dos contratantes, antes de cumprida a sua obrigação, pode exigir o implemento da do outro”.
A propósito, sobre o tema, leciona orlando Gomes, em sua obra Contratos, 10. ed., rio de Janeiro: Forense, 1984, p. 78, in verbis:
Visto que a interdependência das obrigações é da essência dos contratos sinalagmáticos, cada contraente não pode, antes de cumprir sua obrigação, exigir do outro adimplemento da que lhe incumbe. Diz-se que pode opor ao outro, paralisando a execução do contrato, a exceção da inexecução, conhecida como exceptio non adimpleti contratus, literalmente “exceção de contrato não cumprido”.
no caso, a autora apelante postulou o recebimento do preço ao argumento de que teria executado a integra-lidade das obras contratadas, sem, todavia, produzir qualquer indício de prova acerca do alegado.
em verdade, como destacado, a própria apelante confirmou na impugnação à contestação que não chegou a instalar a rede de água (f. 44), sendo certo que, intimada para especificar provas, ainda deixou transcorrer in albis o prazo.
Ademais, também não foi produzida nenhuma prova no sentido de que a municipalidade teria criado óbices à execução do projeto, sendo frágeis as alegações da parte autora nesse sentido.
no tocante à terraplanagem e à aplicação de pedra britada, insta salientar que as fotografias juntadas pelo réu (f. 35/39) evidenciam a insuficiência dos serviços, haja vista que demonstram apenas um amontoado de brita em área seguramente inferior à contratada (5.680m²).
nesse contexto, não há como prosperar o pedido de cobrança, razão pela qual deve ser confirmada a sentença recorrida, com a ressalva de que, em sendo o caso, a empresa apelante poderá postular o que de direito depois de cumprir sua obrigação.
Conclusão.
Com essas considerações, nega-se provimento ao recurso.
Custas recursais, pela apelante. Majoram-se os honorários advocatícios para r$1.200,00 (mil e duzentos reais), na forma do art. 85, § 11, do novo CPC.
Votaram de acordo com o relator os DeseMBArGADores AleXAnDre sAnTiAGo e AlBerTo DiniZ JUnior.
Súmula - reCUrso não ProViDo.
. . .
Jurisprudência Cível