• Nenhum resultado encontrado

Foco no Usu´ ario ou na Consistˆ encia de Interfaces?

3.3 Consistˆ encia no Design Multi-Dispositivo

3.3.3 Foco no Usu´ ario ou na Consistˆ encia de Interfaces?

O objetivo principal dessa tese ´e o retorno do foco do Design de Intera¸c˜ao para o usu´ario, trazendo de volta a preocupa¸c˜ao com o seu modelo mental desenvolvido durante a intera- ¸c˜ao com a interface de uma aplica¸c˜ao. Na pr´atica, essa preocupa¸c˜ao se reflete no design de interfaces multi-dispositivos consistentes com a expectativa do usu´ario e, de uma certa forma, com as propriedades inter-dispositivos. Logo, a resposta para o t´ıtulo dessa se¸c˜ao ´e imediata: foco no usu´ario. Mas o resultado tamb´em pode ser percebido nas propriedades da interface.

Um argumento comum contra essa posi¸c˜ao favor´avel `a consistˆencia ´e o de perda de eficiˆencia na execu¸c˜ao das tarefas. Um exemplo t´ıpico ´e apresentado por Grudin (1989) quanto `a melhor organiza¸c˜ao das facas de uma casa. Guardar todas elas em uma ´unica gaveta da cozinha pode ser a alternativa que forne¸ca maior consistˆencia. No entanto, algu- mas facas especiais normalmente n˜ao seguem essa regra, como a faca de cristal, guardada na sala junto com os outros cristais e porcelanas para ocasi˜oes especiais; a faca de canivete su´ı¸co, que fica junto com o material para acampamento; ou a faca de cerca, deixada na bancada da garagem. Para Grudin, essa ´e a melhor configura¸c˜ao porque o arranjo das facas foi feito de maneira a priorizar a forma, tarefas e o contexto no qual elas s˜ao usa- das. Por mais contradit´orio que pare¸ca ser, esta tese est´a de acordo com essa vis˜ao e a aparente contradi¸c˜ao ´e desfeita considerando o escopo de design multi-dispositivo. Usando o pr´oprio exemplo, suponha que o usu´ario em quest˜ao acumule as fun¸c˜oes de cozinheiro e carpinteiro, atendendo v´arios clientes em suas casas diariamente. Logo, esta tese con- corda com a vis˜ao de Grudin quanto `a disposi¸c˜ao das facas de maneira personalizada e adequada `as tarefas do usu´ario dentro de sua pr´opria casa, mas todas as vezes que ele

precisa executar as mesmas tarefas com facas similares nas casas de seus clientes, sugere-se que a localiza¸c˜ao esperada esteja dispon´ıvel (dentro da analogia, cada casa corresponde a uma interface multi-dispositivo da aplica¸c˜ao e a organiza¸c˜ao das facas corresponde `a disposi¸c˜ao dos mecanismos de controle em cada interface). Da mesma forma, cada cliente deve ter acesso `as facas nos locais de costume, os quais nem sempre ser˜ao consistentes com os do usu´ario. Embora esse rearranjo autom´atico no momento da execu¸c˜ao da tarefa n˜ao seja poss´ıvel devido `as limita¸c˜oes de natureza f´ısica do exemplo, ele pode ser im- plementado para o contexto de aplica¸c˜oes computacionais. Ainda sobre o exemplo e de maneira an´aloga `as propostas de design baseado em modelo, o que n˜ao se pode aceitar ´

e que os designers das casas proponham a constru¸c˜ao autom´atica delas de forma que a disposi¸c˜ao das facas e a sua utiliza¸c˜ao sejam feitas mais pela adequa¸c˜ao ao procedimento de constru¸c˜ao dessas casas do que pelo interesse e experiˆencia pr´evia do usu´ario. Neste sentido, o cap´ıtulo a seguir apresenta a proposta desta tese que contribui para a solu¸c˜ao deste problema.

Prioridades de Consistˆencia no

Design Multi-Dispositivo

4.1

Constru¸c˜ao da Proposta

O corpo te´orico desta proposta teve suas id´eias iniciais apresentadas por Oliveira & Rocha (2005) e foi posteriormente implementado para o dom´ınio de aplica¸c˜oes de Edu- ca¸c˜ao a Distˆancia (OLIVEIRA; ROCHA, 2006, 2007b). Em resumo, a abordagem de design multi-dispositivo estabelecia que uma aplica¸c˜ao computacional deve ter o mesmo modelo conceitual nas n interfaces de acesso mantendo boa usabilidade. Como se pode perceber, essa proposta recorre `a defini¸c˜ao de um termo de grande controv´ersia dentro da liter- atura de IHC. Enquanto Norman (1986) definia modelo conceitual como a conjun¸c˜ao dos modelos de design e do usu´ario, outros consideravam apenas o primeiro que, na pr´atica, reduzia sua abrangˆencia aos diagramas de classe com seus atributos e relacionamentos (ROSSI et al., 1999; JOHNSON; HENDERSON, 2002; ANDRADE et al., 2004). Por isso, a seguinte defini¸c˜ao foi utilizada para ampliar o conceito em dire¸c˜ao `a sua proposta origi- nal: “Modelo conceitual ´e uma descri¸c˜ao do sistema proposto em termos de um conjunto de id´eias integradas e conceitos sobre o que ele deve fazer, como se comportar e parecer, de forma a se tornar compreens´ıvel aos usu´arios da maneira desejada” (PREECE et al., 2002). Dentro desta abordagem, a sugest˜ao de que o modelo conceitual n˜ao deve ser alterado nas v´arias interfaces de uma mesma aplica¸c˜ao significa que o modelo do usu´ario deve ser mantido, seja para checar o saldo banc´ario em um terminal banc´ario ou em um smartphone, por exemplo. O objetivo era a busca por uma experiˆencia consistente com quaisquer que fossem as interfaces da aplica¸c˜ao.

Essa proposta gerou uma s´erie de questionamentos, sendo que os principais argumen- tavam a favor da incerteza da constru¸c˜ao de um modelo mental na primeira intera¸c˜ao com um dispositivo, da facilidade de adapta¸c˜ao desses modelos `as diversas plataformas,

da impossibilidade de manter o mesmo modelo conceitual em dispositivos com tipos de intera¸c˜ao diferentes e da grande probabilidade do contexto poder exigir formas de uso diferentes. Esses e outros argumentos foram refutados por Oliveira & Rocha (2007a).

Ainda assim, n˜ao era muito claro como a transi¸c˜ao te´orico-pr´atica poderia ser feita. Por mais que o conceito fosse estabelecido, era preciso prover uma orienta¸c˜ao metodol´ogica para a implementa¸c˜ao da proposta de design multi-dispositivo. Neste sentido, Oliveira & Rocha (2007d, 2007c, 2008) propuseram uma hierarquia de prioridades de consistˆencia que, quando seguidas, colaboram para o aprimoramento da usabilidade e da experiˆencia de usu´ario ao realizar tarefas similares em dispositivos diferentes. As se¸c˜oes a seguir detalham esta proposta.