Total (Re + Rp) 5,283 x 109 m3/ano
Fonte: Velásquez et al. (2008, tabela 6).
O volume de extração de águas subterrâneas em Araguari, no período considerado, foi de 38.014.750 m3 (SEMAD, 2017), correspondendo a 24,53% do explotável. Assim, a
extração de águas subterrâneas nos volumes praticados também é viável pelo teste de viabilidade 1. Porém, é necessário ressaltar que esta viabilidade só se refere aos volumes de água extraídos, e não a outras dimensões consideradas. Um dos problemas que acomete o aquífero Bauru-Caiuá é a possibilidade de contaminação por nitrogênio, vindo do uso de fertilizantes, mas para o qual não há estudos disponíveis para o Triângulo Mineiro (ZOBY, 2008).
No que toca à água verde, a avaliação se torna um pouco mais complexa. Como descrito na subseção 4.2.4, a água verde é água metabolizada pelos ecossistemas (naturais ou agrícolas) no seu processo de evapotranspiração, sendo contabilizada na variável EV e não na EXC, como a água azul. Portanto, os trade-offs aqui só são visíveis quando são tratados em termos de uso do solo. Isso porque diferentes tipos de vegetação e/ou culturas agrícolas têm diferentes coeficientes de uso da água, como descrito na subseção 4.2.2. Devido às questões coevolucionárias discutidas na seção 2.3, a vegetação natural não necessita mais água do que é normalmente precipitado, enquanto as vegetações introduzidas nos ecossistemas naturais não necessariamente irão se adequar a provisão de água que lhes é fornecida. A precipitação no Triângulo Mineiro é de 14.814 m3 por hectare (PCT/AT) e, quando comparada com as
variáveis intensivas em termos de m3/ha para os diferentes tipos de uso do solo e culturas
agrícolas, apenas o café exige uma quantidade de água superior à que lhe é provisionada pelas chuvas. No entanto, é necessário atentar para um fato que fica oculto ao utilizar dados anualizados: o volume de precipitação no Cerrado é relativamente alto, mas, como típico de savanas tropicais, muito concentrado em um período de cerca de 5 meses. Devido a essa restrição, a maior parte da produção agrícola da mesorregião é de culturas temporárias que são plantadas no começo do período chuvoso e em poucos casos (nenhuma das culturas temporárias evidenciadas, ou seja, milho e soja) colhida muito após o seu fim. A cana-de- açúcar, por demandar mais tempo para sua produção, não tem seu crescimento todo no período chuvoso. Portanto, mesmo que sua demanda por água corresponda a 95,14% do total precipitado, esta cultura também enfrenta períodos de stress hídrico, sendo necessária a complementação via irrigação. Caso houvesse dados para períodos inferiores a um ano, o
ideal seria utilizar bifurcações de identidade para entender diferentes fases de stress hídrico, como no trabalho de Lankford (2008) visto na seção 3.1.
O cultivo de culturas que demandam mais água do que o Cerrado é um elemento importante no trade-off entre a provisão de água verde e água azul, uma vez que, além de reduzir a escoamento superficial que alimenta os corpos de água, age pelo outro lado, captando água destes para sustentar o crescimento da cultura. No entanto, apesar deste ser um fator em potencial de conflito no uso de recursos hídricos, a escala na qual estas culturas se apresentam na época considerada não mostra maiores problemas. O total de água captado para irrigação nos corpos de água superficiais foi de 425.878.671 m3, ou seja, 1,07% de sua vazão.
O quadro 11 abaixo mostra as características da irrigação no Triângulo Mineiro.
Quadro 12 – Irrigação (Água Superficial) no Triângulo Mineiro em 2006
Método Volume (m3) Área irrigada (ha) Rendimento (m3/ha)
Pivô central 218.043.532 20.712 10.527,31
Aspersão comum 141.879.701 13.243 10.713,87
Gotejamento 86.185.948 15.485 5.565,69
Não identificado 26.756.145 - -
Total 472.865.326 49.440 9.023,24
Fonte: Elaboração própria com base em SEMAD (2017).
Algumas das portarias de outorga não especificam a área irrigada nem o método, apenas a vazão autorizada. Por isso, o cálculo do rendimento exclui os não identificados. Podemos ver que a área total irrigada é igual a 17,67% da área somada dedicada às culturas da cana-de-açúcar e do café. Claramente, não podemos dizer que toda a irrigação vai para essas culturas, pois há produção de culturas temporárias que não necessitariam de irrigação se plantadas no período chuvoso, mas que são plantadas no período seco para aproveitar a terra que ficaria parada, a chamada safrinha. Um indício disso é que o deficit hídrico do café (AAcf/Tcf – PCT/AT) equivale a 3,54% do volume total captado para irrigação. Dessa forma, podemos dizer que nem os ecossistemas enfrentam escassez de água, nem as culturas agrícolas produzidas na escala em que eram no período considerado. Uma ampliação das áreas plantadas de cana e café poderia levar a uma mudança dessa situação. No caso do café, o tipo específico plantado na região só pode ser plantado em regiões com temperatura média de 18o a 22o C, e a altitudes de 850 a 1.250 metros (ORTEGA, JESUS, 2011), não sendo
do Triângulo, a região mais próxima da confluência dos rios Grande e Paranaíba, que é baixa e quente demais para esse cultivo. Quanto à cana, a expansão desta vêm sendo contida pela competição do álcool combustível com a gasolina que foi vendida a preços subsidiados em anos recentes e pela crise de 2008, que reduziu o preço do açúcar no mercado internacional e o crédito disponível para expansão (SHIKIDA, RISSARDI JÚNIOR, 2017). As figuras abaixo mostram a distribuição da produção por município na mesorregião.
Figura 23 –Área Plantada de Café no Triângulo Mineiro em 2006 (hectares) (EMBRAPA,
2017) Legenda
Figura 24 – Área Plantada de Cana-de-Açúcar no Triângulo Mineiro (hectares) em 2006
(EMBRAPA, 2017). Legenda
Na rubrica Outras Culturas, apenas o arroz apresenta deficit hídrico. No entanto, essa cultura ocupa apenas 3.055 hectares (IBGE, 2012), correspondendo a 0,05% da área total dedicada à agropecuária (Tag), não sendo grande o suficiente para ser evidenciada neste trabalho.
No que toca às outras culturas plantadas no Triângulo Mineiro, duas das maiores, a soja e o milho, não têm grandes necessidades hídricas, não havendo necessidade de irrigação no período normal de safra. De fato, verifica-se que suas demandas por água são na realidade inferiores à do Cerrado nativo por unidade de área. Dessa forma, poder-se-ia pensar que há um trade-off entre a manutenção do Cerrado nativo e a provisão de água para os cursos de água, uma vez que os valores do excedente hídrico (EXC), que é composto pelo escoamento
superficial (água que corre para os rios) e infiltração (alimentando o lençol freático), seriam superiores.
Figura 25 – Área Plantada de Milho no Triângulo Mineiro em 2006 (hectares) EMBRAPA,
2017.
Figura 26 - Área Plantada de Soja no Triângulo Mineiro em 2006 (hectares) (EMBRAPA,
2017. Legenda
Figura 27 – Uso do Solo no Triângulo Mineiro em 2013 (EMBRAPA, 2017).
Legenda
Neste ponto, é necessário recordar a argumentação desenvolvida na subseção 4.2.2. Em relação ao ciclo hidrológico, cujo output é a origem da água extraída que constitui a água azul, a evapotranspiração seja um componente, havendo, portanto, um trade-off entre a participação deste componente e o resultado (uma vez que EXC = PCT – EV). Devido a isso, Lacerda (2015) propõe uma metodologia alternativa para calcular a pegada verde, considerando apenas a diferença entre evapotranspiração entre hectares de vegetação natural e hectares ocupados pela agropecuária, que resultaria, em seu trabalho, em um valor nulo para essa pegada. No entanto, esta evapotranspiração não é apenas evaporação: há uma vegetação metabolizando esta água antes dela voltar a atmosfera, cumprindo, neste processo, funções