2.1. FORMAÇÃO DE PROFESSORES
2.1.2. Formação de professores e a abordagem CTS
Esta tese apresenta como objetivo principal compreender as abordagens Ciência-Tecnologia-Sociedade presentes na disciplina Ensino de Ciências na Abordagem Ciências, Tecnologia e Sociedade I. Desta maneira, acreditamos ser importante relacionar o que a literatura tem apontado sobre a relação da abordagem CTS com a formação de professores.
Em parecer sobre os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), Guiomar Namo de Mello (BRASIL, 1998), destaca a necessidade de um currículo de Ciências da Natureza, no qual os sujeitos em formação devam ser capazes de emitir juízos de valor em relação às situações sociais que envolvam questões de natureza científica e tecnológica. Sem entrar no mérito do modelo de difusão científica como potencializador da visão tecnocrática, destacamos que apenas a inserção de temas de natureza científica, tecnológica e social no currículo possa ser insuficiente para potencializar a formação para a cidadania.
Segundo Santos & Mortimer (2002):
Não adianta apenas inserir temas sociais no currículo, sem qualquer mudança significativa na prática e nas concepções pedagógicas. Não basta as editoras de livros didáticos incluírem em seus livros temas sociais, ou disseminarem os chamados paradidáticos. Sem uma compreensão do papel social do ensino de ciências, podemos incorrer no erro da simples maquiagem dos currículos atuais com pitadas de aplicação das ciências à sociedade. Ou seja, sem contextualizar a situação atual do sistema educacional brasileiro, das condições de trabalho e de formação do
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professor, dificilmente poderemos contextualizar os conteúdos científicos na perspectiva de formação da cidadania. (SANTOS & MORTIMER, 2002, p.18)
Deste modo, Santos e Mortimer (2002) apontam a insuficiência da inserção de temas sociais no currículo sem formar professores capazes de contextualizar os conteúdos científicos para formação da cidadania. No entanto, diversos estudos tem evidenciado a formação insuficiente dos professores para tratar questões de natureza CTS no âmbito escolar ou em instituições de ensino de modo geral (SCHENETZLER, 2002; VIEIRA, 2003; ZEIDLER et al., 2005; AULER & DELIZOICOV, 2006; GONZAGA et
al., 2013).
Abd-el-Khalick e Lederman (2000, 670p.) afirmam que “[...] é
seguro assumir que os professores não podem ensinar o que eles possivelmente não entendam.”, isto é, a concepções presentes nas inter-
relações entre C-T-S. Em outro trabalho, Lederman (2007) observou que, embora os currículos CTS destaquem a real necessidade de se propiciar a alfabetização científica e tecnológica, as concepções e práticas dos professores de Ciências estão, frequentemente, relacionadas ao insucesso na implementação de currículos pautados na perspectiva de ensino CTS durante as aulas de Ciências. Desta maneira, proporcionar ao professor uma formação no ensino de Ciências com abordagem CTS é fundamental para se favorecer a compreensão das inter-relações entre C- T-S. A esse respeito, Lederman (2007) ainda destaca que:
em uma sociedade científica e tecnologicamente avançada, o exercício da cidadania e da democracia só será possível por meio da compreensão do empreendimento científico e das suas interações com a Tecnologia e a Sociedade, o que possivelmente possibilitará que qualquer cidadão reconheça o que está envolvido em uma disputa sociocientífica e possa participar de discussões, debates e processos decisórios. Ainda no extenso trabalho realizado, Lederman (2007) afirmou que os professores de Ciências apresentam concepções positivistas, crendo em uma Ciência neutra, objetiva, lógica e empírica. Tais concepções se justificariam, basicamente, na ausência de reflexões sobre a natureza da
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Ciência e das inter-relações entre C-T-S. Do mesmo modo, Lederman (2007) destaca a importância de cursos voltados para melhorar as concepções dos professores sobre a Natureza da Ciência e das inter- relações entre C-T-S. Segundo Lederman (2007), cursos que obtiveram sucesso na formação de professores trabalham com aspectos históricos do conhecimento científico ou, explicitamente, com a Natureza da Ciência e das inter-relações C-T-S.
Vieira (2003), em pesquisa de doutorado, realizou um estudo com o objetivo de conhecer as concepções CTS em um contexto de formação continuada de professores do primeiro e segundo ciclos do Ensino Fundamental. Vieira (2003) concluiu que os professores pesquisados possuíam uma imagem de ciência neutra, dogmática e linear, não influenciada pela sociedade, na qual as teorias científicas estão acima de valores e imprevistos.
Auler e Delizoicov (2006) investigaram e identificaram compreensões sobre as interações entre Ciência-Tecnologia-Sociedade em professores formados e atuantes no ensino de Ciências. Os pesquisadores observaram que os professores de Ciências investigados possuem concepções de uma Ciência desligada de problemas reais, fortemente tecnicista, especializada e elitista, sendo acessível a minoria detentora do saber específico e, uma ausência do conhecimento das inter-relações entre C-T-S.
Gonzaga et al. (2013), em pesquisa sobre o enfoque CTS na formação de professores de Ciências, evidenciou que a formação de professores é uma das prováveis causas para a não efetividade da apropriação do ensino de Ciências com enfoque CTS pelas instituições de ensino. Segundo Gonzaga et al. (2013, p.3)
[...] podemos inferir que as razões que aparecem como obstaculizantes ao enfoque CTS no processo educacional estão diretamente relacionadas à formação docente. Esta pode ser apontada como fator para que a visão dos professores sobre interações entre ciência, tecnologia e sociedade venha sendo considerada como um dos pontos de estrangulamento
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da contemplação do enfoque CTS nesse processo. (GONZAGA et al., 2013, p.3)
Em artigo sobre as relações CTS como suporte teórico para Educação de questões sociocientíficas, Zeidler et al. (2005) chamam a atenção para a insuficiente sustentação teórico-epistemológica relativa à questões CTS na orientação do trabalho pedagógico do professor. Zeidler
et al. (2005) apontam a formação disciplinar, a fragilidade conceitual e as
insuficientes posturas investigativas e práticas docentes no processo formativo, como potencializadoras de uma visão de um mundo incapaz de dar conta da complexidade do trabalho docente, dificultando a efetiva apropriação do ensino de Ciências com enfoque CTS.
Ainda sobre a formação insuficiente do professor no enfoque CTS destacam-se as transformações que vêm ocorrendo na sociedade, exigindo do professor “que analise a educação como um compromisso
político, carregado de valores éticos e morais, que considere o desenvolvimento da pessoa e a colaboração entre iguais e que seja capaz de conviver com a mudança e a incerteza” (LIMA, 2004, p. 18).
Assim, cada vez mais se exige uma formação, inicial e/ou continuada, que proporcione aos docentes condições de desenvolver saberes, com significado científico, social e cultural, para atender diferentes realidades, interesses e formas de aprender.
Uma das estratégias para se proporcionar o desenvolvimento de tais perspectivas de saberes está nas questões sociocientíficas em currículos CTS (SANTOS & MORTIMER, 2009; GONZAGA et al., 2013). Segundo Santos & Mortimer (2009), as questões sociocientíficas em currículos CTS podem possibilitar que os aspectos ambientais, políticos, econômicos, éticos, sociais e culturais relativos à Ciência e à Tecnologia venham a emergir de conteúdos problematizados culturalmente. Santos & Mortimer (2009) evidenciavam que questões sociocientíficas nas aulas de Ciências podem potencializar as interações dialógicas, facilitando
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situações vivenciais dos estudantes e a introdução de atitudes e valores em uma visão humanística.
Para Gonzaga et al. (2013, p.6), as
questões sociocientíficas com enfoque CTS sejam como temas controversos, ou como conteúdos problematizados culturalmente, podem contribuir para a formação de professores e para os objetivos da educação CTS, desde que a atenção a tais questões estejam centradas em um processo de intensa reflexão sobre o papel da ciência e da tecnologia na sociedade. (GONZAGA et al., 2013, p.6)
Deste modo, na formação de professores e em nossas salas de aulas da Educação Básica e Superior, as questões sociocientíficas com enfoque CTS representam estratégias de ensino que potencializam não apenas a educação em ciência, mas a educação sobre ciência e a educação pela ciência (BARBOSA et al., 2013; SANTOS, 2004).
Após termos compreendido melhor o aporte teórico sobre a formação de professores, bem como sua relação com a abordagem CTS, acreditamos ser fundamental aprofundarmos, como referencial teórico- metodológico, sobre a inter-relação entre Ciência-Tecnologia-Sociedade.