CAPÍTULO II 2 HUMANISMO NA ESPANHA
2.5 Gerações de humanistas
2.5.1 Francisco de Vitoria – (1492/1486? – 1546).
Vitoria representa, sem sombra de dúvida, o melhor pensamento da Espanha renascentista. Faz parte de uma geração de juristas e pensadores que conseguem construir o diálogo entre teologia e política, a partir de um núcleo de universalidade centrado na dignidade da pessoa humana.
142 R. Trevor Davies. Op. cit., p. 27. 143 Ibid., mesma página.
Francisco de Vitória nasceu em Burgos, filho de Pedro de Vitoria e Catarina de Compludo. É possível que sua família tenha origem judaica, pois, em Burgos havia um grande número de conversos. Dominicano, Vitoria mais que um homem significa uma idéia, uma instituição, assinalando um momento histórico da Europa moderna.145
A família de Francisco de Vitoria gozava uma boa posição em Burgos e teve condições de dar uma educação esmerada aos filhos. A opção religiosa de Francisco foi despertada pelo próprio ambiente de piedade que reinava, àquela época, na Espanha.
Com quatorze ou quinze anos, Francisco de Vitoria foi para Paris prosseguindo ali seus estudos. A sua formação humanística, entretanto, já havia recebido um forte direcionamento por parte de Nebrija em Castilha, além do ambiente cultural criado em torno da Escola Palatina, onde os filhos da nobreza eram educados sob a direção de Pedro Mártir.146
Por volta de 1492, por ordem dos Reis Católicos, há uma grande reforma na educação religiosa em terras espanholas. Especialmente acentuada, é a reforma efetivada nos conventos dominicanos, que incentiva duas manifestações: a vida religiosa e o estudo. Em 1506, a ordem dominicana estabelece: Provideant
de competenti studio grammaticae facultatis et ulterius. Esta determinação foi
extremamente adequada para a primeira formação humanística dos jovens, incluindo-se Francisco de Vitoria.147
Luis Vives, que conheceu Vitoria em Paris, comenta sobre ele em carta a Erasmo: “desde muito jovem se impôs com ótimos resultados nos estudos clássicos” – elogio que se repete por parte de outros humanistas de renome.
Nos primeiros três anos em Paris, o futuro mestre em Salamca estuda no colégio de Santiago de Paris, da Ordem dos Predicadores, dedicou-se ali a
145 Vicente Beltrán de Heredia. Personalidad del Maestro Francisco de Vitoria y Transcendencia de su Obra Doctrinal (Introducción). In: L. Pereña y J. M. Perez Prendes (coords). Francisco de Vitoria – Relectio
de Indiis: O libertad de los índios, p. XIII.
146 Vicente Beltrán de Heredia. Op. cit.. (Introducción), p. XV. 147 Ibid., p. XVI.
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completar a sua formação humanística e os cursos de artes. O ambiente humanístico com seu espírito de renovação e crítica é como uma atmosfera que revitaliza a mente de Vitória. É possível que já esteja, naquele momento, incubando as suas idéias quanto à reforma da teologia escolástica.148
Em parte, o pensamento de Vitoria coincidia com o de Erasmo, o príncipe dos humanistas, mas o que os separava, era uma diferença capital: o holandês, em seu projeto de restaurar a teologia, faz tábula rasa do trabalho realizado pela escolástica medieval. O espanhol, entretanto, considera como perene e construtiva a obra de Santo Tomás e de seus melhores intérpretes que não haviam de todo perdido os elos com o nominalismo já decadente.
Vitoria criou uma escola teológica, la salmantina, que ultrapassa em duração a de Paris e está baseada na teologia dos princípios, teologia das conclusões, ciência e fé.
O regresso à sua terra natal representava, para o dominicano espanhol, um confronto com o arcaico. A teologia estava saturada de especulações e falta de base positiva. O humanismo na Espanha havia feito algum progresso nas novas aulas complutenses, mas, para Vitoria, faltava muito a ser feito. Ele pretende introduzir na argumentação teológica uma base positiva, tomando-a das novas conquistas da crítica para elaborar sobre ela, mediante o raciocínio, a ciência teológica e dar a esta disciplina uma aplicação prática.149
Em 1526, o humanista chega finalmente à Universidade de Salamanca, após disputar a Cátedra de Teologia com o português Pedro Margallo. Contam os registros que durante vinte anos em que ensinou em Salamanca, era comum os alunos sentarem-se fora da sala de aula, porque ali já não havia lugar, para assistirem às suas magníficas preleções.
148 Vicente Beltrán de Heredia. Op. cit., p. XVIII. 149 Ibid., p. XIX.
Não se sabe ao certo em que período Vitoria passa a interessar-se mais de perto pelos problemas suscitados pelo descobrimento da América. É bem verdade que se encontra nesta época no convento de S. Esteban de Salamanca, e, neste ambiente, participa de todas as discussões e partilha das ansiedades próprias daquele momento histórico e político que vive a Espanha.
Andrés de Vega destaca, em seu curso acadêmico de 1536-37, que Vitoria já havia feito referências ao problema da antropofagia em suas primeiras lições de comentário à Secunda secundae de Santo Tomás, descritas no curso de 1526- 29.150
Vitoria não escreve nenhum tratado de teologia. Sua obra decorre do magistério em Salamanca, trata-se de uma composição rica e erudita, com marcado perfil acadêmico: De silentii obligatione 1526-27; De potestate civili 1527-28; De homicidio 1528-30; De potestate Ecclesiae prior 1530-31; De
potestate Ecclesiae posterior 1531-32; De potestate papa et Concilii 1532-33; De argumento caritatis 1533-34; De Deo ad quod tenetur etc. 1534-35; De simonia
1535-36; De temperantia 1536-37; De Indiis 1537-38; De iure belli 1538-39; De
magia 1539-40; De magia posterior 1540-41.
Iannarone considera que, em Potestate civili, de 1528, há todo um parágrafo destinado a provar que existem soberanos e magistrados legítimos entre os pagãos. Do mesmo modo que, em De Potestate Ecclesiae I, de 1532, afirma que o poder temporal e civil se encontra entre os pagãos, o Papa não é o senhor do mundo e os infiéis são os verdadeiros donos de suas terras.151
Em De Indiis, Vitoria propõe uma questão sobre el dominio de los
indigenas, ou seja, se os indígenas, anteriores à chegada dos espanhóis, tinham
o real domínio, seja público ou privado, o domínio material e o domínio político sobre as terras que ocupavam.
150 Reginaldo Di Agostino Iannarone. Génesis del pensamiento Colonial en Francisco de Vitoria. In: Francisco de Vitoria. Relectio de Indiis (introducción), p. XXXI.
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O pensador e jurista de Salamanca elabora uma densa doutrina voltada à defesa dos índios, estabelecendo assim o fundamento e a fonte de todos os seus direitos: Es la dignidad del hombre como ser racional, inteligente y libre, es decir,
como persona. Para Vitoria, este é um direito que se funda na origem divina con la imagen de Dios en el hombre.152
Urdánoz considera que a posição de Vitoria reproduz a filosofia personalista, por necessidade universalista:
“Vitoria proclama que os nativos das Índias, em qualquer extremo de degradação e condição selvagem em que se encontrem, são donos e senhores de si mesmos e de seus bens, é dizer, têm a dignidade humana de pessoas livres e invioláveis inerentes a todo ser humano. Sob a inspiração deste supremo princípio de igualdade e inviolabilidade dos direitos da pessoa, procede logo Vitoria ao seu inovador desenvolvimento dos direitos de comunicação, associação livre, comércio e emigração, mesmo intercontinental, princípio da liberdade dos mares etc.”153
Na época de Vitoria, havia teóricos que acreditavam na supremacia temporal do Imperador, como monarca do mundo ou totius mundi dominus, conforme frase dele próprio. Vitoria contesta esta teoria, com vigor, sustentando que: por ninguno derecho, natural, divino o humano, el imperador puede
arrogarse los pretendidos títulos de domínio universal.
Brown Scott, quando se refere à obra de Vitoria por ocasião de seu doutoramento em Direito Internacional, na Universidade de Oxford, publicado em Londres em 1934, evidencia, além de outros aspectos já destacados, o seu caráter moralista, em todas as formas e manifestações:
“Teólogo e jurista, filósofo e humanista, a superioridade de Vitoria sobre todos os demais internacionalistas se deve ao fato que era ele, antes e acima de tudo, um moralista. Em suas reflexões pessoais, ele era um moralista; com seus estudantes, um moralista; e, ao aplicar a mesma norma para as nações que aplicava ao indivíduo, ele era um moralista.154
152Teófilo Urdánoz O. P. Síntesis Teológico Jurídica de la Doctrina de Vitoria. In: Francisco de Vitoria.
Relectio de Indiis (Introducción), p. LXIX
153 Ibid., pp. 69-70.