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A Freguesia de São Luiz de Villa Maria fica elevada à cathegoria de

Ata de Fundação de Cáceres

Art 1.º A Freguesia de São Luiz de Villa Maria fica elevada à cathegoria de

Villa, com a denominação de Villa de São Luiz do Paraguay.

Art 2.º Os limites desta nova Villa serão os mesmos que ora dividem a sua Freguesia com as de Poconé, Diamantino e Matto Grosso.

Art 3.º Os moradores desta Villa edificarão à sua custa, no lugar designado pelo governo e sob sua direção huma cadêa casa de Camara com os precisos commodos para as sessões do jury.38

Art 4.º Logo que houver começado a construção dos edifícios, de que trata o artigo antecedente, o governo mandará proceder à eleição da Câmara Municipal respectiva.

Art 5.º Ficão revogadas as Leis e mais disposições em contrário.39 Grifos nossos.

De Freguesia à Vila. A norma do discurso jurídico produz o deslocamento de sentidos entre o espaço denominado Freguesia para Vila. Compreende-se por “Freguesia”, uma pequena povoação, centrada na figura da paróquia. Enquanto a “Vila” significa um povoado com ruas, casas, em que as instituições como a cadeia e a Câmara passam a significar as relações políticas e de segurança.

O que chama a atenção na Ata de fundação e na Lei de 1850 é o silenciamento entre o espaço de dizer sobre a Vila e a Freguesia. Que acontecimentos

38 Publicada em 28 de junho de 1850 a Lei n.º 8 institui a Freguesia de São Luis de Vila Maria à categoria de Villa com a denominação de Villa de São Luiz do Paraguay. Lei Revogada pela resolução n.º 1 de 17 de junho de 1851.

silenciaram40, no registro da Ata de Fundação em 1778, a palavra “Freguesia”,41 já que

na escrita de 1850 o termo “Freguesia de São Luiz de Vila Maria” é dito, pelas vias jurídicas ao instituir o povoado à categoria de Vila?

A Lei que institui a Freguesia de São Luiz de Villa Maria à categoria de

Villa, com a denominação de Villa de São Luiz do Paraguay, organiza o espaço público

urbano, dispersando sentidos sobre a posição do Legislativo, na representatividade da Câmara Municipal e da Cadeia. Zoppi-Fontana (2005, p.93), diz que “é instigante pensar no texto da lei como um discurso que se sustenta em uma modalidade de existência virtual dos fatos legislados que, entretanto, (con) forma (dá forma conforme à norma) aos acontecimentos.” Diz então sobre a escrita que antecede o fato, já que a Lei está para ser a norma, a regularidade. Nesta reflexão, os procedimentos de análise se firmam em uma norma real, um acontecimento que se faz pela formulação de uma determinada Lei, considerando a realidade.

Assim, o Estado funciona como o porta-voz que instaura uma ordem, delimitando sentidos outros para o espaço enquanto “Vila”. Os moradores estão sob a cobertura desse dispositivo jurídico que lhes confere: a cadeia que representa o espaço da segurança e a casa de Câmara, o lugar do Legislativo.

De fato a instituição da “Freguesia” à “Villa” é, sem dúvida, uma divisão de sentidos que passa pela mudança correlativa dos moradores com o jurídico, em construir a cadeia e a Câmara. Ou seja, politicamente, o Estado está atribuindo ao povo a organização desse espaço público, de segurança e de representatividade pública que seriam a “cadeia e a casa de Câmara”.

Como a Lei de nº8 de 1850 significa nas relações de políticas entre os moradores e o Estado? Pelo processo metafórico de troca de papéis, de inversão de valores é possível observar a posição distinta entre o povo, os moradores e a posição

40 Entendemos o silenciamento conforme Orlandi, (1997, p.75), enquanto uma política que recorta sobre o que dizer e o que não dizer. A autora diz que “o silêncio fundador não estabelece nenhuma divisão: ele significa em (por) si mesmo.” E “o silêncio constitutivo pertence à própria ordem de produção do sentido e preside qualquer produção de linguagem.”

41Freguesia é o nome que tem em Portugal e no antigo Império Português, as menores divisões administrativas. Trata-se de subdivisões dos conselhos e são obrigatórias, no sentido de que todos os conselhos têm pelo menos uma Freguesia (cujo território, nesse caso, coincide com o do conselho). www.brasileirosnoexterior:com/?q=freguesia , acessado em 10/10/2008.

política do Estado, no que se refere a poder e fazer. Nesse processo, os nomes “Freguesia de São Luiz de Villa Maria” e “Vila de São Luiz do Paraguay”, que são instituídos pela Lei n.º 8 de 1850, têm na formulação o efeito da exterioridade, o real no funcionamento do texto.

Assim, as condições de produção demonstram que o discurso tem uma textura atravessada por diferentes formações discursivas, que significam sobre o que se diz. Para tanto, ao se referir à “Freguesia”, esta não é qualquer uma, mas a de São Luiz de Villa-Maria. Por outro lado, a Lei de n.º 8, de 1850, determina a “Freguesia de São Luiz de Villa-Maria” o nome de “Villa de São Luiz do Paraguay”. Em outras palavras, a Villa de São Luiz do Paraguay reveste-se de um outro sentido que passa pela representatividade política do ambiente a imagem do rio Paraguai no discurso. Ressaltamos que a localização da Villa, às margens do rio Paraguai, não escapa desse real histórico na formulação do nome.

Em 17 de junho 1851, outro acontecimento político movimenta sentidos na territorialidade, a Resolução revoga a Lei Provincial n.º 8, de 28 de junho 1850, que elevou, à categoria de “Villa”, a “Freguesia de São Luiz de Vila Maria”. Vejamos.

Resolução n.º 1 - 1851

Art. n.º 1- Ficarão sem vigor as Leis Provinciais sob n.º 8 de 28 de junho, n.º 12 de 5 de julho do ano passado que elevarão à categoria de Villa as Freguesias de São Luis de Villa Maria e de Nossa Senhora da Misericórdia de Albuquerque.42

Art. n.º 2 Ficão igualmente sem vigor e revogadas todas as disposições contrárias à presente. Grifos nossos.

A Resolução nº 1, de 1851 interdita pela regularidade jurídica a posição de “Villa”, a Vila de São Luiz do Paraguai e a destitui para a posição de “Freguesia”. A “Villa” nessa relação de linguagem perde o seu estatuto e é rebaixada à posição de “Freguesia”.

42 Fonte de pesquisa – Acervo da Assembléia Legislativa – Instituto de Memória do Poder Legislativo. Cuiabá/MT.

Segundo Mendes (1973), somente em 185943, a Lei n.º 1 de 28 de maio

institui a Freguesia à categoria de Vila44, porém, o funcionamento dessa Lei só ocorre em 1862. Como pudemos observar, o discurso jurídico tem esse lugar que permite não somente a organização das relações sociais, como também a desestabilização de sentidos pela linguagem.

Nesta análise, por exemplo, o texto jurídico impõe uma grande divisão, no real, ao postular pelo dispositivo da Lei o que pode ser considerado como “Freguesia” ou como “Vila” e ou como cidade. Em outros termos, isto tem a ver com a constituição histórica do sentido, o político na linguagem, já que enunciar é uma prática política.

Vejamos o funcionamento do discurso jurídico na institucionalização da Lei n.º 3 de 1874.

Art. Único – Fica elevada à categoria de cidade com a denominação de São Luiz de Cáceres a Vila de São Luiz do Paraguai revogado as disposições em contrario.

Mando por tanto a todas as autoridades à quem o conhecimento e execução da referida lei pertencer que a cumprão e fação cumprir tão inteiramente como nela se contem.

O secretário desta Província a faça imprimir, publicar e correr. Palácio do Governo da Província de Mato Grosso em Cuiabá, aos trinta dias do mês de maio de mil oitocentos e setenta e quatro, qüinquagésimo terceiro da Independência e do Império.

O Estado, politicamente, define as relações jurídicas que delimitam sentidos sobre o social. Nesse processo, o que significa instituir um determinado local a cidade?

É possível observar a relação que se estabelece entre a linguagem e a exterioridade ao dizer sobre o espaço, a inscrição, a posição de cidade. Em outras palavras, é o Estado/Província de Mato Grosso que age na textualização da Lei e institui o espaço, enquanto cidade, e a torna município, delimitando direitos e deveres.

43 Mendes (1973) escreve que não foi encontrado o documento original dessa instituição da Freguesia a Vila e cita o Sr. João Campos Widal in Folheto “Exposição Nacional” em 1922.

44 Não foi possível encontrar nos arquivos públicos o documento que instituiu o povoado como Villa.

Consta, segundo Coletânea (1978), efetuada pela Universidade Federal de Mato Grosso, que a Vila Maria, no final do século XVIII, até se instituir como cidade de São Luiz de Cáceres, pela lei n.º 3 de 1874, foi o considerado área de segurança nacional, perdurando por dois séculos, devido a territorialização geográfica entre o Brasil e a Bolívia.

O processo de formular indica a constituição da representatividade jurídica da nação, frente à política urbana. Assim, o processo discursivo reverbera sentidos, neste caso, sobre o nome do então Capitão General Excelentíssimo Sr. Luiz de Albuquerque de Mello Pereira e Cáceres para São Luiz de Cáceres. Isto possibilita observar que as formulações podem atravessar regiões distintas do interdiscurso. No caso do nome São Luiz de Cáceres, cruzam duas memórias: a de um discurso religioso e do fundador do povoado. Há um batimento político, que recobre a formulação do nome da cidade como São Luiz de Cáceres. O nome do santo padroeiro “São Luiz de

Cáceres” pelo determinante da locução “de” Cáceres significa pertencer à cidade de

Cáceres. O interdiscurso faz funcionar, pela formulação, o nome religioso que retoma o poder da Igreja que continua fazendo eco nesse dizer, apagando uma parte da formulação anterior “do Paraguai”. Assim, em que medida a Lei de n.º 3 de 1874 que institui a Vila à posição de cidade, constrói sentidos com a denominação de cidade?

A cidade, compreendida pelo funcionamento da linguagem, segundo Orlandi (2004), é constituída pela normatividade da língua que a atravessa enquanto corpo político investido de significação. Ou seja, o discurso da norma impõe sentidos determinantes no poder local e a sociedade sofre juntamente com o local, a interpelação ideológica que é própria de uma dimensão urbana.

O movimento de transição, em que se institucionaliza um determinado local enquanto cidade, pela lei, é um acontecimento que particulariza sentidos outros para a territorialidade. Assim, na dimensão do político, o Estado/Província de Mato Grosso individualiza, na geometria urbana, determinadas posições que delimitam sentidos do que seja cidade, pela via do discurso jurídico. Ao dizer pela carta de Lei: “Mando por tanto a todas as autoridades a quem o conhecimento e a execução da referida lei pertencer que a cumprão e fação cumprir tão inteiramente como nela se contem”, observa-se a posição política do Estado em relação ao espaço local. Que fronteiras de sentido significa a expressão verbal “mandar” escrito em primeira pessoa do singular? Isto, de certa forma particulariza o espaço em que se projeta a cidade e ainda, representa o lugar da diferença na organização do espaço pelo político. Isto é, dá visibilidade à linguagem, às filiações discursivas, que inscreve o espaço à posição de cidade.

Assim, a publicação do texto pelo Estado legitima sentidos jurídicos no espaço urbano. Em outras palavras, é nesse espaço de linguagem que se constitui a historicidade da língua e é, na historicidade da língua, o lugar possível da travessia de múltiplos discursos que constituem o acontecimento.

Como pudemos observar entre as diferentes formações discursivas, há a determinante que significa, neste caso, o poder no espaço local. Isto significa que cada formação discursiva define “o que pode e deve ser dito numa conjuntura dada a partir de uma certa posição do sujeito” (FUCHS & PÊCHEUX, 1975). É nesse ponto que observamos, pelo discurso jurídico, como o ambiente em que se projeta o povoado toma corporeidade política no social.