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FUNÇÕES OBJETIVA E SUBJETIVA DOS DIREITOS SOCIAIS

Os direitos fundamentais sociais são frequentemente associados a direitos que demandam dos poderes públicos uma determinada conduta, uma prestação que satisfaça uma necessidade ou um interesse jurídico de seu titular. Esse é o posicionamento de José Afonso da Silva, para quem:

Os direitos sociais, como dimensão dos direitos fundamentais do homem, são prestações positivas proporcionadas pelo Estado direta ou indiretamente, enunciadas em normas constitucionais, que possibilitam melhores condições de vida aos mais fracos, direitos que tendem a realizar a igualização de situações sociais desiguais.44

No entanto, essa posição não abrange os objetivos desse tipo jurídico, o que implica afirmar que os direitos sociais possuem uma finalidade, qual seja, a realização da igualdade material e da justiça social. E, certamente, para sua concretização não seria possível restringir sua função à prestacional.45

Em que pese a definição ser adequada a uma série de direitos fundamentais sociais, ela não pode se aplicar indistintamente a todos aqueles assim considerados pela Constituição Federal de 1988. A título de exemplo, vale considerar o direito fundamental social à greve, previsto no artigo 9º da Constituição Federal. Nessa hipótese, a primeira dimensão jurídica que se sobressai é o direito a que o Estado não obste a realização da greve,

43 BRASIL.Constituição (1988) . Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Disponível em:

<https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constitui%C3%A7ao.htm> Acesso em: 25 mai. 2009.

44 SILVA, José Afonso da. Curso de direito constitucional positivo. p. 286.

um direito à não-intervenção dos poderes públicos. É certo que essa não é a única posição jurídica de que o direito de greve investe o seu titular, como será abordado adiante, mas o exemplo serve para demonstrar que nem todos os direitos fundamentais sociais previstos no texto constitucional correspondem, necessariamente, a uma prestação dos poderes públicos.46

Dessa forma, pode-se deduzir que os direitos fundamentais sociais previstos na Constituição Federal sejam aqueles do catálogo ou os dispersos ao longo do texto constitucional, podendo assumir a função de direitos de defesa e/ou de direitos a prestações. E mais, essa abordagem tem o condão não só de corroborar a interpretação das normas referentes aos direitos sociais, como também de verificar a aplicação efetiva destas em relação à sua classificação.

3.3.1 Função objetiva dos direitos sociais

Segundo Ingo Wolfgang Sarlet, a função objetiva dos direitos fundamentais sociais tem sido abordada pela doutrina sob a perspectiva de vários desdobramentos. De acordo com o autor, um dos mais relevantes diz respeito à força jurídica objetiva autônoma, o que a doutrina chama de eficácia irradiante. Isso significa que os direitos fundamentais sociais irradiam seus efeitos não só em relação aos poderes públicos, mas também nas relações privadas.47

Na Constituição brasileira de 1988 os direitos fundamentais sociais com função objetiva encontram-se no artigo 6°, que dispõe sobre o direito à educação, à saúde, ao trabalho, à moradia, ao lazer, à segurança, à previdência social, à proteção à maternidade e à infância, à assistência aos desamparados.48 Essas normas podem ser analisadas sob o aspecto

de sua função objetiva como impulsionadoras de outras de direito infraconstitucional, que lhes possibilitem a plena efetivação.

Outra importante função atribuída aos direitos fundamentais sociais relaciona-se ao dever do Estado de efetivá-los, inclusive de forma preventiva, reconhecendo seus deveres de proteção não só contra os poderes públicos, mas também contra agressões provindas de

46

OLSEN, Ana Carolina Lopes. A eficácia dos direitos fundamentais sociais frente à reserva do possível. 378 f. Dissertação apresentada no Curso de Pós-Graduação em Direito do Setor de Ciências Jurídicas da Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2006. p. 36.

47

SARLET, Ingo Wolfgang. A eficácia dos direitos fundamentais. p. 157-158.

48 BRASIL.Constituição (1988) . Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Disponível em:

particulares. O cumprimento desse dever acontece por meio da adoção de medidas positivas, cujo objetivo principal é o de proteger o exercício dos direitos fundamentais.49

No âmbito dos direitos sociais dos trabalhadores pode-se destacar como exemplo o artigo 7°, inciso X (proteção do salário na forma da lei) inciso XXVII (proteção legal contra a automação), e inciso XX (proteção do mercado de trabalho da mulher).50 Esses direitos sociais

caracterizam-se como direitos prestacionais, como exemplificado acima, e como direitos de defesa como competência negativa para os poderes públicos ou para particulares.

Em resumo, pode-se concluir que a função objetiva dos direitos fundamentais sociais, revela que estes, para além de sua condição de direitos subjetivos (e não só na qualidade dos direitos defesa), permitem o desenvolvimento de novos conteúdos que assumem relevante papel na construção de um sistema eficaz e racional para a sua efetivação.51

3.3.2 Função subjetiva dos direitos sociais

Conforme Antonio Enrique Perez Luño, os direitos sociais, em sua função subjetiva, são aqueles relacionados às garantias e liberdades individuais, tanto na esfera individual como nas esferas coletiva e social. Nesse sentido, os direitos fundamentais sociais, em sua função subjetiva, são elementos essenciais de um ordenamento objetivo constituído a partir da afirmação do Estado social e democrático de direito.52

Dessa forma, pode-se deduzir que os direitos sociais se inserem na função subjetiva a partir do momento em que o Estado passou a ter cunho social. Não obstante, os direitos sociais, como o direito ao trabalho, à saúde e à educação, por exemplo, passaram a ser reivindicados pelos indivíduos, além das antigas liberdades anteriormente reivindicadas junto ao Estado.53

Ingo Wolfgang Sarlet afirma que, de modo geral, as variações no que concerne ao objeto do direito subjetivo estão diretamente relacionadas aos seguintes fatores: espaço de liberdade da pessoa individual, diferenças no grau de exigibilidade dos direitos

49

SARLET, Ingo Wolfgang. A eficácia dos direitos fundamentais. p. 159.

50 BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Disponível em:

<https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constitui%C3%A7ao.htm> Acesso em: 25 mai. 2009.

51

SARLET, Ingo Wolfgang. A eficácia dos direitos fundamentais. p. 159.

52LUÑO, Antonio Enrique Perez. Los derechos fundamentales. p. 29. 53 LUÑO, Antonio Enrique Perez. Los derechos fundamentales. p. 22.

individualmente considerados, especialmente no que se refere a prestações sociais materiais e, por fim, as complexas posições jurídicas dos direitos fundamentais que podem conter direitos, liberdades, pretensões e poderes dirigidos contra diversos destinatários. Dessa forma, a subjetividade dos direitos fundamentais não se restringe aos direitos de liberdade, compreendendo tanto os direitos de defesa (ações negativas) quanto os direitos a prestações (ações positivas).54

Em suma, a função subjetiva cumpre seu papel de garantir aos cidadãos a titularidade de direitos sociais. Portanto, são garantias relativas aos direitos prestacionais e de defesa que o indivíduo possui e pode opor contra o Estado, outros indivíduos e mesmo contra outros Estados.55

3.4 CLASSIFICAÇÃO DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS SOCIAIS SEGUNDO SUA