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Gênero textual: processo sociocomunicativo

4. GÊNERO TEXTUAL: CHARGE

4.1. Gênero textual: processo sociocomunicativo

Partindo do ponto segundo o qual todos os usuários da língua articulam sua fala ou escrita com as formas dos gêneros e os reconhecem nos exercícios sociais, podemos observar que o uso dos gêneros textuais nos oferece maior viabilidade para lidar com o desempenho real da língua. Esse conhecimento e domínio que temos dos gêneros possibilita a comunicação verbal e não verbal, já que todo texto pode ser considerado como pertencente a determinado gênero.

E, à medida que a textualidade deixa de ser privilégio de entendimento e os estudos passam a valorizar o conhecimento funcional que todos os usuários de uma língua compartilham, os objetos de estudos multiplicam-se, tornam-se cativantes e valorizam ações sociais, nas quais os aspectos linguísticos estão inseridos.

Desse modo, o estudo dos gêneros textuais é uma produtiva área interdisciplinar, com atenção voltada para o funcionamento da língua e para as atividades culturais e sociais. Portanto, segundo Marcuschi (2011, p.19) “o gênero é essencialmente flexível e variável, tal como seu componente crucial, a linguagem”. Ou seja, assim como a língua sofre mudanças, também os gêneros sofrem, adaptam-se, renovam-se e se multiplicam.

Ainda, segundo o autor, a tendência é observar “os gêneros pelo seu lado dinâmico, processual, social, interativo, cognitivo, evitando aspectos formais e estruturais”. Isso posto, os gêneros textuais devem se relacionar com as práticas sociais (contexto), os aspectos cognitivos, as intenções, as atividades discursivas e culturais.

Assim, neste capítulo, abordaremos alguns conceitos de gênero textual na perspectiva sociorretórica do estudo de gênero em Bazermam (2004), Miller (2009) e sócio-discursiva em Marcuschi (2011), inserindo uma breve abordagem histórica.

4.1.1. CONCEPÇÕES TEÓRICAS DE GÊNERO TEXTUAL

A noção de gênero vem sendo, desde Platão e Aristóteles, uma preocupação insistente, haja vista as várias classificações que têm aparecido ao longo dos tempos, entre elas, a clássica distinção entre poesia e prosa; a distinção entre lírico, épico e dramático; a oposição entre tragédia e comédia; a distinção da Retórica Antiga entre discursos deliberativos, judiciário e epidítico. O estudo dos gêneros foi, dessa forma, uma constante temática que interessou estudiosos de áreas diversas. Assim, os gêneros textuais se multiplicam principalmente após a invenção da escrita alfabética por volta do século VII a.C; a partir do século XV, expandem-se com o florescimento da cultura impressa e na fase intermediária da industrialização, iniciada no século XVIII, dá início a uma grande ampliação.

Entretanto, foi com Aristóteles que surgiu uma teoria mais sistemática sobre os gêneros e sobre a natureza do discurso. No cap. 3 da Retórica [1358a], Aristóteles diz que há três elementos compondo o discurso: aquele que fala, aquilo sobre o que se fala e aquele a quem se fala.

Charaudeau (2010, p.40) afirma:

O discurso resulta da combinação das circunstâncias em que se fala ou escreve (a identidade daquele que fala e daquele a quem este se dirige, a relação de intencionalidade que os liga e as condições físicas da troca) com a maneira pela qual se fala.

Isso posto, podemos observar que o discurso é tudo o que o homem fala ou escreve, isto é, produz em termos de linguagem. Consequentemente, há um número enorme e bastante variável de discursos produzidos ou que estão sendo produzidos na sociedade. É dessa maneira que falamos em discurso científico, religioso, político, jornalístico, do cotidiano, etc.

O discurso, quando produzido¸ manifesta-se linguisticamente por meio de textos. Todo texto se organiza dentro de um determinado gênero. Os vários gêneros existentes, por sua vez, constituem formas “relativamente estáveis de enunciados”, afirma Bakhtin (2011[1992], p.262). Pode-se ainda assegurar que a noção de gêneros refere-se a “famílias”

de textos que compartilham algumas características comuns, embora heterogêneas, como visão geral da ação à qual o texto se articula em diversas atividades comunicativas.

Assim sendo, o estudo dos gêneros textuais se torna cada vez mais vasto e flexível, com atenção especial para a linguagem em funcionamento e para as atividades culturais e sociais. Desde que não entendamos os gêneros como estruturas rígidas, mas como formas culturais e cognitivas de ação social (Miller, 2009), atribuídas na linguagem, somos levados a ver os gêneros como entidades empreendedoras que sofrem variações na sua constituição que, em muitas ocasiões, resultam em outros gêneros, novos gêneros.

4.1.2. O CONCEITO DE GÊNERO TEXTUAL NA PERSPECTIVA SÓCIO DISCURSIVA

É por meio dos gêneros textuais que realizamos linguisticamente nossas atividades socioculturais e nossos propósitos comunicativos em situações sociais particulares. Eles facilitam nossas práticas num contexto situacional. As práticas sociais são as atividades do dia-a-dia que as pessoas realizam ao conduzir a vida social nos mais variados contextos. Portanto, uma das maneiras de agir no mundo é por meio dos gêneros textuais. Assim, é essencial focalizar as práticas no estudo dos gêneros textuais, porque é nelas que se torna viva a relação entre indivíduo e sociedade.

Por conseguinte, Marcuschi (2011, p.23) afirma que “os gêneros textuais devem ser considerados como parte constitutiva da sociedade em seus habitats típicos”, ou seja, os gêneros textuais representam nossas ações sociais, nossos propósitos comunicativos e nossas intenções num determinado meio social.

Do ponto de vista sociocognitivo, uma das características mais marcantes do gênero textual é o reconhecimento pelas pessoas que o identificam por seu uso corrente em sua sociedade. A identificação de determinado gênero implica uma demonstração de competência comunicativa do indivíduo que o reconheceu e que, em princípio, é capaz de compreender e produzir esse gênero textual. Assim sendo, os gêneros são modelos correspondentes a formas sociais reconhecíveis nas situações de comunicação em que ocorrem e sua estabilidade é relativa ao momento histórico-social em que cada um surge e circula.

Segundo Marcuschi (2011, p.19), “os gêneros textuais caracterizam-se como eventos textuais altamente maleáveis, dinâmicos e plásticos”, pois surgem conforme nossas necessidades e atividades sociais, culturais, cognitivas e institucionais.

Isso posto, os gêneros textuais tornam-se difíceis de serem caracterizados e definidos por aspectos formais e estruturais, mas isso não significa eliminar totalmente a organização das formas composicionais dos gêneros. O próprio Bakhtin (2011[1992]) indicava a “construção composicional”, junto ao “conteúdo temático” e o “estilo” como as três características do gênero.

Além disso, Marcuschi (2011, p.22) afirma que a “comunicação verbal só é possível por algum gênero textual”, ou seja, os gêneros textuais se constituem num contexto sócio-discursivo para agir sobre a realidade e interpretá-la. Portanto, essa flexibilidade e variedades de operação dão aos gêneros capacidade de adaptação e ausência de rigidez e se acham perfeitamente de acordo com Bazerman (2004) e Miller (2009) que consideram o gênero como “ação social”.

4.1.3. O CONCEITO DE GÊNERO COMO AÇÃO SOCIAL EM BAZERMAN, MILLER E MARCUSCHI

Bazerman (2004) define gênero como ação social, observando as regularidades nas propriedades das situações recorrentes (dá atenção particular às intenções sociais nelas reconhecidas), que dão origem a recorrências na forma e no conteúdo do ato de comunicação. Ou seja, para o autor, a noção de recorrência está vinculada aos usuários do gênero, que agem colaborativamente para interpretar certas situações comunicativas e extrair semelhanças significativas e distintivas para constituir um tipo.

Os gêneros, ainda segundo o autor, estão ligados a outros gêneros, usados por determinada pessoa em dada situação. Num escritório, por exemplo, o funcionário tem de escrever cartas, correios eletrônicos, memorandos, relatórios. São os gêneros próprios àquele papel profissional exercido por ele, que Bazerman (2004, p.33) chama de “conjunto de gêneros”.

O chefe do mesmo escritório também teria sua própria rede de gêneros, como a escrita de circulares internas, cartas admissionais e demissionais, outras formas de relatórios. Forma-se outro conjunto de gêneros. Os dois conjuntos estariam ligados a uma rede maior de relações, compartilhada por ambos e pelos demais empregados do escritório.

Seria o “sistema de gêneros” que compõe aquela situação comunicativa, articulada por aquele grupo de pessoas. Assim, segundo o autor (ibid., p.22), “os vários tipos de textos se acomodam em conjuntos de gêneros dentro de sistemas de gêneros, os quais fazem parte dos sistemas de atividades humanas”.

Nessas eventualidades, muitos textos são produzidos, criando realidades ou fatos sociais. Esses fatos não poderiam existir se as pessoas não os realizassem por meio da criação de textos: cartas, e-mails, relatórios, circulares, etc. Nessa sequência de textos e atividades, vemos sistemas organizacionais bem articulados que circulam por caminhos previsíveis e de fácil compreensão.

Segundo Bazerman, examinar o conjunto de gêneros permite ver a extensão e variedade do trabalho escrito e requerido por um determinado papel social e identificar conhecimentos de gêneros e habilidades de escrita necessárias para alguém realizar esse trabalho. Observar o sistema de gêneros permite compreender as interações práticas, funcionais e sequenciais de documentos e ver como os indivíduos, ao escrever qualquer novo texto, estão intertextualmente situados dentro de um sistema, e como sua escrita é direcionada pelas probabilidades de gêneros.

Interessante é que, ao definir o sistema de gêneros em que as pessoas estão envolvidas, o autor aponta também um frame que organiza o trabalho, a atenção e as realizações num sistema de atividades. Em algumas situações comunicativas e de interação, fazemos a identificação de tal situação, acionando da memória nossos esquemas de conhecimento, para, a partir disso, usar adequadamente os gêneros orais ou escritos. Tais gêneros possuem características distintas, devido às suas especificidades. Além disso, tornam-se suportes de atividades cujos aspectos físicos assumem um papel altamente visível. Jogar basquete, por exemplo, pode se tratar basicamente de movimentos e manuseio da bola, mas existem regras, estratégias, gritos de torcida, organização de ligas e reportagens de jornal que envolvem gêneros orais e escritos (BAZERMAN, 2004, p.35).

Por último, levar em consideração o sistema de atividades junto com o sistema de gêneros é destacar o que as pessoas fazem e como os textos as ajudam a fazê-lo.

Miller (2009, p.22), nos passos de Bazerman, afirma que a definição de gênero precisa ser centrada não na substância ou na forma do discurso, mas na ação em que ele é usado para realizar. Ela se baseia nas ligações entre gênero e atos praticados recorrentemente, pois percebe que os propósitos dos usuários são componentes essenciais da situação. Seu interesse não é tanto fornecer um sistema classificatório na compreensão de gênero, e sim uma explicação de certos aspectos de como a realidade social evolui. Um

princípio útil de classificação para o discurso, então, deve ter alguma base nos acordos da prática retórica, incluindo as maneiras como retores e audiências reais têm de compreender o discurso que usam.

A autora propõe que o termo “gênero” seja limitado a um tipo particular de classificação de discurso, uma classificação baseada na prática retórica, aberta e organizada em torno de ações situadas, isto é, pragmáticas. Ela defende a classificação etnometodológica que procura explicar o conhecimento que a prática cria, ou seja, a realidade sociocultural é construída por meio da vivência de cada um no dia a dia e que, em todos os momentos, podemos compreender as construções sociais que permeiam nossa conversa, nossos gestos, nossa comunicação etc. Portanto, para uma teoria de gênero retórico, a noção de “tipo” tem a importância de ordenar as práticas sociais. Quando interpretamos situações novas como sendo similares ou análogas a outras, criamos um “tipo” que se torna parte de nosso conhecimento.

Esse processo de “tipificação” baseado em recorrências explica a natureza convencional do discurso, assim como as regularidades encontradas tanto em sua forma quanto em sua substância.

Ainda, segundo Miller (ibid., p.44), gênero é um “artefato cultural” passível de ser interpretado como uma ação recorrente e significativa. Salienta que uma noção retórica de gênero está baseada nas convenções de discurso que uma sociedade estabelece como formas de agir em conjunto. Portanto, é pela ação em conjunto que produzimos e reproduzimos os sentidos sociais e criamos estruturas específicas para cada gênero.

Tal como se nota, Bazerman e Miller oferecem fundamentos para Marcuschi (2011) quando esse afirma que os gêneros são dinâmicos, derivando um do outro e se realizando de maneira multimodal; circulam na sociedade das mais variadas maneiras e nos mais variados suportes tecnológicos da comunicação, exercem funções sociocognitivas e facilitam trabalhar de maneira mais constante com as atividades desenvolvidas pela linguagem.

Além do mais, hoje se reconhece que não é apenas a estrutura rígida que resolve a questão do gênero e sim sua funcionalidade e organicidade.