Segundo Smart (1963, p. 39), as teorias científicas são verdadeiras; consequentemente, as entidades inobserváveis por elas postuladas existem. Isso explicaria o fato de os fenômenos observáveis se comportarem como as teorias científicas preveem. Negar essa intuição realista científica é acreditar em uma “coincidência cósmica”. Daí esse argumento ser conhecido como o argumento da coincidência cósmica.
Embora o argumento da coincidência cósmica seja apresentado aqui como uma estratégia de defesa do realismo científico que, com o desenrolar da história dessa vertente filosófica, resultará no argumento do milagre em sua versão mais sofisticada, deve-se reconhecer que não há unanimidade consensual na literatura filosófica sobre as relações existentes entre dito argumento e o argumento do milagre na versão Putnam-Boyd, por exemplo.
De acordo com Silvio Seno Chibeni (2006, p. 228),
[e]nquanto a maioria dos pesquisadores parece não reconhecer nenhuma distinção essencial entre os argumentos, outros dizem que embora ambos sejam argumentos abdutivos, e ambos tenham por fim sustentar a posição realista científica, eles operam em níveis distintos: o de Smart no nível das explicações científicas dos fenômenos naturais, o de Putnam no das explicações filosóficas do conhecimento científico.
Psillos (1999, p. 73) é ainda mais radical e diz que, embora o argumento de Smart (1963) pareça ser o mesmo de Putnam-Boyd, expresso de outra maneira (havendo apenas uma troca do termo “coincidência cósmica” por “milagre”), o primeiro não é uma inferência da melhor explicação como o segundo o é. O argumento apresentado por Smart seria um argumento filosófico geral, conhecido por “argumento da plausibilidade”. O debate sobre o realismo científico, para Smart (1963), constitui uma disputa conceitual (não acessível a testes empíricos) sobre a interpretação das teorias científicas.
Para sermos mais específicos, segundo Psillos (1999), o argumento da “coincidência cósmica” é a priori. Diferentemente do argumento Putnam-Boyd, ele não está sujeito a testes empíricos. Afirma que aceitar o realismo é intuitivamente mais plausível, persuasivo e racional do que aceitar o antirrealismo. Isso porque o primeiro deixa menos coisas sem explicação ou resultantes de coincidências. Ele se baseia em juízos intuitivos, como o que é plausível e o que requer explicação, a despeito da dificuldade em oferecer definições, determinações, delimitações, precisas do que pode ser considerado plausível e o que não, e do que se entende por satisfatório. Há, desse modo, um apelo ao bom senso. A força desse argumento está em considerações intuitivas sobre o que é mais e o que é menos plausível. Ao passo que a força do argumento do milagre na versão Putnam-Boyd está no reconhecimento de que ele é uma instância de um esquema confiável de inferência: a inferência da melhor explicação.
De qualquer modo, considerando que a argumentação de Smart (1963), inicialmente, visasse a operar apenas no nível da ciência, e mesmo dessa forma a priori, isso não impediu
que o argumento fosse ampliado também para o nível filosófico, e em uma perspectiva naturalizada, conforme pode ser observado abaixo na reestruturação que fizemos do argumento:
P1: Se as teorias científicas são verdadeiras, as entidades inobserváveis por elas postuladas existem.
P2: A verdade fatual das teorias científicas explica o fato de os fenômenos observáveis se comportarem conforme as previsões das teorias científicas.
P3: Seria uma enorme coincidência os fenômenos observáveis se comportarem conforme as previsões, se as teorias científicas não fossem verdadeiras, se não descrevessem a realidade fatual.
C1: Portanto, negar a intuição realista científica é acreditar em uma “coincidência cósmica”.
P4: Não nos cabe a crença de tal natureza.
C2: Logo, as teorias científicas são verdadeiras e, consequentemente, as entidades inobserváveis da ciência têm existência fatual.
P5: O realismo científico defende que as teorias científicas são verdadeiras e, consequentemente, as entidades inobserváveis da ciência têm existência fatual.
C3: O realismo científico oferece, portanto, a explicação filosófica adequada sobre o estatuto cognitivo das teorias científicas.
Cabe analisar, assim, não só a aplicabilidade do argumento da coincidência cósmica, mas também a validação de sua “ampliação” para o nível filosófico. Por ora examinaremos outro argumento que possivelmente contribuiu para o desenvolvimento do que reconhecemos hoje como argumento do milagre: o argumento da “necessidade de explicação” para o sucesso empírico das teorias científicas.
O argumento da necessidade de explicação, apresentado por Maxwell (1962), favorece uma interpretação realista das teorias científicas. Segundo ele, o sucesso empírico da ciência, seu êxito em explicar, prever e, então, controlar os fenômenos naturais, é um fato que requer explicação. A única explicação que Maxwell reconhece como razoável é a de que as teorias bem-confirmadas, bem-sucedidas, são constituídas de afirmações genuínas bem-confirmadas, ou seja, afirmações que se referem de modo correspondencial às entidades que, de fato, existem. Nas palavras de Maxwell (1962, p. 18; 22),
[a] única explicação razoável para o sucesso das teorias da qual sou ciente é que as teorias bem confirmadas são conjunções de afirmações genuínas, bem confirmadas e que as entidades as quais elas referem existem, com toda probabilidade.
[...]
O realismo fornece uma explicação muito simples e convincente de que existem as entidades referidas pelas teorias bem confirmadas.
Segundo Psillos (1999), o argumento da necessidade de explicação de Maxwell (1962) é diferente do apresentado por Smart (1963), apesar de parecerem análogos. Para Psillos (1999, p. 74),
[o] argumento de Maxwell difere do de Smart de um modo interessante. Ele inclui uma tentativa de fundamentar os julgamentos de plausibilidade, que são requeridos para a defesa do realismo, e mostrar que tais julgamentos não são, afinal, distintamente filosóficos. Em certo sentido, o argumento de Maxwell é uma ‘ponte’ entre o argumento a priori de Smart e a subsequente versão naturalista de Putnam-Boyd. Maxwell sugere que considerações de simplicidade, abrangência e ausência de hipóteses ad hoc são virtudes que fazem os julgamentos [que as possuem] se revelarem mais plausíveis do que os julgamentos que delas carecem.
Sugerimos a seguinte esquematização do argumento de Maxwell (1962):
P1: O sucesso empírico da ciência, seu êxito em explicar, prever e, então, controlar os fenômenos naturais é um fato.
P2: O sucesso empírico da ciência é um fato que requer explicação.
P3: Se as teorias científicas forem constituídas de afirmações genuínas, ou seja, afirmações que se referem de modo correspondencial às entidades que, de fato, existem, essas teorias serão bem-confirmadas, bem-sucedidas empiricamente.
P4: Nenhuma outra explicação apresentada é mais simples e mais adequada do que esta.
C1: A correlação entre as teorias científicas e os fenômenos naturais a que se referem é a única explicação razoável para o sucesso empírico da ciência.
P5: O realismo científico defende que as teorias científicas são verdadeiras e, consequentemente, as entidades inobserváveis da ciência têm existência fatual.
C2: O realismo científico oferece, portanto, a explicação filosófica adequada sobre o estatuto cognitivo das teorias científicas.
O argumento do milagre, tal como formulado por Putnam (1975a) é uma instância da inferência da melhor explicação ou abdução. Para Putnam (1975a, p. 73), “[o] argumento positivo para o realismo [científico] é que ele é a única filosofia que não faz do sucesso da ciência um milagre.” Daí esse argumento ficar conhecido como o argumento do milagre.
A estrutura desse argumento envolve variantes das seguintes afirmações, em que E são as premissas evidenciais disponíveis (os dados, os fatos) e H as hipóteses explicativas, conforme apresentamos a seguir:
E1: As teorias científicas são bem-sucedidas empiricamente.
E2: Considera-se uma teoria bem-sucedida empiricamente aquela que conseguir explicar com detalhes e prever com acuidade os fenômenos naturais a que se aplicam.
E3: Deve haver uma explicação para o fato de as teorias científicas serem bem- sucedidas empiricamente.
E4: ‘Ser verdadeiro’ denota uma relação de correspondência extrateórica entre as teorias e o mundo (concepção da verdade como correspondência).
E5: Se as teorias científicas forem verdadeiras, serão bem-sucedidas empiricamente. E6: O sucesso do empreendimento científico pode ser explicado se considerarmos que as teorias científicas aceitas são pelo menos aproximadamente verdadeiras.
E7: As tentativas de explicar o êxito da ciência em termos não-realistas são insatisfatórias e fazem deste um milagre.
E8: Não parece razoável identificarmos o sucesso do empreendimento científico com um milagre.
H1: Assim, resta-nos como única explicação para o êxito da ciência a hipótese de que nossas melhores teorias científicas vigentes são pelo menos aproximadamente verdadeiras: a ciência é bem-sucedida porque o que ela diz corresponde de perto à realidade e, assim, as entidades inobserváveis utilizadas nas hipóteses explicativas (aproximadamente verdadeiras) da ciência têm existência real, povoam a realidade.
E9: O realismo científico propõe as teses de que as afirmações da ciência são verdadeiras ou pelo menos aproximadamente verdadeiras, e de que, sendo assim, as entidades inobserváveis postuladas pelas teorias científicas de fato existem.
H2: O realismo científico é a doutrina filosófica da ciência adequada porque oferece a única explicação satisfatória da ciência e da atividade científica.
Essa versão do argumento do milagre apresenta uma fragilidade: qualquer formulação de uma explicação alternativa coerente para o sucesso da ciência seria suficiente para bloquear a conclusão de Putnam (1975a). Uma versão mais robusta do argumento, como as apresentadas por Leplin (1984) e Boyd ([1983] 1984), é que verdade teórica (ou verossimilhança) é a melhor explicação para o sucesso científico.
Segundo Boyd (2002), o realismo científico é uma concepção intuitiva a respeito da ciência e da prática científica. De acordo com essa concepção, a pesquisa científica produz conhecimento de fenômenos, em grande medida, independentes da teoria. Tal conhecimento é possível (de fato, real) mesmo naqueles casos em que fenômenos relevantes não sejam observáveis. Dessa perspectiva, desde que se reconheça a falibilidade dos métodos científicos e que a maioria do conhecimento científico é apenas aproximada, se está justificado a aceitar as mais seguras descobertas científicas em seu “valor de face”.
Como observa Psillos (1999), o naturalismo de Boyd ([1983] 1984) torna o seu uso do argumento do milagre diferente dos de Smart e de Maxwell. A discussão aqui não constitui simplesmente uma disputa conceitual sobre a interpretação das teorias científicas. Para Boyd, é um fato contingente e testável empiricamente que as teorias científicas podem resultar, e de fato resultam, em verdades teóricas.
O argumento do milagre na versão naturalista de Boyd ([1983] 1984) enfoca a metodologia científica. Todos os aspectos da metodologia científica são profundamente carregados de teoria. Essencialmente, a metodologia científica é quase linearmente dependente das teorias de fundo aceitas. Essas teorias fazem os cientistas adotarem, desenvolverem ou modificarem seus métodos de interação com o mundo e os procedimentos que eles usam para tomar medidas e testar teorias. Os cientistas usam teorias de fundo aceitas para formar suas expectativas, para escolher os métodos relevantes a fim de testar teorias, para inventar experimentos, para criar e regular instrumentos, para acessar a evidência experimental, para escolher entre teorias rivais, para adicionar hipóteses sugeridas etc.
A melhor explicação da confiabilidade instrumental da metodologia científica é que as teorias de fundo são, de modo relevante, aproximadamente verdadeiras. As teorias científicas maduras são aproximadamente verdadeiras, pelo menos no que diz respeito aos aspectos relevantes para o seu sucesso instrumental. Essas teorias científicas de fundo foram elas próprias alcançadas por raciocínio abdutivo, seguido de teste com outros fenômenos. Consequentemente, é razoável acreditar que o raciocínio abdutivo seja confiável: ele tende a gerar hipóteses aproximadamente verdadeiras. Essa conclusão não constitui uma verdade a priori. A confiabilidade do raciocínio abdutivo é uma afirmação empírica e, se verdadeira,
será contingentemente verdadeira. De fato, o argumento do milagre afirma que a melhor explicação de que a metodologia científica tem o aspecto contingente de produzir previsões corretas é que as teorias implicadas nessa metodologia são, de modo relevante, aproximadamente verdadeiras.
Psillos (1999, p. 78) retoma o argumento explicacionista realista na versão naturalista de Boyd ([1983] 1984), cuja estrutura apresentamos esquematizada a seguir:
E1: Os métodos pelos quais os cientistas derivam e testam as predições teóricas são carregados de teoria, são impregnados teoricamente.
E2: Esses métodos carregados de teoria conduzem a predições corretas e sucesso experimental.
E3: Esse sucesso empírico, instrumental requer uma explicação.
E4: Se as teorias pressupostas pela metodologia científica forem pelo menos aproximadamente verdadeiras, o método científico poderá conduzir a teorias ainda mais próximas da verdade e, consequentemente, a maior sucesso empírico, instrumental.
H1: A melhor explicação para a confiabilidade instrumental da metodologia científica é que as afirmações teóricas da ciência são aproximadamente verdadeiras, ou seja, envolvem conexões causais específicas (ou mecanismos) entre a realidade e a teoria que a descreve. Sendo que, em virtude dessa relação extrateórica, os métodos científicos produzem predições bem-sucedidas.
E4: O realismo científico propõe as teses de que as afirmações da ciência são verdadeiras ou pelo menos aproximadamente, parcialmente ou em alguma medida verdadeiras, e que, sendo assim, as entidades inobserváveis postuladas pelas teorias científicas de fato existem.
H2: O realismo científico é a doutrina filosófica da ciência adequada porque oferece a melhor explicação para a confiabilidade instrumental da metodologia científica.
Em suma, nesta seção, recorremos à história da filosofia da ciência a fim apresentarmos algumas das principais formulações do argumento do milagre. Como versões preliminares do argumento do milagre, apresentamos o argumento da coincidência cósmica de Smart (1963) e o argumento da necessidade de explicação de Maxwell (1962). A formulação original de Putnam (1975a) do argumento do milagre é apresentada: o sucesso científico seria um milagre se as teorias científicas não fossem verdadeiras. De modo que a verdade teórica é a única explicação para o sucesso da ciência.
Apoiados em alguma versão do argumento acima, filósofos da ciência como Leplin (1984) e Boyd ([1983] 1984) propõem uma defesa explicacionista do realismo científico. A defesa explicacionista do realismo baseia-se no argumento do milagre e leva à conclusão de que o realismo científico, ao propor a existência real das entidades observáveis e inobserváveis das teorias científicas (parcialmente verdadeiras), é a posição filosófica que descreve adequadamente a ciência.
Podemos resumir a estrutura do argumento do milagre da seguinte maneira: (P1) O empreendimento da ciência é tão bem-sucedido que requer explicação e não poderia ser explicado pelo acaso; (P2) A única (ou melhor) explicação não milagrosa para este sucesso é a verdade (ou verossimilhança) das teorias científicas; (C) Portanto, devemos ser realistas científicos.
Na próxima seção, apresentaremos algumas das principais críticas que são dirigidas contra o argumento do milagre e as réplicas realistas científicas, com o objetivo de fazer um balanço que revele a força do argumento do milagre como estratégia de defesa do realismo científico.
4.2 Outras críticas e defesas do argumento do milagre: os desafios da indução pessimista