Alimentação Alimento
2.3 Gastronomia e turismo: de acompanhamento a prato principal
Compreendendo-se a relevância da face identitária da cultura alimentar para a sociedade, desperta-se neste contexto pós-moderno para a necessidade de uma atividade gastronômica mais bem planejada, protegida e mais bem utilizada como aliada ao fenômeno turístico, já que o turismo se alimenta de cultura e desta interação vislumbram-se ganhos para ambas as partes que podem ser obtidos por meio de desenvolvimento com sustentabilidade.
Dentro desta visão, discorre-se no sentido de verificar que dada a relação histórica e cultural favorável entre turismo e gastronomia e suas próprias naturezas similares, aponta-se para a necessidade desta parceria fazer melhor uso de elementos identitários, criativos e sustentáveis imanentes aos “saberes gastronômicos das localidades”, no intuito de desenvolver regiões e criar destinos turísticos mais atraentes e fortalecidos.
Acerca de benefícios mútuos decorrentes dessa interação turístico-gastronômica, preceitua Lanzarini (2009) que:
Não se pode negar que a parceria entre turismo e gastronomia é algo que traz benefícios a ambas as partes. O turismo ganha mais um produto (e em muitos lugares é a única motivação) que ainda é considerada o diferencial do local, algo único, o sabor do lugar, o reflexo maior dos costumes. Para a gastronomia, o envolvimento com a atividade turística traz, principalmente, a valorização cultural, tornando-se cada vez mais uma identidade (Lanzarini, 2009, p.11).
Ademais, constatando que a gastronomia em comunhão ao turismo gera transdisciplinaridade, essencial às duas atividades, e, no intuito de corroborar ainda mais com este entendimento, observa-se que essa sinergia entre a gastronomia e o turismo, encontra princípio teórico basilar em escrito de Beni (2007) que trata da Teoria Geral dos Sistemas, onde prescreve que “a observação do turismo, resultante da ação sociocultural em contextos diferentes requer, como já mencionado, métodos e procedimentos de pesquisa inter e transdisciplinar de vários domínios do saber: ciências exatas, humanas e sociais” (Beni, 2007, p. 45).
Deste modo, constata-se o quanto este binômio transdisciplinar turismo- gastronomia pode sair mais forte dentro desta parceria com planejamento responsável e inclusão de orientação visando desenvolvimento, buscando, por exemplo, amparo teórico e material na Sociologia, Antropologia, História e o Direito, que poderão imprimir robustez a esse processo. Para além disso, há que se ressaltar que um dos objetivos do Sistema de Turismo – SISTUR, tratados por Beni (2007), “é inventariar de forma estruturada e sistêmica, o potencial de recursos naturais e culturais para a exploração racional da atividade do turismo de recreação” (Beni, 2007, p. 47). Desta feita, há que se comtemplar os muitos bens gastronômicos que poderão estar perdidos no tempo e no espaço de dadas localizações sem sequer ser valorados e desta forma inventariados. Neste ensejo, percebe-se que essa gastronomia de identidade13 precisa ser conhecida para ser valorizada e a posteriori protegida.
Nesta ótica, apreender o quanto os sabores podem ir para mais que um simples apêndice que apenas opera em relação colaborativa e orientada à prática principal, ou seja à turística, poderá ser um bom começo para se encontrar a interpretação pouco compreendida deste “diálogo” turístico-gastronômico que se bem entendido, tenderá a enaltecer e a fortalecer
1313 Esta gastronomia é compreendida como aquela que representa a história e a cultura de um povo, apresentando-
o desenvolvimento regional de lugares que o percebam e o empreguem na inteireza do seu valor.
Diante do exposto, Peccini (2011) destacam que,
Esse aproveitamento turístico pode originar uma série de benefícios, não apenas em termos da experiência do turista, mas também para o destino receptor. Além da consequente geração de empregos e divisas, a possibilidade da valorização cultural, o incentivo aos produtores agrícolas e criadores de animais locais, o aumento da competitividade do destino e a criação de uma marca diferenciadora para a localidade são alguns dos benefícios que podem ser observados (Peccini, 2011, p. 29)
Portanto, ressalta-se, do trecho da citada obra, o quanto pode-se obter ganhos advindos deste trato benéfico entre turismo e gastronomia, onde todos os atores envolvidos nele são favorecidos de modo construtivo, sem necessidade de haver prejuízo para nenhum dos que fizerem parte deste convívio, ao contrário, podendo se beneficiar mutuamente, se valendo de uma convivência simbiótica naturalmente existente e apenas mais bem trabalhada, visando um elo sustentável entre as mesmas e seu consequente crescimento econômico e cultural.
Então, nesta linha de pensamento, justo e mais proveitoso seria imprimir paridade de atenções voltadas para ambas as práticas, dada em pé de igualdade valorativa e com um objetivo basilar e decisivo: o progresso econômico cultural desejável obtido pela exploração evoluída deste vínculo de afinidade entre as atividades supra referidas e protegidas.
Assim, não há que se esquecer que:
[...] gastronomia e o turismo são indissociáveis, pois é impossível pensar em turismo sem prever a alimentação para curta ou longa permanência. Os lugares possuem seus pratos típicos e seu modo peculiar de preparar e apresentar os alimentos, tornando-os características culturais e símbolos de identidade (Barczsz & Amaral, 2010, p. 70).
Desta forma, alertando-se para a indissociabilidade presente neste vínculo entre as duas atividades acima citadas, observa-se que sem a gastronomia o turismo seria inviável, afinal nem a vida humana possuiria permanência se não houvesse a possibilidade de se obter alimentos à sobrevivência em dadas localidades que se pretendesse à visitação; ademais pensa-se, aqui, além do alimento como fonte de sobrevivência e envereda-se para o alimento da alma, quando se traz a gastronomia como símbolo identitário e fenômeno cultural e patrimonial já que nesta
está impressa significações e simbologias de um povo, desta forma podendo alavancar culturas e fortalecer gastronomia e turismo em um único momento e, em relação concomitante e sinergética.
A combinação do simbolismo presente nos pratos típicos associada à estratégias de fortalecimento identitários, revela-se como um dos desafios dos destinos turísticos que visam a experiência gastronômica dentro do seu planejamento local.
Neste enfoque protetivo, Peccini (2013), alerta que:
A gastronomia, na sua relação com o turismo, envolve a compreensão de como organizar o espaço alimentar, para receber os visitantes. Nesse sentido, entendem- se as preocupações de preservação dos patrimônios gastronômicos, vistos como expressão cultural, e a adequação do espaço gastronômico (Peccini, 2013, p. 2).
Essa adequação do espaço às potencialidades turísticas e gastronômicas e sua correta proteção patrimonial, se mostra como uma forte estratégia para o progresso de regiões e localidades carentes de ações neste sentido. Então, partindo do pressuposto fisiológico da alimentação como mantenedora da vida, não há que se negar e nem contestar a sua importância primária para o turismo ao longo da história da humanidade e das próprias atividades em comento, dada sua indispensabilidade vital, não havendo impasses e nem discussões quanto a isso.
Já em referência ao seu poder simbólico empregado ao turismo, podemos dizer que nesse campo da apropriação simbólica relativa à gastronomia como forma cultural, observa-se que a representatividade identitária local está presente em diversas formas de apresentação da gastronomia como, por exemplo, no seu modo de fazer, suas técnicas, nos gostos e até mesmo nos “desgostos” de determinada sociedade, porém, poderá ser mais explorado como fortalecedor de regiões e destinos turísticos, desde que se envidem esforços para um melhor planejamento da atividade gastronômica dentro do cenário turístico cultural e que as ações se voltem para a essencialidade de salvaguarda deste patrimônio de grandeza imensurável.
Denota-se, por conseguinte, que essa degustação simbólica14 nos traz muito mais
que sabores, demonstrando os saberes daquele determinado povo que a produz ao longo dos anos que vão passando e que exaltam suas características sociais, naquela produção alimentícia, podendo o representar aonde quer que ele vá ou onde se fixe, gerando, assim, uma relação de
14 Acontece uma degustação simbólica, quando se come além do alimento-insumo. Aqui, por meio da comida de
fronteiras e além-fronteiras, que a distingue como sociedade pertencente a determinada região, revelando características identitárias através dos sabores encontrados em seu alimento de origem, que o “separa” de outras culturas, por ser diferente, ao mesmo tempo que o “aproxima”, dada essas mesmas diferenças, serem geradoras, também de curiosidade, inclusive dentro da atividade turística por necessidade de conhecimento do “outro”, criando o que é conhecido por experienciação turística15 (Panosso Neto & Gaeta, 2010), dada por degustação dos saberes e sabores regionais. Sobre isso, é salutar destacar que, a dimensão cultural da “experiência16
turística é, na verdade, uma só. Logo, essa modalidade de experiência não pode ser compreendida apenas a partir de suas dimensões econômicas, precisando aporte teórico de outras vertentes” (Pezzi & Santos, 2012, p. 1).
Turner e Bruner (1986) argumentam que "a experiência se trata da suspensão das relações cotidianas, a interrupção de papéis, em que o sujeito sofre um estranhamento em relação ao que lhe é familiar" (Pezzi & Santos, 2012, p. 2).
Ainda sobre experienciação turística, destaca-se que: [...] “a oferta de experiência acontece quando uma empresa usa intencionalmente os serviços como um palco e os produtos como suporte para atrair os consumidores de forma a criar um acontecimento memorável” (Pine II & Gilmore, 1999, p. 39). Além disso, "[...] para ser uma experiência, a viagem precisa superar a banalidade, os aspectos triviais, estereotipados e convencionais e estruturar-se como uma experiência que nasça da riqueza pessoal do viajante em busca de momentos e lugares que enriqueçam sua história" (Panosso Neto & Gaeta, 2010, p. 35).
Desta feita, complementa-se que,
A compreensão da experiência como um diferencial a ser oferecido aos consumidores foi um avanço importante em termo mercadológicos, mas, como em tantos outros estudos e tentativas de denominação ou classificação na área de gestão e negócios, o termo caiu em um modismo superficial, que, em boa parte, neutralizou os avanços conquistados (Panosso-Neto & Gaeta, 2010, p. 29).
15 Há alguns anos autores do turismo vêm buscando entender a experiência turística e suas características. Nestes
estudos, estaria o turista, querendo ser ator da própria viagem, buscando vivenciar acontecimentos únicos e marcantes. Na busca deste nasce o termo “Turismo da Experiência” no Brasil e, com ele, os primeiros estudos sobre o tema, que segundo Panosso Netto e Gaeta (2010) são muito poucos. Ainda, como salienta Trigo e Panosso Netto (2010) este, como outros estudos e tentativas de denominação ou classificação caíram em um modismo superficial, prejudicando seus avanços (Pezzi & Santos, 2012, p. 01).
16 É “uma palavra inglesa com uma derivação da base indo-européia *per-, “tentar, aventurar-se, arriscar” –
podendo ver como seu duplo “drama”, do grego dran, “fazer”, espelha culturalmente o “perigo” etimologicamente implicado na palavra “experiência”. O Cognato germânico de per relaciona experiência com “passagem”, “medo” e “transporte”, porque p torna-se f na lei de Grimm. O grego peraõ relaciona experiência a “passar através”, com implicações em ritos de passagem. Em grego e latim, experiência associa-se a perigo, pirata e ex-per-imento. (Turner, 1982, pp. 17-18)”.
Neste contexto, o que é diferente, ou seja, singular muito mais aproxima do que afasta. Separando identidades e juntando nações, atraindo desenvolvimento e turismo. Então, não se pretende tratar a gastronomia como o “prato principal”, nem como “acompanhamento”, mas objetivando explaná-la em sua real importância como oferta regional caracterizadora de lugares, e, neste sentido, observa-se que a história já demonstra o grau de relevância desta.
Outrossim, como sua aplicação correta influencia no desenvolvimento do turismo, aqui, se traz a conhecimento algumas especificidades pertinentes à história desta em companhia ao turismo, constatando-se que, o liame histórico cultural entre terra e a alimentação é tão intrínseco que vale lembrar que o mundo foi povoado de acordo com a oferta de alimentos das regiões ocupadas, gerando movimentação populacional e sua posterior e consequente fixação territorial.
De acordo com os ensinamentos de Ariovaldo Franco (2010):
[...] o homem renunciaria ao seu papel de caçador ao iniciar o cultivo da terra há cerca de 10 mil anos. A agricultura nasceu quando ele se absteve de consumir parte dos grãos colhidos e os enterrou para que germinassem e se multiplicassem. Começaria também a domesticar alguns dos animais que antes caçava (Franco, 2010, p. 19).
Diante deste trecho do livro, constata-se que o cultivo da terra, atrelou o homem à determinada localidade. Complementando o seu pensamento o autor prescreve: O cultivo de terra, assim como a “fabricação de utensílios de cerâmica e de fornos, implicava o estabelecimento de um núcleo habitacional fixo, de uma comunidade. Em torno dos campos de cereais apareceriam as primeiras aldeias” (Franco, 2010, p. 19). Sequencialmente, complementa-se o raciocínio com a seguinte frase: “[...] o início das civilizações está intimamente relacionado com a procura de alimentos, com os rituais e costumes de seu cultivo e preparação, e com o prazer de comer” (Franco, 2010, p. 21).
Desta feita, em conformidade com trechos desta obra acerca da história da gastronomia acima transcritos, constatamos que o início do povoamento das terras e o consequente nascimento das civilizações, se deu pela busca dos alimentos, denotando assim, a importância da comida e as suas relações com os povos para a origem das sociedades, para o nascimento das civilizações e como esta sempre esteve atrelada ao ser social e suas locomoções.
Não obstante, a relação da alimentação com a terra, esta vai mais além, quando ela, por meio dos deslocamentos dos povos antigos, vem ao longo dos anos “trabalhando” em
conjunto e em relação de simbiose e ajuda mútua, criando interação nos locais em que aportava. Para corroborar com tal afirmação, basta que se atente para o fato de que:
[...] nas Ruínas da cidade de Pompeia (Roma Antiga), existem vestígios de tabernas que ofereciam comida e vinho aos viajantes. Durante as escavações de Pompeia, encontrou-se, no chão de algumas casas, a inscrição Salve, lucru (Bem-vindo, dinheiro), e jarras de vinho, o que afirma a ideia de que o comércio já estava instituído naquela época. Se levarmos em consideração que Pompeia teve seu ápice como cidade de Roma por volta do século IV a.C., podemos dizer que o setor de Alimentos e Bebidas (A&B) está ativo há mais de 2400 anos, e é um dos ramos que mais prospera no mercado mundial desde então (Lanius, 2015, s.p.).
Da citação supracitada, já se observa que remonta às mais antigas épocas este relacionamento das atividades de deslocamentos de viajantes e a alimentação, incipientes ainda, porém já definidas.
Trazendo a lume épocas menos remotas que a das ruínas de Pompéia, porém, não menos importantes quando se trata a relação entre alimentação e viagens, observa-se que a motivação de um dos primórdios das viagens, como é o caso das grandes navegações, um importante acontecimento histórico, já que se enveredaram pelos mares, nunca antes navegados, deu-se também, pela busca das especiarias (que era um conjunto de produtos (condimentos) na maior parte vegetais, mas que poderiam ser de origem animal e até mistos), revelando, mais uma vez, essa forte relação entre a alimentação e as locomoções humanas, tendo em vista que em busca de certos de alimentos o homem foi capaz de navegar por mares, enfrentando o desconhecido e quebrando barreiras geográficas antes impostas pela distância à procura destes. Conforme Ramos (2004):
[...] durante os tempos áureos do império romano, as especiarias circulavam livremente pela Europa. Não obstante, com o continente segmentado em feudos, elas tornaram-se artigo de luxo, acessíveis apenas a algumas localidades. Com as cruzadas as cidades de Gênova, Florença e Veneza beneficiaram-se das respectivas posições estratégicas, obtendo as especiarias através da rota que partia do Oriente, revendendo os produtos em pequenas quantidades e a preços altíssimos, o que restringia seu consumo a senhores feudais e à alta burguesia. Servindo de mero entreposto comercial, logo os portugueses tiveram a ideia de obter lucros exorbitantes com esse comércio, indo buscar a mercadoria direto na fonte. Assim surgiu a Carreira da Índia e o que chamamos de império da pimenta (Ramos, 2004, p. 204).
atividade turística, já que não é pacífico entre os autores, mas procurando delinear os primórdios da parceria presente entre alimentação e deslocamentos humanos, dado que, segundo o entendimento de Schlüter (2003), ainda não há um consenso por parte dos estudiosos das ciências sociais acerca de quando houve início a atividade turística, o que se tem convicção é que a partir do instante em que as pessoas puderam fazer viagens de acordo com sua própria vontade e interesse, a relação com o patrimônio esteve presente desde o princípio.
Desta forma, vislumbra-se esta relação das viagens com o patrimônio gastronômico e, dentro destes momentos históricos, a alimentação se fez essencial. Dada esta constatação, mais uma vez se ratifica, aqui o fato de que a gastronomia esteve presente desde o início, seja como manifestação cultural que o é ou mesmo apenas como cumpridora da satisfação da necessidade básica de alimentação do viajante.
Ainda acerca da origem do turismo e sua relação com a cultura, prescreve a supracitada autora:
Desde o Grand Tour dos jovens aristocratas ingleses, passando pela Wanderlust dos alemães dos princípios do séc XX, e continuando com as mais recentemente popularizadas modalidades turísticas, como o ecoturismo e o turismo urbano, o turismo tem sua raíz nas diferentes manifestações patrimoniais, sejam elas naturais ou culturais (Shlüter, 2003, p. 1).
Com o Grand Tour dava-se início à busca pela cultura por meio das viagens. Os filhos dos nobres e de pessoas abastadas da Inglaterra terminavam seus estudos com a realização de uma grande viagem pelos países do velho continente, países esses, considerados berços da civilização. Deste modo, completavam sua formação nas mais renomadas universidades de seu país com este tour cultural. É o que se constata da afirmação de Barbosa (2002):
[...] o Grand Tour no século XVI, atingindo o auge no século XVIII era restrito principalmente aos filhos de famílias ricas, com propósitos educacionais, sobretudo de jovens recém-saídos de Oxford ou de Cambridge, duas das mais conceituadas universidades inglesas (Barbosa, 2002, p. 31-32).
Do progresso das viagens ao longo dos séculos com suas atividades, antes, delineadamente mercantilista e, depois, com o aparecimento de um viés de interesses mais culturais observa-se, desta leitura, a presença constante da gastronomia em acompanhamento ao turismo, caminhando com este, de acordo com o norte e proporções estabelecidos por épocas
e inclinações definidas por meio de demanda estabelecida em determinado momento histórico. Então, dando continuidade para esta jornada histórica entre as atividades aqui tratadas, verifica-se que foi a partir do Século XX que a atividade turística ganhou grandes proporções e começou a prática deste turismo que hoje nos é apresentado em grande escala, isso tudo ocorreu por causa das consequências da Revolução Industrial e as transformações na economia e na sociedade trazidas a partir dela e que transformaram a mentalidade e a situação socioeconômica ao longo dos Séculos XIX e XX.
Era a época moderna e a produção em larga escala que atingia a todos os setores com o que chamamos de globalização, inclusive a atividade gastronômica e seu processo de massificação da alimentação, denominado especificamente de MacDonaldização (Fischler, 2011), que acompanhava as “necessidades” do mundo moderno.
Segundo Santos (2008):
[...] nesse mundo globalizado, o consumo torna-se um denominador comum para todos os indivíduos, atribui um papel central ao dinheiro nas suas diferentes manifestações; juntos, o dinheiro e o consumo aparecem como reguladores da vida individual. O novo dinheiro torna-se onipresente (Santos, 2008, p. 56).
Tratando, também, do processo de globalização, que denominou de mundialização da cultura, prescreve Ortiz (2007): a sociedade moderna é, portanto, uma sociedade mundial no duplo sentido: Ela vincula “um mundo a um sistema, e ela integra todos os horizontes mundiais como horizontes de um único sistema comunicativo” (Ortiz, 2007, p. 24).
Então, extrai-se da leitura dos ensinamentos acima dispostos, quando se fala em globalização e em sociedade moderna que o mundo global moderno tomou por base o dinheiro e o consumo, sendo estes os norteadores da vida moderna e, neste ambiente o mundo foi englobado em um sistema comunicativo vinculado por esta sociedade moderna que ditou regras, comportamentos, padrões, que criaram um mundo de iguais, massificado por interesses “superiores”, que estabeleceram modelos com estruturas despersonalizantes.
As atividade turística e a gastronômica, acompanharam esse processo vivido no período da modernidade, sofrendo influências em suas características, de maneira a se moldarem ao que ditava a nova realidade mundial. A oferta gastronômica se tornou sem tempero e gosto e consequentemente sem identidade, imprimindo atenção focada na