4.2 A estrutura triangular da publicidade de perfume
4.2.2 Modelo e Testemunha – Sedutor seduzido
4.2.2.1 Gucci Guilty
O perfume Gucci Guilty, lançado no ano de 2010 pela marca italiana de prêt-à-porter Gucci, teve seu anúncio (figura 18) publicado nas edições de novembro e dezembro da revista Vogue Brasil, no ano de 2010. Trata-se se um anúncio disposto em página simples e à direita na organização espacial da revista.
Figura 18: Anúncio de Gucci Guilty
Fonte: Revista Vogue, dezembro de 2010.
Toda topologia da página é ocupada pelos três sujeitos actantes: o homem, a mulher e o perfume, assumindo uma verticalidade a mulher se coloca mais acima, e também ocupa o maior espaço na imagem. O enquadramento em primeiro plano cria o efeito de sentido de aproximação, dando a ver com mais intensidade a ação do perfume na cena enunciativa. Nosso olhar é convocado pelo olhar da modelo descendo pelo seu rosto, ombro e braço, seguindo até a mão que segura o rosto masculino. O homem está de olhos fechados, totalmente entregue ao momento de êxtase da relação sexual, a boca entreaberta está pronta para beijar o corpo de sua parceira. O
gesto e expressão masculina denotam a figuração de um corpo comovido ou em estado de “possessão”; no dizer de Landowski, um sujeito “possuído”, ou “comovido”, que “se abandona de corpo e alma a puros estados de euforia e desejo, abolindo momentaneamente toda a intenção de comunicar-se com outrem” (LANDOWSKI, 2002, p. 149). Do rosto masculino nosso olhar segue por uma linha diagonal que leva ao frasco do perfume, colocado no canto inferior direito da página. Ao lado do perfume e sobre o braço da modelo está o slogan “The new fragrance for her”. E ocupando horizontalmente toda a parte superior do anúncio, sobre o fundo preto e a cabeça da modelo, está o nome do perfume Gucci Guilty.
O corpo feminino assume a verticalidade, na posição superior que orienta o modo de agir desse sujeito, que toma iniciativa e controla a ação. O corpo masculino, menor e posicionado mais abaixo, tem sua verticalidade cortada pela diagonal traçada pelo braço da figura feminina, formando a isotopia de que é ela que domina a cena enunciativa. Observamos ainda uma linha vertical no lado esquerdo, traçada pelo verbal que convida a ver o vídeo que complementa a campanha publicitária. Linhas horizontais são traçadas pelo nome do perfume no alto da página e em seu frasco, no verbal do slogan colocado na parte inferior da página. As linhas restantes são diagonais, nas posições das cabeças das figuras feminina e masculina, na posição do braço e do ombro da mulher e no traçado que marca a separação da tampa do frasco do perfume; e curvas, traçadas no corpo e no cabelo feminino, no frasco e na logomarca de Gucci, que se faz presente no centro do frasco e na pulseira usada pela modelo. Estas linhas formam a isotopia de movimento e dinamicidade (figura 19).
Figura 19: Linhas e formas do anúncio – Gucci Guilty
Fonte: Traçado desenvolvido pela autora, 2015.
Na dimensão cromática do anúncio de Gucci Guilty também temos a predominância do dourado, porém aqui no tom do ouro rose. O cromático presentifica a ação do perfume em ambos os corpos. O rosa mais forte dá destaque aos lábios e ressalta a feminilidade. O azul dos olhos, bem como a maquiagem esfumaçada, chamam a atenção para o olhar convocador da modelo. O preto do fundo dá destaque aos corpos da cena e ao nome Gucci Guilty, escrito em branco. O realismo impresso no cromatismo da tonalidade da pele da modelo, destacado pela escuridão que o circunda, atua, senão como um primeiro elemento, como um forte indicativo da convocação das ordens sensoriais no acesso à elaboração de sentido desse simulacro de mulher sedutora que se faz sentir pela ação do perfume.
O cromático também presentifica a formulação de Gucci Guilty em seu floral oriental. Os perfumes que têm em sua classificação a família oriental de notas caracterizam-se por serem quentes, explosivos e picantes. No caso de Guilty essa formulação é dada principalmente por notas de pimenta rosa, pêssego, gerânio, âmbar e patchouli. A intensidade dessa formulação é dada pela intensificação da luminosidade do tom de ouro rose na composição do anúncio, que agrega dinamicidade e atua na construção do modo de presença do perfume.
Na parte superior do anúncio está o nome do perfume, Gucci Guilty.- Guilty colocado sobre a cabeça da modelo, assim como o frasco sobre sua pele, na parte inferior do anúncio, figurativizando que o perfume está nela, sobre ela e ele é o culpado por torná-la irresistível, capaz de quebrar as convenções sociais e experimentar as emoções de forma livre sem qualquer compromisso. O modo de presença feminina assumida na publicidade implica em um novo papel, resultante de uma subjetividade que prima pela segurança, poder de tomada de decisão e controle na dimensão sexual. A mulher qualificada como sedutora foi tradicionalmente tomada como culpada, e aqui parece que ela assume essa posição de forma eufórica, impulsionada pelo perfume. A cena enunciativa se encarrega de nos persuadir que o perfume é o culpado desta performance, ele a faz ser tão sedutora, na medida em que dá a ver que o perfume “tem o mesmo poder emocional irresistível que o seu [...] substituto motivado, pois, tanto um
como o outro operam por um contato envolvente e penetrante” (LANDOWSKI, 2006, p. 21).
No braço a modelo usa uma pulseira com o mesmo monograma do centro do perfume, reiterando a ideia do perfume sobre o corpo como culpado de sua sensualidade agressiva. Sobre o braço da modelo, ao lado da pulseira que figurativiza o perfume, está a frase “the new fragrance for her” (“A nova fragrância para ela”).
O plano verbal apresenta ainda, colocado na lateral esquerda e na vertical, a frase “view the Frank Miller video at gucciguilty.com”, convidando o leitor a assistir o vídeo criado por Frank Miller. O cineasta norte-americano Frank Miller também é um autor e desenhista de histórias em quadrinhos. Em suas obras, utiliza linguagem sombria com desenhos marcados por alto-contraste que faz lembrar os filmes noir, com personagens marcantes de mulheres sedutoras e fatais, como no filme Sin City (2005), que baseia a atmosfera do vídeo de Gucci Guilty. Esse modo de construção discursiva propõe uma releitura de obras do cineasta, criando uma relação de intertextualidade. Esse recurso de enunciação opera no estabelecimento da fidúcia do contrato e instaura um enunciador com caráter de autoridade, que se mostra em conjunção com o conhecimento do mundo das artes, e ao mesmo tempo, deixa transparecer o simulacro do enunciatário que desfrutaria do mesmo universo cultural. Os valores positivados atribuídos ao conhecimento do universo do cinema são reiterados na presença da atriz e cantora Evan Rachel Wood e do ator Chris Evans, compondo o anúncio. A relação com o cinema a partir dos personagens dos atores nos dá a possibilidade de construir outras intertextualidades. O ator Chris Evans é conhecido por interpretar no cinema o “Capitão América”, personagem de história em quadrinhos da Marvel Comics. Este super-herói é da categoria dos supersoldados, com força, agilidade e velocidade sobre-humanas, um líder estratégico, tático e mestre em todas as formas de combate. Ao escolher Chris Evans como figura do enunciado que se entrega de olhos fechados aos momentos de paixão, o destinador nos leva a crer que o perfume tem o poder avassalador de tornar esta mulher incrivelmente sedutora ao ponto de conquistar o “Capitão América” de forma incontestável.
dominadora sensual pela ação do perfume. Ela adquire esse modo de agir pela aquisição e uso de Gucci Guilty, colocando-se em conjunção com o perfume. Assim, o ideal de sedução ativa propagado coloca-se ao alcance daquelas que usarem o perfume, pois como sua nomeação afirma, ele é o culpado dessa transformação. Dessa forma, é possível transformar essa mulher em um sujeito que toma iniciativa e domina a cena sexual. Ela se coloca em uma relação direta com o enunciatário, olhando-o e conferindo se ele está vendo o seu fazer, e sentindo observando o quão sedutora ela é pela ação do perfume, enquanto seu parceiro de olhos fechados, subjetivado se entrega a sentir e apreciar o momento. Cabe ainda ressaltar o efeito de sentido de objeto de valor tangível, atribuído à sensualidade dominadora é fortemente marcado no modo de presença da figura feminina, que se posiciona acima do seu parceiro na cena.
O simulacro representado neste anúncio é de mulher sedutora dominadora, que se perfuma de forma objetal para alcançar o valor prometido de ser desejável. O olhar da personagem feminina consegue captar a atenção do espectador, suscita interesse e é bastante revelador do poder de atração e sedução da mulher Gucci. O cabelo longo solto, um pouco desalinhado e selvagem, figurativiza a liberdade dela em seduzir, a maquiagem sombreada intensifica a ação do olhar. E os lábios, brilhantes, molhados, carnudos e entreabertos completam a imagem da mulher que se faz ver como ousada e extremamente sensual. Os corpos nus estão colocados em um regime de visibilidade descrito por Landowski como “despido”. Tanto as construções plásticas como a figurativa dão a ver um corpo despido de roupa e trajado de sensualidade e sexualidade, proporcionadas pelo perfume.
De acordo com Landowski (2005b), para saber apreciar o erotizado é necessário que haja uma aprendizagem do desejável, no que tange a critérios anatômico-estéticos. Esse processo se dá quase automaticamente, pois somos inundados de imagens que nos ensinam o que e como é um corpo reconhecido como desejável em nosso contexto social e cultural. A publicidade faz extenso uso dessa estética de desejabilidade com uma dupla função: a primeira de “sedução”, atrelada às paixões do eros, exibidas como forma de um desejo normatizado e canalizado. Paralela a essa forma
convencional de sedução, forma juntiva, existe uma outra, a do puro sensível. Nesta forma, passamos ao regime de união, e este corpo desejável ao ser olhado ganha status de presença, pois ele se coloca para nós como um sujeito que, para ser sentido, processa “o próprio estado do corpo do outro, apreendido como um todo, face à nossa própria capacidade de senti-lo em seu estado (hipotético) de corpo desejante.” (LANDOWSKI, 2005b, p. 30)
Assim, pela interação com estes corpos em momento de êxtase somos levados a sentir juntos, num fazer comunicativo contagioso destes corpos desejantes. Na medida em que nos posicionamos como sujeito que interage e não como mera testemunha objetivante, somos levados a sentir dinamicamente com eles o fazer sedutor do perfume. Este sentir é experimentado e compartilhado a partir do outra união no plano intersubjetivo e intersomático, em um estado de comunicação estésica.
A mesma luz que brilha sobre o frasco da fragrância está sobre os corpos, mostrando a ação do perfume que é tornar a mulher irresistivelmente sedutora. Neste caso, como explica Landowski (2002), a luz não se restringe a construir um ponto de vista na organização plástica, ela presentifica pela figuratividadade o sentir em ato, por seu poder e intensidade ela desempenha narrativamente o papel de um adjuvante e intensifica a ação do perfume.
O arranjo plástica e figurativo do anúncio está organizado de forma a dar a ver que se trada de uma publicidade dirigida a um público feminino mais específico e representativo de uma nova cultura, ou seja, uma mulher que se assumiu como protagonista da própria vida. A “terceira mulher” descrita por Lipovetsky (2000b) centrada no prazer e no sexo, no lazer e na livre escolha individual, desvalorizou um modelo de vida feminina mais voltada para a família do que para si mesma, legitimou os desejos de viver mais para si e por si.
A relação carnal entre os dois, o contato, o toque do outro, a conjunção do eu com o outro e o prazer decorrente disso tematizam o aprisionamento, que, aqui, se faz com relação aos encantos do outro. A sobreposição de traços (dos corpos e de seus extensores), do verbal, alinhado a partir do quadrante superior esquerdo, que nomeia a marca e o perfume, da mulher sobre o homem, centralizados, do perfume, no quadrante inferior esquerdo, que retoma o primeiro plano da cena, e do símbolo da marca figurativizado por uma pulseira com o
símbolo da marca, no quadrante inferior esquerdo, encerram uma moldura da cena apresentada. Assim, tem-se a categoria do englobante (marca/perfume) sobre o englobado, homem/mulher. A textura da pele dos sujeitos, a sinuosidade dos longos cabelos da mulher em oposição à aspereza da barba por fazer e do cabelo curto do homem acionam o tato, reiterado pelo contato plasmado dos corpos em evidência.
A exposição de corpos desejantes nas publicidades de perfume acata o pressuposto de midiatizar de uma forma mais explícita o “espetáculo da intimidade” de actantes “exemplarmente desejáveis”. Desta forma emerge o desejo, construído tanto nos traços legíveis por parte do objeto apreendido quanto no reconhecimento “empreendido” destes traços por um sujeito-leitor. Como ressaltado por Landowski, pressuposta no galanteio do sedutor, está a libido do seduzido.