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Assim como ocorre com a esperança, a honra não pode ser exaustivamente diluída em outras motivações ao suicídio, embora esteja subjacente em várias delas.

Glória e honra são extensões da imagem de si nos olhos e na opinião dos outros. Todavia, diferentemente da glória, a honra não é a promoção do próprio nome, mas sim a conservação das características tidas por respeitáveis e nobres. Defender a honra é manter a dignidade da identidade ou um dos traços exteriormente reconhecíveis do agente. Portanto, alguém pode realizar um autossacrifício por amor, principalmente, à glória; ao passo que, por honra e não por glória, poderá vir a cometer um suicídio.

A defesa da honra com a própria morte sempre se dá frente a uma mácula, efetiva ou possível, praticada por si próprio ou por outrem. Sob a categoria da defesa da honra, pura e simples, enquadram-se os casos de uma mancha considerada pelo próprio agente como não real, o que pode ocasionar que ele se imole ou pretendendo evitar uma ofensa ainda não concretizada ou objetivando desmanchar a imagem de uma desonra que falsamente lhe fora atribuída ou ainda mostrar a terceiros que o estigma que sobre ele colocaram não é justo.

Dadas tais definições, podemos questionar, o que teria movido, por exemplo, o suicídio de Ájax: a defesa da honra ou o anseio por glória? Com a oferta das armas de Aquiles a Odisseu e não a ele, o esposo de Tecmessa não concebe que possa haver um zero na sua

relação com os gregos: ou eles deveriam ter promovido seu nome conferindo-lhe as armas ou o ato deles de as granjear a qualquer outro deveria ser interpretado como uma afronta ao suposto valor de Ájax. Assim, sua morte autoinfligida consuma-se como uma defesa de sua pretendida honra166, embora ele em alguns momentos ressinta-se pelo dano que causou aos gregos ao atacar as ovelhas e também pareça pensar seu suicídio como a reparação de uma falha, ou seja, como uma autopunição167.

Quando a mancha no caráter ou em sua imagem foi efetivamente praticada por outrem, o ato se reveste com o aspecto da vingança. Por outra parte, quando o próprio agente se reconhece como efetivo agressor e produtor de uma chaga que se fez não só sobre uma vítima, mas sobre ele mesmo, temos um suicídio por autopunição ou arrependimento168. A cada um desses dois últimos casos darei a atenção e uma seção que lhes é própria, mas não sem antes deslindar suicídios por honra pura e simples, ou seja, nos quais ideais vingativos ou autopunitivos não se fazem valer.

A história das sociedades humanas está repleta de exemplos de suicídio dessa primeira espécie, mormente, de mulheres que se mataram antes que um inimigo, na iminência de estuprá-las, concluísse o seu intento. Exemplos históricos ilustrativos da morte voluntária por rejeição a uma chaga falsamente atribuída ao agente teriam por ventura ocorrido a Sócrates e Sêneca. Até onde podemos saber, com base em alguns dos testemunhos históricos que nos restaram, ambos teriam aceitado a imposição do suicídio pelos seus governantes, conquanto não as acusações que lhes foram imputadas. Se aceitaram matarem-se em favor da estabilidade das leis e, com isso, das sociedades em que viviam – o que parece, a confiar no relato platônico do Críton, ser mais provável de Sócrates do que de Sêneca ––, trata-se apenas de autossacrifícios. Por outro lado, se aquiesceram com a morte tão-somente para evitar uma pena mais atroz e cruel – muito mais provável de Sêneca do que de Sócrates –, trata-se de suicídio, mas não por autopunição.

Os exemplos dos dois célebres filósofos me incitam a outra precaução. Não devemos nos confundir a respeito do tipo de destinação a que o ato visa. O suicídio por honra

166Em seus últimos instantes, Ájax evoca as Fúrias para que se abatam sobre os atridas: Ajax, v. 841. 167SÓFOCLES, Ajax, v. 654. Uma fala do coro é ambivalente a esse respeito: “[…] ele se foi com a melhor decisão / de fazer as pazes com os céus.”

168Para Poz (2000, p. 116), o suicídio, entre os sorowaha, pode ser motivado tanto como afronta a outrem (por uma ofensa) quanto por autopunição, como forma de se atribuir a responsabilidade por algo.

não é um autossacrifício169. O outro é meu pretendido destinatário, quando procuro satisfazer as suas expectativas a respeito do meu comportamento, por exemplo, quando me mato porque se espera, explícita ou implicitamente, que eu o faça. Porém, se em retorno, eu sou pretendidamente beneficiado por tal satisfação, por exemplo, por intencionar minha boa imagem social; então eu sou o pretendido destinatário (final).

Um dos problemas mais gerais com que me ocupei na “Introdução” retorna aqui: se munidos com todas as informações empíricas necessárias, poderíamos sempre distinguir nitidamente motivações altruisticamente direcionadas das egoisticamente direcionadas nos casos de suicídio e autossacrifício? Um das primeiras objeções à resposta positiva seria que a pergunta supõe etnocentricamente a universalidade de uma separação moderna entre o indivíduo e seu agrupamento social (comunidade ou sociedade). Cansados, porém não satisfeitos com meus comentários relativos à participação do eu e dos outros nos atos em favor da honra, meus leitores podem manter-se questionando: seria verdade que o opróbrio e a desonra, fundamentados ou não, são sempre facilmente dispensáveis por recursos outros que não a morte? Talvez alguma configuração do contexto social não contenha outro meio plausível de redenção ou, em todo caso, de salvação da imagem. Suponhamos de fato que não. Restaria a alternativa de evasão da comunidade. Dado que o nascimento, que supostamente ou por definição só nos ocorre uma vez na vida, não é algo pelo que possamos ser responsabilizados, deslocar-se do lugar onde ele se deu não seria em princípio uma falha moral. Se também a evasão não é possível (caso de algumas ilhas) ou não é permitida (sob sanções que vão de olhares severos à pena de morte), a pessoa deve-se colocar questões de natureza técnica sobre como escapar.

Todavia, possível e permitida que seja, o que fazer, se for inaceitável a evasão da comunidade, na qual se supõe não poder viver sob o peso da ignomínia? Ou seja, e se há internamente às crenças do indivíduo um sentimento de perfeita integração com a comunidade? Quão presos estamos (e estão membros de outras culturas, ditas não ocidentais ou não modernas) ao olhar de outras pessoas? Essa hipótese quiçá nos leva ao âmago do suicídio por autopunição em muitas sociedades (como o antigo Japão, que de resto é uma ilha) e talvez confira mais realidade e sentido aos suicídios por honra supostamente por motivações

internas. O jogo de vozes e olhares nos espelhos – do olhar do outro sobre mim e meu olhar sobre os outros – reverberaria sinfonicamente em comunidades nas quais a independência individual supostamente ainda não foi proclamada e, quiçá, nem mesmo reivindicada.

João Dal Poz em um interessante artigo buscou realçar alguns traços da cultura

sorowaha que denotam um espaço para a individualidade e não apenas para a pessoa social.

Em que pese a presença de traços de individualidade ínsitos nessa comunidade ameríndia do alto Purus, seus membros jamais se conseguem imaginar isolados na floresta e não convivendo em sociedade. E em razão disso e de outras motivações, episódios de busca de vingança ou de autopunição não poderiam, a julgar pela exposição de Poz170, serem resolvidos com o simples afastamento da comunidade.

Não é possível fechar os olhos para as diferenças substanciais entre, por um lado, uma civilização estruturada em torno de, entre outros aspectos, processos de subjetivação e de individuação e, por outro, culturas em que havia exclusiva ou suprema ênfase na feição pública das ações humanas, como talvez tenha sido o caso dos gregos antigos. Mesmo em sociedades modernas, pluralistas e secularizadas, caberia questionar: em que medida o olhar do outro, especialmente dos outros significativos, não seria decisivo para meu olhar sobre mim mesmo? Ou, pelo menos, não seria um olhar realmente importante? Creio, por exemplo, que o que meus filhos pensarão sobre mim é algo muito importante pra mim desde já. O olhar do outro, mais ainda, as lágrimas nos seus olhos nos conformam ou nos condoem.

As respostas de origem kantiana afirmando uma autonomia individual ou de tipo sartriano em favor de uma autodeterminação do para-si frente o olhar do outro devem ser colocadas à prova nesta escolha extrema da vida: a própria morte. E justamente aí elas devem ser contrabalançadas à inspiração hegeliana de uma dialética do reconhecimento na própria constituição dos processos de subjetivação e no que seria seu cume.

Sendo assim, surgem novas questões: quais os limites do campo de realização de uma carência humana por reconhecimento? Por outro lado, até que ponto é razoável defender a autoafirmação individual para além ou contra os episódios de não-reconhecimento pela alteridade que nos constituiu?

Numa tentativa de resposta a todos os questionamentos acima, tenho a dizer que, em qualquer sociedade, por um processo intersubjetivo e humanamente natural de aculturação, somos levados a nos ver a partir do olhar dos outros e, em larga medida, o aprendizado moral e de uma língua o exige. Numa situação de interação social, desejamos não apenas agir ou crer em algo, porém mais que isso, sermos reconhecidos pelo outro como dignos, legitimados em o querer. Desejamos inicialmente o reconhecimento de outro em específico. E esse desejo posteriormente se torna uma reivindicação. O intelecto, mais que isso, a razão surge da disputa entre desejos convivendo em um mesmo espaço e tempo. O espaço justificacional das razões surge da guerra no espaço deles. Por um processo histórico da modernidade, fomos ensinados a nos desprender em alguma medida das exigências alheias sobre nós e a nos tornarmos, tanto quanto racionalmente sustentável, independentes do que os outros pensam a nosso respeito. A única limitação racionalmente moral refere-se à possibilidade de que nossos atos possam lesar ou fazer uso indevido de outras pessoas na qualidade de afetadas, mas não na qualidade de aprovadoras, segundo seus gostos empiricamente variáveis, do que somos ou pensamos.

Talvez aquele que pune a si ou outros com a própria morte engane-se em crer que a defesa da própria imagem é uma espécie de legítima defesa171, isto é, que operações de limpeza ou manutenção da sua aparência social concirnam ao que realmente é. A honra ou, mais exatamente, a glória justificaria a morte em contextos em que dos indivíduos eram amiúde requeridas atitudes de autossacrifício em favor da comunidade frente a ataques externos. O transporte da noção de um ataque provindo de fora para a de uma ofensa ou afronta aos princípios valorativos internos parece ser a origem do aspecto de nobreza que sobredoura os atos suicidas que são uma luta por reconhecimento, para se reconciliar e ser restituído como membro, ainda que em memória apenas, no seio da comunidade.

Com o que disse nessa seção suponho que não apenas o suicídio por honra é reprovável como também parte dos argumentos em favor da pena de morte, mas em consideração às limitações conceituais desta tese não me ocuparei em demonstrar meu posicionamento sobre esse último tópico172.

171Cf. ROUSSEAU. Julie, I, lvii.

172Cf. HUME, “Of Suicide”, p. 566. Hume defende o suicídio por autopunição com base na decisão do magistrado em aplicar a pena de morte a um criminoso.

No documento Uma argumentação em torno do suicídio (páginas 63-68)