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Infrequentes ou não, posições diversas devem ser debatidas. As raras, não apenas por exigência acadêmica e pela arquitetura da razão, mas também por desafiarem pressupostos profundamente arraigados e eventualmente falsos. A indiferença à própria morte e, talvez mais ousadamente ao próprio suicídio, é uma dessas teses filosóficas, ventiladas por vezes ao longo da história e destoantes do rumo mais comum das opiniões. Nesses diferentes momentos da história, propugnaram-se diversas bases para semelhante atitude: determinismo absoluto, ignorância ao fato ou possibilidade da morte, epicurismo, tédio, caráter ilusório da identidade pessoal.

A primeira forma seria, mais amplamente, uma indiferença a qualquer tomada de decisão alegadamente sobre as bases de uma adesão, a meu ver, ingênua ao mais estrito determinismo ou então ao fatalismo. A respeito disso, é desnecessário repetir os comentários tecidos na “Introdução” em favor de uma liberdade, pelo menos, aparente. De qualquer modo, mesmo um determinista no plano teórico e metafísico não está forçado a aderir à indiferença no plano prático ou teórico das ações. Daí eu ter chamado de ingênua aquela forma de adesão ao determinismo. Poderíamos aderir a uma concepção determinista da causação e, não obstante, reconhecer que, conquanto ilusoriamente, tomamos decisões.

Ilusões, no entanto, têm seus limites de aplicação. Outra forma de aparente indiferença ao suicídio consistiria no não reconhecimento da perecibilidade do corpo, como seria o caso dos adeptos da religião da faca sagrada.

Gostaria de dar um segundo passo neste capítulo com um comentário introdutório que concerne à centralidade que a epígrafe escolhida conferiu ao tema. A possibilidade da morte sempre nos acompanha79. Conquanto não tenhamos escolhido o fato de havermos nascido, ou seja, que não tenhamos conscientemente decidido por viver a partir de dado momento e por um período da vida80 no qual nos é vedado atuar sobre nós mesmos, a todo o momento, escolhemos entre a morte e a vida: ao optarmos entre tomar café ou chá, está senão

79HEIDEGGER, Sein und Zeit, §49 , p. 250-1.

inconsciente81, pelo menos, logicamente implícita a escolha por continuar vivendo. Ela não necessariamente está atrás do meu pensamento, mas sim abaixo de seu conteúdo, isto é, das máximas que constituem minha ação e das crenças fáticas supostas por elas; ou seja, a despeito do fato de que nem sempre explicitamos nossas justificativas sobre uma classe de contraste mais ampla de ações – a qual sempre inclui a opção pela morte –, a classe de contraste de ações que levamos em conta em nossas escolhas supõe a continuidade da vida de cada um de nós, ainda que por mero costume ou por um impulso irracional e não refletido82. Inclusive, o deixar o tempo passar é também uma escolha83. Nosso viver é uma morte adiada84.

Quando usamos escolha, geralmente nos referimos a um plano racional de decisão. Não obstante, por ora devemos levar em conta a possibilidade de que haja em nós uma faculdade volitiva que, antes mesmo que disso nos demos conta, deseja e opta por algo e por um curso de ação. Essa possibilidade se manifesta de modo mais claro em situações que exigem ação imediata e nas quais, em geral, agimos irrefletidamente. Exemplifiquemos, se nos ameaçar um animal feroz (mesmo que seja outro ser humano)85, ou reagiremos contra ele ou, menos provável, simplesmente nos deixaremos levar. Assim, é razoável admitir que, já nessas manifestações irrefletidas, existe um conhecimento intuitivo da relação entre causa e efeito e uma escolha pela manutenção da própria vida ou pela morte (no caso da entrega).

O caráter implícito da escolha pela continuidade da vida – escolha que, como disse, está “abaixo de” várias escolhas cotidianas – não se refere estritamente a uma conexão causal. Algumas escolhas incluem elementos causalmente conectados a elas, conquanto não conhecidos e, por isso, não podemos dizer que há uma escolha por esses elementos. Por exemplo, quando uma pessoa opta por tomar refrigerante em vez de suco natural, sua opção

81Talvez seja referindo-se ao que ulteriormente se chamou o inconsciente que Schopenhauer (Die Welt…, I, Viertes Buch, §54, p. 380) dissera que toda vontade é vontade de viver.

82“Afinal, é o costume de viver /Que nos faz ir vivendo para a frente”. LEONI, R., p. 79. Cf. NIETZSCHE, F.

Nachgelassene Fragmente, NF-1882, 3 [1] §32 e Also Sprach Zarathustra, I, “Von den Freunden- und

Leidenschaft”: “wir lieben das Leben, nicht, weil wir an’s Leben, sondern weil wir an’s Lieben gewöhnt sind.” (“amamos a vida, não porque estejamos acostumados a ela, mas sim ao amar.”).

83Jankélévitch (1977, p. 115): “Le devenir est une espèce de grand choix continué, mais non dirigé, un choix spontané mais très lent…”

84Cf. SCHOPENHAUER. Die Welt… I, Viertes Buch, §57, p. 427.

85A discussão mais detalhada da existência dessa tendência volicional pré-reflexiva será realizada na seção “Princípio de autoconservação”, no capítulo 4.

inclui a ingestão de conservantes; porém, se ela desconhece a composição química do refrigerante, não podemos dizer que escolha ingerir conservantes. A opção pela morte está sempre disponível e, ainda que nem sempre (ou quase nunca) reflitamos sobre ela, nós sabemos que a continuação da vida está conjugada às nossas opções sobre o que fazer, como, preferencialmente, tomar refrigerante. Essa tese da ubiquidade da opção pela morte foi contestada por alguns autores86, entretanto, em que pese a eventual raridade da reflexão sobre tal opção, sua existência e relevância é inquestionável.

O problema sobre optar entre morrer e continuar vivendo é, sem dúvida, fundamental na reflexão moral87, pois quaisquer preceitos de conduta que possam ser oferecidos forçosamente supõem uma resposta a ele. Assim, não há de nos convencer a doutrina de Tales de que morte e vida são indiferentes e que igualmente indiferente é matar-se ou não88. Se nos alimentamos e sabemos que precisamos nos alimentar para viver, não estamos sendo indiferentes à nossa morte. Verdade que é possível comer apenas por prazer, porém ainda assim aceita-se a consequência de continuar a viver, pelo menos, enquanto se goza dele. Em outro extremo, alguém que se entregue a prazeres cuja consequência breve é a sabidamente a morte (como ocorre com alguns entorpecentes), também não estão sendo indiferentes à questão. A completa indiferença à própria morte só pode ser um posicionamento teórico e transitório ao qual nosso estômago, se não outro órgão, em breve faz objeções.

Talvez tenhamos alguns uma dificuldade em aplicar o vocabulário de opção ou escolha a elementos secundários; e tanto maior será essa nossa resistência, quanto menos desejáveis por si mesmos forem esses. Sem embargo, ela se explica pela tentativa de nos desvencilharmos da responsabilidade de fazermos escolhas difíceis e ter que colocar em um mesmo lado da balança elementos mais desejáveis e outros indesejáveis.

No documento Uma argumentação em torno do suicídio (páginas 40-42)