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Irrenunciável imortalidade

No documento Uma argumentação em torno do suicídio (páginas 46-48)

Em princípio, seria impossível ser indiferente ao suicídio, pois se trata de um ato e não meramente de um fato ou um estado. No entanto, a completa indiferença sobre o suicídio talvez ocorreria caso fosse julgado pelo próprio agente ou de um ponto de vista pretensamente objetivo como inteiramente irrelevante ou irrealizável; por exemplo, se houvesse uma perfeita continuidade psicológica e situacional entre antes e depois do ato, como criam os seguidores da Religião da Faca Sagrada ou se qualquer evento no tempo fosse integralmente reversível. Não adepto de tais credos, não me permitiria indiferença à minha morte, voluntária ou involuntária. Todavia, variações plausíveis ou meramente fictícias da continuidade da identidade pessoal se propuseram ao longo da história e, mais por divertimento do que por obrigação acadêmica, ponho-me a pensar sobre elas e sobre sua relação com a indiferença.

O grande atrativo de algumas ficções encenando a eternidade terrena é o poder que têm de criarem metafísicas (ou cosmologias) próprias em suporte a suas ficções. Esses mundos possíveis, ainda que infinitamente variados, devem ser agrupados estruturalmente em tipos de ontologias ficcionais alternativas, pois é forçoso que nosso laboratório imaginativo nos conduza a conclusões universalmente abrangentes e bem delimitadas. O objetivo aqui não há de se restringir a algo como um estudo de literatura comparada, contrastando personagens entre si. Devo procurar, antes de tudo, uma demarcação conceitual criteriosa pela qual possam ser mais bem compreendidos os formatos de ficção da imortalidade que podem ser circulares ou lineares. Debaterei as lineares no capítulo “Desejabilidade da morte”.

As configurações circulares da imortalidade exibem alguma forma de repetitividade ao infinito não apenas de aspectos da vida, mas também dos próprios acontecimentos objetivos ou do leito do tempo ao longo do qual os acontecimentos fluem.

Segundo a doutrina de Nietzsche99 sobre o eterno retorno do mesmo – uma espécie de correspondente ou antípoda imanentista e vitalista da teoria dos contrários e transmigração da alma no Fédon de Platão100 –, a vida como um todo é repetida sem acumulação linear da memória ou consciência do indivíduo. Ele só se torna consciente do ciclo do universo no momento (apenas um determinado momento de sua existência) em que o

99Die Fröhliche Wissenschaft, §341. 10070c-72e.

demônio lhe profere a sentença. É interessante notar que o eterno retorno é contemplado linearmente pela mente do diabo e, no momento de seu proferimento, pela daquele a quem ele se comunica. A pretensa consciência que Nietzsche e seus adeptos teriam do eterno retorno furaria os ciclos como uma flecha.

É comum entre comentadores não tomar o eterno retorno como tese cosmológica, mas sim como “imperativo ético”101. A despeito dessa questão, importa analisar as consequências para o problema do suicídio. No eterno retorno, o suicídio seria possível e não indiferente, uma vez que a continuidade possível dessa vida seria cortada pela morte a despeito da repetição infinita e intermitente do bloco de tempo dela transcorrido até determinado ponto. Ademais, eu não sou nenhum dos infinitamente numerosos Lúcios futuros e passados na linha imaginária do eterno retorno.

Nos filmes Feitiço do Tempo (Groundhog Day) e 4 Passos, pelo menos nas premissas de suas estórias, embora não em seus respectivos desenlaces, os personagens passam por situações que objetivamente se repetem, mas eles (e, no caso de Feitiço do Tempo, apenas o protagonista) têm uma memória linear cumulativa das repetições e consciência de sua imortalidade, como se fosse a transmigração da alma para a mesma situação. Daí decorre que o personagem tem algum poder privilegiado102 de intervenção causal sobre os acontecimentos, porém não sobre estado inicial deles e, mais importante, nem sobre o estado final que reinicia o ciclo. Assim, ele é, a princípio, incapaz de sair do redemoinho sempiterno em que fora colocado, sendo precisamente essa a sua opção devido à monotonia da situação e à tentativa de reparação de seus erros e defeitos. A realização da imortalidade ocorreria, por um lado, através de um ciclo de repetições do estado objetivo do mundo e, por outro, pela linearidade da consciência do protagonista. Esse descompasso é, para Phil – o personagem principal – espantoso, em seguida, proveitoso e propício e, por fim, insuportavelmente monótono. Entretanto, optar pela morte é uma saída interditada (embora tentada), visto que, matando-se, ele acaba por acordar em situação idêntica à inicial. Com isso, esse tipo circular de imortalidade é relevante apenas para o problema da aceitação da morte involuntária e não

101Contra os quais se volta Marton (1992, p. 207), num texto lúcido em que debate criticamente a legitimidade da teoria de Nietzsche nos dois planos, metafísico e ético.

102Em O Feitiço do Tempo, a memória dos outros personagens é estacionária (acumulada até o dia 1º de fevereiro), mas se esvazia circularmente a cada início de um novo 02 de fevereiro.

para o da morte voluntária103. É um caso de indiferença ao suicídio, precisamente porque o agente, não menos que o crédulo da Religião da Faca Sagrada, não crê que seja possível se matar.

Uma ideia semelhante e recorrente na literatura e no cinema é a capacidade de uma personagem, em geral, o protagonista de retorno na linha do tempo. Se nos fosse dado o poder de alterar nosso passado e as condições do presente que nos são oferecidas, e sempre nos servíssemos desse poder, seríamos potencialmente imortais, pois sempre poderíamos alterar as condições empíricas que nos levaram à morte. A opção pela morte seria possível e até uma das soluções para os problemas pelos quais os personagens passam, mas, dada a reversibilidade do tempo, o suicídio está longe de ser a melhor escolha, pois eles poderiam com relativa facilidade mudar qualquer configuração desfavorável dos fatos que pudesse eventualmente ser motivo para o autoextermínio.

Parece, então, que as concepções circulares da imortalidade tornam o suicídio uma solução ou impossível ou inútil.

O que está notoriamente em jogo nas hipóteses de continuidade infinita com variações é um eventual núcleo da identidade pessoal; e esse problema é o alvo maior das reflexões de Parfit em Razões e Pessoas.

No documento Uma argumentação em torno do suicídio (páginas 46-48)