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Ao lado de Spinoza, Arthur Schopenhauer é um dos poucos filósofos que elaborou um sistema calcado, precipuamente, sobre o instinto de autoconservação. Sua noção de um querer viver, contudo, recebeu um altíssimo refinamento conceitual tanto em razão das bases teóricas que o levaram a ela quanto na análise de problemas com os quais se defrontaram todos os outros pensadores que estou analisando nessa seção, desde Tomás de Aquino.

O traço que mais difere o filósofo alemão de toda a linhagem anteriormente analisada é sua declarada rejeição de qualquer normatividade moral. Ele sentencia que não há

584Epitaphe de deux amants.

585Segundo informa Jacques Scherer, em nota à p. 1903 no mesmo volume.

586PHILONENKO, 1984, II, p. 63: “Que la mort soit profondément pensée dans l’amour, on le voit, mais qu’elle indique la faille dans la totalité qui ne peut espérer se recomposer qu’en se liant à une autre totalité.” Sobre esse prazer na perda da individualidade, ver último parágrafo do capítulo 11 “Saciedade”.

587PHILONENKO, 1984, II, p. 74-5: “[…] le suicide est le sacrifice d’une âme noble et généreuse sur l’autel de ceux qui l’ont rejetée.”

filosofia prática, apenas teórica, pois a investigação filosófica destina-se à descrição, não à prescrição. Os velhos anseios por renovar o caráter devem ser abandonados588. Na visão de Schopenhauer, apenas racionalizamos o que os instintos já ordenaram. Igualmente acerca da questão do suicídio não caberia condenação moral a partir de uma noção de dever.

Entretanto, podemos encontrar em sua filosofia alguns julgamentos de ordem valorativa sobre o ato, nomeadamente, que o suicídio é uma estupidez e o é porque, curiosamente, é uma forma de afirmação da vontade de viver rejeitando sua companhia necessária, as dores e os sofrimentos589.

A abrangência do instinto de conservação é, em princípio, tão grande em Schopenhauer quanto no sistema espinosano. Chega às formas inorgânicas. Para o autor, as diferentes qualidades da matéria presentes em cada ser individualizável – por exemplo, a impenetrabilidade, o equilíbrio estático do objeto e assim por diante – são mostras da tendência que um corpo tem a se preservar. A finalidade da planta, assim como a do animal, é a reprodução de si mesma590. A manifestação da vontade nos animais se evidencia pelo seu instinto e suas ações são despertadas por estímulos e não motivos, como no ser humano.

É curioso notar que, em toda a principal obra do autor e, especialmente, no segundo volume – publicado anos depois –, o instinto de conservação da espécie seja realçado, inclusive, em ocasional confronto contra a preservação do indivíduo591; embora por vezes um acento maior seja conferido ao egoísmo radical em busca da perpetuação de si e não da espécie592. Aquela consideração sobre a preponderância da espécie sobre o indivíduo é suficiente do ponto de vista teórico para fornecer expediente explicativo para algumas ocorrências de morte por autossacrifício, todavia nada faz no que concerne ao suicídio. Assim, o sistema de Schopenhauer tem dificuldades semelhantes às de Spinoza e recorre a seu modo a alguma teoria sobre a superveniência do nível das ideias, conceitos e preceitos sobre e,

588SCHOPENHAUER. Die Welt…, I, Viertes Buch, §53, p. 375; II, kap. 19, p. 250-1. 589SCHOPENHAUER. Die Welt…, I, Viertes Buch, §54, p. 388; §69, p. 542-544. 590SCHOPENHAUER. Die Welt…, I, Viertes Buch, §54, p. 383.

591SCHOPENHAUER. Die Welt…, I, Viertes Buch, §60, p. 451; II, kap. 27, p. 394; II, kap. 28, p. 399; II, kap. 42, p. 586. Como disse, Schopenhauer é sobre isso criticado por Mainländer, 1876, “Physik”, 4.

592SCHOPENHAUER. Die Welt…, I, Viertes Buch, §61, p. 455. O ato hoje conhecido de algumas aranhas e cobras de ingerirem as próprias crias, supõe-se, para se alimentarem e para fortalecerem seu veneno serviria de contraexemplo à ideia de que a preservação do indivíduo é sempre e apenas meio de preservação da espécie (Die

eventualmente, contra os instintos naturais. Essa superveniência é duramente criticada por Mainländer, que acredita que mesmo a negação da vontade preconizada por Schopenhauer é derivada dos instintos naturais, os quais, por intermédio de uma iluminação593, transmutar-se- iam em vontade de morrer.

Não me parece que a mera insurreição dos desejos sexuais eventualmente contra outros desejos seja convenientemente interpretada como supremacia do instinto de conservação da espécie sobre o de autopreservação594, como já disse ao falar sobre Tomás de Aquino. Se houvesse um instinto de conservação da espécie, as ações dele resultantes – como o cuidado parental595 – dirigir-se-iam a todos os membros da mesma espécie ou a todos os vulneráveis ou a todos os fortes candidatos à perpetuação – de qualquer modo, indistintamente, e não apenas ou precipuamente aos próprios filhotes. Ademais, Schopenhauer acaba por valer-se de um expediente teleológico desnecessário e incoerente que se insinua no texto sutilmente como metáfora: a ideia de que a natureza “planta” nos indivíduos o desejo sexual de tal forma a fazê-los crer que estão agindo, para satisfazê-lo, somente em proveito próprio e não da espécie596. Digo desnecessário, pois uma teoria da alteração das espécies lhe permitiria pensar o instinto por prazer como útil à expansão das populações animais sem enxergar aí um plano prévio ou um comando. Incoerente, porque ele não se adéqua à tônica geral de uma metafísica em que a Vontade é cega.

Algumas espécies animais, buscando alimento podem se tornar presas e morrer, como o peixe que se engana ao ver uma isca de silicone. Então, formas superiores de vida desenvolveram gradativamente dispositivos para desviarem-se das aparências – nomeadamente, o refinamento do entendimento597 e o aparecimento da razão. No entender de Schopenhauer, o surgimento da razão na face da Terra inicialmente como instrumento superior de conservação da vida gerou, no entanto, a possibilidade de um erro diferente daquele de se deixar levar pelas aparências, a ponto de obstaculizar a ação mais direta e,

593MAINLÄNDER, 1876, “Ethik”, 18.

594Já no primeiro volume (I, Viertes Buch, §60, p. 447-8), Schopenhauer se deixa levar pela ambiguidade da palavra alemã Geschlecht, que pode significar tanto sexo quanto espécie (ou gênero).

595Para Schopenhauer (II, kap. 42, p. 589), o amor parental é uma manifestação clara do instinto de conservação da espécie que pode encontrar-se em conflito com a autoconservação, como no sacrifício pelos filhos.

596SCHOPENHAUER. Die Welt…, II, kap. 44, p. 616. 597SCHOPENHAUER. Die Welt…, II, kap. 15, p. 160.

pretende Schopenhauer, mais eficiente da vontade. Por exemplo, Agamenon foi levado a matar a própria filha por uma superstição598.

Podemos todos perceber que uma pessoa não pode matar-se simplesmente parando de respirar. Involuntariamente, ela volta a inspirar e expirar. Entretanto, diz Schopenhauer, pela ação de motivos abstratos ela pode atuar sobre seu corpo animal e dar cabo da vida599. E, assim, Schopenhauer admite a possibilidade de que um indivíduo possa nem sempre estar sob a ação inexorável da vontade de viver e, acrescento, nem mesmo de um instinto de preservação da espécie, já que as mortes autoinfligidas exemplificadas pelo autor nesse trecho do texto não são autossacrifícios (os exemplos referidos por Schopenhauer são de Diógenes e outros antigos). No segundo volume da obra, afirma que apenas em casos excepcionais de gênios, pode o intelecto parar a Vontade diretamente ou separar-se dela600.

No entanto, em muitas outras passagens, o autor é muito enfático em repetir a tese de que o suicídio também é conduzido pela ação da Vontade, importa deixar claro, pela vontade de viver: “o suicídio não fornece salvação alguma: o que cada um quer, ele deve ser; e o que cada um é, isso ele também quer”601. O suicídio seria apenas uma rejeição da dor e não da vontade de viver602. Em uma interpretação livre, porém aceitável, essa tese parece repetir o achado agostiniano de que não é possível desejar o fim absoluto de si mesmo como pessoa e poderia ser expressa com a metáfora da morte como viagem. O suicida agiria também imaginando uma continuidade de sua existência. Todavia, se o ponto de partida das opiniões do autor de O Mundo como Vontade e Representação acerca do suicídio for realmente essa intuição de uma inescapável vontade (mais que uma representação) de continuidade; não vejo como seria possível nem porque desejável a negação da Vontade. Se a ascese fosse uma radical e legítima negação da Vontade, ela suscitaria um suicídio não motivado por dores e sofrimentos ou, como denomina Cabrera, por razões ônticas, mas sim

598SCHOPENHAUER. Die Welt…, I, Zweites Buch, §27, p. 220. 599SCHOPENHAUER, Die Welt…, I, Zweites Buch, §23, p. 178.

600SCHOPENHAUER. Die Welt…, II, Kap. 19, p. 247; II, kap. 31, p. 443.

601SCHOPENHAUER. Die Welt…, I, Viertes Buch, §65, p. 500: “gibt Selbstmord keine Rettung: was jeder im Innersten will, das muβ er sein: und was jeder ist, das will er eben.” Essa passagem me parece especialmente confusa.

602SCHOPENHAUER. Die Welt…, I, Viertes Buch, §69, p. 541: “Der Selbstmörder will das Leben und ist bloβ mit den Bedingungen unzufrieden, unter denen es ihm geworden.”

uma morte voluntária por esperança pura e simples em deitar fora a capa das ilusões fenomênicas do mundo e do eu, como pensou Mainländer.

A compaixão, apresentada por Schopenhauer como estágio ou forma de negação da própria vontade, não abole as fronteiras fenomenicamente estabelecidas entre mim e os outros, mas as supõe603.

Acredito que a maior e mais inadmissível contradição do sistema de Schopenhauer seja a recomendação (ou sugestão) de uma negação da vontade604. Embora diga não a prescrever a outros, tal negação é um objetivo pessoal de Schopenhauer. Se a afirmação da vontade individual (nela inclusos os dois instintos basilares: de autopreservação e de conservação da espécie) foi objetivada pela Vontade, não é em favor da última que a negação da vontade poderia almejar-se. Havendo lido Schopenhauer, alguém que quisesse abster-se asceticamente da vontade e, tanto pior, buscasse o sofrimento e a dor veria em si o quão insuportável é a proposta pelo autor de uma redenção. Notaria vivamente o desejo por alguma compensação605 crescer à medida que sua carência, resultado da sugerida apatia e tormentos, suscitasse o sofrimento que se almejou reduzir606.

A filósofos como Schopenhauer e Mainländer e a livros como os que escreveram devemos dedicar não apenas atenção meticulosa. Eles nos falam de uma experiência, um grupo de experiências ou, mais exatamente, vivências sem as quais seus textos podem aparentar, em alguns momentos, divagações delirantes. Aqui e mais uma vez, reconheço as limitações de meu histórico existencial, mas não deixo de falar precisamente a partir e de dentro dele. Ainda não fui agraciado com uma repentina autossuperação da vontade. Mesmo quando ébrio, nunca fui elevado à percepção de uma unidade originária entre sujeito e objeto e nunca fui capaz de contemplar o infinito, no máximo, apenas o pensei conceitualmente ou por signos matemáticos. Eu não consegui, até o presente momento, afastar-me da reflexão, que envolve inexoravelmente a constatação de que sou o observador e de que minha imaginação tem limites. Nem me foi dado imaginar a possibilidade de realização de uma união oceânica entre contemplador e contemplado, ao contrário do que reza uma longa

603Crítica já feita por Mainländer (1876, “Anhang”, p. 569).

604SCHOPENHAUER, Die Welt…, I, Viertes Buch, §54, p. 393; mais detalhadamente em: I, Viertes Buch, §68. 605Schopenhauer fala em uma purificação e em “receber a morte alegremente” (I, Viertes Buch, §68, p. 533). 606SCHOPENHAUER. Die Welt…, I, Viertes Buch, §68, p. 534: “Je heftiger der Wille, desto greller die Erscheinung seines Widerstreites: desto gröβer also das Leiden”.

tradição remontando ao neoplatonismo. Esse corte, a meu ver, inevitável acaba por romper com o pressuposto da filosofia do autor de O Mundo como Vontade e Representação.

Se a Vontade se objetiva e se manifesta na formação dessa individuação fenomênica que eu sou e, se mais que isso, ela me constrange através e por meio dos instintos de autoconservação e de perpetuação da espécie, como ela poderia também causar a rejeição desses dois instintos? Esse seria um caso curioso em que uma mesma causa produziria dois efeitos contraditórios607. A solução espinosista é pensar que a autodestruição de um indivíduo resulta da luta interna entre uma ideia e o conato, mas Schopenhauer prescinde dessa visão mecânica. Por conseguinte, falta-lhe um expediente explicativo razoável, a não ser sair pela tangente com a tese de que a Vontade não está submetida ao princípio de razão suficiente ou, mais exatamente, à causalidade608. É certo que, aqui e acolá, há comentários no livro sobre algo que pode causar um suicídio609, mas não há um tratamento teórico sobre a relação que essas motivações ocasionais e superficiais do mundo fenomênico podem ter com a Vontade. O problema da produção de efeitos contraditórios resulta de uma sobredeterminação, isto é, da tese de que, por um lado, seríamos inteiramente determinados pelas causas do mundo fenomênico e, por outro, diretamente pela própria Vontade610.

No documento Uma argumentação em torno do suicídio (páginas 160-165)