(1906-1994)
VRB – Mário, você é um dos grandes poetas brasileiros.
Pergunto-lhe então: o que a poesia?
Quintana – A Poesia é a invenção da Verdade.
A beleza de um verso não está no que diz, mas no poder en-cantatório das palavras que diz: um verso é uma fórmula mágica.
A poesia é um sintoma do sobrenatural.
Só a poesia possui as coisas vivas. O resto é necropsia.
VRB – Há leitores que, ao lerem um poema, querem saber a sua interpretação.
Quintana – Mas para que interpretar um poema? Um po-ema já é uma interpretação.
VRB – Qual a sua opinião sobre a influência de um escritor sobre outro?
Mário Quintana – O que chamam de influência poética é ape-nas confluência. Já li poetas de renome universal e, mais grave ainda,
Foi um dos melhores poetas brasileiros. Publicou cerca de trin-ta livros e algumas de suas poesias foram vertidas para o espa-nhol, o francês, o inglês e o italiano. E traduziu obras de diver-sos autores como Guy de Maupassant, André Maurois, Marcel Proust, Voltaire, Honoré de Balzac, Aldous Huxley e Somerset Maugham, entre outros. Era também um poeta-filósofo.
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de renome nacional e que, no entanto, me deixaram indiferente. De quem é a culpa? De ninguém. É que não eram da minha família.
VRB – A imaginação é uma característica dos romancistas e dos poetas. O que é a imaginação?
Quintana – A imaginação é a memória que enlouqueceu.
VRB – Cada qual tem seu modo de viver. Qual é o seu?
Quintana – A gente deve atravessar a vida como quem es-tá gazeando a escola e não como quem vai para a escola.
Uma vida não basta apenas ser vivida: também precisa ser sonhada.
VRB – Autores, como Domenico de Masi, fazem apologia do ócio, inclusive como fonte de criatividade.
Quintana – A preguiça é a mãe do progresso. Se o homem não tivesse preguiça de caminhar, não teria inventado a roda.
O que prejudica a minha preguiça prejudica o meu trabalho.
VRB – Temos respostas confiáveis para a Vida? Ou só po-demos perguntar?
Quintana – Quase tudo neste mundo são perguntas e as respostas são quase sempre reticências...
VRB – A ideia do destino sempre esteve presente na filoso-fia, na religião, na literatura. Para você, o que é o destino?
Quintana – O Destino é o acaso atacado de mania de grandeza.
VRB – A morte é certa, mas o instante da morte é sempre incerto. E essa incerteza do instante do morrer, você o retrata be-lamente em uma de suas poesias. Poderia declamá-la?
Quintana – Esta vida é uma estranha hospedaria, De onde se parte quase sempre às tontas, Pois nunca as nossas malas estão prontas,
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E a nossa conta nunca está em dia...
VRB – A sobrevivência da alma após a morte do corpo é uma esperança da grande maioria das pessoas, porque acreditam no que dizem todas as religiões. O que é a alma para você?
Quintana – A alma é essa coisa que nos pergunta se a alma existe.
Meu Deus! Como será uma alma deste mundo?!
VRB – Você tem medo de fantasmas?
Quintana – O fantasma é um exibicionista póstumo.
Os fantasmas também sofrem de visões: somos nós...
VRB – Karl Marx afirmou que a religião é o ópio do povo.
Você concorda?
Quintana – O ópio do povo é o trabalho.
VRB – Há pessoas que se preocupam tanto com o espírito a ponto de desprezar o corpo. Pensam que sabem muito sobre a alma, mas, na sua maioria, nada sabem sobre o seu organismo.
Quintana – Conhecer o mistério de um corpo é talvez mais importante do que conhecer o mistério de uma alma.
VRB – Você acha que a teologia aproxima o homem de Deus?
Quintana – A teologia é o caminho mais longo para chegar a Deus.
Mas como livrar Deus dos teogogos?
Deus é impróprio para adultos.
VRB – Você acredita que a oração funciona? Ou tudo não passa de autossugestão? Afinal, Deus, como se crê, não é onisciente?
Quintana – Rezar é uma falta de fé: Nosso Senhor bem sa-be o que está fazendo...
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VRB – Há pessoas que mudam de religião porque perde-ram a fé no que acreditavam. Essa dúvida poderá ser neutralizada pela fé que encontraram noutra religião?
Quintana – Uma das coisas que não consigo absolutamen-te compreender são os que se converabsolutamen-tem a outras religiões. Para que mudar de dúvidas?
VRB – Tanta gente se preocupa com o Além e seus misté-rios. Você também?
Quintana – Por favor, deixa o Outro Mundo em paz! O mistério está aqui.
VRB – Acredita em milagres?
Quintana – O milagre não é dar vida ao corpo extinto, Ou luz ao cego, ou eloquência ao mudo...
Nem mudar água pura em vinho tinto.
Milagre é acreditarem nisso tudo.
VRB – O que o amedronta em relação à morte?
Quintana – Falam muito no Sono Eterno. Sempre falaram, aliás... E daí?
Daí, só uma coisa me impressiona, e muito: a ameaça de uma Insônia Eterna.
O pior da morte é essa brusca mudança de hábitos...
VRB – Costuma-se dizer que a morte iguala todas as pes-soas.
Quintana – A morte não iguala ninguém: há caveiras que possuem todos os dentes.
VRB – O maior perigo para o idoso é a aposentadoria. Se ela não for bem aproveitada poderá, como consequência, acelerar o envelhecimento e antecipar a morte. Como você encara o traba-lho na velhice?
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Quintana – O trabalho é a farra dos velhos.
VRB – O que é o tempo?
Quintana – O tempo é a insônia da eternidade.
VRB – O tempo sempre foi uma das grandes preocupações do ser humano. Os saudosistas dão um grande valor ao passado e fazem do presente uma janela de onde contemplam tudo o que foi e tudo o que foram.
Quintana – O passado não reconhece o seu lugar: está sempre no presente.
VRB – A maioria dos idosos sempre fala dos bons velhos tempos, por inadaptação aos costumes dos tempos atuais.
Quintana – Mas os tempos são sempre bons, a gente é que não presta mais.
VRB – Cada fase do tempo tem seus próprios sentimentos, e todos eles sempre são vividos no presente.
Quintana – Essas duas tresloucadas, a Saudade e a Espe-rança, vivem ambas na casa do Presente, quando deviam estar, é lógico, uma na casa do Passado e outra na do Futuro. Quanto ao Presente – ah! – esse nunca está em casa.
VRB – Qual o tipo de saudade mais dolorida?
Quintana – A saudade que dói mais fundo – e irremedia-velmente – é a saudade que temos de nós.
VRB – Há filósofos que ensinam que o homem deve supe-rar a si mesmo, exceder os seus limites.
Quintana – Ultrapassar-se? Mas como?! A gente só se ul-trapassa, mesmo, quando vai para o outro mundo.
VRB – Consideramo-nos o ápice da escala evolutiva do nosso planeta. Apesar de os macacos estarem muito próximos a nós quanto à genética, há uma diferença qualitativa entre nós e eles. Graças à ciência e à tecnologia essa diferença é cada vez
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maior dentro de uma perspectiva estritamente operacional. Em compensação, os perigos do nosso progresso podem culminar na destruição da raça humana.
Quintana – O que me impressiona, à vista de um macaco, não é que ele tenha sido nosso passado: é este pressentimento de ele venha a ser o nosso futuro.
VRB – Um dos nossos maiores medos é o da solidão. E ela vem se agravando nas megalópoles. Assim, há pessoas que viajam para fugir da solidão.
Quintana – Viajar é mudar o cenário da solidão.
VRB – Como você definiria a megalópoles?
Quintana – Cidade grande: dias sem pássaros, noites sem estrelas.
VRB – A ficção científica alerta para a possibilidade de o homem ser, um dia, superado e dominado pela máquina. É terrível essa visão de um mundo dirigido por robôs.
Quintana – O que há de terrível nos robôs não é como eles se parecem conosco, mas como nós nos parecemos com eles.
VRB – Como você se relaciona com o livro?
Quintana – O livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado.
Há duas espécies de livros: uns que os leitores esgotam, outros que esgotam os leitores.
VRB – Você já alguma vez releu seus livros?
Quintana – Nunca me releio... Tenho um medo enorme de me influenciar. É verdadeiramente catastrófico quando um autor se transforma no seu discípulo.
VRB - Há escritores que procuram ser coerentes em todas as suas obras. Você tem essa preocupação?
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Quintana - Um autor que nunca se contradiz deve estar mentindo
VRB – O que é o sonho?
Quintana – Sonhar é acordar-se para dentro.
VRB – Você, alguma vez, já sentiu remorso?
Quintana – Há noites em que não posso dormir de remor-sos por tudo o que deixei de cometer...
VRB – Quais as expressões humanas que demonstram au-têntica sinceridade.
Quintana – Os sorrisos mais sinceros são os sorrisos dos desdentados.
VRB – Qual a palavra que denomina melhor o agrupamen-to humano.
Quintana – Nós – o pronome do rebanho.
VRB – A criação do mundo é uma das grandes preocupa-ções da ciência. Como e quando o mundo começou? O que o cau-sou? Ele sempre existiu? Ou veio do nada, por um ato de uma di-vindade como ensinam as religiões?
Quintana – Se antes era o Nada, como poderia haver Al-guém para tirar dele o mundo?
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