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Mário Quintana

No documento alter da Rosa Borges (páginas 169-176)

(1906-1994)

VRB – Mário, você é um dos grandes poetas brasileiros.

Pergunto-lhe então: o que a poesia?

Quintana – A Poesia é a invenção da Verdade.

A beleza de um verso não está no que diz, mas no poder en-cantatório das palavras que diz: um verso é uma fórmula mágica.

A poesia é um sintoma do sobrenatural.

Só a poesia possui as coisas vivas. O resto é necropsia.

VRB – Há leitores que, ao lerem um poema, querem saber a sua interpretação.

Quintana – Mas para que interpretar um poema? Um po-ema já é uma interpretação.

VRB – Qual a sua opinião sobre a influência de um escritor sobre outro?

Mário Quintana – O que chamam de influência poética é ape-nas confluência. Já li poetas de renome universal e, mais grave ainda,

Foi um dos melhores poetas brasileiros. Publicou cerca de trin-ta livros e algumas de suas poesias foram vertidas para o espa-nhol, o francês, o inglês e o italiano. E traduziu obras de diver-sos autores como Guy de Maupassant, André Maurois, Marcel Proust, Voltaire, Honoré de Balzac, Aldous Huxley e Somerset Maugham, entre outros. Era também um poeta-filósofo.

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de renome nacional e que, no entanto, me deixaram indiferente. De quem é a culpa? De ninguém. É que não eram da minha família.

VRB – A imaginação é uma característica dos romancistas e dos poetas. O que é a imaginação?

Quintana – A imaginação é a memória que enlouqueceu.

VRB – Cada qual tem seu modo de viver. Qual é o seu?

Quintana – A gente deve atravessar a vida como quem es-tá gazeando a escola e não como quem vai para a escola.

Uma vida não basta apenas ser vivida: também precisa ser sonhada.

VRB – Autores, como Domenico de Masi, fazem apologia do ócio, inclusive como fonte de criatividade.

Quintana – A preguiça é a mãe do progresso. Se o homem não tivesse preguiça de caminhar, não teria inventado a roda.

O que prejudica a minha preguiça prejudica o meu trabalho.

VRB – Temos respostas confiáveis para a Vida? Ou só po-demos perguntar?

Quintana – Quase tudo neste mundo são perguntas e as respostas são quase sempre reticências...

VRB – A ideia do destino sempre esteve presente na filoso-fia, na religião, na literatura. Para você, o que é o destino?

Quintana – O Destino é o acaso atacado de mania de grandeza.

VRB – A morte é certa, mas o instante da morte é sempre incerto. E essa incerteza do instante do morrer, você o retrata be-lamente em uma de suas poesias. Poderia declamá-la?

Quintana – Esta vida é uma estranha hospedaria, De onde se parte quase sempre às tontas, Pois nunca as nossas malas estão prontas,

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E a nossa conta nunca está em dia...

VRB – A sobrevivência da alma após a morte do corpo é uma esperança da grande maioria das pessoas, porque acreditam no que dizem todas as religiões. O que é a alma para você?

Quintana – A alma é essa coisa que nos pergunta se a alma existe.

Meu Deus! Como será uma alma deste mundo?!

VRB – Você tem medo de fantasmas?

Quintana – O fantasma é um exibicionista póstumo.

Os fantasmas também sofrem de visões: somos nós...

VRB – Karl Marx afirmou que a religião é o ópio do povo.

Você concorda?

Quintana – O ópio do povo é o trabalho.

VRB – Há pessoas que se preocupam tanto com o espírito a ponto de desprezar o corpo. Pensam que sabem muito sobre a alma, mas, na sua maioria, nada sabem sobre o seu organismo.

Quintana – Conhecer o mistério de um corpo é talvez mais importante do que conhecer o mistério de uma alma.

VRB – Você acha que a teologia aproxima o homem de Deus?

Quintana – A teologia é o caminho mais longo para chegar a Deus.

Mas como livrar Deus dos teogogos?

Deus é impróprio para adultos.

VRB – Você acredita que a oração funciona? Ou tudo não passa de autossugestão? Afinal, Deus, como se crê, não é onisciente?

Quintana – Rezar é uma falta de fé: Nosso Senhor bem sa-be o que está fazendo...

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VRB – Há pessoas que mudam de religião porque perde-ram a fé no que acreditavam. Essa dúvida poderá ser neutralizada pela fé que encontraram noutra religião?

Quintana – Uma das coisas que não consigo absolutamen-te compreender são os que se converabsolutamen-tem a outras religiões. Para que mudar de dúvidas?

VRB – Tanta gente se preocupa com o Além e seus misté-rios. Você também?

Quintana – Por favor, deixa o Outro Mundo em paz! O mistério está aqui.

VRB – Acredita em milagres?

Quintana – O milagre não é dar vida ao corpo extinto, Ou luz ao cego, ou eloquência ao mudo...

Nem mudar água pura em vinho tinto.

Milagre é acreditarem nisso tudo.

VRB – O que o amedronta em relação à morte?

Quintana – Falam muito no Sono Eterno. Sempre falaram, aliás... E daí?

Daí, só uma coisa me impressiona, e muito: a ameaça de uma Insônia Eterna.

O pior da morte é essa brusca mudança de hábitos...

VRB – Costuma-se dizer que a morte iguala todas as pes-soas.

Quintana – A morte não iguala ninguém: há caveiras que possuem todos os dentes.

VRB – O maior perigo para o idoso é a aposentadoria. Se ela não for bem aproveitada poderá, como consequência, acelerar o envelhecimento e antecipar a morte. Como você encara o traba-lho na velhice?

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Quintana – O trabalho é a farra dos velhos.

VRB – O que é o tempo?

Quintana – O tempo é a insônia da eternidade.

VRB – O tempo sempre foi uma das grandes preocupações do ser humano. Os saudosistas dão um grande valor ao passado e fazem do presente uma janela de onde contemplam tudo o que foi e tudo o que foram.

Quintana – O passado não reconhece o seu lugar: está sempre no presente.

VRB – A maioria dos idosos sempre fala dos bons velhos tempos, por inadaptação aos costumes dos tempos atuais.

Quintana – Mas os tempos são sempre bons, a gente é que não presta mais.

VRB – Cada fase do tempo tem seus próprios sentimentos, e todos eles sempre são vividos no presente.

Quintana – Essas duas tresloucadas, a Saudade e a Espe-rança, vivem ambas na casa do Presente, quando deviam estar, é lógico, uma na casa do Passado e outra na do Futuro. Quanto ao Presente – ah! – esse nunca está em casa.

VRB – Qual o tipo de saudade mais dolorida?

Quintana – A saudade que dói mais fundo – e irremedia-velmente – é a saudade que temos de nós.

VRB – Há filósofos que ensinam que o homem deve supe-rar a si mesmo, exceder os seus limites.

Quintana – Ultrapassar-se? Mas como?! A gente só se ul-trapassa, mesmo, quando vai para o outro mundo.

VRB – Consideramo-nos o ápice da escala evolutiva do nosso planeta. Apesar de os macacos estarem muito próximos a nós quanto à genética, há uma diferença qualitativa entre nós e eles. Graças à ciência e à tecnologia essa diferença é cada vez

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maior dentro de uma perspectiva estritamente operacional. Em compensação, os perigos do nosso progresso podem culminar na destruição da raça humana.

Quintana – O que me impressiona, à vista de um macaco, não é que ele tenha sido nosso passado: é este pressentimento de ele venha a ser o nosso futuro.

VRB – Um dos nossos maiores medos é o da solidão. E ela vem se agravando nas megalópoles. Assim, há pessoas que viajam para fugir da solidão.

Quintana – Viajar é mudar o cenário da solidão.

VRB – Como você definiria a megalópoles?

Quintana – Cidade grande: dias sem pássaros, noites sem estrelas.

VRB – A ficção científica alerta para a possibilidade de o homem ser, um dia, superado e dominado pela máquina. É terrível essa visão de um mundo dirigido por robôs.

Quintana – O que há de terrível nos robôs não é como eles se parecem conosco, mas como nós nos parecemos com eles.

VRB – Como você se relaciona com o livro?

Quintana – O livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado.

Há duas espécies de livros: uns que os leitores esgotam, outros que esgotam os leitores.

VRB – Você já alguma vez releu seus livros?

Quintana – Nunca me releio... Tenho um medo enorme de me influenciar. É verdadeiramente catastrófico quando um autor se transforma no seu discípulo.

VRB - Há escritores que procuram ser coerentes em todas as suas obras. Você tem essa preocupação?

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Quintana - Um autor que nunca se contradiz deve estar mentindo

VRB – O que é o sonho?

Quintana – Sonhar é acordar-se para dentro.

VRB – Você, alguma vez, já sentiu remorso?

Quintana – Há noites em que não posso dormir de remor-sos por tudo o que deixei de cometer...

VRB – Quais as expressões humanas que demonstram au-têntica sinceridade.

Quintana – Os sorrisos mais sinceros são os sorrisos dos desdentados.

VRB – Qual a palavra que denomina melhor o agrupamen-to humano.

Quintana – Nós – o pronome do rebanho.

VRB – A criação do mundo é uma das grandes preocupa-ções da ciência. Como e quando o mundo começou? O que o cau-sou? Ele sempre existiu? Ou veio do nada, por um ato de uma di-vindade como ensinam as religiões?

Quintana – Se antes era o Nada, como poderia haver Al-guém para tirar dele o mundo?

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