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2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.1 Histórico do edifício hospitalar e considerações sobre o hospital contemporâneo

2.1.1 Sobre a evolução da atenção à saúde

2.1.1.3 A Idade Moderna: o hospital para busca da cura

No século XVI, durante o Renascimento, é observado um novo aumento no número de habitantes nas cidades europeias. Desse modo, eleva-se também o contingente

de grupos populacionais considerados perigosos e indesejados. Como maneira de preservar a ordem citadina, são criados novos estabelecimentos hospitalares e reformados aqueles já existentes. Essas edificações, no entanto, não são suficientes para abrigar todos os necessitados que a elas recorrem, o que acaba por gerar condições insalubres e inadequadas de atendimento. Devido à postura científica da medicina da época, no entanto, passam a ser estudadas soluções com o intuito de organizar os estabelecimentos hospitalares, que deixam de ser vistos meramente como abrigo ou isolamento para os doentes, mas como verdadeiros instrumentos terapêuticos.

Segundo Antunes (1991), durante o século XVI, no Renascimento, houve um crescimento excessivo da população urbana europeia. O grande número de desabrigados era visto como fonte de propagação de doenças, crimes e condutas imorais. O autor afirma que, com o intuito de higienizar (ou purificar) o espaço urbano, nos séculos XVI e XVII foram construídos grandes hospitais gerais nas principais cidades europeias e os antigos hospitais cristãos foram reformados para aumentar sua capacidade de alojamento.

Na era Moderna, alguns dos antigos hospitais, localizados em cidades populosas, haviam se expandido consideravelmente, acolhendo por causa da miséria, das guerras ou das epidemias, um grande contingente de enfermos que se amontoavam em ambientes, geralmente, insalubres e promíscuos. Como os leitos tinham dimensões mais amplas, eram compartilhados por 4 e até 6 pessoas (FILHA; MONTEIRO, 2003, p. 354).

Segundo a visão de Foucault (1979), entre fins do século XVI e início do século XVII, a preocupação dos países europeus com a saúde da sua população foi regida pelo contexto político, econômico e científico característico do período dominado pelo mercantilismo3. Ainda segundo o autor, devido à preocupação com o aumento da produção e geração de moeda para o Estado, França, Inglaterra e Áustria passam a calcular a força ativa de suas populações por meio de tabelas de natalidade e

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“A política mercantilista consiste essencialmente em majorar a produção da população, a quantidade de população ativa, a produção de cada indivíduo ativo e, a partir daí, estabelecer fluxos comerciais que possibilitem a entrada no Estado da maior quantidade possível de moeda, graças a que se poderá pagar os exércitos e tudo o que assegure a força real de um Estado com relação aos outros” (FOUCAULT, 1979, p. 8β).

mortalidade e estabelecimento do índice de saúde da população, sem haver, no entanto, a intenção de elevar o seu nível de saúde.

Além dos fatores acima descritos, a peste inquinaria ou bubônica contribuiu em grande parte para a conformação do modelo de atenção aos doentes e à população europeia nesse momento histórico. Segundo Antunes (1991), a peste se propagou pela Europa do século XIV ao XVII, causando altos índices de mortalidade. Assim como no período medieval, a enfermidade foi considerada fruto de castigo divino. No entanto, dessa vez a medicina assumiu uma postura naturalista, buscando entender seu mecanismo de transmissão.

Com o objetivo de isolar os portadores da peste, passaram a ser construídos estabelecimentos conhecidos como lazaretos (FIG. 2). Muitas vezes, devido à necessidade de isolar quaisquer casos suspeitos, pessoas saudáveis eram mantidas no mesmo ambiente que as enfermas, sendo frequentemente contaminadas (ANTUNES 1991).

FIGURA 2 - Plano elaborado por Malachias Geiger para construção de um lazareto. A edificação seria cercada por um fosso de água corrente, com funções de isolamento do edifício, processamento de internações e esvaziamento das latrinas. Ao centro do pátio interno, inacessível aos enfermos, é prevista uma capela octogonal aberta nos oito lados, para permitir o acompanhamento das celebrações através das janelas dos quartos. Outros dois blocos internos seriam destinados ao abrigo do pessoal em serviço, cozinha e despensa. As alas mais extensas do edifício principal continham 64 cômodos cada um com três camas e três latrinas. Já as alas menores continham 16 quartos, cada um com uma latrina e uma cama, reservados aos internos mais abastados.

Com relação à população residente nas cidades, segundo Foucault (1979), a partir do fim da Idade Média, quando a peste ou uma doença epidêmica violenta aparecesse era estabelecido um plano segundo o qual todas as pessoas deveriam permanecer em suas casas. Nos diversos bairros havia inspetores seguindo um esquema de vigilância e registro sobre as movimentações de pessoas no local. Os inspetores verificavam diariamente quais pessoas estavam doentes, que nesse momento eram colocadas nas enfermarias fora das cidades.

Foucault (1979) afirma ainda que durante o século XVII ocorreu uma organização dos hospitais marítimos e militares da Europa, o que se deveu principalmente a dois fatores: a busca pela diminuição no número de baixas por doenças e o controle do tráfico de mercadorias trazidas das colônias, o qual se dava em grande parte dentro dos hospitais.

Essa preocupação se deu de modo geral nos hospitais e lazaretos Europeus, os quais segundo Silva (β000, p. 45), abrigavam centenas de pacientes, “que frequentemente se amontoavam uns sobre os outros, pois era ilimitado o número de admissões e a população urbana não cessava de se ampliar”. Antunes (1991) observa que essa organização hospitalar europeia continuou durante o século XVIII, passando os hospitais a assumir prioritariamente a assistência aos enfermos, deixando as funções de abrigo e isolamento para outros estabelecimentos.

Como modelo negativo da organização hospitalar da época pode ser mencionado o

Hôtel-Dieu (FIG. 3) que, segundo Silva (2000), foi um dos primeiros hospitais

europeus, estabelecido ainda durante o período medieval, no século VII, em Paris. Ainda segundo o autor, durante os séculos XII ao XVIII o hospital passou por inúmeras ampliações até se transformar no maior da Europa, um “depósito dos doentes rejeitados por todos os lugares”, contando com β000 leitos, cada um dividido por vários pacientes ao mesmo tempo (SILVA, 2000, p. 46).

FIGURA 3 - Vista do Hôtel-Dieu de Paris no fim do século XVII Fonte: CASTIGLIONI, 1947, v.2, p.68.

Segundo Antunes (1991, p. 144-145), o número ilimitado de doentes recebidos no

Hôtel-Dieu, e suas grandes dimensões inadequadamente distribuídas contribuíam

para a ineficácia dos tratamentos, o que levava o hospital a ser “tomado por morredouro e local infecto, ao qual só se recorria em casos de extrema necessidade”.

Há relatos sobre o Hôtel Dieu de Paris de que era comum estarem juntos doentes contagiosos e não contagiosos, vivos e mortos não recolhidos em um mesmo leito. Também era comum os enfermos presenciarem as cirurgias e os suplícios dos operados à espera de sua vez. Esses atos cirúrgicos eram realizados sem anestesia4 e sem assepsia (FILHA; MONTEIRO, 2003, p. 354).

Segundo Silva (2000), durante o século XVIII ocorreram diversos incêndios no Hôtel-

Dieu, que culminaram em sua quase destruição em 1772, o que levou à

necessidade de reconstruir ou substituir a edificação. Desse modo, em 1777 foi

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Até o advento da anestesia “nas primeiras décadas do século 19, a prática cirúrgica fazia com que o paciente sofresse enormemente, uma vez que inexistiam anestésicos suficientemente fortes para neutralizar a sensação da dor”. O éter sulfúrico, precursor da anestesia moderna, foi empregado pela primeira vez em 30 de março de 1842, sendo substituído pelo clorofórmio em 1847 (SILVA, 2000, p. 65).

criada uma comissão da Academia Real de Ciências, a qual propôs a construção de um novo hospital, projeto de um de seus membros, o médico cirurgião e oftalmologista Jacques René Tenon, auxiliado pelo arquiteto a serviço do rei, Bernard Poyet.

Em seu relatório Tenon faz uma extensa análise dos hospitais da época, também apoiado pelas visitas que havia empreendido à Inglaterra; propõe, enfim, um conjunto de normas técnicas que os novos hospitais deveriam seguir. O ineditismo foi que dessa vez não houve o relato de uma obra arquitetônica como “monumento”, como fruição estética, e sim, pela primeira vez e bem no espírito da época, um olhar crítico, funcionalista (SILVA, 2000, p. 63 e 64).

De acordo com Foucault (1979), os trabalhos da comissão da Academia Real de Ciências fizeram parte de uma série de visitas e observações sistemáticas e comparadas a hospitais europeus, realizadas a partir de 1780, para a definição de um programa de reforma e reconstrução dos hospitais5, que marcam o surgimento da visão do hospital como instrumento terapêutico e, portanto, o nascimento da medicina moderna, científica.

Castiglioni (1947) sublinha que no século XVIII os hospitais continuavam com péssimas condições de funcionamento, sendo usual acomodar pelo menos dois doentes por leito. Apenas no final desse século, afirma o autor, “empreendeu-se uma campanha definitiva para melhorar as condições escandalosas dos hospitais e das prisões da Europa” (CASTIGLIONI, 1947, v.β, p. 188).

Como resultado do relatório de Tenon, segundo relata Silva (2000), foi sugerido um plano para a construção de quatro novos hospitais em substituição do Hôtel-Dieu. No entanto, Antunes (1991); Silva (2000) complementam que devido à Revolução Francesa, o Hôtel-Dieu sofreu poucas alterações até meados do século XIX. O projeto de Tenon, no entanto, foi usado como base para a construção de outros hospitais, inclusive no Brasil, onde pode ser citado como exemplo o Hospital de

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“Houve na Europa uma série de viagens, entre as quais podemos destacar as de Howard, inglês que percorreu hospitais, prisões e lazaretos da Europa, entre 1775/1780 e a do francês Tenon, a pedido da Academia de Ciências, no momento em que se colocava o problema da reconstrução do Hôtel-Dieu de Paris” (FOUCAULT, 1979, p. 99).

Isolamento da Capital, atual Hospital Emílio Ribas, em São Paulo, que foi construído entre 1876-1880.