comunicação 11 constituem as realidades de nossas vidas cotidianas e servem como o principal meio para estabelecer as associações com as quais nós nos
3.4 Os Estudos Críticos do Discurso
3.4.1 A ideologia como base do discurso e de constructo das RS
Um conceito fundamental para a ACD é o de ideologia e que aqui apresentaremos:
Em vez de utilizar um conceito tão difuso e ambíguo como o de ‘ideias’, de agora em diante usaremos o termo que aparece com mais frequência em psicologia para se referir aos “pensamentos” em geral: as crenças. Por outro lado, a definição básica de ideologia no trabalho será: As ideologias são as crenças fundamentais de um grupo e de seus membros (VAN DIJK, 2003, p. 5).18
Esse conceito é amplamente discutido pelo autor em seu livro Ideología y Discurso – Uma Introducción multidisciplinaria, no qual ele chama de ideologias positivas “sistemas que sustentam e legitimam a oposição e a resistência contra o domínio e a injustiça social” (VAN DIJK, 2003). Dessa maneira, essas seriam formas ‘positivas’, utopias, segundo Mannheim (1978), de ideologias, frente àquelas como as partilhadas por pessoas que desenvolvem o preconceito, por exemplo. Tal diferenciação só é possível pelo conceito mais abrangente que o autor assume, rompendo com o apresentado pelo filósofo francês Destutt de Tarcy, indicado como tendo sido o primeiro
18 Do original, livremente traduzido a seguir: En vez de utilizar un concepto tan difuso y ambiguo como el de ‘ideas’, de ahora en adelante usaremos el término que aparece con más frecuencia en psicología para referirse a los "pensamientos" en general: las creencias. Por lo tanto, la definición básica de ideología en el trabajo será: Las ideologías son las creencias fundamentales de un grupo y de sus miembros.
a introduzir o termo ideologia na literatura científica, e que apresentava a definição baseada num conjunto de ideias.
A partir dessa concepção, van Dijk (2003) propõe que as ideologias sejam o fundamento das práticas sociais e, pelo fato de serem sistemas de ideias de grupos e movimentos sociais, as ideologias não só dão sentido ao mundo (desde o ponto de vista do grupo), como também proporcionam o fundamento das atitudes dos indivíduos. Surgem, portanto, os ideários de luta e de conflito dentro de grupos, constituindo uma polarização de ‘nós’ contra ‘os outros’, configurada no uso de elementos linguísticos como pronomes pessoais “nós” e “eles”, dentro do discurso, evidenciando um sentimento de pertença de grupo.
Observemos a aproximação, para além dessa discussão, com a TRS. Segundo Moscovici: “Mesmo o uso dos pronomes “nós” e “eles” pode expressar esse contraste, onde “nós” está no lugar do grupo de indivíduos com os quais nós nos relacionamos e “eles” está no lugar de um grupo diferente, ao qual não pertencemos (2009, p. 50).” É igual a aproximação no sentido inverso, na medida em que as ideologias, segundo van Dijk (1980), darão origem às representações sociais que, por sua vez, dão fundamentação às práticas sociais, conforme já exposto anteriormente, dentro das quais se situa a prática discursiva, realizada dentro de grupos/organizações sociais.
Como consequência desse debate, está outro aspecto fundamental para o entendimento das propostas do autor: o de compreender a língua como uma prática social. Conforme suas concepções, podemos considerar que as ideologias estão na base da construção do discurso, sendo dele sustentáculo e passando esse último a ser a materialização das mesmas ideologias, ou, em suas palavras, a manifestação/ expressão das ideologias. Compreendemos, nesse sentido, os elementos linguísticos como vetores ou suportes das RS e, em decorrência disso, das ideologias sobre as quais se apoiam. Recordamos, por oportuno, o proposto por Harré (2001), cujo pensamento é semelhante, ao imputar ao léxico esse papel. O texto seria, portanto, a parte detectável, a partir de suas estruturas sintáticas e semânticas (bem como de aspectos argumentativos e retóricos) a parte analisável dessa manifestação, na medida em que traz da língua as possibilidades dessa expressão, em um nível micro (na construção da coerência) e macro (na reprodução da temática ou ideologia dominante). Reproduzimos, a seguir, o
esquema proposto por van Dijk (1980), para descrever uma teoria interdisciplinar da ideologia, de forma a se visualizar melhor o descrito:
III. Expressão/ Manifestação das ideologias (componente de II e III)
Discurso
Caracteres morfológicos estilo
Estruturas sintáticas TEXTO retórica Estruturas semânticas Local: coerência Global: temas ATOS DE FALA
II. Natureza das ideologias
Representação Cognitiva ATITUDES IDEOLOGIAS Normas Avaliação Valores “Falsa”? Emoções Personalidade
I. Funções das ideologias
Estruturas sociais Contexto cultural Contexto político Comunicação Interação Socialização Grupos/ Subculturas Instituições
Estratificação Social (“classes”) Estruturas/ categorias econômicas
Trabalho, divisão do trabalho Poder, dinheiro
Meio de produção
Figura 2: Esquema sumário de uma teoria interdisciplinar da ideologia (VAN DIJK, 1980, p. 53). Conhecimento
Crenças Opiniões
A B
Como se percebe pelo esquema, as fundações das ideologias encontram-se na sua base de sustentação. O autor tem, ainda, o cuidado de descrever a natureza da textura ideológica, como tendo sua gênese na construção do conhecimento (o que alguém sabe de algo), das crenças e opiniões (o que alguém pensa sobre algo) e que dão origem às representações sociais do indivíduo do mundo (representação cognitiva que alguém faz de algo). Tudo isso diz respeito, percebamos, à própria individualidade, à personalidade do sujeito, mas também diz respeito à sua relação com o meio social em que vive, na construção de uma cognição social retroalimentativa, que se constrói pelo que vem do individual e do coletivo, bem como lhe modifica ao impor padrões de conduta. Por fim, na parte mais alta do esquema, como resultado de todas essas construções, estão os atos de fala na base das atividades linguageiras, o que dá espaço para o texto (subdividido em estruturas semânticas e sintáticas e por caracteres morfológicos, denunciando por sua vez o estilo e a retórica) e o discurso, conforme já dissemos, como a expressão, a manifestação das ideologias. Chamamos a atenção para o fato de ser exatamente onde o nosso trabalho se propõe localizar: no componente linguístico do discurso, das representações sociais de professores sobre formação, evidenciando a(s) ideologia(s) que lhes deu/deram origem.
Em outro trabalho, no qual discute as relações de poder, van Dijk (2008a, p. 116) apresenta quatro níveis que devem, segundo ele, ser relacionados entre si para uma análise crítica unificada. Reproduzi-los-emos aqui:
a) Membros-grupos: os usuários da língua participam no discurso como membros de (diversos) grupos sociais, organizações ou instituições; e por outro lado, os grupos então podem agir “através” de seus membros. b) Ações-processos: os atos sociais de atores individuais são, desse modo,
partes constituintes das ações e dos processos sociais do grupo, tais como a legislação, a produção de notícias ou a reprodução de racismo;
c) Contexto-estrutura social: de maneira semelhante, as instituições de interação discursiva são partes ou constituintes da estrutura social; isto é, os contextos “locais” e os mais “globais” estão intimamente relacionados e ambos impõem restrições ao discurso. Por exemplo, uma entrevista coletiva jornalística pode ser uma prática típica de organizações e instituições da mídia.
d) Cognição pessoal e social: os usuários da língua, enquanto atores sociais, possuem cognição tanto pessoal quanto social: memórias, conhecimentos e opiniões pessoais, bem como aqueles compartilhados cm os membros do grupo ou da cultura como um todo (ideologias). Ambos os tipos de cognição influenciam a interação e o discurso dos membros individuais, enquanto que as “representações sociais” compartilhadas governam as ações coletivas de um grupo (Op. Cit.).
Como se percebe, a proposta do autor tem aproximações com a TRS, uma vez que compreende a linguagem, mais especificamente o discurso, como vetor de
manifestação das ideologias e, por conseguinte, das representações que daquelas derivam. Está exatamente aí a ponte de ligação entre as duas teorias que nos permitirá, à nossa vez, aproximarmos de nosso objeto de pesquisa e, assim, analisá-lo nas bases que nos propomos. Apontamos ser possível essa aproximação, pois veremos mais adiante, que van Dijk (2003) apresenta categorias de análise linguística que nos podem permitir a referida materialização das RS de sujeitos.
Podemos dizer também que, analisando o quadro oferecido por van Dijk (2003), reproduzido anteriormente, é possível concluir que a ACD se aproxima do sujeito da pragmática, articulado e mais consciente, na medida em que se acerca de um indivíduo cognitiva, histórica e socialmente constituído, a partir das interações por ele vivenciadas:
Aprendemos a maior parte das ideias ideológicas ao ler e escutar outros membros do grupo, começando por nossos pais e companheiros. Mais adiante, “aprendemos” ideologias ao assistir a televisão e ao ler os livros de texto da escola; também o fazemos através da publicidade, dos jornais, dos livros ou ao participar nas conversas de cada dia entre amigos e colegas, assim como em muitos outros tipos de discurso oral e escrito (2003, p. 7).
Conforme o exposto, construímos ou “aprendemos” as ideologias a partir do consumo de textos veiculados dentro das interações sociais das quais fazemos parte. Nessa concepção, compreender-se-ão as práticas como: “maneiras habituais, em tempos e espaços particulares, pelas quais pessoas aplicam recursos – materiais ou simbólicos – para agirem juntas no mundo” (CHOULIARAKI e FAIRCLOUGH, 1999, p. 21). As práticas, assim compreendidas, são constituídas na vida social, nos domínios da economia, da política e da cultura e por sujeitos conscientes do que fazem.
Assim, para o autor, uma das práticas sociais mais importantes que as ideologias determinam é o uso da linguagem e do discurso, que, da mesma maneira, também influenciam a forma de adquirir, aprender ou modificar as ideologias. Ou seja, é o discurso uma e outra vez, o veículo de manifestação das ideologias e mais: é o difusor delas, ao passo que permite ser aprendido ou absorvido por outros. Assim, o desafio da ACD será encontrar no discurso as manifestações das ideologias. É nele que se vai encontrar o material de manifestação dessas representações, a análise de van Dijk (2003) assume, pois, no seu viés multidisciplinar, três eixos: o discurso, a cognição e a sociedade (conforme pode se ver no quadro proposto pelo autor na figura 2). No nosso caso, pretendemos analisar o viés discursivo das representações, a partir da análise dos
elementos linguísticos, revelando as ideologias que estão por trás das representações sobre formação de professores.
Seguindo com o que diz o autor, os aspectos mentais das ideologias, tais como a natureza das ideias ou das crenças, suas relações com as opiniões e o conhecimento e o status como representações sociais compartilhadas, estão localizadas sob o conceito de ‘cognição’. Já os aspectos históricos, sociais, políticos e culturais das ideologias, sua natureza baseada no grupo, e especialmente, seu papel na reprodução ou na resistência ao domínio, se examinam sob o amplo conceito de ‘sociedade’, formando-se, assim, uma proposta de cognição social. Aqui, mais uma vez, uma aproximação com a TRS.
Assim, depois de examinar as considerações do autor sobre o discurso, podemos concluir que sua estrutura pode ser ideologicamente marcada: “A entonação específica, a tensão ou o volume na expressão de uma palavra ou frase podem ser interpretadas como sexista ou racista” (VAN DIJK, 2005a, p. 20). Ele chama a atenção, no entanto, para o fato de as estruturas obrigatórias da língua e de sua gramática serem neutras, por serem iguais para todos os usuários do idioma. Está claro, no entanto, que a manipulação desses elementos, usados como figuras de estilo, tal como a ironia, podem representar uma expressão ideológica de quem as produz. Ora, está aí mais uma vez a revelação de um sujeito que usa a língua, a partir das estruturas que ela lhe oferece e, aplicando instrumentos como os da retórica e da argumentação, põe essa mesma língua a serviço da propagação, da legitimação e do consumo dos discursos ideologicamente carregados. Consideramos oportuna uma revisão da concepção desse sujeito proposto pela ACD nos parâmetros dos ECD propostos por van Dijk (2003), em comparação ao sujeito da teoria pragmática, pelo fato de seu papel ser fundamental na construção dos significados do discurso. Para isso, no entanto, será necessário que explicitemos uma síntese da teoria dos Atos de Fala, propostos por Grice (2004) e Austin (1990) e cujos princípios, de uso da língua em um contexto real, são também utilizados por van Dijk (2008a), quando este trata das estruturas do poder, que discutiremos mais adiante.