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O processo de modernização econômica regional no “pós-60” está relacionado a duas tendências principais. A primeira delas é a ocorrência de um movimento de desconcentração espacial da produção nacional, voltada para a integração do mercado interno, via industrialização sob o comando do capital concentrado na região Sudeste, fazendo com que a economia do Nordeste tenha apresentado altas taxas de crescimento. Os estudos realizados por Tânia Bacelar de Araújo (1997) apontam que, entre 1960 e 1997, o Produto Interno Bruto (PIB) do Nordeste registrou crescimento real acumulado de 463,3%, contra 363,5% apresentado pela média nacional. Com isso, o PIB regional passou de US$ 22,9 bilhões de dólares em 1960, para US$ 173,9 bilhões de dólares, no ano de 1999, alterando sua participação em relação ao PIB brasileiro de 13,2% (1960) para 17,1% (1999). Mesmo durante os problemas econômicos enfrentados pelo Brasil na década de 1990, o Nordeste registrou crescimento do PIB superior ao do Brasil. Convém lembrar que este dinamismo se manteve mesmo diante da redução dos investimentos estatais, que tiveram fundamental importância nas décadas de 1960 e 1970 para a economia regional.

A segunda tendência diz respeito ao caráter seletivo desse processo de dinamização da economia no Nordeste. Essa é uma constatação do próprio Celso Furtado, enfatizada pelas recentes pesquisas de Leonardo Guimarães Neto (1997) e de Tânia Bacelar de Araújo (1997; 2000). A dinamização econômica resultou num aprofundamento da heterogeneidade intra- regional, tanto no que se refere aos setores da economia quanto aos espaços geográficos. Do ponto de vista econômico, a modernização da economia regional “pós-60” produziu várias áreas de modernização intensa (as chamadas ilhas de prosperidade), que convivem lado a lado com áreas econômicas tradicionais e estagnadas. O que há em comum a todas as sub-regiões é a permanência da pobreza:

A Bahia teve um super-crescimento porque se beneficiou com o petróleo, mas do ponto de vista social é igual ou pior do que o Piauí, com imensa pobreza nas áreas rurais. É verdade que existe essa ilha de prosperidade entre Juazeiro e Petrolina – projeto a que dei início na SUDENE, e que resultou ser extraordinário –, mas isso é uma mancha, assim como no Rio Grande do Norte há também uma mancha de boa irrigação. [...] A verdade é que não há uma sub-região do Nordeste que seja socialmente homogênea. No Nordeste ainda existe a diferenciação social (FURTADO, 1997, p. 379).

Quanto às diferenciações setoriais, verifica-se que o crescimento econômico regional é fruto do desempenho dos setores industrial e de serviços; enquanto o setor primário perdeu importância na composição do PIB regional, tendo em vista que, nas últimas décadas, ocorreu a estagnação e a crise das culturas tradicionais, que tinham fundamental importância para a economia regional, como é o caso do algodão, do cacau e da cana-de-açúcar.

Os novos rumos da economia nordestina podem ser exemplificados também na criação de espaços e pólos produtivos, entre os quais encontra-se a moderna agricultura de grãos e importantes pólos de fruticultura irrigada. Dessa forma, o processo de modernização econômica fez surgir na Região alguns pólos de desenvolvimento agroindustriais, com a incorporação de novas áreas e setores dinâmicos e competitivos, implicando transformações na economia e na organização social de algumas áreas do Semi-árido.

Apesar desses avanços, as situações de emergência e calamidade continuaram a se repetir no Semi-árido, que ainda concentra percentuais elevados de pobreza e miséria. As secas continuam gerando crises econômicas e calamidades sociais. Essa situação ficou ainda mais exposta nos dois grandes períodos de secas prolongadas, ocorridas na década de 1990. Na seca de 1992 a 1993, foram alistadas 2,1 milhões de pessoas nas Frentes de Emergência, criadas pelo Governo Federal; e na seca de 1998 e 1999, foram distribuídas 3 milhões de cestas básicas/mês a famílias residentes no Semi-árido brasileiro.

Tal realidade aponta que, apesar do crescimento econômico regional nas últimas décadas, a sua estrutura social continua anacrônica. É verdade que os índices apresentados pelo Nordeste não só se elevaram nos últimos anos, mas também tenderam a se aproximar mais da média nacional. No entanto, a evolução dos principais indicadores sociais ocorridos nas décadas de 1970 a 1990 se deu num ritmo muito inferior ao do dinamismo da produção. De fato, os indicadores oficiais revelam que, entre 1970 e 1990, o PIB da Região Nordeste praticamente triplicou, enquanto que o PIB per capita regional não acompanhou o mesmo ritmo. Um dos agravantes dessa situação foi, sem dúvida, a crise da cotonicultura no Semi- árido, nas duas últimas décadas do século XX, tornando ainda mais difícil a sobrevivência de um imenso contingente populacional no Sertão. Sem a fonte de renda gerada pela venda do algodão, as famílias dos pequenos produtores rurais do Semi-árido passaram a comercializar os alimentos que antes eram produzidos apenas para a subsistência. Com isso, o regime alimentar se degradou ainda mais, fazendo avançar as doenças que mantêm os altos índices de mortalidade infantil nos pequenos municípios do Semi-árido, conforme esclarece Tânia Bacelar de Araújo:

No ‘arranjo’ organizacional local, o algodão era a principal, embora reduzida fonte de renda monetária dos pequenos produtores e trabalhadores rurais desses espaços nordestinos. Na ausência do produto, esses pequenos produtores são obrigados a levar ao mercado o pequeno excedente da agricultura alimentar tradicional de sequeiro (milho, feijão e mandioca), uma vez que a pecuária sempre foi atividade privativa dos grandes proprietários locais (ARAÚJO, 1997b, p. 458).

Tânia Bacelar de Araújo faz constatações graves sobre a permanência da pobreza na Região, com a desestruturação da cotonicultura e o declínio da economia tradicional no Semi- árido, chamando a atenção para o avanço da violência em algumas cidades sertanejas, reforçada pelo plantio e comercialização da maconha (Cannabis sativa Linn) em áreas onde antes se cultivava o algodão nas proximidades do Rio São Francisco.

Em algumas sub-regiões (como no Sertão pernambucano) a maconha tem avançado bastante, gerando renda ilegal mas capaz de compensar o desaparecimento da renda do algodão. De positivo, a extensão da ação previdenciária, cobrindo parte da população idosa e assegurando renda (mínima, mas permanente), a muitas famílias sertanejas. Hoje os velhos sustentam os moços nessa parte do Nordeste. (ARAÚJO, 1997b, p. 459).

Essa situação tem sido amenizada com a expansão dos programas governamentais de transferência de renda. Os estudos de Sandi e Heringer (2001) confirmam que a Previdência Social, no ano de 2001, pagou diretamente benefícios previdenciários a 2,6 milhões de pessoas no Semi-árido, com um desembolso anual total da ordem de R$ 6,3 bilhões. Os beneficiários diretos da Previdência Social representam 13,4% da população total do Semi- Árido, atingindo 22,4% da população residente nas áreas rurais. Para Gustavo Maia Gomes (2001), além dos benefícios previdenciários, a transferência de recursos federais e estaduais para as prefeituras e os salários pagos ao funcionalismo público compõem a chamada “economia sem produção” no Semi-árido brasileiro.

Além do declínio da economia tradicional no Semi-árido, verifica-se que o recente processo de modernização econômica na Região não foi capaz de romper com as bases estruturais das desigualdades no Semi-árido. A concentração da terra e da renda são também resultados dos incentivos do Estado na Região, nos moldes em que foram realizados. Os incentivos à pecuária, por exemplo, fortaleceram e modernizaram essa atividade agravando a questão fundiária, provocando a redução da produção de alimentos e a intensificação de emigração rural. O mesmo ocorreu nas áreas de agricultura moderna, com a expulsão de agricultores familiares das áreas mais férteis e com melhor acesso à água acumulada nos reservatórios públicos.

Os Censos Agropecuários realizados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que a concentração fundiária aumentou no Nordeste entre as décadas de 1970 e 1985, com os estabelecimentos com menos de 100 hectares (94% do total), reduzindo sua participação na área total de 30% para 28%. Ao mesmo tempo, os estabelecimentos com mais de mil hectares (0,4% do total) aumentaram seus domínios de 27% para 32% das terras disponíveis. Ou seja, a questão fundiária permaneceu praticamente intocada nas áreas rurais do Nordeste, exatamente durante o período em que o Estado desenvolvimentista dinamizava economicamente a Região. Trata-se, portanto, de espaços resistentes às mudanças: “[...] as velhas estruturas socioeconômicas e políticas têm na base fundiária e no controle do acesso à água seus principais pilares de sustentação e de dominação (política e econômica)” (ARAÚJO, 1997, p. 460).

Diante da tendência de permanência das problemáticas socioeconômicas e ambientais acima comentadas, os cenários de futuro elaborados para o Semi-árido não são nada promissores. As limitações de acesso aos serviços sociais básicos, como educação, saúde, moradia e saneamento, terão impactos significativos com a manutenção da pobreza crônica na região, dificultando a expansão das capacidades da população mais pobre para participar ativamente da formulação e aproveitar as novas oportunidades de desenvolvimento. Do ponto de vista ambiental, os riscos de degradação dos ecossistemas locais da Caatinga, incluindo a poluição e a escassez dos recursos hídricos conjugada com o aumento das áreas com processo de desertificação, tendem a diminuir a produtividade agropecuária e dificultar ainda mais o abastecimento de água para a população e para a produção.

As crises e frustrações causadas pelas reincidências das calamidades e das formas de intervenção governamental durante as estiagens prolongadas no Semi-árido, alimentam as críticas sobre o desperdício de recursos e a descrença nas possibilidades de soluções para a problemática. Os sentimentos de frustração e fracasso das políticas de combate à seca e de modernização econômica conservadora fornecem as bases para justificar a necessidade de busca e valorização de alternativas sustentáveis para o desenvolvimento do Semi-árido, desmistificando suas problemáticas e as formas tradicionais de combate à seca e aos seus efeitos. Nessa perspectiva de inovação e continuidade, ressurgiu, na década de 1980, o discurso sobre a realidade regional e as alternativas sustentáveis de desenvolvimento do Semi- árido brasileiro.