• Nenhum resultado encontrado

Impactes da Actividade do Turismo

Fletcher (2005) subdivide os principais impactes do turismo em três domínios: económicos, socioculturais e ambientais (ver quadro 1). De um modo geral, os impactes económicos do turismo num destino são positivos, ainda que se verifiquem impactes negativos, pelo que a sua importância deve ser determinada com o intuito de apoiar a definição de políticas e estratégias de desenvolvimento para o território, podendo, ainda, estes impactes económicos ser considerados directos, indirectos ou induzidos (Fletcher, 2005). Por outro lado, a origem do capital investido nos destinos pode potenciar o desenvolvimento da base económica local, este impacte será superior se o capital for de investidores locais e quanto maior for o nível de recurso a fornecedores locais.

Os impactes socioculturais do turismo manifestam-se sob várias formas e aspectos desde as características etnográficos da comunidade local até ao comportamento dos visitantes, individuais e em grupo. Os impactes podem ser positivos, como no caso em que o turismo fomenta a preservação das artes tradicionais e de artesanato ou ao nível do intercâmbio cultural entre duas culturas, ou podem ser negativos, no caso da aculturação ou massificação do comércio de artefactos locais, podendo-se, ainda, gerar ideias erradas sobre determinada cultura ou comunidade local se a experiência da visita for negativa (Fletcher, 2005).

Quadro 1 – Impactes do sector do turismo ECONÓMICOS

Positivos

 benefícios económicos

 criação de empregos e de novas empresas;

Negativos

 fuga de potenciais benefícios económicos  distorções da economia e do mercado de emprego  alteração do sector principal de actividade

SOCIOCULTURAIS

Positivos

 conservação do património cultural  reforço do orgulho das comunidades locais  intercâmbio de culturas

Negativos

 aumento e concentração de visitantes

 perda de equipamentos por parte da comunidade local  pressão e alterações provocadas nas culturas da comunidade de recepção

 problemas sociais (droga, crime, prostituição, etc.)

AMBIENTAIS

Positivos

 conservação de áreas naturais importantes  preservação e conservação de locais históricos e arqueológicos

 melhoramento da qualidade ambiental

 instalação de infra-estruturas com preocupações ambientais

 aumento das preocupações ambientais

Negativos

 poluição da água, ar e solos

 poluição visual e alteração de paisagens típicas  aumento da produção de lixo e de barulho devido à concentração de visitantes

 má distribuição do uso do solo e pressão imobiliária;  destruição e abuso de locais históricos e arqueológicos  destruição de vegetação e actividades abusivas de caça e pesca

O ambiente, quer seja natural ou artificial, é um dos ingredientes fundamentais para o produto turístico de um destino, contudo, com o desenvolvimento da actividade do turismo as alterações sobre o ambiente são inevitáveis quer com o intuito de facilitar a fruição turística quer com o objectivo de proceder à instalação de equipamentos e estruturas de acolhimento dos visitantes (unidades de alojamento, restauração, serviços, etc.).

A preservação e os programas de conservação do ambiente começam a inserir-se na maioria das estratégias de desenvolvimento e as suas conclusões são actualmente cada vez mais respeitadas. Com o intuito de avaliar os impactes totais ambientais torna-se necessário avaliar os impactes físicos produzidos pelo turismo por oposição a outras actividades, identificar as condições do destino antes do desenvolvimento do turismo, proceder à inventariação das espécies (fauna e flora) e determinação dos níveis de tolerâncias dos diferentes tipos de turismo, e a consideração dos impactes secundários produzidos pelo turismo. Assim como os impactes económicos, os ambientais podem ser considerados directos, indirectos e induzidos, bem como o desenvolvimento do turismo gera impactes positivos e negativos (Fletcher, 2005).

Assiste-se a uma tomada de consciência crescente sobre o papel que o turismo tem e/ou poderá vir a ter, directa, indirectamente ou através de efeitos induzidos na economia. Consequentemente, o tipo de dados sobre o turismo necessários no sector público mudou radicalmente de natureza. Para além de informação descritiva sobre os fluxos de visitantes e sobre as condições em que eles são recebidos, houve necessidade de informação sólida e de indicadores que garantissem a credibilidade das medidas relativas à importância económica do turismo. Foram, assim, estabelecidos esforços a nível internacional e nacional para recolher informação mais completa sobre toda uma série de actividades relativas ao turismo, as quais deveriam englobar a procura proveniente dos visitantes e a oferta de produtos por parte dos produtores e relacioná-las com dados como o investimento, o emprego, a balança de pagamentos, as receitas públicas, etc., devendo ser integradas no sistema de contas nacionais.

As principais dificuldades encontradas nesta tarefa relacionam-se essencialmente com o facto de se fazer corresponder o turismo ao conceito de procura, que se refere a todas as actividades dos visitantes. Deste modo, toda a aquisição de bens de consumo e de serviços por um visitante é considerada como despesa turística. Contrariamente, toda a oferta de bens e serviços a um não visitante feita por uma unidade pertencente a uma actividade por natureza mais consagrada ao serviço dos visitantes não é considerada despesa turística. Como consequência, tornou-se particularmente importante clarificar os conceitos e definições antes de avaliar a sua importância económica.

A implementação do quadro conceptual definido pela UNWTO – a Conta Satélite do Turismo (CST) – (WTO, 1999) veio facilitar a identificação de certos produtos e actividades como característicos do sector do turismo. A CST contém um conjunto de recomendações pormenorizadas relativas a um sistema de base de classificações, definições e agregados que está relacionado com os quadros tipo do Sistema de Contas Nacionais das Nações Unidas de 1993 (SCN93). Este sistema constitui a base para as comparações internacionais do impacte do turismo na economia. Os dados permitem assim ser comparáveis no tempo dentro do mesmo país, entre países e com outros domínios de actividade económica.

Quadro 2 – Produtos e actividades da Conta Satélite do Turismo

Eixo Descrição do produto

1. Serviços de Alojamento

Hotéis e estabelecimentos similares

Residências secundárias por conta própria ou gratuitas

2. Serviços de Restauração e Bebidas

3. Transporte de Passageiros

Transporte ferroviário interurbano Transporte rodoviário

Transporte marítimo Transporte aéreo

Serviços auxiliares aos transportes Aluguer de equipamentos de transporte

Serviços de manutenção e reparação de equipamentos de transporte 4. Agências de Viagem, Operadores Turísticos e Guias Turísticos

Agências de viagens Operadores turísticos

Informação turística e guias turísticos

5. Serviços Culturais

Actividades artísticas e de espectáculo Museus e outros serviços culturais

6. Recreio e Lazer

Serviços desportivos e recreativos Outros serviços de recreio e lazer

7. Outros Serviços de Turismo

Serviços financeiros

Serviços de aluguer de outros bens de uso turístico Outros serviços de turismo

Fonte: WTO, 1999

A estrutura fundamental da CST é baseada no equilíbrio entre a oferta e a procura de bens e serviços numa economia. O objectivo é, portanto, o de avaliar em detalhe todas as componentes da procura de bens e serviços que deveriam estar associados ao turismo. Deste modo, a primeira etapa consiste na definição dos bens e serviços que se consideram específicos do turismo, segundo esta classificação, os bens e serviços específicos encontram-se divididos em característicos e conexos. Por característicos entendem-se aqueles que na maior parte dos países deixariam de existir numa quantidade significativa, ou cujo consumo

diminuiria, na ausência de turismo, e para os quais parece ser possível obter dados estatísticos. Os bens e serviços conexos, que se articulam directamente com os característicos, são aqueles que são consumidos pelos visitantes em quantidades significativas mas que não estão incluídos na lista dos produtos característicos do turismo.

Na CST a principal ênfase é dada à análise das actividades e dos produtos característicos. Da lista, dividida em sete eixos (ver quadro 2), constam os serviços tradicionalmente considerados como serviços turísticos, que respondem às necessidades e desejos mais gerais dos visitantes, como é o caso do alojamento, serviços de fornecimento de alimentação e bebidas, transportes de longo curso e serviços associados, serviços de organização de viagens, guias turísticos e serviços culturais e recreativos (WTO, 1999).

No entanto, são também englobadas diferentes categorias de produtos conexos, que podem ser encontrados na maior parte das circunstâncias mas que são de menor importância (como por exemplo os serviços de táxi), como também aqueles cuja prestação pode ser específica a certas características do lugar visitado e não são necessariamente importantes noutro local (por exemplo o artesanato e as recordações). Criou-se, deste modo, um quadro conceptual privilegiado para obter informação fidedigna que permite aumentar a eficácia das políticas públicas, a eficiência dos negócios das empresas e melhorar a qualidade de vida dos visitantes e as comunidades locais. Com a CST pretende-se colmatar o défice de informação que existia sobretudo ao nível de informação válida sobre o papel que o turismo desempenha nas economias nacionais do mundo inteiro.

Apesar da sua manifesta relevância para estimar a dimensão do turismo, a Conta Satélite apresenta algumas limitações, na medida em que cobre apenas os efeitos directos, tendendo a evidenciar a importância ou significado do turismo para uma região, mais do que a análise de impacte. De modo a estimar os efeitos secundários (efeitos indirectos e os efeitos induzidos) torna-se necessário recorrer aos multiplicadores económicos regionais. As medidas de impacte mais utilizadas reportam-se ao rendimento (salários, ordenados, rendas e ganhos gerados pelo gasto turístico) e valor acrescentado (rendimento e impostos e taxas indirectos gerados pela actividade turística).

As vendas e emprego induzem muitas vezes em erro, uma vez que as vendas podem ir para a compra de bens e serviços fora da região e as estimativas de empregos são distorcidas pelos empregos em part time e sazonais, para além das diferenças salariais existentes dentro do próprio sector. Os multiplicadores podem ser usados para converter gastos em rendimento e emprego, como também medir os impactes secundários dos gastos turísticos. Existem vários tipos de multiplicadores – de rácio e Keynesianos, tipo I, II e III, de

vendas, rendimento e emprego, estes dois últimos, quando multiplicados pelas vendas directas, dão o total de rendimento e emprego gerados, respectivamente.