A NÁLISE DE R EDES
4.2. Importância do Enoturismo
O enoturismo pode ser assumido como core business de muitas adegas, especialmente para as mais pequenas que se dedicam à produção de vinhos como uma opção de vida. Para outras adegas, o enoturismo pode ser encarado como um complemento secundário ao seu negócio principal (produção de vinho), numa perspectiva promocional e comercial dos seus vinhos e como meio de informação e formação dos visitantes e clientes (Hall, Sharples, Cambourne, e Macionis, 2000). Para os grandes produtores o efeito e o interesse no enoturismo é diferente já que a actividade de recepção de visitantes é considerada com o objectivo de
fazer publicidade e promoção e com um sentido de melhorar o empenho e a imagem da adega como acções de relações públicas (Fuller, em Hall, Sharples, Cambourne, e Macionis, 2000).
A aposta no enoturismo deve ser enquadrada na perspectiva do negócio de cada adega como um complemento e como um meio de promoção e de marketing dos seus produtos, já que as visitas às caves, desde que possuam as condições necessárias, podem ser um aspecto fundamental para o desenvolvimento do negócio (Dodd, 1995). Por outro lado a recepção de visitantes sem o devido acompanhamento e as devidas condições pode originar um efeito negativo à marca e ao vinho, inibindo os visitantes de optarem pelos produtos nessa adega no futuro. A importância da dinamização do enoturismo nos produtores e adegas evidencia-se através de vários factores dos quais se destacam os seguintes (Dodd, 1995):
Surge como uma oportunidade de mostrar os produtos aos visitantes, que podem provar e passar a conhecer vinho da adega, eliminando o risco associado à aquisição de vinhos desconhecidos;
A interacção com o visitante na adega permite que se crie uma conectividade entre ambos que pode potenciar a fidelização do visitante ao vinho (e a outros produtos caso existam) bem como à própria marca da adega;
Esse mesmo contacto permite aos proprietários e gestores detectar as principais preferências e expectativas e analisar a reacção do visitante a cada vinho ou produto e complementarmente desenvolver acções de marketing relacional;
A visita a adegas surge por vezes motivada pela necessidade de conhecer o sector do vinho, a consideração desse facto permite às adegas elaborar estratégias de educação e de partilha de conhecimento que permite incrementar o negócio;
As margens normais de lucro das vendas à porta da adega são superiores às margens recebidas através dos sistemas normais de distribuição, podendo atingir mesmo o dobro em alguns casos;
Aquando da existência de pequenas produções que encontram dificuldades de distribuição, a venda à porta pode assumir-se como a única alternativa para escoar esse produto.
Enquanto vários autores acreditam que o enoturismo irá continuar a ser essencialmente um nicho de mercado, surge já um consenso geral que a atractividade do enoturismo e consequentemente o seu mercado se irá expandir através da implementação de estratégias concertadas com outros tipo de produtos turísticos e actividades (festivais, restaurantes, unidades de alojamento, transportes, artesãos e fornecedores) e através do desenvolvimento de circuitos ou rotas de vinho que incorporem elementos do sector do vinho, património, gastronomia e natureza (Cambourne et al., 2000).
O desenvolvimento do enoturismo numa região vitivinícola representa mais-valias a vários níveis (ver quadro 5), para os vitivinicultores, caves e adegas, para a região vitivinícola como região de destino de visitantes e
para a comunidade local (Getz, 2000). O desenvolvimento de uma estratégia regional relacionada ao enoturismo origina a captação de novos mercados e de um maior número de visitantes que se assumem como potenciais clientes, quer, numa primeira perspectiva, para os agentes associados ao sector vitivinícola quer para os restantes agentes económicos localizados na região numa perspectiva complementar.
Quadro 5 – Benefícios do Enoturismo numa região vitivinícola
no sector vitivinícola na região / destino na comunidade local
aumento das vendas de vinho aumento das margens de lucro educação dos visitantes e estímulo da lealdade à marca
atracção de novos segmentos de mercado
melhorar ligação aos distribuidores criação de novas parcerias teste de novos produtos
aumento do número de visitantes incremento do valor das despesas dos visitantes atracção de novos visitantes fidelização dos visitantes desenvolvimento de uma imagem única conjunta
contrariar e gerir a sazonalidade
atracção de novos investimentos desenvolvimento de novos equipamentos e estruturas promoção do orgulho regional criação de eventos para residentes e visitantes
Fonte: Adaptado de Getz, 2000
Getz (2000) advoga que os impactes económicos verificados numa região vitivinícola serão superiores caso se verificam as seguintes condições:
Os turistas deslocam-se à região com a motivação principal pelo vinho;
O rendimento gerado pelo enoturismo é por regra superior ao gerado por outros tipos de turismo; A sazonalidade no enoturismo é mais reduzida: tendência para os visitantes se deslocarem ao longo de todo o ano;
A taxa da propriedade das actividades económicas de agentes locais é elevada;
O vinho, gastronomia e outros produtos típicos comercializados são produzidos, na sua maioria, localmente;
Os lucros são reinvestidos na região, beneficiando a comunidade local;
Os residentes locais encontram-se, na sua maioria, empregados nas actividades do sector do vinho e no turismo;
Os serviços e as infra-estruturas para os residentes são melhorados.
A dinamização do enoturismo potencia a atracção de um maior número de visitantes para a região que, potencialmente, podem ser clientes dos produtores e vitivinicultores regionais, quer como turistas que usufruem dos espaços quer como clientes que adquirem produtos vínicos. Estas mais-valias podem ainda ser superiores para os produtores já que o aumento do volume de vendas à porta pode aumentar as margens de lucro sob os seus produtos, evitar despesas com transporte de produtos e diminuir as taxas cobradas pelos diferentes elementos da cadeia comercial (distribuidores, retalhistas e vendedor final). Segundo Tim Dodd (citado em Getz, 2000) existem quatro categorias de factores que influenciam a venda de vinhos: (i) o
atendimento dos clientes por parte dos funcionários da adega e a percepção que os clientes adquirem aquando da visita à cave (ao nível das instalações, recepção, simpatia, serviços complementares, informação, outros produtos, etc.); (ii) as características do vinho apreciadas, quer através de conhecimento prévio quer através de prova no local, e o valor e qualidade que lhe são atribuídas pelos clientes; (iii) o aspecto estético da adega ou cave, bem como da garrafa, rotulo e embalagem; (iv) o preço do vinho, que se relaciona com os restantes custos que o visitante teve durante a viagem, tendo ainda em atenção que quanto maior for o preço do vinho menor poderá ser a quantidade adquirida.
A experiência obtida através do enoturismo, em particular devido ao conhecimento e ao contacto com os processos vitivinícolas e com os produtores, assume-se como um dos factores determinantes para o futuro do enoturismo. Deste modo, conhecer as características dos visitantes e as suas motivações permite apoiar na definição de estratégias de desenvolvimento e de marketing com o intuito de aumentar o sucesso do projecto através do aumento do número de visitantes e do volume de negócios correspondente. A experiência obtida pelos visitantes revela-se determinante no desenvolvimento do enoturismo de uma região, um fraco serviço ou uma experiência negativa origina a que o visitante não volte a esse local (ou mesmo à região) nem adquira vinho dessa marca (ou região) aí ou noutros locais.
A consideração de que os conhecimentos transmitidos e a experiência obtida pelos visitantes são fundamentais para o sucesso do enoturismo nas adegas e na região, encontra-se patente em várias regiões através de iniciativas regionais, tais como: Bourgogne decouverte: de vignes en caves (carta de recepção) – Borgonha, França; Movimento del Turismo del Vino (requisitos de mérito) – Itália; Cellar Door Quality Assurance (padrões de qualidade) – Austrália (Cambourne et al., 2000).
Ainda que vários aspectos associados à adega, tais como a limpeza, sejam importantes para o visitante, o sabor e a qualidade permanecem como os mais importantes atributos da visita, deste modo, os vitivinicultores devem apostar na produção de vinhos de qualidade e em assegurar um leque diversificado de vinhos para conseguir satisfazer um conjunto vasto de sabores. A simpatia, a cortesia, o conhecimento e o serviço em geral prestado pelos funcionários da adega são, também, importantes na decisão de compra de vinhos na adega, logo será apropriado seleccionar os funcionários com melhores atributos pois serão eles um dos factores críticos para o sucesso da venda de vinhos na adega (Dodd, 1995).
O foco no visitante e no cliente é fundamental para o sucesso da adega e para estimular o crescimento das vendas à porta, a prestação do serviço representa o melhor factor de promoção que uma adega pode ter, deste modo o investimento no produto (vinho de qualidade e diversificado), a qualidade e apresentação das instalações e a formação e capacidade dos funcionários são a base para a satisfação do visitante e potenciar
as vendas de produtos no local. Compreendendo a complexidade da interligação dos diferentes elementos e a sua importância na construção da percepção final do visitante, e sendo essa satisfação final determinante na decisão de proceder à compra de produtos, Getz (2000) desenvolveu um modelo de avaliação que permite analisar e auditar a adega na perspectivas dos visitantes (ver quadro 6).
Quadro 6 – Avaliação da prestação de serviços nas adegas
ELEMENTOS A AVALIAR Factores Tangíveis: acessibilidade e visibilidade sinalização área de entrada parque de estacionamento acesso a deficientes
conforto, higiene e segurança na visita temáticas e estética
informação e interpretação percurso de visita
outros equipamentos (sala de refeições, espaços, etc.) programação de eventos
processo de venda relações geradas
Qualidade do Serviço: recepção e acolhimento
interacção entre o cliente e o visitante gestão de imprevistos
capacidade de informação e interpretação capacidade de vendas
sistemas de gestão (formação, etc.)
Factores Intangíveis: estimulação sensorial ambiente gerado PROCESSO DE ANÁLISE E AVALIAÇÃO Benchmarking:
comparação com os líderes do sector determinar como atingir o sucesso Estudos aos Visitantes:
determinar interesses, motivações, satisfação, etc. obter feedback dos factores tangíveis e intangíveis determinação de segmentos de mercado chave Observação dos Participantes:
avaliar e estimular a experiência dos visitantes na visita criar um sistema de mapas
Gestão de Riscos:
técnicas de gestão de riscos (para visitantes, funcionários, etc.) Controlo Ambiental:
utilização de técnicas amigas do ambiente avaliação do potencial de processos orgânicos Contributo dos funcionários e proprietários: entrevistas e comentários com aperfeiçoamentos
determinação das melhores práticas
desenvolvimento de marketing inteligente
melhorar a qualidade do serviço
desenvolver uma estratégia de gestão de riscos
Assumir-se como uma ‘Adega Verde’
desenvolvimento de práticas de marketing interno
Fonte: Adaptado de Getz, 2000
A actividade do turismo encontra-se sujeita a vários factores que podem originar um maior ou menor efeito da sazonalidade, o que representa consequências para a região e para os agentes económicos existentes. Ainda que se possa considerar que a sazonalidade no enoturismo será semelhante à do turismo em geral, sobretudo devido a factores institucionais, sociais e climatéricos, o enoturismo apresenta um conjunto de actividades durante todo o ano devido às características do ciclo produtivo do vinho e da vinha.
Na viticultura é possível acompanhar o tratamento das videiras e o aparecimento e desenvolvimento das uvas, observando a alteração das cores predominantes das paisagens dos vinhedos (desde o verde na Primavera ao vermelho no Outono). Na vinicultura é possível ver as várias fases do processo de recolha, vinificação e armazenamento do vinho ao longo de todo o ano, actividades que vão desde a colheita e trituração das uvas em vinho, ao processo de fermentação e filtragem, na compreensão dos diferentes tipos de armazenamento e envelhecimento do vinho e visualização dos métodos de engarrafamento. Por outro lado, é possível associar um conjunto de actividades complementares e eventos que podem funcionar como atractividade em determinados períodos que possam contrariar os efeitos da sazonalidade.
A diferença de estações do ano entre o hemisfério norte e sul e correspondente desfasamento ao nível do processo de produção de vinho pode originar um fluxo de visitantes complementar, nomeadamente ao nível do segmento de mercado que incluí os visitantes com maior nível de conhecimento sobre o vinho e o seu processo produtivo, o que poderá funcionar para o desenvolvimento de redes de parceiros e disseminação do conhecimento entre as regiões vitivinícolas dos dois hemisférios.
A junção entre o vinho e a gastronomia começa a ganhar consistência em termos de mercado, na medida em que se começa a entender que ambos são elementos da cultura tradicional regional e que se encontram inseparáveis, quer na perspectiva da gastronomia regional e típica, quer numa perspectiva de evolução e de experimentação (nouvelle cuisine) onde se apresentam novos pratos que interligam o vinho com outros produtos alimentares. A associação de um vinho específico a um determinado prato valoriza e optimiza o sabor individual dos dois elementos da refeição (vinho e comida). O facto de se apelar à experimentação de novas sensações e experiências reflecte a tendência, verificada ao nível das motivações dos visitantes, para experiências novas e únicas.
Os conceitos de Turismo de Natureza, Turismo Rural e de Turismo Cultural são mais abrangentes, no entanto possuem características semelhantes, facto que permite interligar e considerar mesmo o enoturismo como uma forma de turismo inserida nestes conceitos. A componente das paisagens vitivinícolas, a organização de circuitos nas regiões vitivinícolas (caracterizadas sobretudo por áreas naturais e de explorações agrícolas) e o contacto com a cultura da vinha enquadram-se no Turismo de Natureza, na medida em que a produção da vinha e do vinho ocorre sobretudo em áreas rurais. A possibilidade de participar em actividades vitivinícolas e de poder visitar meios rurais e agrícolas insere-se nas características do Turismo Rural (ainda que actualmente, na vitivinicultura, já se tenham instalado grandes empresas com recurso a elevados investimentos, as vinhas continuam localizadas em meios rurais).
Por outro lado, a existência nas regiões de construções arquitectónicas com elevado valor patrimonial e cultural, o conhecimento associado aos processos de produção de vinho que se pretende partilhar, a preservação e comunicação da história cultural existente nas regiões, bem como as suas tradições, eventos e produtos típicos permite uma interligação ao Turismo Cultural. É do aproveitamento deste mosaico de motivações e serviços transversais que pode resultar no sucesso do enoturismo em cada região vitivinícola.
Em função da análise efectuada é possível apresentar um esquema resumo das principais vantagens e desvantagens do enoturismo, utilizando como base duas principais referências Dodd (1995) e Hall, Sharples, Cambourne, e Macionis (2000) (ver figura 13).
Figura 13– Vantagens e desvantagens do enoturismo
Fonte: Adaptado de Dodd, 1995; Hall, Sharples, Cambourne, e Macionis, 2000
Considerando as desvantagens elencadas, não será porém de estranhar, que algumas adegas decidam excluir da sua actividade a componente do turismo na medida em que preferem orientar-se estrategicamente apenas para a produção e comercialização do vinho, e por considerarem a necessidade de procederem a investimentos avultados na reconversão das suas instalações, na implementação de estruturas de acolhimento dos visitantes e na contratação de funcionários que os possam receber e acompanhar, investimentos que não sendo rentáveis podem originar problemas financeiros à sua estrutura.
Complementarmente e além dos impactes positivos para a região advém a necessidade de considerar os eventuais impactes negativos na região vitivinícola que poderão levar à criação de conflitos entre a comunidade local e os visitantes, originados sobretudo pelo aumento descontrolado do número de visitantes
Aumento de exposição dos produtos
Fortalecimento da imagem e da marca Aumento das margens de
lucro Local de vendas adicional
Marketing de produtos Marketing
direccionado
Oportunidades de educação dos visitantes
Aumento dos custos de funcionamento Capital e Investimentos necessários Incapacidade em escoar todos os produtos DESVANTAGENS VANTAGENS
que criam situações de congestionamento dos serviços e das infra-estruturas de apoio; pelas respectivas viaturas de transporte que geram aumento do tráfego rodoviário; pelo efeito de inflação gerado nos preços dos produtos, bens e serviços; pelo incremento dos níveis de ruído e poluição em áreas tradicionalmente rurais e com baixos níveis de poluição. A compreensão de que a deslocação de visitantes pode não estar associada a apenas uma motivação ou um tipo de turismo pode aumentar a dificuldade de análise, quer do que se pode considerar como enoturismo quer na determinação dos impactes económicos associados.