2. A REDE DE PROTEÇÃO E ATENDIMENTO EM CASOS DE VIOLÊNCIA
2.3. Implantação do Programa de Ações Integradas e Referenciais de
PAIR em Porto Alegre
Para que possamos compreender a implantação do PAIR em Porto Alegre é importante que possamos conhecer outras duas iniciativas da Secretaria de Direitos Humanos, da Presidência da República. Referimos-nos ao Programa Nacional de Enfrentamento da Violência Sexual contra crianças e Adolescentes (PNEVSCA) e a Comissão Intersetorial de Enfrentamento ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes.
O Programa Nacional de Enfrentamento da Violência Sexual contra crianças e Adolescentes (PNEVSCA) investe em projetos que apresentem alternativas para o atendimento humanizado às vítimas de violência sexual em nosso país. A Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, em 2003, passou a contar com uma área específica para tratar da prática da violência sexual cometida contra crianças e adolescentes. A partir do Programa Nacional de Enfrentamento da Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes (PNEVSCA), iniciativas importantes foram implementadas, como o Disque 100 e o PAIR (Programa de Ações Integradas e Referenciais de Enfrentamento à Violência Sexual, Infanto- Juvenil no Território Brasileiro). As metas do programa são:
- Desenvolver estudos quantitativos e qualitativos para análise da situação de violência sexual infanto-juvenil nas áreas abrangidas pelo programa;
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- Desenvolver campanhas de sensibilização e mobilização da sociedade, em especial a mídia e os segmentos que comprovadamente representam fatores de risco à população infanto-juvenil;
- Fortalecer articulações nacionais, regionais e locais de combate à violência sexual; - Fortalecer e potencializar articulação entre os órgãos do Sistema de Garantia de Direitos;
- Promover mecanismos de exigibilidade dos direitos (defesa jurídica) às vítimas da violência sexual infanto-juvenil;
- Garantir o atendimento adequado para crianças, adolescentes e familiares em situação de violência sexual;
- Integrar as Políticas Sociais Básicas consolidando redes de atenção às crianças, adolescentes e famílias violadas sexualmente;
- Promover a participação proativa dos segmentos jovens na construção e implementação dos planos operativos locais voltados ao enfrentamento da violência sexual;
- Apoiar as iniciativas locais voltadas ao atendimento especializado das vítimas do tráfico e exploração sexual nos campos da assistência social, educação, saúde, qualificação profissional e geração de trabalho e renda;
-Desenvolver os instrumentos de comunicação social como estratégia de visibilidade e controle social das situações que representem risco ou ocorrência de violações dos direitos fundamentais de crianças e adolescentes, em especial no tocante a integridade física e psíquica;
- Sistematizar e Disseminar experiências desenvolvidas em cada um dos municípios de forma a criar situações favoráveis a replicações em regiões que guardem as mesmas características culturais, sociais e econômicas.
As ações desenvolvidas pelo programa são Programa de Ações Integradas e Referenciais de Enfrentamento à Violência Sexual Infanto-Juvenil no Território Brasileiro (PAIR/PAIR MERCOSUL)” – que atua junto ao municípios incentivando a integração de instituições e grupos em prol do enfrentamento da violência sexual; Empresas contra a Exploração – o foco da iniciativa é envolver o setor privado, empresas e empresários, nas ações de combate à exploração sexual, ampliando o debate; a Comissão Intersetorial – atua em rede, fazendo com que ações de combate à violência sexual sejam executadas por várias frentes governamentais.
O PNEVSCA oferece apoio ao Comitê Nacional de Enfrentamento da Violência Sexual de Crianças e Adolescentes e aos seus pontos de apoio regionais, os chamados pontos focais. O apoio abrange organizações como o Centro de Referência, Estudos e Ações sobre Crianças e Adolescentes – Cecria, o Coletivo Mulher Vida, comitês cuja atuação é nacional; e o Cedeca Pé na Tábua – o Centro de Defesa de Direitos da Criança e do Adolescente, que coordena as ações na região norte. Esses comitês mobilizam as instituições locais responsáveis pela proteção de crianças e adolescentes. Além disso, monitoram a execução das políticas públicas e demais ações do Poder Público, cobrando o cumprimento das diretrizes do Plano Nacional de Enfrentamento da Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes.
Instituída por decreto presidencial em 2007, a Comissão Intersetorial de Enfrentamento ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes é uma estratégia do Governo Federal para a construção de uma política integrada para o enfrentamento da violência sexual cometida contra crianças e adolescentes. É composta por ministérios, pela sociedade civil organizada e por organismos de cooperação internacional. A Comissão articula, informa, sugere e apoia ações de enfrentamento à violência sexual contra crianças e adolescentes.
O tratamento intersetorial trouxe diversos avanços na proteção dos direitos das crianças e dos adolescentes. Permitiu, por exemplo, que se trabalhe sistematicamente em várias frentes simultâneas de proteção: a justiça, as autoridades policiais, as organizações não governamentais, as entidades governamentais de apoio à infância e à adolescência e de desenvolvimento social. Com isso, o problema passou a ser tratado de maneira global, estabelecendo punições e efetivamente punindo exploradores sexuais e ao mesmo tempo ampliando a rede de amparo às vítimas da violência. No ano de 2008, articulado a partir dessa Comissão Intersetorial, ocorreu no Brasil o III Congresso Mundial de Enfrentamento da Exploração Sexual contra Crianças e Adolescentes. Esse foi o maior evento já realizado no mundo sobre o tema, superando os dois primeiros. Teve ao todo 160 países participantes provindos dos cinco continentes; 3515 pessoas participantes (entre autoridades, poder público e sociedade civil), e contou ainda com a participação de 270 participantes adolescentes provindos de diversos países. Os documentos resultantes - Declaração do Rio de Janeiro e Chamada para
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Ação – foram adotados pelos países participantes e se comprometeram a desenvolver planos de ação baseados nessas diretrizes.
Em 2011, também no âmbito da Comissão Intersetorial, foi elaborado a Matriz de Intersetorial de Enfrentamento da Exploração Sexual contra Crianças e Adolescentes7. O estudo é uma atualização da Matriz Intersetorial de Enfrentamento da Exploração Sexual contra Crianças e Adolescentes originalmente produzida em 2004, em parceria com o Instituto Violes, da Universidade Federal de Brasília. Além do mapa de denúncias, o estudo traz ainda um levantamento das ações de enfrentamento conduzidas pelo Governo Federal. A Matriz 2011 aponta a existência de denúncias de ESCA em 2.798 municípios brasileiros, sendo que a Região Nordeste apresenta o maior número de municípios (34%), seguida pela região Sudeste (30%), Região Sul (18%), Centro‐Oeste (10%) e Norte (8%). No ranking das denúncias, a região NE lidera, com 38% das denúncias, seguida por Sudeste (28%), Sul (14%), Centro Oeste (10), Norte (9%). Na análise das políticas públicas federais de enfrentamento à exploração sexual de crianças e adolescentes, a Matriz 2010 apresenta um aumento no número de programas que tratam do tema, além de expansão dos serviços oferecidos pelo Governo Federal que estão presentes hoje (pelo menos uma ação) em 86% dos municípios da Matriz 2010. Na Matriz 2004, foram identificados 3 programas que se relacionavam com o enfrentamento a ESCA: Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI), Sentinela e PAIR. Na Matriz 2010, este número passou para 13 programas, envolvendo sete ministérios.
O Programa de Ações Integradas e Referenciais de Enfrentamento à Violência Sexual Infanto-Juvenil no Território Brasileiro - PAIR, hoje presente em mais de 500 municípios, é uma metodologia de fortalecimento de redes municipais de enfrentamento da violência sexual, através do fomento ao planejamento de ações integradas, elaboração de diagnósticos locais; monitoramento das ações e capacitação de profissionais do sistema de garantia de direitos para a atuação qualificada dentro dos eixos de prevenção, atendimento, defesa e responsabilização, análise de situação e protagonismo juvenil.
O programa propõe uma série de etapas para a formulação de políticas públicas de enfrentamento da violência sexual contra crianças e adolescentes de forma articulada e intersetorial, a partir do fortalecimento das redes locais que atuam
no enfrentamento à violência sexual contra crianças e adolescentes. Usa metodologias que vão desde a articulação política de cada município e a capacitação da rede de proteção até o monitoramento das ações previstas nos planos estaduais e municipais de enfrentamento da violência sexual contra crianças e adolescentes.
Segue o resumo das principais etapas metodológicas do PAIR8:
Articulação político-institucional – Apresentação da proposta metodológica do PAIR aos gestores locais e sociedade civil por meio de reuniões de articulação, visando mobilizar forças locais em torno da problemática da violência sexual infanto- juvenil.
Diagnóstico Rápido Participativo – Identificação da situação da violência sexual infanto-juvenil no município e dos serviços e programas disponíveis para o enfrentamento na rede de atendimento, prevenção e responsabilização.
Seminário para Construção dos Planos Operativos Locais – Apresentação do Diagnóstico Rápido e Participativo pela rede local e formulação do Plano Operativo Local de enfrentamento a violência sexual contra crianças e adolescentes no município. Nessa etapa também se constitui a Comissão Local do PAIR. Essa etapa possibilita organizar e estruturar a rede local para construção de respostas às questões e fragilidades identificadas no DRP. É muito importante que o POL seja um plano de operacionalização do Plano Municipal ou Estadual e que a comissão saia dos Conselhos Municipais ou Estaduais.
Capacitação da Rede e Assessoria Técnica – Capacitação de todos os profissionais que atuam na rede local, nos âmbitos da prevenção, proteção, atenção, defesa e responsabilização, com suporte técnico e metodológico de forma continuada. Essa etapa pode ser realizada de forma simultânea com o seminário também a nível intermunicipal, visando fluxo de proteção entre municípios.
Monitoramento e Avaliação do Pacto – Acompanhamento periódico da implementação do Plano Operativo Local, revendo e propondo estratégias para qualificação das ações. Recomenda-se que tenha uma instituição responsável pelo monitoramento, de preferência, designada e eleita pelo Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescentes.
8 Disponível em: http://www.sdh.gov.br/assuntos/criancas-e-adolescentes/programas/enfrentamento-a-violencia- sexual/programa-de-acoes-integradas-e-referenciais-de-enfrentamento-a-violencia-sexual-infanto-juvenil-no-territorio-brasileiro- pair . Acesso em: 12.out.2014.
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A Estratégia Regional de Enfrentamento ao Tráfico de Crianças e Adolescentes para fins de Exploração Sexual no âmbito do Mercosul - PAIR MERCOSUL é um projeto de Disseminação da metodologia do PAIR em 15 cidades gêmeas do Brasil, Paraguai, Uruguai e Argentina, com foco na prevenção e enfrentamento ao tráfico de crianças e adolescentes para fins sexuais nas regiões de fronteiras. As cidades em processo de implantação do PAIR MERCOSUL são: Brasil, Paraguai, Uruguai, Argentina, Foz do Iguaçu (PR), Ciudad del Este, Chuy, Puerto Iguazu, Chui (RS), Rivera, San Tomé, Santana do Livramento (RS), Bella Unión, Paso de Los Libres, Uruguaiana, (RS), Rio Branco (AC), Barra do Quaraí (RS) e Jaguarão (RS).
Segundo o “Relatório PAIR Porto Alegre” (2010), a participação do município de Porto Alegre no Programa de Ações Integradas e Referenciais de Enfrentamento à Violência Sexual no Território Brasileiro (PAIR), promovido pela Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República, iniciou seu processo de execução no município de Porto Alegre no primeiro semestre de 2009. Seu início foi precedido por uma reunião com gestores estaduais, municipais e universidades para apresentação do PAIR e da Rede Regional do Mercosul, no dia 13 de março de 2009, em Brasília. Numa primeira etapa, o projeto focou-se na articulação política. O Centro de Estudos Psicológicos sobre Meninos e Meninas de Rua da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (CEPRUA/UFRGS), com o apoio da Secretaria da Justiça e Desenvolvimento Social do Rio Grande do Sul/Departamento de Cidadania e Direitos Humanos, iniciou o processo de mobilização da rede porto-alegrense de enfrentamento à violência sexual. Foram realizadas diversas reuniões com as técnicas do estado, uma vez que já possuíam acesso aos segmentos que viabilizariam a divulgação do programa.
Em um segundo momento, ocorreram duas reuniões: na primeira, no dia 17 de abril de 2009, foi realizada uma apresentação geral do Programa para a rede (reunião de implementação do PAIR em Porto Alegre); na segunda, no dia 3 de julho de 2009, promoveu a mobilização dos segmentos para participação no Diagnóstico Rápido Participativo (DRP), a assinatura do Termo de Adesão (Reunião de Articulação Política) e a constituição da Comissão de Apoio. Em relação a esta última, tinha como objetivo apoiar a equipe de execução do DRP no agendamento das entrevistas. Em paralelo às reuniões de articulação política, os estagiários integrantes da equipe do PAIR Porto Alegre receberam treinamento voltado para a
realização do diagnóstico. Este incluiu uma explicação geral do Programa, conceitos específicos em relação à violência sexual e orientações de como realizar as entrevistas.
A formação da Comissão de Apoio formalizou o início do processo de execução do DRP no município de Porto Alegre, realizada entre Julho e Dezembro de 2009. A Comissão de Apoio foi constituída por representantes dos diversos segmentos, no intuito que os mesmo facilitassem o contato com a rede. Todavia, no decorrer do processo, apesar das solicitações realizadas pela equipe PAIR Porto Alegre, a Comissão não se mostrou disponível para este apoio. Como consequência, os agendamentos foram realizados quase exclusivamente pela equipe PAIR Porto Alegre, o que sobrecarregou os integrantes e tornou o processo de inserção na rede dificultoso. O apoio das técnicas do estado e a persistência dos responsáveis pela realização do DRP, os diversos segmentos da rede previstos para realização do DRP foram acessados.
Para a realização do DRP foram realizadas, ao total, 63 entrevistas no decorrer dos meses de julho, agosto, setembro, outubro e novembro: uma com representante do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA), 13 com representantes das instituições de Defesa e Responsabilização, 35 com representantes das instituições de Atendimento e Prevenção, 12 com Líderes e Agentes Comunitários e duas com representantes de Movimentos Sociais.
O DRP no município de Porto Alegre, seguindo as orientações do PAIR, propôs se a oferecer subsídios para a elaboração de um plano operativo local de enfrentamento à violência sexual contra crianças e adolescentes através de dois objetivos focais: Realizar o Geoprocessamento das demandas a partir da análise da situação da violência no município; Realizar o Geo-referenciamento dos serviços e programas existentes, constituindo o mapeamento da rede de defesa no município. A partir do roteiro do DRP, os segmentos da rede de enfrentamento à violência sexual em Porto Alegre foram acessados, CMDCA: representante(s) do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente; Defesa e Responsabilização: Conselho Tutelar, Juizado, Promotoria, Delegacia, Polícia Federal e Polícia Rodoviária Federal; Atendimento e Prevenção: instituições e programas governamentais e nãogovernamentais; Comunidades: lideranças comunitárias; Movimentos Sociais Organizados: lideranças de movimentos sociais organizados (protagonismo juvenil, mulheres).
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Nas “Observações Gerais do Relatório”, fica expresso que na elaboração do DRP no município de Porto Alegre a equipe confrontou-se com algumas dificuldades iniciais. Estas estavam associadas ao fato de a equipe do DRP ser externa. A situação agravou-se pela ausência de cooperação prevista por parte da comissão de apoio. Além disso, a temática revelou-se de difícil acesso, na medida em que os entrevistados se mostraram reservados em transmitir as informações institucionais a elementos externos à rede, de quem não possuíam conhecimentos ou informações. Por esse motivo, confrontamo-nos com a possibilidade de que muitas das informações recolhidas não tenham exata correspondência com a realidade do município. Nesse sentido, eles colocam que sentiram que a presença efetiva da Comissão de Apoio e o seu envolvimento no processo teria originado resultados diferentes e, possivelmente, com maior precisão.
O processo de entrada na rede de Porto Alegre gerou determinadas impressões na equipe do DRP. Num primeiro momento, sobressaiu a pouca abertura da rede em Porto Alegre, para participar do DRP. Na prática, ocorreu que, por exemplo, em algumas instituições não foi possível agendar uma entrevista, ainda que tenham sido realizadas de três a cinco tentativas. Além disso, quando conseguiram aplicar o questionário, identificavam o despreparo para respondê-lo e a escassez de informações adequadas e precisas. Foi também identificada à carência de recursos humanos, ausência de comunicação, integração e interação entre os membros da rede. Por vezes, os participantes usavam o espaço da entrevista para expressar seu descontentamento com esta situação. Sentiam que faziam sua parte, todavia, não identificaram a continuidade dos serviços realizados - como se faltasse união das instituições em razão de um mesmo objetivo.
Ficam expressas as percepções sobre a experiência, nas palavras dos pesquisadores no “Relatório PAIR Porto Alegre” (2010, p.61),
Foi possível identificar que as instituições e seus profissionais necessitavam de uma escuta qualificada, algum suporte que proporcionasse que a realidade de cada local fosse acompanhada e assistida no seu cotidiano, nas dificuldades e objetivos. A escuta in loco produziu reflexões fundamentais para um trabalho que buscou a troca de experiências e um crescimento qualificado da rede de atendimento e, sobretudo proporcionassem uma valorização dos profissionais que trabalham diariamente com o tema da violência sexual. Portanto, o PAIR, além do fornecimento de um diagnóstico da rede de Porto Alegre, através de números e estatísticas, proporcionou também às instituições o benefício da escuta.